08- A PÉRSIA

A Era da Sabedoria
21 de setembro de 2018 Pamam

O termo pérsia costuma normalmente ser reservado para se referir ao Império Persa, em uma ou mais de suas diversas fases históricas, que teve início mais ou menos em 800 a.C., fundado originalmente por um grupo étnico, os persas, a partir da cidade de Anshan, o que hoje é a província iraniana de Fars, e governado por dinastias sucessivas, persas ou estrangeiras, que controlavam o Planalto Iraniano e os territórios adjacentes.

A lenda persa nos diz como muitos séculos antes de Cristo um grande profeta apareceu no Airyana-vaejo, o antigo “lar dos arianos”, em que o povo lhe dava o nome de Zaratustra, mas que os gregos chamavam de Zoroastro. A concepção de Zaratustra era divina, pois o seu anjo da guarda entrara na planta haoma e passara com a seiva para o corpo de um sacerdote, quando este oferecia um sacrifício divino, e, no mesmo instante, um raio da glória celeste entrou no seio de uma virgem de alta linhagem. O sacerdote desposou a virgem, o anjo assimilado pelo seu corpo se misturou com o raio aprisionado, e então surge Zaratustra.

A lenda nos conta que Zaratustra no próprio dia do seu nascimento já ria muito alto, e os espíritos maus que se reúnem em torno de cada nova vida fugiram dele em tumulto e em terror. Por aqui já se vê claramente como uma lenda pode nos trazer o conhecimento acerca da existência dos espíritos obsessores quedados na atmosfera terrena, que após a desencarnação passam a integrar o astral inferior.

O seu grande amor à justiça e a sabedoria o fez se afastar da sociedade dos homens e ir viver no agreste das montanhas, alimentando-se de queijo e frutos da terra. Segundo a lenda, Zaratustra foi tentado pelo Diabo, mas sem que este tivesse obtido qualquer êxito na tentação, do mesmíssimo modo como outra lenda diz que Jesus, o Cristo, também foi tentado. O interessante é que a lenda também diz que o seu peito foi varado por uma espada, e as suas entranhas enchidas de chumbo derretido, mas que ele não se queixou e ainda mais aumentou a sua fé em Ahura-Mazda, o senhor das luzes e o deus supremo. Ahura-Mazda então lhe aparece e lhe põe nas mãos o Avesta, o Livro da Ciência e da Sabedoria, ordenando que o pregasse ao gênero humano. Por muito tempo os seres humanos riram e o perseguiu. Mas, por fim, um príncipe do Irã denominado de Vishtaspa, ouviu-o com credulidade e lhe prometeu cultivar e espalhar a nova fé. E assim nasceu o credo de Zaratustra, que então viveu uma longa vida, sendo finalmente consumido por um raio que o levou ao céu.

Há um limite de escopo para se afirmar algo a respeito de Zaratustra, sendo claro que os fatos não passam de lendas. No entanto, os gregos os aceitaram como história e lhe deram uma antiguidade de 5.500 anos antes da era grega. Berosus, o babilônio, põe-na em 2.000 a.C. E os historiadores modernos que admitem a existência de Zaratustra a colocam entre 1.000 e 600 a.C.

O certo é que quando Zaratustra apareceu, encontrou o seu povo adorando animais, ancestrais, a Terra e o Sol, praticando um credo com muitos deuses, que, como já se sabe, eram espíritos obsessores quedados no astral inferior, assim como os hindus também praticavam. Entre esses deuses da fé pré-zoroastriana se destacam Mitra, deus do Sol, Anaíta, deusa da fertilidade e da terra, e Haoma, o deus-touro, que, morrendo, voltou de novo e deu à humanidade o seu sangue como bebida, para possibilitar a imortalidade, por isso os persas o adoravam, embriagando-se com o suco da erva haoma, encontrada nas encostas das montanhas.

