10.02- Confúcio

A Era da Sabedoria
23 de setembro de 2018 Pamam

A penúltima encarnação do espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa com o fim precípuo de nos espiritualizar, formulando um plano para a nossa espiritualização, antes de encarnar como sendo o Cristo, foi Confúcio. Kung-fu-tze-Kung, o Mestre, como os discípulos chamavam a Kung Chiu, ou Confúcio, encarnou no dia 27 de agosto do ano 551 a.C., em Tsou, uma pequena cidade no Estado de Lu, hoje Shantung.

Nessa sua existência de extrema responsabilidade, conseguiu ainda tempo para se aperfeiçoar no arco e flecha e na música. Casou-se aos 19 anos, divorciou-se aos 23, e, ao que tudo indica, nunca mais se casou.

Aos 22 anos deu início à sua carreira de professor, utilizando-se da sua casa como escola e cobrando apenas aquilo que os alunos podiam pagar, já que os saperólogos geralmente nunca são ricos, pois caso fossem iriam perder os seus valiosos tempos na prática da magnanimidade e da liberalidade, cada uma dessas virtudes segundo as suas posses, o que iria prejudicar a transmissão dos seus ensinamentos, já que é muito mais preferível ajudar espiritualmente do que ajudar materialmente. Extremamente ético, dada a sua natureza de saperólogo, dizia que o caráter de um homem é formado e desenvolvido pelas regras de relacionamento, que envolve a cortesia. Mas assim como extremamente ético, era também detentor de uma moral impoluta. E tal como Sócrates, ministrava os seus ensinamentos antes oralmente do que por escrito, por isso eles nos foram transmitidos pelos seus discípulos.

Aos 34 anos, Confúcio foi ao encontro de Lao-Tsé em busca de maiores esclarecimentos acerca da verdade e dos seus relatos históricos, o que comprova tanto a existência deste grande veritólogo como o fato de que a verdade é a fonte legítima da sabedoria. Indagado a respeito de tais assuntos, o Velho Mestre lhe respondeu um tanto quanto enigmático, da seguinte maneira:

Aqueles a respeito dos quais inquiris, moldaram o pó com os seus ossos. Nada, salvo as suas palavras permanece. Quando a hora do grande homem chega, ele sobe à chefia; mas antes de chegada a sua hora, ele é contrariado em todas as suas tentativas. Tenho ouvido que os cautelosos mercadores ocultam as suas riquezas e agem como se nada possuíssem; que os grandes homens, por mais que abundem os seus feitos, são simples de maneiras e aparências. Libertai-vos do orgulho e da ambição, da afetação e dos objetivos extravagantes. Vosso caráter nada ganha com isso. Este é o conselho que tenho a dar”.

O caso é descrito por Szuma, o maior dos historiadores chineses, que ainda relata que Confúcio recebeu imediatamente a sabedoria destas palavras e que não se ofendeu. Mas deveras impressionado como Lao-tsé se alçava ao Espaço Superior em busca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, ao retornar disse aos seus discípulos o seguinte:

Eu sei como os pássaros podem voar, os peixes nadar, os animais correr. Mas o que corre pode cair na rede, o que nada pode cair no anzol, o que voa pode ser alcançado pela flecha. Mas há o dragão, e não posso dizer como ele sobe às alturas e se alça ao céu. Acabo de ver Lao-tsé, e só posso compará-lo ao dragão”.

Sabedor da existência dos sofistas na Índia e como que prevendo as suas ações na Grécia, Confúcio deu aos saperólogos um grande ensinamento de sabedoria, que é o seguinte: não atacar a outro pensador e não perder tempo com refutações. Não ensinou nenhum método lógico de racionar, como Aristóteles, mas aguçou o espírito dos seus alunos ao lhes revelar as inoperâncias das discussões inócuas e os forçando ao atributo da atenção. Quando o homem não tem o hábito de pensar, nada se pode fazer por ele. Não se transmite a verdade senão àquele que a procura. Não se ajuda àquele que não está querendo ser ajudado. Quando se apresenta a alguém um lado do assunto e esse alguém não aprende os outros três lados, não se deve repetir a lição. Confúcio era ciente de que somente o mais sábio de todos ou o mais estúpido não podem se beneficiar com a instrução, e que ninguém podia estudar a Saperologia sem melhorar em caráter e desenvolver magistralmente o intelecto.

