09.05- Ashoca Vardhana

A Era da Sabedoria
23 de setembro de 2018 Pamam

No trono da Índia o sucessor de Chandragupta foi Bindusara, ao que tudo indica um soberano com grandes pendores para a sabedoria. Segundo os relatos, ele pedira a Antíoco, rei da Síria, que lhe presenteasse com um saperólogo grego, pelo qual ele pagaria um bom preço, segundo ele mesmo escreveu. Mas a proposta não foi aceita, simplesmente porque Antíoco não conseguiu encontrar nenhum saperólogo à venda, nem tampouco um veritólogo, já que ambos se encontravam mesclados. Mas a Providência Divina supriu o anseio espiritual do soberano lhe dando um sábio governante, um saperólogo, na pessoa do seu próprio filho.

Ashoca Vardhana subiu ao trono em 273 a.C., encontrando um império mais vasto do que o regido até essa época por qualquer outro soberano na Índia, compreendendo o Afeganistão, o Beluchistão e toda a moderna Índia, com a exceção do extremo sul. Por algum tempo ele governou de maneira cruel, embora com eficiência. Yuan Chwang, um viajante chinês que passou vários anos na Índia do século VII da era cristã, relata que a prisão mantida por Ashoca ao norte da capital era relembrada pelos hindus como o Inferno de Ashoca, pois todas as torturas eram aplicadas na punição dos criminosos, acrescentando-se o édito real determinando que ninguém que lá entrasse saísse com vida, o que demonstra a adoção de uma linha duríssima contra a criminalidade em seu império.

Conta a lenda que certo dia um santo budista, preso sem causa e lançado em um caldeirão de água fervendo, nada sofreu. O carcereiro então mandou chamar Ashoca, que atendeu ao chamado e se maravilhou com o acontecido. Ao fazer menção de se retirar do ambiente da prisão, o carcereiro o advertiu do edito que determinava não poder sair com vida dali quem vivo entrasse. De maneira quase pitoresca Ashoca concordou com o carcereiro e mandou jogá-lo no caldeirão. De volta ao palácio, repentinamente, sem qualquer explicação plausível, sofreu uma profunda mudança. Deu ordem para que demolissem a prisão e reformassem o código penal no sentido de proporcionar uma maior brandura nas penas.

Enquanto tomava essas providências, chegou-lhe a notícia de uma grande vitória de suas tropas sobre os rebeldes da tribo kalinga, com o aprisionamento de milhares de homens. Ashoca foi tomado de remorsos ao meditar sobre aquela violência de chacina e separação dos cativos do seio dos seus entes queridos. Então ordenou a libertação dos prisioneiros, restaurou as terras dos kalingas e lhes mandou uma mensagem de desculpas que não tinha precedentes, tendo depois várias imitações. A seguir entrou para a ordem budista, passando a usar os trajes dos monges, ao mesmo tempo em que abandonou a caça e o uso da carne.

A influência decisiva dos ensinamentos de Buda na alma de Ashoca proporcionou a que ele, no décimo ano do seu reinado, começasse a promulgar os mais notáveis editos da história dos reinados, mandando que fossem gravados em rochedos e pilares, nos dialetos locais, para que todos deles tomassem conhecimento. Os sinais desses editos aparecem em quase toda a Índia, com dez desses pilares ainda se conservando de pé e a localização de outros vinte estando determinada. Neles vemos que Ashoca aceitava integralmente os ensinamentos de Buda e com ânimo os aplicava no seu povo.

Ora, Buda era um veritólogo, enquanto que Ashoca Vardhana era um rei saperólogo, e aqui se pode constatar a clara influência que a Veritologia exerce sobre a Saperologia, embora o correto seja de que esta tenha aquela como sendo a sua legítima fonte.

Por serem influenciados por Buda, os editos não eram contaminados pelas crenças comuns aos credos. Eles admitem corretamente vida futura através das reencarnações, mas não exprimem o irracionalismo da fé credulária e muito menos fazem qualquer menção a um deus personificado, prova incontestável da não influência dos espíritos obsessores. Mas permitem a tolerância credulária sob a alegativa de que não se deve pensar mal da fé dos outros homens, chegando ao extremo de dar esmolas até aos sacerdotes brâmanes, que ávidos por riquezas, não faziam cerimônia em aceitá-las, mesmo com os editos sendo contra as suas crenças, sendo tão ingratos e espiritualmente atrasados, que, mesmo recebendo esses donativos por parte do rei, não reconheceram a sua generosidade e tolerância, passando todos a odiá-lo.

Demonstrando uma alta espiritualidade, Ashoca Vardhana declara que todos os seus súditos são filhos amados, e que nem por motivo de diversidade de credos poderá haver qualquer discriminação credulária entre eles. É o que comprova o Edito da Rocha XII, da seguinte maneira:

Sua Sagrada e Graciosa Majestade, o Rei, homenageia aos homens de todas as seitas, ascetas ou não, com oferendas e várias formas de reverência.