Zaratustra se sentiu decepcionado com a adoração de todas essas deidades primitivas e com os cultos e rituais em louvor a elas — como ainda hoje existem em relação ao deus bíblico e outros mais, sempre no sentido da adoração, do peditório, das bênçãos e da busca da salvação, por intermédio dos quais os sagazes sacerdotes afirmam realizar milagres, curas e o progresso material dos cretinos seus arrebanhados —, então ele se rebelou contra esses sacerdotes que os serviam, anunciando ao mundo um só deus, Ahura-Mazda, senhor da luz e do céu, do qual todos os outros deuses não passavam de manifestações da imaginação humana. A sua influência benéfica proporcionou a que Dário I declarasse guerra aos sacerdotes e aos seus cultos e ritos, fazendo do zoroastrianismo o credo oficial do Estado.

A uma coleção de livros em que os discípulos de Zaratustra haviam colecionado toda a sua sabedoria, recebeu mais tarde a denominação de Avesta, mas devido a um equívoco de um erudito denominado de Anquetil-Duperron, o qual introduziu o prefixo Zend, que os persas haviam utilizado para denotar apenas uma tradução e interpretação do Avesta, o mundo ocidental o conhece sob a denominação de Zend-Avesta.

No entanto, os leitores não persas ficam bastante decepcionados ao verificar que os volumes consideráveis que sobreviveram, apesar de menores do que as bíblias católica e protestante, não passam de pequena fração da revelação feita pelo deus a Zaratustra, a qual transparece uma leitura confusa de orações, cantos, lendas, prescrições e alguma moral, nesta se diferenciando da Bíblia, mas se igualando quando mostra a influência babilônica da história da Criação do mundo em seis períodos: céu, água, terra, plantas, animais e homens; na descendência do homem de um casal primitivo, no estabelecimento de um paraíso terreal e no descontentamento de um deus com as duas primeiras criaturas.

Tal como hoje em dia os terríveis sacerdotes pregam a existência de Satanás para amedrontar aos seus arrebanhados acretinados, e assim os conservarem pelos cabrestos do medo, para mais facilmente pregarem a salvação e os trazerem para os antros das suas igrejas, que são mais imundas do que os prostíbulos, sempre com vistas aos seus enriquecimentos ilícitos, estelionatários que são e que sempre foram, mas que andam por aí nesse mundo afora à solta sempre a explorar a ingenuidade e o atraso mental do povo, quando ainda mais atrasados são eles mesmos pelos crimes que cometem, igualmente o mundo zaratustraniano é concebido em termos dualísticos, como em um eterno conflito de milhares e milhares de anos entre o deus Ahura-Mazda e o diabo Arimã.

Ahura-Mazda, o deus de Zaratustra, era o círculo dos céus e se vestia com a abóbada do firmamento. O seu corpo era a luz, enquanto que o Sol e a Lua eram os seus olhos. Mais tarde, quando o credo passou dos profetas para os políticos, esse deus foi representado como um rei de gigantesca majestade. Como criador e senhor do mundo, era assistido por uma legião de divindades menores sob a forma de forças naturais, como o fogo e a água, o Sol e a Lua, o vento e a chuva. Ao conceber o seu deus como supremo a todas as coisas, Zaratustra se expressa da seguinte maneira:

Isto eu te pergunto, e dize-me em verdade, ó Ahura-Mazda: quem determinou a rota dos sóis e das estrelas? Quem faz a lua minguar ou crescer? Quem, de baixo, sustenta a Terra e o firmamento para não caírem? Quem sustenta a água e as plantas? Quem deu movimento aos ventos e nuvens? Quem, ó Ahura-Mazda, evocou o Bom Espírito?”.

Esse Bom Espírito não se refere a nenhum espírito humano ou animal, mas a uma divina sabedoria, como um Logos. Tal como o falso cristianismo se refere ao Espírito Santo para designar a uma das pessoas da Trindade.

Zaratustra interpreta Ahura-Mazda como tendo sete atributos, que são os seguintes: Luz, Bom Espírito, Justiça, Domínio, Piedade, Bondade e Imortalidade. Mas os seus seguidores, afeitos ao politeísmo, interpretavam a esses atributos como se fossem pessoas, as criaturas imortais sagradas, que sob a chefia de Ahura-Mazda criaram e dirigem o mundo. Deste modo, o monoteísmo se torna o politeísmo do povo, como no caso do falso cristianismo. Os seus seguidores ainda adicionaram a essas criaturas imortais sagradas os anjos da guarda, existindo um para cada criatura.