Confúcio teve em princípio poucos discípulos, mas o seu espírito extremamente evoluído conseguiu formar mais de três mil discípulos, os quais conquistaram as mais importantes posições na China. Alguns dos seus discípulos, em um número aproximado de setenta, viviam com ele, em que a afeição do Mestre para com eles transparece nas advertências contra o de se exporem aos perigos ou calúnias, como se tivesse a noção nítida da imensa importância proporcionada pelo ambiente fluídico. Indagado pelo duque Gae acerca de qual dos discípulos aprendia melhor, respondeu que era Ien Hwuy, pois que gostava tanto de aprender como jamais havia visto outro que gostasse tanto, tudo o que dizia lhe causava deleite, nunca se impacientava, sem jamais repetir uma falta, mas, infelizmente, o tempo que tinha para viver era curto e ele desencarnou, e não há outro agora como ele. Confúcio chorou com a desencarnação desse seu discípulo. No entanto, os discípulos preguiçosos evitavam ao Mestre, porque este era inflexível no ensino, recorrendo às vezes ao uso da vara ou da expulsão sumária. Em razão disso, disse o seguinte:

Difícil é o caso daquele que se enche de comida o dia inteiro e não volta o espírito para a sabedoria. Quando moço, nada da humildade que fica tão bem aos meninos; quando maduro, nada que dá dignidade a um homem; e se chega à velhice, que peste!”.

Devia ser um grande espetáculo observar Confúcio na sala de aulas, ou mesmo nas estradas, a ensinar Saperologia, História, ética e até mesmo poesia. Por gostar também de música, tinha um professor para esta matéria, que o retratou da seguinte maneira:

Observei em Confúcio muitos sinais do sábio. Tinha olhos de rio e fronte de dragão, as características de Huang-ti. Braços compridos, costas de tartaruga, alto… Quando falava, louvava aos antigos reis. Andava sempre na trilha da humildade e da cortesia. Tinha ouvidos para todos os assuntos, e tudo guardava na memória. Seu conhecimento das coisas parecia inexaurível. Não tínhamos nele um sábio em formação?”.

Confúcio pode ser considerado como sendo um Mestre à moda antiga, daqueles que consideram como indispensável manter a distância entre o professor e o aluno. Como era extremamente ético, considerava como sendo imprescindível as boas regras de cortesia. Como a sua grandeza se situava muito além das mentalidades mais adiantadas do planeta, às vezes falava dos seus predicados, mas sem jamais se gabar, como quando certa vez com muita moderação assim se expressou:

Em uma aldeia de dez famílias pode ser encontrado um homem sincero e nobre como eu sou, mas nenhum tão ansioso de saber. Em letras talvez eu seja igual aos outros homens, mas o caráter do mais alto de todos, de conduta sempre de acordo com o que professa, é o que ainda não alcancei. Se houvesse um príncipe que me empregasse, no curso de doze meses eu teria feito algo considerável. Em três anos o governo estaria aperfeiçoado”.

Os seus discípulos diziam que haviam quatro fatores primordiais de que o Mestre era inteiramente livre:

  1. Conclusões antecipadas;
  2. Predeterminação arbitrária;
  3. Teimosia;
  4. Egoísmo.

Determinado a perpetuar o seu nome nos anais da história, não transigia em nada para alcançar tal intento, pois a sua preocupação não era a de ser conhecido, mas sim como ser digno de tal. É assim que os grandes espíritos dão exemplos aos demais que se encontram encarnados. Esse grande espírito sempre recusou dos maus governantes as nomeações para os altos cargos, pois a sua preocupação maior não era ocupar cargo, mas sim como se tornar capaz de um.

Entre os seus discípulos se encontravam os filhos de Mang He, um dos ministros do duque Lu, os quais o introduziram na corte de Chou, em Loyang. Mas Confúcio preferiu guardar distância do ambiente fluídico carregado da corte, preferindo visitar Lao-Tsé, que se encontrava moribundo. De volta a Lu, encontrou a sua província agitada pela guerra civil, por isso teve que se mudar para o vizinho Estado de Tsi, acompanhado de diversos discípulos. No caminho, passando por uma montanha deserta, encontrou uma mulher chorando sobre um túmulo, ao que lhe indagou:

— Por que choras, mulher?

Ao que ela lhe respondeu:

— O pai do meu marido foi morto neste lugar por um tigre, e agora o meu marido teve a mesma sorte.

