09- O POSITIVISMO

A Era da Verdade
17 de fevereiro de 2020 Pamam

O Positivismo é uma corrente saperológica, ou filosófica, que surgiu na França no começo do século XIX, tendo como os seus principais idealizadores Auguste Comte e Stuart Mill, cuja doutrina ganhou força na Europa na segunda metade do século XIX e no começo do século XX. Considerando-se que o Positivismo seja uma doutrina que se propõe a ordenar as ciências experimentais, tais como se fossem o modelo da excelência do conhecimento humano, em detrimento das especulações metafísicas ou teológicas, existem correntes de outras disciplinas que se consideram positivistas sem guardar nenhuma relação com o Positivismo original, como são exemplos o positivismo jurídico, do austríaco Hans Kelsen, que procura reduzir o Direito apenas àquilo que está posto, colocado, dado, positivado, e o positivismo lógico, desenvolvida pelos membros do  Círculo de Viena, de Rudolf Carnap, Otto Neurath e os seus associados, com base no pensamento empírico tradicional e no desenvolvimento da lógica moderna, tendo a Matemática como base.

Em linhas gerais, o Positivismo propõe à existência humana valores considerados como sendo humanos, desconsiderando a Teologia e a metafísica, associando uma interpretação das ciências e uma classificação do conhecimento a uma moral humana, que foi desenvolvida na segunda fase da vida de Auguste Comte, defendendo o modelo de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro, pois de acordo com os positivistas somente se pode afirmar que uma teoria é correta se ela for comprovada através dos métodos científicos válidos, desconsiderando os conhecimentos ligados a crenças, superstições ou quaisquer outros tipos de conhecimento que não possam ser comprovados cientificamente, pois que o progresso da nossa humanidade depende exclusivamente dos avanços científicos.

Cumpre aqui esclarecer que as ciências não lidam com os conhecimentos, mas sim com as experiências físicas relativas às parcelas do Saber, enquanto que as verdadeiras religiões, que não são credos, lidam com os conhecimentos metafísicos relativos às parcelas do Saber, e as religiociências lidam tanto com os conhecimentos metafísicos como com as experiências físicas relativos às parcelas do Saber. Na realidade, a Veritologia lida com os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, enquanto que a Saperologia lida com as experiências físicas acerca da sabedoria, e a Ratiologia lida tanto com os conhecimentos metafísicos acerca da verdade como com as experiências físicas acerca da sabedoria. Assim, quando os conhecimentos metafísicos acerca da verdade em união, irmanação, congregação, com as experiências físicas acerca da sabedoria, tendem a se especializar, formam as parcelas do Saber, quando então são entregues às religiões — que não podem ser confundidas com os credos — e às ciências, ou mesmo às religiociências.

O Positivismo é considerado como sendo uma corrente teórica inspirada no ideal do progresso contínuo da nossa humanidade, devendo ser reforçado pelo que Auguste Comte denominou de ciências positivas, que teriam a sua mais forte expressão na Sociologia, cuja parcela do Saber o veritólogo é considerado o fundador. Augusto Comte acreditava que a Sociologia deveria se basear nas ciências da natureza, sobretudo na Biologia e na Física, que tentam descobrir e decodificar as leis naturais, assim o sociólogo deveria realizar um trabalho análogo na sociedade, descobrindo e decodificando as leis sociais, devendo ser um cientista observador, apoiando-se no conteúdo de sua análise dos fatos.

A doutrina de Auguste Comte também incorporou elementos políticos e nela foram incorporados um escopo mais ético e moral nos trabalhos de Stuart Mill, o que acabou reforçando o molde de uma doutrina política positivista, fundada na ordem e no conhecimento para se alcançar o progresso.

O método geral do Positivismo consiste na observação dos fenômenos, opondo-se ao racionalismo — considerado pelos estudiosos como sendo uma operação mental, discursiva e lógica, que utiliza uma ou mais proposições para extrair conclusões, priorizando a razão —, e ao idealismo — que afirma que a realidade como os humanos podem conhecê-la é fundamentalmente mental —, por meio da promoção do primado da experiência sensível, única via capaz de produzir a partir de dados concretos, ou positivos, a verdadeira ciência, sem qualquer referência teológica ou metafísica, subordinando a imaginação à observação, tomando como base apenas o mundo físico ou material. Em sua obra intitulada de Apelo aos Conservadores, de 1855, Auguste Comte definiu a palavra positivo com sete acepções, quais sejam:

  1. Real;
  2. Útil;
  3. Certo;
  4. Preciso;
  5. Relativo;
  6. Orgânico;
  7. Simpático.

Como o Positivismo defende a posição de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro, então desconsidera todas as outras formas de conhecimento humano que não possam ser comprovadas cientificamente. Assim, tudo aquilo que não puder ser provado pela ciência é considerado como pertencente aos domínios teológico ou metafísico, caracterizado por crendices e vãs superstições.

A posição-chave do Positivismo comtiano é a lei dos três estados, de acordo com a qual o entendimento humano passou por três estágios em suas considerações, ou seja, na forma de conceber as suas posições e a realidade, cujos estágios são os seguintes:

  1. Teológico: o ser humano explica a realidade por meio de entidades supranaturais, tais como os deuses, buscando responder a questões como de onde viemos e para onde vamos; além disso, busca-se o absoluto;
  2. Metafísico: é uma espécie de meio-termo entre a Teologia e a positividade. No lugar dos deuses há entidades abstratas para explicar a realidade, tais como o éter, o povo, o mercado financeiro, etc. Continua-se a procurar responder a questões como de onde viemos e para onde vamos, procurando o absoluto. É a busca da razão e destino das coisas, é o meio termo entre teológico e positivo;
  3. Positivo: etapa final e definitiva, não se busca mais o porquê das coisas, mas sim o como, por meio da descoberta e do estudo das leis naturais, ou seja, relações constantes de sucessão ou de coexistência. A imaginação se subordina à observação e se busca apenas pelo observável e pelo concreto.