Sua Sagrada Majestade, entretanto, não dá muita importância a oferendas ou reverências externas, mas dá ao crescimento da essência da matéria em todas as seitas. O crescimento da essência da matéria assume várias formas, mas a raiz está em falar pouco. Por sabedoria um homem não deve, sem razão, reverenciar a sua própria seita e menosprezar a de outro. A depreciação só deve obedecer a razões específicas, porque a seita dos outros merece toda a reverência por uma razão ou outra.

Agindo desse modo, o homem exalta a sua própria seita e, ao mesmo tempo, presta serviço às seitas dos outros. Agindo de modo contrário, o homem não presta um favor à sua própria seita e faz mal às seitas de outras pessoas… A concórdia é meritória”.

No Edito do segundo Pilar surgem mais revelações de sabedoria em Ashoca Vardhana, da seguinte maneira:

A lei da Piedade é excelente. Mas em que consiste a Lei da Piedade? No seguinte: muito saber, pouca impiedade, muitos feitos de bondade compaixão, liberalidade, verdade e pureza”.

Para dar o exemplo, Ashoca Vardhana mandou que os seus oficiais olhassem as pessoas do povo como filhos, as tratassem sem dureza ou impaciência, nunca as torturasse, nunca as prendesse sem justa causa. E ordenou aos oficiais que periodicamente lessem ao povo as suas instruções.

Tendo absoluta confiança na eficácia dos sermões petrificados, ele anuncia no Edito da Rocha IV os maravilhosos resultados já alcançados, e o resumo seguinte nos dá uma concepção mais clara do seu sistema:

Hoje, em virtude da prática da piedade pela Sua Sagrada e Graciosa Majestade, o Rei, a reverberação dos tambores de guerra se transformou em reverberação da Lei… Como por muitos anos antes não havia acontecido, hoje, em virtude da inculcação da Lei da Piedade por Sua Sagrada e Graciosa Majestade, tem aumentado a abstenção da matança sacrifical de criaturas vivas e a abstenção da matança de seres animados, tem melhorado a conduta para com os parentes, os pais, as mães, os mais velhos e os brâmanes. De igual modo, em outros campos, a prática da Lei da Piedade segue em aumento, e a Sua Sagrada e Graciosa Majestade, o Rei, fará com que a sua prática ainda cresça mais.

Os filhos, netos e bisnetos de Sua Sagrada e Graciosa Majestade, o Rei, farão com que esta prática da Lei aumente até ao fim do mundo”.

Ashoca Vardhana se fez o chefe da doutrina budista, manteve-a com doações e lhe construiu 84 mil mosteiros. Por todo o reino fundou hospitais para os homens e os irracionais. Mandou missionários a todas as partes da Índia e do Ceilão, e até mesmo da Síria, do Egito e da Grécia, por onde eles iriam preparar o ambiente propício para a encarnação de Jesus, o Cristo.

Além dessa atividade doutrinária, que posteriormente se transformou em credo, o rei se entregava com um extraordinário esmero à administração do império, os seus dias de trabalho eram longos e ele se conservava continuamente em serviço. E logo após a sua desencarnação, muitos missionários budistas partiram para o Tibet, a China, a Mongólia e o Japão.

Mas, infelizmente, Ashoca Vardhana não conseguiu perceber que os brâmanes o odiavam e só esperavam uma oportunidade qualquer para destruí-lo, assim como a classe sacerdotal de Tebas havia destruído a obra de Ikhnaton mil anos antes. Meu Deus, que classe perniciosa! E não somente os brâmanes odiavam ao rei, pois que fomentavam os sacrifícios de animais por motivo do lucro que tais práticas lhes traziam, como também milhares de caçadores e pescadores contaminados se ressentiam das severas limitações que os editos impunham quanto à matança de animais, com cada camponês resmungando ao mandamento de que não deviam deitar fogo à palha onde houvessem seres vivos. E assim quase a metade do império esperou ansiosamente pela desencarnação do rei-saperólogo.

Alguns anos depois da sua morte, o império de Ashoca Vardhana, assim como o de Ikhnaton, foi totalmente desmoronado por influência sacerdotal. Tendo-se tornado evidente que a soberania do reino de Magadha era mantida mais pela inércia da tradição do que pela organização da força, os Estados do império foram um a um se desligando dos Reis dos Reis de Pataliputra. Os descendentes de Ashoca Vardhana continuaram a governar Magadha até o século VII da era cristã. Mas a dinastia Maurya, fundada por Chandragupta, chegou ao fim quando o rei Brihadratha foi assassinado.

Em face do imenso atraso evolutivo dos seres humanos que formavam a nação hindu, Ashoca Vardhana pode até não haver atingido o ápice de um governo na seara política, mas em termos espirituais e de sabedoria conseguiu realizar uma das grandes missões de um espírito na história desta nossa civilização, pois ele é o grande responsável pela difusão dos ensinamentos superiores de Buda, já que duzentos anos depois o budismo se tinha disseminado por toda a Índia e se encaminhava para conquistar a Ásia. Se hoje no continente asiático e em outras partes do mundo o espírito iluminado de Buda ensina aos seres humanos que sejam bons uns para os outros e que promovam a paz entre si, foi sobretudo porque em um trono da Índia se sentou um grande intelectual, com pendores saperológicos, portador de grandes ideais.

 

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