Então Confúcio indagou novamente:

— Mas por que vives em um lugar tão perigoso?

Ao que ela respondeu:

— Porque aqui não há governo opressor.

Confúcio se voltou então para os seus discípulos e lhes falou o seguinte:

Meus filhos, lembrem-se disto, o governo opressor é pior do que o tigre”.

O duque de Tsi, em audiência com Confúcio, agradou-se da sua resposta sobre o bom governo, quando este lhe disse o seguinte:

Há bom governo quando o príncipe é realmente príncipe e o ministro é realmente ministro; quando o pai é realmente pai e o filho é realmente filho”.

O duque, então, ofereceu-lhe como pensão as rendas da cidade de Lin-Kew. Mas ético e honesto como era, Confúcio recusou, afirmando que nada fizera que merecesse tal remuneração. É de se indagar: quantos éons um corrupto levará para evoluir ao estágio de Confúcio? O duque ficou espantado e estava inclinado a retê-lo ao seu lado, mas o primeiro ministro o dissuadiu, dizendo o seguinte:

Esses sábios não têm senso prático e não podem ser imitados. São orgulhosos das suas convicções e não se contentam com posições inferiores. Esse senhor Confúcio tem mil peculiaridades. Tornam-se necessárias gerações para se saber tudo o que ele sabe sobre as cerimônias de subir e descer”.

Confúcio era consolado neste mundo com a Saperologia, alegrando-se de que os instintos ainda contidos em seu corpo fluídico estivessem no fim, estando agora de acordo com a razão, então afirmou o seguinte:

Aos quinze anos eu tinha o meu espírito inclinado ao estudo. Aos trinta me senti firme. Aos quarenta me libertei de toda a dúvida. Aos cinquenta eu conhecia os decretos dos céus. Aos sessenta os meus ouvidos eram um órgão dócil à recepção da verdade. Aos setenta eu podia seguir o que a minha alma desejava sem transgredir o que era justo”.

Em 479 a.C., aos 72 anos, Confúcio desencarnou. Porém, poucos dias antes da sua desencarnação, o seu discípulo Tsze-Kung se aproximou dele e recebeu a lição seguinte:

Nenhum monarca inteligente aparece, então não há nenhum império que me faça o seu mestre. O meu tempo de desencarnar chegou”.

Deitou-se, e após sete dias desencarnava. Os seus discípulos o enterraram com pompas e cerimônias à altura da afeição que lhe tinham, a seguir construíram cabanas em volta do túmulo, e ali viveram por três anos a chorarem mais do que se chora a um pai. Por fim, todos partiram para cuidar das suas próprias vidas, com a exceção de Tsze-Kung, que o amava mais do que todos os outros, por isso permaneceu sozinho por mais três anos junto ao túmulo, desolado com a partida do Mestre para o seu elevadíssimo Mundo de Luz. Após a sua desencarnação, recebeu o título de Lorde Propagador da Cultura e Sábio Supremo e Grande Realizador, o qual se encontra registrado em seu túmulo.

Confúcio nos deixou cinco grandes obras conhecidas na China como os Cinco Ching, que são as seguintes:

  1. O Li-Chi, ou Rol dos Ritos, que continha regras de propriedade, pois as considerava fundamentais para a formação do caráter, a manutenção da ordem social e da paz;
  2. O I-Ching, ou Livro de Mudanças, que continha a mais profunda contribuição já feita pela China ao campo da metafísica, ou seja, dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que não era o seu maior pendor, já que ele era mais voltado para o campo físico, ou seja, para as experiências físicas acerca da sabedoria;
  3. O Shi-Ching, ou Livro de Obras, que continha as suas observações sobre a natureza humana, fator pelo qual pôde descrever as leis morais e os princípios éticos;
  4. O Chun Chiu, ou Anais da Primavera e do Outono, que noticiava os principais acontecimentos de Lu, o seu torrão natal;
  5. O Shu-Ching, ou Livro de História, que encerrava os mais importantes relatos dos primeiros tempos da China, por ele considerados como sendo a Idade de Ouro.

Nessas obras ele acrescentava discursos e histórias que denotavam uma elevada preocupação com a moral e a ética, portanto, com a educação dos seres humanos, que eram frutos da sua imensa sabedoria. A esses cinco Ching, os chineses acrescentaram quatro Shu, ou Livros, para constituir os Nove Clássicos.

