09.03- Buda

A Era da Sabedoria
22 de setembro de 2018 Pamam

Não existe qualquer biografia de Buda que tenha sido escrita antes que tenham se passado alguns séculos após a sua desencarnação, em consequência a sua vida é composta de um misto de lendas e de história.

No que se refere às lendas, existe uma embaraçosa abundância de relatos a esse respeito. Alguns são aqueles que a tradição budista nos transmitiu, em que constam basicamente de biografias de suas quinhentos e setenta e quatro encarnações anteriores e a última da sua vida no século VI a.C., na Índia. A estes se juntam mais dois de suas vidas posteriores, do século VI até hoje, em que o primeiro diz que ele desapareceu, extinguindo-se no Nirvana, e o segundo dizendo que ele continua existindo.

No que se refere à história, existe um relato ao seu respeito em que os historiadores se esforçaram para redigir, na tentativa elogiável de procurar organizar cronologicamente os fatos mais importantes da sua vida, cujo enfoque deverá ser exposto sumariamente em alguns dos seus aspectos mais relevantes.

O Buda, cujo nome era Siddhartha Gautama, nasceu no século VI a.C., cuja data incerta é 556 a.C., em Kapilavastu, no sopé do Himalaia, em território do atual Nepal. Era filho do rei Suddhodana, que governava o reino dos çakyas, e a sua mãe era a rainha Maya, que desencarnou logo após o seu nascimento e foi substituída por sua irmã Mahapradjapati.

Logo que nasceu, Buda foi levado a um templo onde os sacerdotes identificaram em seu corpo os trinta e dois grandes sinais e os oitenta pequenos sinais que o predestinavam a ser um grande homem, como se o corpo material pudesse revelar os traços da grandeza de um homem neste mundo, a não ser que a Frenologia, doutrina criada por Gall, que considera a conformação do cérebro e das protuberâncias cranianas como indicadoras das diversas faculdades ou disposições inatas dos indivíduos, venha a ser um dia confirmada. Um sábio de então profetizou que ele seria um poderoso imperador e um asceta que libertaria a humanidade dos sofrimentos, no que errou em ele ser imperador e acertou em ele ser um asceta, mas não que libertaria a humanidade dos sofrimentos, mas que muito ajudou em lograr tal intento. O seu pai ficou impressionado com a profecia e o criou em uma área confinada do palácio, de maneira a que ficasse alheio às misérias do mundo.

Aos dezesseis anos se casa com uma prima, Yassodhara, quando então passa a viver na corte, na qualidade de rajá, mas bastante distanciado do convívio e dos problemas por que passava o povo do seu país. Dez anos depois, nasce o seu filho único, Rahula. Nessa época, quase com trinta anos, ele é intuído pelos espíritos do Astral Superior a dar início e empreender a missão para a qual havia planejado em plano astral.

Ao longo de quatro célebres passeios sucessivos, quando atravessa a cidade para se dirigir ao parque de diversões, os seus olhos se detêm na figura impressionante de um velho todo enrugado, trêmulo e usando uma bengala. Impressionado, pergunta ao seu cocheiro:

— O que é isso?

Ao que o cocheiro responde:

— Isso é a vida, meu senhor, é o que acontece a todos os homens.

E algo idêntico diz quando Buda também se impressiona com a figura de um doente e de um cadáver que encontram pelo caminho. Dessa forma, ele conhece simultaneamente o tempo, a dor e a desencarnação que a todos atinge, sofrendo um grande abalo ao constatar que o homem está invariavelmente sujeito a todas essas misérias.

No seu último passeio, encontra-se com um monge mendicante, de uma magreza impressionante, vestido com farrapos e apenas com uma tigela de esmolas na mão, mas com o olhar sereno e firme, já que era um monge asceta, um homem que procurava vencer as dores da miséria em busca do atman, ou seja, em busca de si mesmo. É na serenidade e firmeza desse monge que Buda percebe que existe uma saída que conduz à libertação do todo sofrimento humano. Decide, então, em obediência às intuições vindas do alto, iniciar a sua missão para a descoberta da verdade, dos segredos da vida e dos enigmas da natureza.

Regressando ao palácio informa ao pai a sua decisão. Nessa mesma noite, após ter se despedido silenciosamente da sua mulher e do seu filho, parte a cavalo acompanhado do seu fiel cocheiro em direção aos bosques. É o momento da Grande Partida. Ao penetrar na densa floresta, dispensa o cavalo e o cocheiro, despoja-se da vestimenta real e parte só, como um asceta mendicante, em direção a um grupo de eremitas brâmanes, em busca dos conhecimentos acerca verdade e do absoluto que deem esclarecimentos sobre a vida.

