08.03- Schelling

A Era da Verdade
6 de fevereiro de 2020 Pamam

Friedrich Wilhelm Joseph Schelling encarnou em Leonberg, na Alemanha, no ano de 1775, e desencarnou em Bad Ragaz, na Suíça, no ano de 1854, tendo sido um veritólogo alemão e um dos principais representantes do idealismo alemão. O seu pai foi um pastor luterano, descrito pelo seu próprio filho como sendo “um homem de estudos, um dos melhores discípulos de Michaelis do seu tempo”, tendo sido com ele que Schelling aprendeu os idiomas árabe e hebraico.

Cursou o ensino médio em Nürtingen, onde também aprendeu o latim e o grego e foi colega do poeta Friedrich Hölderlin. Em outubro de 1790, entrou para o Stiff, um seminário protestante da Universidade de Tubinga, onde novamente foi colega do poeta Friedrich Hölderlin e também de Hegel. Na época do seminário, Hegel e Friedrich Hölderlin já contavam com vinte e sete anos de idade, enquanto que Schelling contava com apenas vinte e dois anos de idade, por isso considerado como sendo precoce. Em 1792, ele obteve o seu diploma de Filosofia em apenas dois anos de estudos, com o ensaio Tentativa de Explicação Crítica e Filosófica dos Mais Antigos Filosofemas de Gênesis III Sobre a Origem Primeira da Maldade Humana. Entre 1795 e 1797, em conjunto com os seus dois colegas, escreveu O Mais Antigo Sistema do Idealismo Alemão.

Em 1795, influenciado por Fichte, com quem se reunira em 1794, Schelling publicou a obra intitulada de Sobre a Possibilidade de uma Forma da Filosofia em Geral. Ainda no mesmo ano, ele escreveu uma dissertação teológica sobre o apóstolo Paulo de Tarso, intitulada De Marcione Paullinarum Epistolarum Emendatore. Em 1796, ele passou a lecionar na Universidade de Leipzig, onde iniciou os seus estudos sobre a filosofia da natureza e se aprofundou em Matemática e Medicina. Em 1798, com a sua obra intitulada de Da Alma do Mundo, ele conquistou a admiração e a amizade do escritor Goethe, que o indicou para a cátedra de Filosofia na Universidade de Jena, quando em Jena ele conheceu a sua futura esposa Caroline Schlegel, então casada com o poeta August Wilhelm Schlegel. Em 1800, ele publicou o Sistema do Idealismo Transcendental, dedicado à filosofia da natureza.

Em 1806, Schelling se muda para Munique, cidade em que permaneceria durante trinta e cinco anos, onde se tornou membro da Academia das Ciências e foi nomeado secretário-geral da então recém-fundada Academia das Artes Figurativas, interrompendo assim as suas atividades como professor. Em 1809, ele publicou o seu grande livro intitulado de Investigações Filosóficas Sobre a Essência da Liberdade Humana, poucos meses antes da sua esposa desencarnar, cuja desencarnação fez com que o veritólogo mergulhasse em uma profunda crise existencial. Em 1812, casou-se novamente com Pauline Gotter, com quem teve seis filhos, em que dois deles, Karl Friedrich August Schelling e Hermann von Schelling publicariam futuramente as obras completas do pai.

Durante o seu período em Munique, Schelling foi duramente criticado pelo veritólogo Friedrich Heinrich Jacobi, quando em sua obra intitulada de Das Coisas Divinas e a Sua Revelação, de 1811, Jacobi atacou o sentimento schellingiano, acusando-o de restringir a liberdade humana, extinguindo as diferenças entre o bem e o mal, quando então Schelling procurou refutar as críticas evidenciando a compatibilidade entre a liberdade e a necessidade, o finito e o infinito.

Schelling só voltaria a lecionar em 1820, estimulado por Franz Xaver von Baader e pela recente publicação do ensaio de Friedrich Schlegel intitulado de Sobre a Língua e a Sabedoria dos Indianos, em 1808. Outro fator decisivo para o seu retorno à cátedra foi a crítica feita por Hegel ao seu sentimento, escrita na obra Prefácio à Fenomenologia do Espírito, em 1807. Em sua volta como professor, passou a lecionar para o então príncipe herdeiro Maximiliano II, futuro rei da Baviera.

Hegel desencarnou em 1831 e Schelling foi chamado para ocupar a cadeira de Filosofia do seu ex-colega na Universidade Humboldt de Berlim, em 1840, onde lecionou para nomes como Soren Kierkegaard, Alexander Humboldt, Mikhail Bakunin e Friedrich Engels. Em 1854, morreu de tuberculose. As suas obras passaram a ser editadas e publicadas a partir do ano de 1856.