Mas do mesmo modo que esses anjos e as criaturas imortais sagradas ajudavam aos seres humanos na virtude, que eram os espíritos integrantes do Astral Superior, havia os espíritos maus que pairavam no ar, ou seja, os espíritos obsessores quedados no astral inferior, sempre induzindo os seres humanos ao crime e ao pecado, que eles confundiam com os demônios, em guerra eterna contra Ahura-Mazda e todas as formas de justiça. O chefe desses demônios era Arimã, o Príncipe das Trevas e o rei do mundo subterrâneo, protótipo do conhecido Satã, que os judeus copiaram da Pérsia e legaram ao falso cristianismo.

Aqueles que leram o capítulo que trata acerca do astral inferior, podem agora compreender a razão pela qual se diz que foi Arimã quem criou as pestes, os gafanhotos, o crime, o pecado e a sodomia, pelo que a ignorância humana acrescenta as serpentes, as formigas, o inverno, o escuro, a menstruação e tudo o mais que os seguidores de Zaratustra consideravam como sendo praga, tendo sido essas invenções do diabo que arruinaram o paraíso em que Ahura-Mazda colocara o primeiro casal humano, mais tarde corporificado nas figuras de Adão e Eva.

Daí a razão pela qual Zaratustra considerava esses espíritos como sendo deidades espúrias, provenientes de encarnações populares e supersticiosas das forças abstratas que resistem ao progresso humano. Os seus seguidores, entretanto, acharam mais fácil pensar neles como seres vivos, e personificá-los com tal abundância que, mais tarde, na teologia persa, os diabos eram considerados aos milhões.

Esse sistema de fé proveniente de Zaratustra tinha a forma de monoteísmo. Mesmo com a introdução de Arimã e dos seus demônios, a fé se mostrava tão monoteísta como o falso cristianismo com o seu Satã e os seus demônios, além dos anjos. Na realidade, muitos aspectos da teologia do falso cristianismo são provenientes desse dualismo persa, e até o último ato desse teatro duplo teria um final feliz para os bons, pois, concomitantemente, depois de quatro épocas de três mil anos cada uma, com alternada predominância de Ahura-Mazda e de Arimã, as forças do mal seriam por fim destruídas, então todos os homens bons se juntariam a Ahura-Mazda no paraíso, e os maus cairiam em um abismo de trevas, onde seriam eternamente alimentados de veneno.

Descrevendo o mundo como o palco da luta entre o bem e o mal, os zoroastrianos povoaram na imaginação popular um poderoso estímulo sobrenatural e as sanções da moral. O Universo era um campo de batalha entre os espíritos bons e maus, com cada ser humano correspondendo a um guerreiro, independentemente da sua vontade, do exército do Diabo ou do Senhor. Qualquer semelhança com os tempos atuais não é mera obra do acaso.

Para Zaratustra os seres humanos são meros joguetes desta guerra cósmica, pois tinham o livre arbítrio e assim podiam livremente escolher os caminhos da luz ou da mentira, porque Ahura-Mazda equivalia à luz, enquanto que Arimã equivalia à mentira, e todos os mentirosos eram seus servidores. Neste contexto, podemos considerar os sacerdotes como sendo servidores do Diabo, em todos os tempos, porque eles pregaram a mentira e dela nunca se desapegaram, posto que totalmente apegados aos milhões que arrecadam com essas mentiras.

Ao Ahura-Mazda manipulado pelos sacerdotes, ofereciam-se sacrifícios de flores, pão, frutas, perfumes, bois, carneiros, camelos, cavalos, jumentos, veados e outros, sendo que, em épocas anteriores, ofereciam também até sacrifícios de vítimas humanas. Mas os deuses só recebiam o cheiro dos sacrifícios, pois as partes comestíveis eram guardadas para os sacerdotes, porque eles mesmos explicavam que os deuses só queriam os espíritos das vítimas.