Como se pode constatar, os seguidores da verdade dão pouco valor à vida de encarnado, pois procuram sempre se alçar ao Espaço Superior em busca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, com os pés na terra e as mentes no alto, para que assim os seus criptoscópios possam perceber e captar o lado metafísico do Universo. Enquanto que os seguidores da sabedoria dão muito valor à vida de encarnado, pois procuram sempre se transportar ao Tempo Futuro, em busca das experiências físicas acerca da sabedoria, com os pés na terra e as mentes no futuro, para que assim os seus intelectos possam compreender e criar o lado físico do Universo.

Assim, Buda se torna discípulo dos ascetas Alara Kalama e Uddaka Ramaputta, exercitando-se nas diversas práticas da ioga. Mas estas práticas não o satisfazem, o que comprova as suas inutilidades. Passa então seis anos vivendo no mais puro ascetismo, entregando-se a jejuns e a penitências mortificadoras. Como quase tudo vira lenda, esta conta que, nessa época, ele se alimentava apenas de um grão de arroz por dia. O certo é que ao fim desse período, quase que totalmente esquelético, no limite das suas forças e não conseguindo mais raciocinar com acerto, utiliza-se do intelecto e compreende que o enfraquecimento do corpo material não permite que as faculdades espirituais se revelem, que de tal modo não seria conduzido ao despertar, pois a tortura em si mesma é vã e sem saída. Concluiu, então, que a vida de privações não valia mais do que a vida de prazeres que tinha levado anteriormente. Resolve então renunciar ao ascetismo e volta a se alimentar de forma equilibrada. Tal renúncia leva os cinco discípulos que o haviam seguido até a cidade de Bodh Gaya a o abandonarem, totalmente escandalizados.

Procurando, então, seguir o próprio caminho a que tinha se comprometido em plano astral, sem a orientação de qualquer poder de natureza sobrenatural, o que indica que ele estava raciocinando com acerto, confiando apenas no seu próprio esforço e nas intuições advindas do alto, aprimora o processo de percepção do seu criptoscópio e passa a ver as coisas, os fatos e os fenômenos universais de maneira mais real. Dessa forma, consegue alcançar a percepção de algumas verdades, da natureza da vida e do determinismo que a rege.

Aos trinta e cinco anos, sentado sob uma figueira, e após haver vencido Mara, o demônio das ilusões, mas que eram os espíritos obsessores quedados no astral inferior, cai em profunda meditação, podendo-se compreender aqui que o seu espírito havia se alçado ao Espaço Superior. É o momento em que ocorre a iluminação. Pela primeira vez, então, reconhece no mal a causa de todos os sofrimentos humanos e vislumbra os meios pelos quais poderia conseguir triunfar sobre eles. É por isso que os estudiosos somente passam a denominá-lo de Buda a partir desse instante. Os textos, então, a partir daí, designam o Buda, o Desperto, o Iluminado, sob os nomes mais diversos, além do seu verdadeiro nome Siddhartha, Aquele Que Atinge o Objetivo, e Gautama, O Mais Vitorioso Sobre a Terra, pois pode se encontrar também Çakyamuni, O Sábio Saído dos Çakyas, Bhagavat, Aquele Que Possui a Felicidade, o Bem-Aventurado, Tathagata, Aquele Que Chegou, o Perfeito, e Jina, o Vitorioso.

Tendo assim alcançado ao fim tão desejado, Buda passa então a ensinar aquilo que percebeu e captou, começando pelo dama, o caminho que conduz à libertação do todo o sofrimento deste mundo. O seu primeiro sermão é conhecido como o Sermão de Benares, ou o Caminho do Meio, o qual ele transmite da seguinte maneira:

Há dois extremos, ó monges, que devem ser evitados por aqueles que renunciaram ao mundo. O primeiro é a vida de prazeres, consagrada aos prazeres e à concupiscência, especialmente à sensualidade, pois essa vida é ignóbil, aviltante e estéril. O segundo é a prática habitual do ascetismo, infligindo ao corpo material uma vida de cruéis austeridades e penitências rigorosas, automortificações que são penosas, tristes, dolorosas e estéreis. Mas há uma vida que tende à perfeição, ó monges, que evita esses dois extremos, ou seja, levar uma vida humana normal, porém refreando todas as tendências egoístas e todos os desejos que perturbam a nossa mente, é o caminho que abre os olhos e dá a compreensão, que leva à paz, à sabedoria e à plena iluminação, ao Nirvana”.