Os veritólogos devem transmitir os conhecimentos metafísicos acerca da verdade através de uma saperologia, inserindo em suas doutrinas princípios saperológicos, atrelada à moral, para que assim possam se tornar acessíveis à compreensão, e então possam ser devidamente explanados, já que eles, além de haverem desenvolvido os seus criptoscópios em patamares muitíssimos elevados, desenvolveram também os seus intelectos em grandes proporções.

Mas como Confúcio não era um veritólogo, mas sim um saperólogo, não vamos encontrar nele uma doutrina que contenha uma estrutura metafísica atrelada à moral, com uma ideia central acerca da verdade, inserida de experiências saperológicas. O que nele vamos encontrar é um sistema que contém uma estrutura de experiências físicas acerca da sabedoria, atrelada à ética, inserido de conhecimentos metafísicos acerca da verdade, para que assim possam se tornar acessíveis à percepção, através de uma veritologia. Foi por isso que ele procurou Lao-Tsé, que era um veritólogo, em busca desses conhecimentos metafísicos, como que intuído pelo Astral Superior para ir em busca da sua legítima fonte.

Isso pode ser comprovado pela clareza e honestidade dos seus pensamentos relativos à sua compreensão intelectual, diferentemente dos seus sentimentos relativos à sua percepção criptoscópica, pois como ele mesmo afirma:

O fim do falar é ser compreendido”.

E ele também dizia:

Quando sabes uma coisa, sustenta que a sabes; e quando não a sabes, admite que não sabes: isto é sabedoria”.

Assim, a obscuridade do pensamento e a insincera falta de precisão no discurso eram consideradas como sendo calamidades.

Isso explica o porquê de Confúcio afastar o seu espírito das preocupações celestiais, que são próprias da verdade, embora ocasionalmente ele fizesse referência ao céu, ou seja, aos Mundos de Luz. Mas se mostrava tão arredio às questões veritológicas, sabiamente, diga-se de passagem, que os estudiosos modernos o consideram, equivocadamente, como sendo um agnóstico, algo que ele realmente não era, de modo algum. Quando Tsze-chung lhe perguntou a respeito de servir os espíritos dos mortos, o Mestre respondeu o seguinte:

Se não estás em situação de servir aos homens, como podes lhes servir o espírito?”.

À pergunta desse mesmo discípulo sobre a morte, a resposta de Confúcio foi a seguinte:

Se não conheces a vida, como hás de conhecer a morte?”.

Fa Che indagou a respeito do significado de sabedoria, ao que Confúcio respondeu da seguinte maneira, demonstrando não ser agnóstico:

Dar-se seriamente ao cumprimento das obrigações e dos deveres do homem, mas respeitando os seres espirituais, conservando-se sempre afastado deles, isto pode ser considerado como sendo sabedoria”.

Em sua profunda sabedoria, Confúcio realiza um diagnóstico do mundo, afirmando que ele está em guerra, porque as nações que o compõem estão sendo impropriamente governadas. São impropriamente governadas porque nenhuma montanha de legislação pode substituir a ordem social natural que vem da família. A família está em desordem e deixa de fornecer essa ordem social, porque os homens esquecem que não podem bem regular a família se não regulam a si próprios. Deixam de regular a si próprios porque não expurgam da alma os desejos desordenados. Os desejos são desordenados porque eles não têm os pensamentos sinceros, fogem à realidade e escondem a sua verdadeira natureza. E os pensamentos são insinceros porque eles deixam que os desejos desordenados desnaturem os fatos e determinem as suas conclusões, em vez de procurarem investigar imparcialmente a natureza das coisas, dos fatos e dos fenômenos universais.

Em seguida vem a sua recomendação, quando ele diz:

Deixai que os homens procurem o conhecimento imparcial e os seus pensamentos serão sinceros. Deixai que os seus pensamentos sejam sinceros e as suas almas se libertarão dos desejos desordenados. Limpas assim as almas, estarão os homens regulados. Bem regulados do que sejam os ‘eus’, as famílias estarão automaticamente reguladas, não por meio de sermões virtuosos ou castigos, mas pelo silencioso poder do exemplo. E bem reguladas as famílias por meio do conhecimento, da sinceridade e do exemplo, surgirá uma ordem social espontânea, promissora do bom governo, com o Estado mantendo a justiça e a tranquilidade internas, então todo o mundo se sentirá contente e feliz”.

