09.01- Auguste Comte

A Era da Verdade
19 de fevereiro de 2020 Pamam

Isidore Auguste Marie François Xavier Comte encarnou em Montpellier, na França, em 1798, e desencarnou em Paris, na França, em 1857, tendo sido um veritólogo que formulou a doutrina do Positivismo, sendo considerado o primeiro filósofo da ciência no sentido moderno do termo, sabendo-se que a filosofia da ciência é o campo da pesquisa filosófica que estuda os fundamentos, pressupostos e implicações filosóficas da ciência, incluindo as ciências naturais como Física e Biologia, e as ciências sociais, como Psicologia e Economia. Auguste Comte também é considerado como sendo o fundador da disciplina acadêmica da Sociologia.

Em 1814, aos dezesseis anos de idade, com interesses pelas ciências naturais, conjugado às questões históricas e sociais, ingressou na Escola Politécnica de Paris. No período de 1817 a 1824, foi secretário do conde Henri de Saint-Simon, que era um expoente do socialismo utópico, uma corrente do socialismo muitas vezes descrita como a apresentação de visões e contornos para as sociedades ideais imaginárias ou futuristas com ideais positivos, sendo a principal razão para mover a sociedade nessa direção.

São dessa época alguns dizeres tidos como fundamentais, como “Tudo é relativo, eis o único princípio absoluto”, de 1819, e a lei dos três estados, que diz que “Todas as concepções humanas passam por três estágios sucessivos: o teológico, o metafísico e o positivo; com uma velocidade proporcional à velocidade dos fenômenos correspondentes”, de 1822, como veremos mais adiante.

Auguste Comte rompeu com o conde Henri de Saint-Simon por discordar das ideias deste sobre as relações entre a ciência e a reorganização da sociedade, estando convicto de que o mestre priorizava auxílio à elite industrial e científica do período, com sacrifício da reforma teórica do conhecimento.

Em 1826, sofreu um colapso nervoso enquanto trabalhava na formulação de uma saperologia, ou filosofia, positiva, supostamente desencadeado por problemas conjugais. Estando recuperado do colapso nervoso, iniciou a redação do Curso de Filosofia Positiva, cuja obra foi renomeada para Sistema de Filosofia Positiva, em 1848, trabalho que lhe tomou vinte e dois anos.

Acabou perdendo o emprego de examinador de admissão à Escola Politécnica por criticar a corporação universitária francesa, quando então começou a ser ajudado por admiradores, como o inglês Stuart Mill. Separou-se de Caroline Massin, após dezessete anos de casamento. Em 1845, apaixonou-se por Clotilde de Vaux, que desencarnaria no ano seguinte, vítima de tuberculose.

Escreveu o Sistema de Política Positiva entre 1851 e 1854, em cuja obra expôs algumas das principais consequências de sua concepção do mundo, concepção esta não teológica e não metafísica, propondo uma interpretação pura e plenamente humana para a sociedade, sugerindo soluções para os problemas sociais. No volume final da obra apresentou as instituições principais de sua Religião da Humanidade.

Em 1856, publicou o primeiro volume de Síntese Subjetiva, projetada para conter quatro volumes, cada um a tratar de questões específicas das sociedades humanas, quais sejam: lógica, indústria, pedagogia e psicologia. Em 1857, desencarnou em Paris, possivelmente de câncer, por isso não pôde concluir a sua obra, tendo sido sepultado no Cemitério do Père-Lachaise, em Paris. A sua última residência, situada na rua Monsieur-le-Prince, número 10, foi posteriormente adquirida por positivistas e transformada no Museu Casa de Auguste Comte

A saperologia, ou filosofia, positiva de Auguste Comte nega que a explicação tanto dos fenômenos naturais como dos sociais sejam provenientes de um só princípio. A visão positiva dos fatos abandona a consideração das causas dos fenômenos como sendo provenientes de Deus, pesquisando as suas leis, vistas como sendo relações abstratas e constantes entre os fenômenos observáveis.