Nesse Sermão de Benares, são enunciadas as Quatro Nobres Verdades e o Caminho dos Oito Passos, que constitui a essência do ensinamento budista, que são os seguintes:

  1. A dor é universal, ninguém pode se livrar dela, desde a encarnação até a desencarnação;
  2. A causa da dor é o desejo, que induz a reencarnar e a continuar a desejar e a sofrer;
  3. A libertação da dor é obtida através da supressão do desejo e da ausência de paixões de todo gênero;
  4. Pode-se conseguir a esse resultado somente procurando o Caminho Santo, que se ramifica em oito direções:
    1. A da justa fé;
    2. A da justa conduta;
    3. A da justa aspiração;
    4. A da justa conversação;
    5. A do justo modo de vida;
    6. A do justo esforço;
    7. A da justa recordação;
    8. A da justa meditação.

Em outro sermão, perante o rei Bambisara, de Magadha, ele resume a essência da sua doutrina em uma frase bastante simples, a que chamaria A Lei Eterna, da seguinte maneira:

De tudo que teve uma origem causal, aquele que encontrou a verdade mostrou a causa. E de todas essas coisas, o Grande Asceta igualmente mostrou a cessação”.

Pode-se constatar, então, que naquele tempo Buda já sabia que nos conhecimentos metafísicos acerca da verdade estavam contidas as causas de tudo, e que nas experiências físicas acerca da sabedoria estavam contidos os efeitos, embora a sua preocupação maior fosse com as dores.

Quando completa oitenta anos de idade, Buda percebe que a sua desencarnação está próxima. Ananda, o seu mais fiel discípulo, pergunta-lhe então que instruções deixaria aos monges mendicantes para que prosseguissem na difusão do sentimento do Mestre. E ele responde da seguinte maneira:

Por que deixarei eu instruções concernentes à comunidade? Aquele que encontrou a verdade pregou a lei plenamente, sem nada dissimular. Nada mais resta senão praticar, contemplar e propagar a verdade por esse mundo afora, para o maior bem dos homens e dos espíritos. Os mendicantes não devem contar com qualquer apoio exterior, devem tomar o ‘eu’ por refúgio, a Lei Eterna como refúgio… e é por isso que eu vos deixo, parto, tendo encontrado refúgio no meu ‘eu’, que é interior”.

Podemos ver aqui a imensa influência de Krishna revolucionando a mentalidade desta nossa civilização, pois no budismo o ser humano já começa a traçar o seu próprio caminho, pois não há deuses a adorar e nem preces e sacrifícios a realizar, afirmando-se então como sendo uma reação contra o irracionalismo dos credos que imperavam na Índia nessa época, sobretudo do bramanismo, que privilegiava a classe sacerdotal — a dos brâmanes — em detrimento das demais classes.

Encarnando com uma sublime missão de procurar a verdade e espantar os credos e as suas seitas, ao dar o exemplo de uma vida digna e repleta de moral, ciente de que tinha seguidores de todos os gêneros, Buda prega que o verdadeiro culto não consiste em oferecer incenso, flores ou outras coisas materiais, mas no esforço por seguir o caminho correto daquele a quem reverencia, que é justamente o caminho da moral.

Como que antecipando em muitos séculos a doutrina do Racionalismo Cristão, Buda afirma que todos os seres e todas as coisas são constituídos de uma mesma essência, embora pareçam diferentes segundo as formas que tomam, em consequência das influências que recebem de algo, que completando o seu sentimento podemos denominar de corpo fluídico. Assim, as coisas como se formam, agem, e como agem, são. Ele compara, então, com um oleiro que fabrica vasilhas diferentes com o mesmo barro, cada uma dessas vasilhas terá o seu destino, pois uma servirá para o arroz, outra para a manteiga, outra para o leite e algumas serão usadas para depósitos de impurezas, mas não há diferença no barro empregado, e sim no modelo dado pelo oleiro, segundo os diversos usos requeridos pelas circunstâncias. E arremata quando diz que analogamente todos os seres evolucionam de acordo com uma só lei e se destinam ao mesmo fim, que é o Nirvana. Neste caso, Nirvana são os Mundos de Luz puríssima.