Para Confúcio, então, a sabedoria começa no seio familiar, que forma o todo humano, assim como a célula forma o todo do corpo humano, por isso se diz que a família é a célula da humanidade, com o homem disciplinado integrando uma família disciplinada, cuja família forma toda a base e o fundamento da sociedade, no que está completamente correto, como diferente não poderia ser. Em sendo assim, o desenvolvimento pessoal no seio familiar é a raiz da árvore que representa o desenvolvimento social.

Então, o fruto que vamos encontrar oriundo do seio familiar é o super-homem de Confúcio, dotado de três virtudes criteriosamente por ele escolhidas e consideradas como sendo supremas por Sócrates, Jesus, o Cristo, e até por Nietzsche, que são:

  1. Inteligência;
  2. Coragem;
  3. Boa vontade.

Daí o fato de Confúcio considerar que o homem mais elevado tem como único temor o fato de não alcançar a verdade, que como Jesus, o Cristo, mais tarde iria afirmar: “Procurais a verdade e a encontrarás”; mas não tem qualquer temor que a pobreza o maltrate. É um espírito universal, por isso jamais será um mero sectário, ou seja, um simples arrebanhado dos credos e das seitas que campeiam por esse mundo afora. Foge de ser inexato daquilo que diz. Mas esse homem não é um mero intelectual, nem simplesmente um erudito ou amante do conhecimento, pois tanto tem de inteligência como tem de caráter.

Onde as qualidades sólidas são mais que o talento, temos as maneiras dos empregados subalternos. Quando o talento e as qualidades sólidas se fundem em iguais proporções, então surge o homem perfeito. Neste caso, a inteligência é o intelecto com os pés na Terra.

Não é a perfeita sinceridade a marca do homem mais elevado? Então a base do caráter é a sinceridade. Logo o homem elevado age antes de falar, e depois fala de acordo com a sua ação. No tiro de arco e flecha temos algo comparável ao homem elevado. Quando o arqueiro não atinge o centro do alvo, ele procura a causa do insucesso em si mesmo. O que o homem elevado procura está em si mesmo, mas o que os homens inferiores procuram está nos outros. O homem elevado se angustia da sua falta de habilidade, mas não se angustia de que os outros homens não o conheçam, entretanto, desagrada-lhe a ideia de que o seu nome seja esquecido depois da desencarnação. Ele é modesto no falar, mas se excede nas ações. Pouco fala, mas quando age está certo de alcançar ao seu objetivo. Aquilo que o homem elevado não pode ser igualado é simplesmente no seguinte: no seu trabalho, no trabalho que os outros homens não podem ver. Revela-se moderado em palavras e atos, em tudo o homem elevado se conforma com o caminho dos humildes. Porque não tem fim os acontecimentos pelos quais o homem é afetado, e quando as suas simpatias e antipatias não estão sujeitas a regulação, ele muda com os acontecimentos que o afetam.

Quatro séculos antes de Hillel e cinco séculos antes de Cristo, Confúcio antecipa a chamada Regra de Ouro, quando Chung-kung o indaga sobre a virtude perfeita, ao que o Mestre responde:

Não faças aos outros o que não queres que te façam”.

Este princípio aparece com frequência nas falas de Confúcio, e certa vez reduzido a uma só palavra, quando Tsze-kung lhe indaga se haverá uma palavra que sirva de regra para tudo na vida, ao que o Mestre lhe responde:

Reciprocidade, não será esta a palavra?”.

Como não era um veritólogo tal como Lao-Tsé, mas sim um saperólogo, repleto de sabedoria, Confúcio não aconselha como aquele a pagar o mal com o bem. Quando um discípulo lhe pergunta se o mal devia ser recompensado com a bondade, ele assim se expressa:

Com que então recompensarás a bondade? Deves recompensar o mal com a justiça, e a bondade com a bondade”.

É impressionante a sabedoria de Confúcio. Segundo ele, a verdadeira base do caráter do homem elevado é uma profunda simpatia humana. A excelência dos outros não o incomoda, por isso quando se depara com homens de valor, pensa em igualá-los; mas quando se depara com homens inferiores, volta-se para dentro de si mesmo e se examina, porque há poucas faltas que não comparticipemos com os nossos semelhantes.