O persa não podia encarar sem medo a morte, a não ser que tivesse sido fiel guerreiro da causa de Ahura-Mazda, pois para além de todos os mistérios estavam o inferno, o purgatório e o paraíso. Todas as almas tinham que passar pela Ponte do Exame, em que as boas iam para a Morada do Canto, onde seriam recebidas por uma jovem donzela, forte e radiante, de busto bem desenvolvido, e viveriam com Ahura-Mazda na felicidade até aos fins dos tempos; enquanto que as más, não conseguindo atravessar a essa ponte, caíam em um nível do inferno adequado às suas maldades.

Para os zoroastrianos havia também o Juízo Final, em que se anunciava o reino com a vinda de Ahura-Mazda, que iria destruir todas as forças do mal, com as almas boas começando vida nova, em um paraíso sem maldades, trevas ou dores. E tal como pregam os católicos e os protestantes de hoje, “Os mortos se erguerão, a vida retornará aos corpos e eles respirarão de novo, com todo o mundo material se tornando livre da velhice e da morte, da putrefação e da decadência, para todo o sempre”. Quanto materialismo e quanta falta de espiritualidade!

E parece que, com o decorrer do tempo, os povos não conseguem se livrar das garras sacerdotais, vivendo sempre atrelados às suas ignorâncias e às suas mentiras, sendo cada vez mais arrebanhados por essa perniciosa classe, que prefere mil vezes viver com comodismo, enchendo as suas panças sempre famintas às custas dos seus encabrestados, do que procurar a verdade, com ela se firmar e disseminá-la no seio da nossa humanidade, embora para isso tenham que abandonar a vagabundagem e trabalhar para produzir o próprio sustento, deixando assim de serem malfeitores e estelionatários do gênero humano.

Sob o reinado de Dario I, essa fé credulária se tornou por algum tempo a expressão espiritual da Pérsia, quando no seu apogeu. E embora ela fosse eivada de sobrenaturalismos, podia ser considerada como sendo benéfica ao povo, já que procurava beneficiá-lo com os predicados da virtude e trazê-lo para a prática da moral. Mas o povo prefere sempre o sobrenaturalismo, o misticismo, então por trás da adoração oficial de Ahura-Mazda começou a praticar os cultos de Mitra, o deus do Sol, e Anaíta, a deusa da vegetação, da geração e do sexo, que obtinham cada vez mais adeptos. Nos dias de Artaxerxes II os nomes desses deuses já aparecem nas inscrições. Em seguida, a adoração a esses deuses cresceu vertiginosamente, enquanto a de Ahura-Mazda ia decrescendo, até que, nos primeiros séculos da nossa era, o culto de Mitra mostrado como um divino mancebo de radiante aparência, de halo solar à cabeça, espalhou-se pelo Império Romano, contribuindo para dar o natal ao falso cristianismo.

Zaratustra jamais aprovaria a confecção de estátuas de Anaíta, a Afrodite persa, erguidas em tantas cidades do Império Romano, alguns séculos após a sua desencarnação. Como também não aprovaria tantas páginas da sua “revelação” devotadas à arte mágica de curar, de adivinhar e de fazer feitiçarias.

Posteriormente, o velho sacerdócio persa dos “Homens Sábios”, na qualidade de mágicos, reconquistou as posições perdidas. Como esses mágicos levavam uma austera vida monogâmica, adotavam uma rigorosa observação do ritual, abstinham-se de comer carne e passaram a se vestir com simplicidade, adquiriram alta reputação de sabedoria, mesmo entre os gregos, e entre os persas a maior influência. Os próprios reis persas se tornaram os seus discípulos, nada fazendo sem consultá-los. Os mais altos eram sábios, os abaixo eram adivinhos e feiticeiros, ledores das estrelas e intérpretes dos sonhos, e a própria palavra mágica vem do termo mago.

Assim, gradualmente foram se apagando os elementos zoroastrianos do credo persa, embora tenham por algum tempo revivido sob a dinastia dos Sassanidas, no período de 226 a 651, para serem por fim totalmente eliminados pelas invasões dos muçulmanos e dos tártaros. Hoje em dia somente subsiste o zoroastrianismo em pequenas comunidades da província de Fars e entre os parsis da Índia.

 

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