Como que a combater aos sacerdotes que pregam as mais deslavadas mentiras, o que a história confirma em todas as épocas desta nossa civilização, sempre na tentativa de trazer encabrestados aos seus desejos de riqueza e poder os incautos cretinos que fabricam em larga escala, Buda solta a seguinte pérola:

Não acrediteis em algo apenas por ouvir dizer. Não acrediteis na fé das tradições só porque foram transmitidas por longas gerações. Não acrediteis em algo só porque é dito e repetido por muita gente. Não acrediteis em algo só pelo testemunho de um sábio antigo. Não acrediteis em algo só porque as probabilidades a favorecem ou porque um longo hábito vos leva a tê-la por verdadeira. Não acrediteis no que imaginastes, pensando que um ser superior a revelou. Não acrediteis em algo apenas pela autoridade dos mais velhos ou dos vossos instrutores. Mas naquilo que vós mesmos experimentastes, provastes e reconhecestes verdadeiro, aquilo que corresponde ao vosso bem e ao bem dos semelhantes. Isto sim, deveis aceitar, e por isso moldar a vossa conduta”.

Como que a favorecer ao ambiente no qual Buda iria encarnar, alguns espíritos encarnaram lhe antecipando um pouco no tempo, cujo quadro aos poucos vai tomando forma ao lado dos sacerdotes. Era uma variedade de seres humanos libertos mentalmente que desprezavam a classe sacerdotal, não acreditavam nos seus deuses e muito menos nos seus cultos e rituais, os quais adotaram o nome de Nastiks, ou niilistas. Parece que por influência dos sábios que aparecem nos Upanishads, pois às vezes eles motejam dos sacerdotes, como quando Chandogya Upanishad assemelha a classe sacerdotal a uma procissão de cães, um a agarrar a cauda do outro e a dizerem “piedosamente” em coro: “Om, comamos. Om, bebamos”.

Na época budista, o órgão mental por intermédio do qual se alcança as profundezas do poder criador, que é o intelecto, responsável pela nossa compreensão, cujo ápice do desenvolvimento nos remete aos pendores saperológicos, estava em pleno progresso na Índia, pois quando Buda entrou na virilidade encontrou as salas, as ruas e até as florestas ressoantes de disputas intelectuais, com grandes tendências ateístas e materialistas. O último dos Upanishads e os mais antigos livros budistas estão repletos de referências a essas tendências consideradas como sendo heréticas. Uma grande classe de sofistas itinerantes, denominados de Paribbajaka, ou Viajantes, gastavam parte do ano em ir de uma localidade a outra em procura de discípulos ou adversários intelectuais, com alguns deles ensinando a lógica como sendo a arte de provar tudo quanto queremos, enquanto outros procuravam demonstrar a inexistência de Deus e até a inutilidade da moral, pois que seguiam mais os pendores éticos, já que eram intelectuais, situando-se do lado da sabedoria, ao invés de do lado da verdade. Grandes assistências se formavam para apreciar a essas preleções e debates, em decorrência, grandes salões foram construídos para acomodá-los. Às vezes, até os príncipes ofereciam recompensas aos vencedores de tais justas intelectuais. Foi uma época de absoluta liberdade de pensamentos e de inúmeras experiências no campo intelectual.

E o intelecto se evidencia ainda mais através de uma escola de materialistas hindus conhecidos pelo nome de um deles, os charvakas. Eles riam do pensamento de que os Vedas fossem revelação divina. Como evidenciavam a natureza experimental física das coisas, dos fatos e dos fenômenos universais, sem ainda conseguirem evidenciar a natureza dos conhecimentos metafísicos, oriundos do criptoscópio, diziam que nunca se pode conhecer nada, a não ser através dos sentidos, e que nem na própria razão podemos confiar, porque cada inferência depende, para a sua validade, não só da acurada observação e do correto raciocínio, como também da admissão de que as coisas no futuro se comportarão como no passado, e disto, como também iria dizer Hume, no futuro, não podemos ter certeza.

Charvakas diz que aquilo que não é percebido pelos sentidos não existe, levando-o a supor que a alma, neste caso, não existe. Mas o fato é que ele demonstrava a ignorância em relação ao astral inferior, quando disse que não observamos através da experiência ou mesmo da história, nenhuma interposição de forças sobrenaturais nos acontecimentos do mundo, pois todos os fenômenos são naturais, e só os ingênuos os relacionam aos deuses e demônios. No entanto, equivoca-se totalmente ao considerar a matéria como sendo a única realidade, o que é compreensível, pelo fato dela estar presente em tudo neste mundo, pois até Luiz de Mattos, o veritólogo maior, escorregou em seus efeitos, quando acrescentando a propriedade da Força a ela, afirmou que o Universo é composto de Força e Matéria.