Vamos ver a comprovação dessa manifestação de sabedoria na prática séculos depois, através dele mesmo, quando ele encarna como Jesus, o Cristo, ao se ver crucificado na cruz. Nessa ocasião, ele se volta para dentro de si mesmo e busca nos recônditos de sua alma aonde se encontrava o seu erro, como que querendo isentar de culpa aos seus algozes, ou melhor, como que querendo compartilhar com eles dos erros das suas ignorâncias e imperfeições. E nesta divina introspecção, mesmo sem encontrar qualquer falha em sua iluminadíssima alma, consegue antever as funestas consequências ocasionadas pelas suas ações espiritualizadoras neste mundo, que no futuro seriam geradas pelo falso cristianismo, notadamente pelo catolicismo papal, as suas cismas e as inúmeras seitas protestantes que dela derivaram, fazendo afluir o ódio, a intolerância, os genocídios, as guerras, o estelionato com os arrebanhados e outras graves consequências sacerdotais, semeando ainda mais a ignorância no seio da nossa humanidade, e a tudo isso ele ainda pensava na possibilidade de ser o grande responsável, querendo assumir a culpa por todos esses descalabros humanos.

QUE ESPÍRITO, MEU DEUS!

Em sua gloriosa encarnação, Confúcio não dá a mínima atenção aos escândalos ou às palavras tidas como violentas. É cortês e amável para com todos, mas sem qualquer exagero nos louvores. Trata aos seres humanos vulgares sem qualquer desprezo, mas aos materialmente superiores sem muita cortesia. É grave nos modos, porque os seres humanos em sua supina ignorância tendem em não levar a sério quem com eles não se mostra sério.

Ele faz uma espécie de resumo dos atributos do Homem Superior, que Aristóteles, muitos anos depois, iria fazer do Homem de Grande Mentalidade, o Megalopsychos. Nesta espécie de resumo, ele se expressa da seguinte maneira:

O Homem Superior considera nove circunstâncias. A respeito dos seus olhos, anseia por tudo ver claramente. A respeito do seu aspecto, anseia por parecer benigno. A respeito dos seus modos, anseia por tê-los respeitosos. A respeito das suas palavras, anseia por ser sincero. A respeito dos seus negócios, anseia por ser extremamente cuidadoso. A respeito das suas dúvidas, anseia por indagar dos outros. Quando a cólera o toma, reflete nas dificuldades que ela poderá lhe trazer. Quando vê lucro a auferir, pensa na retidão”.

Para Confúcio a sociedade evolui com a obediência dos filhos aos pais e da mulher ao marido, caso contrário o caos sobrevém. O interessante é que as mulheres de hoje, quase todas estupidamente mundanas, por abandonarem os seus lares, achando ignorantemente que isso é liberdade e independência, sem a mínima noção acerca da importância do lar no seio da nossa humanidade, revoltam-se ou, simplesmente, riem com deboche e sarcasmo, caso alguém mencione a possibilidade de elas obedecerem ao marido. Ora, deveriam atentar que essa obediência é em termo, a qual extrema uma área circunscrita aonde se situa a família em relação ao mundo, cuja inevitável relação é o homem o grande senhor dessa intermediação, pela sua natureza masculina ser propícia a essa interposição, por conseguinte, ser o detentor da autoridade para cumprir com esse desiderato. Com a efeminação da maioria dos homens, as mulheres abandonam os seus lares e procuram inutilmente conquistar o mundo. Mas quando elas abandonam ao lar e se danam a trabalhar em todo e qualquer ofício, não obedecem e não são bem submissas ao chefe e ao patrão? Por que não ao marido, em termo e sem submissão? Deveriam saber que a obediência indica superioridade espiritual, sem nunca indicar qualquer tipo de inferioridade, pois somente aprende a verdadeiramente mandar quem verdadeiramente aprendeu a obedecer, uma vez que na hierarquia da nossa humanidade in totum, lá nos páramos da espiritualidade, existe sim uma imensa hierarquia, cujo poder de mando é distribuído com perfeição segundo o critério da evolução, cabendo aos Espíritos Superiores os topos dessa cadeia hierárquica.