De acordo com Auguste Comte, adotando os critérios históricos e sistemáticos, antes da Sociologia, outras ciências abstratas atingiram a positividade, tais como a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química e a Biologia, e assim como nessas ciências, em sua nova ciência, inicialmente denominada de Física Social, posteriormente denominada de Sociologia, o veritólogo utilizaria a observação, a experimentação, a comparação e a classificação como métodos, resumidas na filiação história para a compreensão, ou para o conhecimento da realidade social. Ele afirma que os fenômenos sociais podem e devem ser percebidos como os outros fenômenos da natureza, obedecendo a leis gerais. Entretanto, sempre insistiu e argumentou que isso não equivale a reduzir os fenômenos sociais a outros fenômenos naturais, pois isso seria cometer o erro teórico e epistemológico do materialismo, enquanto que a fundação da Sociologia implica que os fenômenos sociais são um tipo específico de realidade teórica e que devem ser explicados em termos sociais.

Em 1852, Auguste Comte instituiu uma sétima ciência, a moral, cujo âmbito de pesquisa é a constituição psicológica do indivíduo e as suas interações sociais, ignorando completamente que a moral é o atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica, ao evoluir por intermédio da propriedade da Força, enquanto que a ética é o atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica, ao evoluir por intermédio da propriedade da Energia, e que a educação é o atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica, ao evoluir por intermédio da propriedade da Luz.

Os estudiosos consideram que o conhecimento positivo busca ver para prever, a fim de prover, quer dizer, conhecer a realidade para saber o que acontecerá a partir das nossas ações, para que o ser humano possa melhorar a sua realidade. Dessa forma, a previsão científica caracteriza o pensamento positivo.

De acordo com Auguste Comte, o espírito positivo tem a ciência como a investigação do real, quando, na realidade, a investigação do real cabe à Veritologia, que unida, irmanada, congregada, com a Saperologia, alcança o Saber, por excelência. De qualquer maneira, o espírito positivo, no social e no político, passaria o poder espiritual para o controle dos filósofos positivos, cujo poder, nos termos comtianos, é exclusivamente baseado nas opiniões e no aconselhamento, constituindo a sociedade civil e afastando a ação política prática desse poder espiritual, o que afasta o risco da tecnocracia, que é o modelo de governabilidade funcional, no qual há a aplicação das ciências no ciclo de todas as cadeias produtivas, garantindo a sustentabilidade da espécie humana, denominada nos termos comtianos de pedantocracia.

Em termos gerais, o método positivo se caracteriza pela observação, devendo-se perceber que cada ciência, ou cada tipo de fenômeno tem as suas particularidades, de modo que o método específico de observação para cada fenômeno deverá ser diferente. Além disso, a observação se conjuga com a imaginação, com ambas fazendo parte da compreensão da realidade, sendo igualmente importantes, mas a relação entre ambas muda quando se passa da Teologia para a positividade, como se a imaginação fizesse parte da realidade. Assim, para Auguste Comte não é possível fazer ciência sem a imaginação, ou seja, sem uma ativa participação da subjetividade individual e, por assim dizer, coletiva, em que o importante é que essa subjetividade seja a todo instante confrontada com a realidade, ou seja, com a objetividade.

Dessa forma, para Auguste Comte há um método geral para as ciências, que é a observação subordinada à imaginação, mas não um método único para todas as ciências, além disso a compreensão da realidade lida sempre com uma relação contínua entre o abstrato e o concreto, entre o objetivo e o subjetivo. As conclusões epistemológicas a que Auguste Comte chega só são possíveis com o estudo da humanidade como um todo, o que implica na fundação da Sociologia, que para ele é necessariamente histórica.

Além da realidade, mas que não tem nada de realidade, uma vez que a imaginação é própria da irrealidade, pois que se raciocina por intermédio da representação de imagens, outros princípios caracterizam o Positivismo, como o relativismo, o espírito de conjunto, que hoje em dia é denominado de holismo — que no campo das ciências humanas e naturais é a abordagem que prioriza o entendimento integral dos fenômenos, em oposição ao procedimento analítico em que os seus componentes são tomados isoladamente, como, por exemplo, a abordagem sociológica que parte da sociedade global e não do indivíduo —, e a preocupação com o bem público, tanto o coletivo como o individual. Na verdade, em sua obra Apelo aos Conservadores, Auguste Comte apresenta sete acepções para o termo positivo, que são os seguintes:

  1. Real;
  2. Útil;
  3. Certo;
  4. Preciso;
  5. Relativo;
  6. Orgânico;
  7. Simpático.

LEI DOS TRÊS ESTADOS

Segundo os estudiosos do assunto, o alicerce fundamental da obra comtiana é a Lei dos Três Estados, que teve como precursores dessa ideia estimuladora de novas criações os estudiosos Turgot e Condorcet, em que este último vem afirmar que a nossa humanidade avança de uma época bárbara e mística para uma outra civilizada e esclarecida, com melhoramentos contínuos, e, em princípio, infindáveis, sendo essa marcha o que explicaria a marcha da história.