Mas o fato é que Charvakas, nessa sua linha de pensamento, por considerar o corpo material apenas uma combinação de átomos, logicamente ignorando a existência dos seres moleculares, celulares, orgânicos e aparelhantes, conclui que o espírito é mera matéria pensante, e que o corpo material, e não a alma, sente, vê, ouve e pensa. Assim, ignorando os relatos dos médiuns videntes, indaga o seguinte: “Quem já viu a alma separada do corpo material?”. Ao que arremata dizendo que não há imortalidade, não há reencarnação, o credo é uma monstruosidade, uma doença ou uma patifaria, a hipótese de um Deus é inútil para a explicação e a compreensão do mundo, os homens julgam o credo necessário porque, estando a ele afeitos, sentem um vácuo sempre que o crescer do conhecimento destrói a fé; a moralidade também é natural, pois é uma convenção social e uma conveniência, nada tem de divino; a natureza é indiferente ao bom ou ao mau, à virtude ou ao vício; o Sol brilha indistintamente sobre os ladrões e os santos; se há na natureza alguma qualidade ética, só pode ser a sua transcendente imoralidade; não é necessário controlar o instinto e a paixão porque disto se encarrega a natureza, uma vez que ela transmite instruções ao homem; a virtude é um equívoco; o propósito da vida é viver; e a única sabedoria é a felicidade.

Essa manifestação intelectual revolucionária dos Charvakas pôs fim à era dos Vedas e dos Upanishads. Enfraqueceu o poder dos brâmanes sobre a mentalidade comum na Índia e deixou em seu povo um ambiente propício ao surgimento dos conhecimentos veritológicos que iriam ser proporcionados por Buda e Mahavira, mesmo que por intermédio desses veritólogos surgissem dois credos através dos seus seguidores. E foi tão profunda a influência dos intelectuais, que esses dois credos que viriam substituir ao védico, seriam constituídos sem qualquer deus a ser adorado, os quais os estudiosos longe de compreenderem a influência de Jesus, o Cristo, ainda na condição de Antecristo, consideram estranhas e denominam de ateísticas, mas que já vimos que não são. Assim, com o advento do budismo e do jainismo, uma nova época iria se iniciar na história da Índia, mudando a mentalidade do seu povo.

Há que se destacar o fabuloso criptoscópio de Buda, que em alta concentração na captação perceptiva da verdade, dotado de uma extrema moral, dirigiu as suas ideias para o vir e ir dos seres humanos, desembaraçando as dúvidas sobre o preceito da reencarnação, pois com a sua visão altamente espiritualizada, acima de qualquer visão já desenvolvida desde então, quase super-humana, de natureza divinal, pura em todos os sentidos, passou praticamente a ver os seres humanos encarnarem e desencarnarem, altos e baixos, bonitos e feios, inteligentes e obtusos, bons e maus, de diferentes cores de pele, em felizes ou em miseráveis existências, de acordo com os seus carmas, que na sua concepção significava estar de acordo com a lei pela qual cada ato de bondade ou maldade era recompensado ou punido nesta vida ou em outra encarnação do espírito.

Então não se pode concordar com os estudiosos de que o budismo, por não adorar qualquer deus, seja ateísta. E os ensinamentos de Buda, infelizmente, transformados em credo e seitas, eram tão espiritualizados e tão voltados para a evolução, que ele não admite alguém conceber a interrupção do nascimento, ou seja, da reencarnação. E por quê? Porque a lei do carma exige novas reencarnações para que a alma possa reparar os males feitos em vidas passadas. Se, entretanto, um ser humano viver uma vida de perfeita justiça, de invariável paciência e bondade para com todos os seus semelhantes, caso possa ligar os seus sentimentos e os seus pensamentos às coisas eternas, não os ligando apenas ao que é material e efêmero, então, talvez, fosse-lhe poupada uma nova encarnação, e nele a fonte da vida relativa a este mundo se extinguisse. Aqui Buda prediz a grande importância das vibrações magnéticas, radiações elétricas e radiovibrações eletromagnéticas aos espíritos de luz que formam a plêiade do Astral Superior. Se um ser humano pudesse silenciar a todos os desejos e só procurasse fazer o bem, então a individualidade, essa primeira e a pior ilusão humana, poderia ser suprimida, permitindo que a alma, afinal, se fundisse com o infinito consciente. A paz só se alcança com a alma liberta de todos os desejos pessoais! E que alma, sem se libertar dos desejos, pode conhecer a paz? A felicidade é possível sim, mas não aqui na Terra, nem em outro mundo imaginado pelos credos, mas sim na quietude sem fim do Nirvana. Aqui, podemos considerar o Nirvana como sendo os nossos Mundos de Luz.