UMA NOVA RELIGIÃO

No período de 1851 a 1854, por meio da obra intitulada de Sistema de Política Positiva, Auguste Comte pretendeu instituir a religião da humanidade, ignorando completamente que as religiões são as fontes das ciências, mas que a classe sacerdotal se apoderou dessa denominação, quando, na realidade, ela lida com os credos. De qualquer maneira, após a elaboração de sua saperologia, ou filosofia, Auguste Comte concluiu que deveria criar um novo credo, que para ele era religião, pois considerava que os credos do passado eram apenas formas provisórias do único e verdadeiro credo: o credo positivo, que ele denominou de religião positiva. Isto se explica porque para os positivistas os credos não se caracterizam pelo sobrenatural, pelos deuses, mas sim pela busca da unidade moral humana, ignorando completamente que os credos são os maiores causadores das desavenças humanas, sendo todos eles destituídos da verdadeira moral, adeptos da moral utilitária. Daí então a necessidade do surgimento de um novo credo que apresentasse um novo conceito do Ser Supremo: o credo da humanidade, ou a religião da humanidade.

De acordo com os positivistas, a Teologia e a metafísica nunca inspiraram uma religião, mas que é credo, verdadeiramente racional, cuja instituição estaria reservada ao advento do espírito positivo. Assim, estabelecendo a unidade espiritual por meio da ciência, a religião da humanidade, ou o credo da humanidade, passa a possuir como principal objetivo a regeneração social e moral.

Assim como o catolicismo se encontra fundamentado na saperologia, ou filosofia, escolástica de São Tomás de Aquino, o credo, ou a religião da humanidade, encontra-se fundamentada na saperologia, ou filosofia, positivista de Auguste Comte, tendo por base a ciência clássica, cujo ser supremo é a humanidade personificada, tida como deusa pelos positivistas, representando o conjunto de seres convergente de todas as gerações, passadas, presentes e futuras, que contribuíram, contribuem e contribuirão para o desenvolvimento e aperfeiçoamento humano.

A ciência clássica se constitui no dogma do credo, ou religião da humanidade, existindo templos e capelas onde são celebrados cultos elaborados à humanidade, denominados de grão-ser pelos positivistas. O credo, ou a religião positivista, caracteriza-se pelo uso de símbolos, sinais, estandartes, vestes litúrgicas, sacramentos, comemorações cívicas, uso de um calendário próprio, o calendário positivista, um calendário lunar composto de treze meses de vinte e oito dias, e dias de santos, dedicados a grandes vultos humanos. O lema do credo, ou religião positivista, é “o amor por princípio e o ordem por base; o progresso por fim”; e o seu regime é “viver às claras” e “viver para outrem”. Auguste Comte foi o criador da palavra altruísmo, palavra que segundo o fundador resume o ideal do seu novo credo, ou de sua nova religião.

O POSITIVISMO NO BRASIL

A doutrina positivista se expandiu das terras europeias e aportou no Brasil como sendo um grande movimento, ao ponto de sermos considerados a segunda pátria do Positivismo. O movimento surgiu em território nacional a partir de 1850, quando então se tornou visível na Escola Militar, no Colégio Pedro II, na Escola da Marinha, na Escola de Medicina e na Escola Politécnica, principalmente como sendo uma reação saperológica, ou filosófica, contra a doutrina confessional católica tão presente na sociedade brasileira.

A sua máxima influência ocorreu na Proclamação da República, em 1889, em que se destacou o Cel. Benjamin Constant, um dos grandes adeptos da doutrina positivista, destacando-se como sendo o mais influente de todos, por isso o Positivismo teve uma forte presença em todo o ambiente militar brasileiro, moldando os seus ideais, que foram refletidos na bandeira brasileira e no próprio governo da época, Assim, o Positivismo brasileiro se fez presente principalmente nos movimentos de caráter republicanos e abolicionistas.

A influência da doutrina de Augusto Comte pôde ser observada no Brasil até nas rebeliões tenentistas da década de 20, no século seguinte, na organização estatal e nos projetos de desenvolvimento nacionalistas burgueses do primeiro governo de Getúlio Vargas.

A Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 1891, ou a Constituição de 1891, foi a primeira Constituição republicana do país, promulgada em dois anos de negociações após a queda do imperador D. Pedro II, tendo sido inspirada no exemplo norte-americano e moldada pela saperologia, ou filosofia, francesa do Positivismo. Foi esta a Constituição que estabeleceu as principais características do Estado brasileiro contemporâneo, como o modelo presidencialista e federativo, o voto direto — ainda que masculino e não secreto — para representantes do executivo e do legislativo, a separação entre Estado e Igreja, que é a laicidade, e a independência entre os três poderes, tendo decretado o fim das instituições monárquicas, como o Poder Moderador e o Conselho de Estado. Esta Constituição durou até a Revolução de 1930, mas que foi um golpe, sofrendo apenas uma grande alteração neste período, que foram as Emendas Constitucionais ocorridas no ano de 1926.

 

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