A partir da percepção do progresso humano, Auguste Comte formulou a Lei dos Três Estados, pois observando a evolução das concepções inteligenciais da nossa humanidade, ele percebeu que essa evolução passa por três estados teóricos diferentes, quais sejam:

  1. Teológico: em que os fatos observados são explicados pelo sobrenatural, por entidades cuja vontade arbitrária comanda a realidade. Assim, busca-se o absoluto e as causas primeiras e finais, como de onde vim e para onde vou, em que a fase teológica tem várias subfases, como o fetichismo, o politeísmo e o monoteísmo;
  2. Metafísico: em que já se passa a pesquisar diretamente a realidade, mas ainda há a presença do sobrenatural, de modo que a metafísica é uma transição entre a Teologia e a positividade, em que o que caracteriza são as abstrações personificadas, de caráter ainda absoluto, como a natureza, o éter, o povo e o capital;
  3. Positivo: em que ocorre o apogeu do que os dois anteriores prepararam progressivamente. Neste estado, os fatos são explicados segundo as leis gerais abstratas, de ordem inteiramente positiva, em que se deixa de lado o absoluto, por ser inacessível, e se busca o relativo, por ser acessível. A partir disso, as atividades pacífica e industrial se tornam preponderantes, com as diversas nações colaborando entre si.

Torna-se importante perceber que para Auguste Comte, cada um desses estados teóricos diferentes representa fases necessárias da evolução humana, em que a forma de compreender a realidade se conjuga com a estrutura social de cada sociedade e contribuindo para o desenvolvimento do ser humano e de cada sociedade.

Dessa forma, cada uma dessas fases tem as suas abstrações, as suas observações e a sua imaginação, e o que muda é a forma como cada um desses elementos se conjuga com os demais. Da mesma forma, como cada um dos estágios é uma forma totalizante de compreender o ser humano e a realidade, cada uma delas consiste em uma forma de filosofar, quer dizer, todas elas engendram filosofias.

RELIGIÃO DA HUMANIDADE

Os anseios de reforma criptoscopial e social de Auguste Comte se desenvolveram por meio da sua Religião da Humanidade, sabendo-se que as religiões são as legítimas fontes das ciências, por isso não se trata propriamente de religião, mas sim de credo. Para Auguste Comte os termos Teologia e religião não são sinônimos, a Teologia se refere à crença em entidades sobrenaturais, enquanto que a religião se refere ao estado de unidade humana nos aspectos psicológico, espiritual e social. Considerando o caráter histórico e a necessidade de unidade do ser humano, a Religião da Humanidade incorpora nela a Teologia e a metafísica, respeitando, reconhecendo e celebrando o papel histórico desempenhado por esses estágios provisórios, absorvendo o que eles têm de positivo, ou seja, de real e de útil.

A então denominada Religião da Humanidade encontrou em Pierre Laffite o seu principal dirigente na França, após a desencarnação de Auguste Comte, especialmente na III República Francesa. No Brasil, o Positivismo Credulário, que se diz religioso, encontrou grande aceitação no século XIX, e com menor intensidade no século XX, tendo grande importância durante a campanha “O petróleo é nosso”, cujo vice-presidente era o positivista Alfredo de Moraes Filho, e durante o processo de impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em que o centro positivista do Paraná também solicitou, assim como a OAB – Ordem dos Advogados do Brasil e a Associação Brasileira de Imprensa, o afastamento do presidente da república.

Em 1881, a Igreja Positivista do Brasil foi fundada por Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes, em cujos quadros estiveram figuras como Benjamin Constant, o marechal Rondon e o diplomata Paulo Carneiro, cuja igreja continua ativa no Rio de Janeiro, assim como a Igreja Positivista do Rio Grande do Sul, que segue ativa em Porto Alegre.

 

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