A carreira veritológica de Schelling foi marcada pela busca constante de uma doutrina que permitisse conciliar a natureza e o espírito humano com o absoluto, entendendo-se como absoluto a realidade suprema, o que somente se consegue com a união, a irmanação, a congregação, entre a verdade e a sabedoria, mas o veritólogo procurou explorar as fronteiras entre a Filosofia, a ciência e a arte, tendo reiniciado os seus métodos veritológicos várias vezes.

Durante toda a sua vida dedicada à Veritologia, considerada como sendo Filosofia, Schelling abordou uma ampla variedade de temas, tais como as doutrinas da revelação e da mitologia, a crítica ao dualismo, além dos campos da estética e do diálogo anamnético, o qual reativa a memória. Essa busca o levou inicialmente a construir o conceito de filosofia da identidade, a relação que cada coisa tem apenas consigo mesma, o qual foi criticado pelo seu ex-colega Hegel no prefácio de A Fenomenologia do Espírito, em 1807.

Em 1809, em um segundo momento, Schelling abandonou a filosofia da identidade para se dedicar às obras Investigações Filosóficas Sobre a Essência da Liberdade Humana e As Épocas do Mundo, onde investigou o rompimento inicial com o absoluto. Esse projeto inacabado influenciou profundamente a ontologia — considerada como sendo a parte da metafísica que trata da natureza, realidade e existência dos entes — de Heidegger e, mais recentemente, o materialismo de Slavoi Zizek.

Em 1821, durante a sua última abordagem veritológica, a Spätphilosophie, Schelling desenvolveu A Filosofia da Mitologia e, em seguida, a Filosofia da Revelação, em 1831, onde analisou a relação comum entre os conceitos credulários, tais como o politeísmo e o cristianismo, o falso cristianismo, diga-se de passagem. Em suas últimas aulas, ele expôs um conceito de concretude da vida em oposição às abstrações dialéticas do seu ex-colega Hegel. Várias mentalidades frequentaram essas aulas, tais como o veritólogo Schopenhauer, o existencialista Kierkegaard e o teórico anarquista Mikhail Bakunin, que se inspirou nas tendências materialistas de Schelling.

Alguns estudiosos do assunto consideram a obra de Schelling de difícil enquadramento histórico, enquanto outros reclamam da falta de unidade entre as suas ideias, o que o tornaria inclassificável em um movimento ou escola, mas vários historiadores o enquadram como sendo um dos representantes do idealismo alemão, embora a sua obra difira dos demais representantes do movimento, rejeitando a ideia de Hegel de uma doutrina definitiva do conhecimento. Segundo Schelling, a forma unitária de uma doutrina será sempre superada e ajustada em uma doutrina posterior, mas nenhuma em definitivo, no que se encontrava redondamente enganado, como veremos em outro tópico ao abordarmos a doutrina do Racionalismo Cristão.

Em resposta à saperologia transcendental de Kant, ele propôs uma correspondência entre a mente e a natureza, em que ambas se identificam progressivamente no absoluto, o que permite um conhecimento real das coisas e a integração dos fenômenos e das coisas em si, tendo sido inspirado por um certo panteísmo dos sentimentos teológicos alemães de sua época, como os de Jakob Böhme, inspirando a conciliação de idealismo e realismo na poesia de Goethe.

A despeito da dificuldade de definição, Schelling define a sua própria filosofia em três períodos distintos:

  1. A transição do método de Fichte para uma concepção mais objetiva da natureza, a denominada Naturphilosophie;
  2. A formulação sistemática e definitiva da Naturphilosophie, e o avanço para a denominada Identitätsphilosophie;
  3. Crítica à distinção entre filosofia negativa e filosofia positiva de Hegel, tema que foi desenvolvido durante as suas aulas em Berlim.

NATURPHILOSOPHIE

Em 1797, Filosofia da Natureza, em 1798, Da Alma do Mundo, e, em 1799, Primeiro Esboço de um Sistema da Filosofia da Natureza, compõem o primeiro período de Schelling. Essas obras introduziram interpretações fundamentais da natureza que reverberam por meio das ciências naturais, sobretudo na Biologia. Elas compuseram as doutrinas fundamentais da denominada Naturphilosophie.