Pelo fato da sua ética haver alcançado parâmetros jamais alcançados em nossa humanidade, a não ser por ele mesmo, quando posteriormente encarnou como Platão e, depois, como Jesus, o Cristo, Confúcio procurava igualá-la com a sua elevadíssima moral, daí o fato dele considerar apenas os atributos morais como sendo superiores ao princípio da obediência. Por isso, ele diz que servindo aos seus pais, um filho pode adverti-los, mas delicadamente; quando vê que não cedem à advertência, o filho mostrará maior reverência ainda, mas não abandonará o seu propósito. Quando a ordem do pai é injusta, o filho pode resistir ao pai, e o ministro resistir ao seu augusto amo.

Enveredando na seara política, Confúcio afirma que o povo é a própria e a verdadeira base da política, porque qualquer governo que não tem a confiança do povo, cedo ou tarde cairá. Indagado por Tsze-kung a respeito do governo, o Mestre responde, com base no seu tempo:

Os requisitos do governo são três: abundância de alimento, confiança do povo no governante e suficiente poder militar”.

Tanto que indagado novamente por Tsze-kung sobre a possibilidade da necessidade de se eliminar um desses requisitos, qual deles deveria ser eliminado em primeiro lugar, o Mestre assim responde:

O militar”.

Indagado ainda por Tsze-kung sobre qual deles deveria ser eliminado em segundo lugar, o Mestre assim responde:

O alimento, pois a desencarnação está no destino do homem, mas se o povo não tem confiança em seus governantes, não haverá salvação para o Estado”.

O primeiro princípio de governo para Confúcio é o mesmo primeiro princípio para o caráter: a sinceridade. Isso implica em dizer que os políticos não têm caráter, não todos, para sermos complacentes, mas praticamente a sua totalidade, posto que são demagogos e ávidos pelo poder, por isso não buscam o bem-estar do seu povo, mas sim as suas próprias satisfações pessoais, sempre impulsionados pela vaidade das posições que ocupam, ignorando que nelas se encontram para servir ao público, e não para deles se servirem, o que os levam geralmente a se locupletar do tesouro, maquinando todo o tipo de desvio de verbas, através da criminosa corrupção. Deveriam seguir os ensinamentos do Mestre, que diz que o primeiro instrumento de governo é o bom exemplo, pois o governante deve ser um modelo de conduta, porque a força da imitação fará com que o povo também se conduza por esse modelo.

Ke Kang se acercou de Confúcio e indagou o seguinte:

— Que pensas da matança do não principal em benefício do principal?

Confúcio respondeu da seguinte maneira:

— Senhor, na condução do vosso governo, que necessidade há de matar? Deixai que os vossos desejos sejam para o bem, que o povo também só quererá o bem. A relação entre superiores e inferiores é a mesma relação entre a brisa e a relva. A relva tem que se dobrar quando a brisa perpassa. Aquele que exercita o governo por meio da sua virtude pode ser comparado à estrela polar, que conserva sempre o seu posto e todas lhe giram em redor.

Ke Kang então perguntou novamente:

— Como levar o povo a respeitar o governante, a lhe ser fiel e a praticar a virtude?

O Mestre assim respondeu:

— Deixai-o presidir com gravidade e o povo o reverenciará. Seja ele bondoso para com todos, e todos lhe serão fiéis. Permita ele que os bons tenham acesso e ensine os incompetentes, e todos procurarão ser virtuosos.

Para Confúcio, a administração do governo consiste em descobrir os homens elevados. Estes homens têm que ser descobertos por meio do caráter impoluto do governante. Que não fará o homem elevado no ministério para, ainda em uma geração, limpar o Estado e dirigir o povo a um mais alto nível de civilização? Reduziria o luxo da corte, procuraria uma larga distribuição de riqueza, porque a centralização da riqueza nas mãos de poucos é o meio de dispersar o povo e o deixar a riqueza com o povo é o meio de reuni-lo. Diminuiria os castigos e aumentaria a instrução pública, porque havendo instrução para todos não haverá distinção de classes.