E para ressaltar ainda mais a importância das vibrações magnéticas, radiações elétricas e radiovibrações eletromagnéticas ao Astral Superior, ao invés das inúteis preces, rezas e orações, sempre carregadas de submissão e desejos adoratórios, geralmente finalizadas com o abominável peditório, também criticadas pelo próprio Buda, que sorri à ideia de enviá-las ao incognoscível, quando diz:

É loucura supor que outro ente possa ser a causa da nossa felicidade ou da nossa miséria, pois tanto uma como a outra são sempre produtos do nosso comportamento e dos nossos desejos”.

Justamente por isso, ele se recusa terminantemente a inserir em seu código moral tudo aquilo que diga respeito ao sobrenaturalismo, o que o leva a decretar a inexistência do céu, do purgatório e do inferno.

Um de seus discípulos concluiu que Buda aprovava o suicídio, mas Buda negou, pois dizia que o suicídio é inútil desde que a alma, ainda não purificada, renasce em outras encarnações, até que alcance o completo esquecimento de si própria.

Buda era tão evoluído que por toda parte da Índia introduziu elementos da sua doutrina admiravelmente antecipatórios aos de Jesus, o Cristo, pois nela está contida que o homem pague a cólera com a bondade, o mal com o bem; a vitória gera ódios, porque o conquistado é infeliz; nunca no mundo o ódio curou o ódio, pois o ódio se cura com o amor. E como se não bastassem esses profundos ensinamentos de espiritualidade e sabedoria cristãs, ele ainda os completa admiravelmente quando diz o seguinte:

Quando nos vemos como partes do Todo, quando reformamos as nossas almas suprimindo os seus desejos tendo em vista o Todo, então os nossos desapontamentos e as nossas derrotas, os nossos mais variados sofrimentos e a morte, já não nos amarguram como antes, pois se perdem na amplitude do infinito. Quando aprendemos a amar, não a nossa vida separada, mas a todos os seres humanos e a todas as coisas vivas, então, finalmente, encontramos a paz”.

Por ignorar naturalmente, em sua época, que a religião é a grande responsável por perceber e captar os conhecimentos metafísicos relativos a uma parcela do saber, servindo assim de fonte para que as ciências possam criar as experiências físicas correspondentes, a concepção de Buda a respeito da religião era puramente baseada na conduta moral do ser humano, já que ela é a condição básica para que o religiosos possa se alçar ao Espaço Superior. Assim, ele ordenou tudo a respeito da conduta moral e nada, absolutamente nada, sobre adoração, cultos e rituais, ou mesmo sobre a inútil Teologia. Por isso, quando um brâmane falou em se purificar dos pecados com um banho em Gaia, Buda lhe disse o seguinte:

Toma aqui mesmo o teu banho, ó brâmane. Sê bom para com todos os seres. Se não falas falsidades, se não destróis a vida, se não tiras o que te não é oferecido, que coisa ganharás indo a Gaia? Qualquer água para ti vale a de Gaia”.

É por isso que Charles Eliot, em relação a Buda, diz o seguinte:

O mundo não é concebido como sendo o trabalho manual de uma personalidade divina, nem a moral como sendo a vontade dessa personalidade divina. O fato de uma religião poder existir sem essas ideias é da maior importância (grifo meu)”.

E realmente agora, através do Racionalismo Cristão, a religião está revelando a sua existência sem essas ideias, pois está sendo posta em seu devido lugar, como fonte da ciência, ao ser arrancada das garras aduncas da classe sacerdotal, que dela se apoderou indevidamente, sendo, pois, uma apropriação indébita, por força da inteligência incontestável demonstrada pelo espírito humano, e não por qualquer outro meio, principalmente o escuso, como o adotado por essa triste e lamentável classe.

Na qualidade de veritólogo, além do criptoscópio extremamente desenvolvido, Buda tinha também o intelecto altamente desenvolvido, já que compreendia que havia ainda muitos outros conhecimentos além da sua percepção, pois ele se recusava a discutir o infinito e a Deus. Como realmente a nossa compreensão não consegue conceber ou imaginar o infinito, Buda o considera como sendo um mito, como sendo uma ficção dos saperólogos que não têm a modéstia de confessar que um ser não pode compreender o cosmos, então sorri do debate sobre o finito e o infinito do Universo, como que a prever o inútil debate dos astrônomos, dos físicos, dos astrofísicos e dos matemáticos, que ainda hoje discutem essas questões entre si. Recusa-se prudentemente a tecer qualquer comentário sobre a formação ou até mesmo sobre qualquer hipótese acerca do fim do mundo, como hoje fazem, equivocada e precipitadamente, os que seguem os credos, sobre se a alma é ou não distinta do corpo, sobre se mesmo para o maior santo haverá recompensa futura. A todas essas questões ele denomina de a floresta, o deserto, o teatro de bonecos, o desvio e o emaranhamento da especulação, por isso não tenta penetrar nesses assuntos, pois tais questões só conduzem à disputa áspera, aos ressentimentos pessoais e a aflição, e nunca à verdade e a sabedoria, portanto, à paz da razão. Mas é ciente de que a santidade e a satisfação não trazem qualquer conhecimento de Deus e do Universo, apenas a vida de bondade sem qualquer egoísmo. Assim, denotando que também era provido de um fino senso de humor, sugere ironicamente que os próprios deuses, se indagados, não saberiam responder a essas questões.