Com uma visão impressionante acerca da sua missão espiritualizadora em relação à nossa humanidade, cuja visão os estudiosos ainda se encontram muito longe em compreender com a devida satisfação, mas que ainda atingirão a essa compreensão, justamente por isso consideram como sendo sonhos e utopias, Confúcio como que intuído pelo Astral Superior, que esses mesmos estudiosos consideram misticamente ou fantasiosamente como sendo “mandato do céu”, previu no futuro um sistema de ordem mundial, que brevemente se instalará no seio da nossa humanidade, sem dúvida alguma, por intermédio do Racionalismo Cristão, quando em sua prodigiosa clarividência, referindo-se à Era da Razão em que estamos prestes a adentrar, expressou-se da seguinte maneira:

Quando o Grande Princípio prevalecer, o mundo inteiro se tornará uma república. Elegerão homens de talento, virtude e habilidade. Esses homens tratarão entre si com sinceridade e cultivarão a paz universal. Os homens não olharão como pais apenas para os seus pais, nem como filhos apenas para os seus filhos. Uma adequada provisão será assegurada aos velhos até à morte, e serão garantidos empregos para os de meia idade e meios de educar aos jovens. Viúvos e viúvas, órfãos e homens sem filhos, e os inutilizados por moléstias, serão todos devidamente assistidos. Cada homem terá os seus direitos, e cada mulher terá a sua individualidade, salvaguardados. A riqueza será produzida para o bem dos homens. O homem não trabalhará apenas para a sua vantagem pessoal. A conduta egoística será manietada. Ladrões, fraudadores, corruptos e traidores, nada disso subsistirá. As portas das casas dormirão abertas. Este é o Estado do que chamo a Grande Similaridade”.

A influência de Confúcio pode ser constatada através dos homens letrados dos séculos posteriores, os quais adotaram o seu sistema como caminho para a ocupação dos cargos públicos, criando uma classe de confucianos destinada a ser a mais poderosa da China. Surgiram várias escolas para o ensino da sabedoria do Mestre, na forma correta apresentada pelos seus discípulos e desenvolvida por Mêncio, mas modificada no correr dos anos por inúmeros homens considerados como sendo eruditos. E essas escolas, que se tornaram os centros intelectuais da China, durante séculos preservaram o colapso político chinês.

Mas como a ignorância humana não tem limites para a prática do mal, pode-se dela esperar os mais tenebrosos desatinos, pela falta de senso, pelo individualismo exacerbado, pelo egoísmo, pela ausência de solidariedade para com o semelhante e outros mais, tudo isso ocasionado pela falta do esclarecimento espiritual, daí Shih Huang-ti, ao dirigir o governo, procurou por todos os meios, principalmente os mais violentos, acabar com a influência de Confúcio, para tanto ordenou a queima de toda a literatura confucionista. No entanto, a força dos seus ensinamentos se mostrou mais forte do que a espada. As obras que o Primeiro Imperador procurou por todos os meios destruir se tornaram preciosas e quase que sagradas, ensejando a que muitos homens desencarnassem como mártires no supremo esforço por preservá-las. Quando Wu Ti subiu ao trono, por ser mais espiritualizado, as obras confucianas saíram dos seus esconderijos e os seus métodos e as suas ideias vitalizaram a nova dinastia implantada.

Então foram decretados sacrifícios em honra a Confúcio, textos clássicos foram gravados em pedra e se tornaram os fundamentos do credo que foi criado, tornando-se oficial. É de se realçar que os credos sempre são criados após a desencarnação de algum veritólogo, mas se eles foram criados após a desencarnação de Confúcio, também o foram com a sua desencarnação como Jesus, o Cristo, a sua última encarnação posterior neste mundo.

O confucionismo foi rivalizado com o taoismo e por algum tempo decresceu em virtude do budismo, mas ele foi redescoberto na dinastia Tang, com o Grande Tai Tsing mandando erigir um templo a Confúcio e ordenando que lhe fizessem sacrifícios em todas as cidades e vilas do Império. Surgiu então a escola dos neoconfucianos, cujos comentários aos Clássicos difundiram a sabedoria do Mestre, expandindo-a para o Japão. Do surgimento da dinastia Han à queda dos Manchus, um período de dois mil anos, o sistema de Confúcio provocou uma profunda influência na mentalidade chinesa.

Pode-se afirmar que a história da China pode ser escrita à luz dessa influência, pois durante a sucessão de várias gerações, os escritos de Confúcio foram os textos das escolas oficiais, com os alunos que por elas passavam os aprendendo de cor. Assim a cultura da nação foi se formando e proporcionando ao povo a adoção de uma conduta satisfatória, sem paralelo na história das nações. Foi por intermédio do Mestre que a China conseguiu desenvolver uma vida em comum com certa harmonia, sempre dedicada ao estudo e estabilizando cada vez mais a sua cultura. Isso tudo permitiu que a China pudesse sobreviver às invasões, conseguindo remodelar a própria cultura dos invasores à sua.

 

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