O que acontece hoje em dia quando formulamos questões racionais aos sacerdotes que julgam conhecer a tudo, tendo sempre por base os livros ditos sagrados, que também se arvoram de conhecer inclusive a Deus, não ao verdadeiro, mas ao deus bíblico ou outros, revelando os seus mil e um desejos e os pondo nos seus seres supremos, que por isso ainda se arvoram de resolver a todos os problemas humanos, com o intuito de fabricar cretinos e arrebanhar prosélitos? Buda nos responde da seguinte maneira:

Existem, irmãos, alguns reclusos e brâmanes que se retorcem feito enguias, por isso quando uma questão racional lhes é proposta eles recorrem ao equívoco, aos movimentos da enguia”.

Sendo extremamente racional, Buda não ameniza as ações maléficas dos sacerdotes, mesmo na sua época, critica-lhes com veemência a admissão de serem os Vedas inspirados pelos deuses, e escandaliza e enfurece a orgulhosa e preconceituosa casta bramânica com o aceitar em sua doutrina membros de qualquer casta; denuncia como maléficos os sacrifícios aos deuses e observa horrorizado a chacina de animais nesses ritos; rejeita os cultos e a adoração de entidades sobrenaturais, bem como todos os mantras e encantações, todo o ascetismo, preces, rezas e orações. Ele estabelece racionalmente uma doutrina absolutamente livre dos dogmas e da classe sacerdotal, e proclama um caminho da salvação aberto igualmente para os fiéis e os infiéis, a salvação verdadeira, não a infernal, que será a separação entre o joio e o trigo anunciada por Jesus, o Cristo.

Por fim, podemos observar na esposa de Buda o exemplo da verdadeira mulher, que fazendo aqui uma breve digressão, nasce sempre para o lar, invariavelmente com o dever de ser esposa, mãe e educadora, educando as filhas para desempenhar o mesmo papel e o esposo e os filhos para transformar o mundo, a fim de que este se torne melhor, mais humano, mais digno de se viver, sempre com vistas à espiritualização dos seus viventes racionais, uma vez que tal desiderato depende fundamentalmente desse dever da mulher. Daí a importância dela se colocar no seu devido lugar e abandonar a esse desejo quase incontrolável de querer ser igual ao homem, na sua ânsia incontida por querer ganhar o mundo e viver para o mesmo, masculinizando-se quase que totalmente e se entregando aos mais diversos tipos de prazeres mundanos, notadamente ao prazer sexual desenfreado, ao qual se oferece com ou sem qualquer namorico, anunciando a plenos pulmões ao próprio mundo que tudo isso faz parte da “libertação da mulher”. Quanta insensatez! Quanta falta de espiritualidade! Quanto desleixo para com o cumprimento do dever! Quanta irresponsabilidade com a própria prole que gera! Ora, se a mulher insiste em ser mundana que encarne como homem, pois este sim é quem encarna como sendo o gênero encarregado de lidar com o mundo. Mas enquanto a mulher vai se masculinizando cada vez mais, o homem por sua vez vai se efeminando também cada vez mais, por aceitar e ainda incentivar e promover o desejo insano da mulher, já ensaiando ser o responsável pelas prendas do lar. E estas afirmativas, por hipótese alguma, nada tem a ver com qualquer alusão acerca de um suposto machismo, muito pelo contrário, pois na qualidade de eterna rainha do lar, cujas mentes deveras atrasadas bradam estupidamente hoje em dia ao mundo que o termo “já era”, por considerarem ser antiquado. Mas a mulher deve assumir desde logo o seu papel de educadora-mor do mundo, o qual somente pode ser desempenhado no teatro do lar, podendo também ser estendido aos centros educacionais, secundariamente. Por isso o papel da mulher neste mundo deve ser dito e repetido tantas e quantas vezes se fizerem necessárias, tanto para o bem de quem encarna com tal gênero como para o próprio bem de toda a nossa humanidade.

De saída da pequena digressão, e de volta à esposa de Buda, a tradição nos diz que ela permanecera fiel durante toda a longa separação, pois se ajoelhou diante dele, abraçou-lhe os pés e o reverenciou como um deus, que na realidade ele o era, não no sentido mitológico do termo, mas pela superioridade do seu espírito, pelo fato de Deus se encontrar nele contido, consoante o seu estágio evolutivo, apesar de tais deferências serem reprováveis, pois ninguém deve ser submisso a quem quer que seja, muito menos a Deus, posto que neste mundo pouquíssima noção Dele nós conseguimos adquirir, já que somos convictos apenas da sua existência e o que conseguimos até hoje, à custa de um extremado esforço, foi nos inteirarmos da sua composição como Essência, o Ser Total, do qual somos partículas individualizadas, mas sem ainda compreendermos a natureza desse processo de individualização, posto pela Veritologia e não pela Saperologia, mas que esta deverá explanar em um futuro muito breve, com o imprescindível advento do Esperanto, e também como Propriedades, a Força, a Energia e a Luz, cujas Propriedades nós vamos adquirindo no decorrer do complexo processo evolutivo.

E sem qualquer intenção de querer ser novamente digressivo, mas sendo forçado às explicações plausíveis, o rei Suddhodana, seu pai, disse a Buda do grande amor que ela lhe consagrava, e se dirigindo ao filho com grande reverência e respeito, como que a relevar os laços familiares e reverenciar a superioridade espiritual, assim se expressou:

Senhor, quando a minha nora soube que estavas usando a veste amarela dos monges, também vestiu esse traje; quando soube que tinhas uma só refeição por dia, passou a fazer o mesmo; quando soube que não dormias em leito amplo e confortável, passou a dormir em um estreito e desconfortável, e quando soube que tinhas abandonado enfeites e perfumes, também os abandonou”.

Que mulher dedicada ao marido e que mulher digna da mais alta admiração neste mundo! Mas inteiramente voltado para a sua missão espiritualizadora da nossa humanidade, a qual ele acertadamente pôs acima dos laços familiares, vibrou, radiou e radiovibrou para ela, e seguiu então o seu caminho, que somente os seres humanos altamente espiritualizados podem compreender em todo o seu esplendor e em toda a sua magnitude verdadeiramente cristã, apesar de Krishna ainda não haver alcançado ainda essa condição evolutiva do Cristo, tendo que permanecer por vários séculos ainda como o Antecristo.

Tal era a sublime missão de Buda neste mundo, que se propagou até no espírito do seu filho Rahula, que admirado e até orgulhoso de ter um pai com tantas qualidades superiores, o amou mais ainda, decidindo por acompanhá-lo em todos os momentos, o que se comprova quando ele assim se expressa:

Agradável é a tua luz ascética”.

E a esposa de Buda, denotando novamente ser detentora das grandes prendas relativas a uma verdadeira mulher, que educa e prepara o filho para o mundo, aceitou o filho na ordem budista, embora quisesse vê-lo no trono. Então Nanda, outro príncipe, foi escolhido para ser o herdeiro da coroa. Mas ficou também tão admirado e orgulhoso de Buda, que abandonou a cerimônia pelo meio, e lhe pediu para também entrar na ordem.

Buda desencarnou em 483 a.C., com a idade de oitenta anos. As suas últimas palavras foram as seguintes:

Agora, monges, dirijo-me a vós. Sujeitas às transformações estão todas as coisas. Esforçai-vos com fervor”.

Ora, tais palavras revelam por inteiro o preceito da evolução universal. Que lição de espiritualidade nos dá esse Mestre!

Fora da Índia, o budismo atingiu grande difusão, mas foi quase que totalmente transformado através de adaptações locais às crenças já existentes nos diversos países em que se implantou. Das muitas ramificações em que se desdobrou em forma de seitas, podemos distinguir três grandes correntes, as quais são denominadas de Os Três Veículos, que são as seguintes:

  1. O Pequeno Veículo (Hinayana): que se restringiu aos ensinamentos originários de Buda, sem admitir qualquer adaptação. Foi a linha mais ortodoxa, que se difundiu primordialmente no Ceilão, na Birmânia, na Tailândia e na Indonésia.
  2. O Grande Veículo (Mahayana): que procura inserir interpretações saperológicas mais aprofundadas aos ensinamentos de Buda, tentando realçar o aspecto social. Difundiu-se, sobretudo, na China, na Coreia e no Japão, onde se misturou ao xintoísmo local e de onde se originou o zen-budismo.
  3. O Veículo Tântrico (Vajrayana): que se utiliza de processos mágicos e de força divina para se chegar à iluminação. Implantou-se, principalmente, nas regiões do Tibete e da Mongólia.

 

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