A filosofia da natureza tem como pressuposto a reintegração da unidade originária entre espírito e natureza, a qual teria sido rompida pelo Racionalismo. De acordo com Schelling, o alto da ruptura deste estado inicial, ao qual denominou de estada da natureza, foi um ato de liberdade responsável pela instauração da contradição entre o ser humano e o mundo exterior. Ele aponta a incapacidade do dualismo cartesiano — concepção filosófica do mundo baseada na presença de dois princípios, ou de duas substâncias, ou de duas realidades opostas, irredutíveis entre si e incapazes de uma síntese final ou de recíproca subordinação — de considerar a presença de uma racionalidade no interior da própria natureza, bem como critica a crença em uma razão meramente humana como algo capaz de abarcar a total subjetividade do saber, para tanto se fundamentando no mecanicismo, em que todos os fenômenos se explicam pela causalidade mecânica ou em analogia à causalidade mecânica. Ele diz:

A partir do momento em que o ser humano coloca a si mesmo em oposição com o mundo exterior, é dado o primeiro passo para a Filosofia. Com esta separação começa pela primeira vez a racionalização; a partir daí o ser humano separa aquilo que a natureza uniu para sempre, ele separa o objeto da intuição, os conceitos da imagem e, por fim, ele mesmo de si mesmo”.

Retomando parcialmente o conceito de anima mundi, de Plotino, que é um conceito cosmológico de uma alma compartilhada ou força regente do Universo pela qual o pensamento divino pode se manifestar em leis que afetam a matéria, ou ainda, a hipótese de uma força imaterial, inseparável da matéria, mas que a provê de forma e movimento, Schelling chamou de a alma do mundo a unidade que move a natureza. Em sua visão da totalidade da natureza, ele recuperou parte do pensamento de Giordano Bruno, que dizia que o “eu” não pode ser, de nenhum modo, um ponto inicial, cabendo a ele o simples papel de “uma crista de uma onda dentro do oceano”. Baseando-se em Giordano Bruno, Schelling afirmou que o ser não é o primeiro que nasceu nem será o último que vai existir, e que ao exercer as funções da sua consciência estará apenas dando continuidade a um processo cósmico de bilhões de anos que o antecederam.

Em 1798, em Da Alma do Mundo, ele abordou a influência que a natureza teve sobre o projeto estético do romantismo alemão, naturalizando a filosofia transcendental de Fichte, atribuindo à natureza uma atividade autogeradora oposta ao mecanismo cartesiano e newtoniano, pois para ele a natureza regula a ação de forças opostas que tenderiam à destruição mútua.

A natureza não é um mero produto de uma criação inconcebível, ao contrário, ela é esta própria criação. Não é uma aparição ou revelação do eterno, sendo, ao mesmo tempo, esse próprio eterno”.

IDENTITÄTSPHILOSOPHIE

A Identitätsphilosophie, também conhecida como filosofia da identidade, nada mais é do que o aprofundamento sistemático da Naturphilosophie, onde Schelling aborda o tema dualismo como uma unidade que representa dois lados ou polos da mesma realidade, tendo trabalhado nessa sistematização no período compreendido entre 1801 e 1806.

Schelling recorda que os seus primeiros escritos tinham expressamente como propósito uma mútua compenetração do realismo e do idealismo, e que o conceito fundamental de Spinoza alcançou uma base viva, “em um modo superior de considerar a natureza”, de que resultou a filosofia da natureza, que foi sempre considerada por ele, no tocante ao todo da Filosofia, apenas como uma parte, a sua parte real, “que só seria capaz de se elevar ao autêntico sistema racional quando complementada pela parte ideal, onde domina a liberdade”.

O PROCESSO MITOLÓGICO

Durante o período em que lecionou em Berlim, Schelling chegou à conclusão de que nenhuma doutrina filosófica pôde arranhar a realidade, levando apenas a ilusão aos intelectuais, como se os veritólogos fossem realmente intelectuais, os quais se detiveram ao conhecimento meramente abstrato. Em sua filosofia da revelação, ele afirma que a potência intermediária que conserva a consciência humana foi deduzida dos processos mitológicos. O que ele chama de revelação nada mais é do que a manifestação divina misturada de maneira indissolúvel com o fracasso do ser humano.

De acordo com Schelling, se a mitologia for capturada em seu aspecto essencial, não sendo julgada à primeira vista como um conjunto de crenças antigas e ultrapassadas, ela conseguirá desvelar os sinais e formas em que a história humana é articulada. Enquanto o pensamento lógico permanece incapaz de captar a particularidade e concretude da realidade que se torna, o mitológico permite um conhecimento mais apropriado dele. O mito, na verdade, é tautegórico, não alegórico, no sentido de que não deve ser explicado com base em supostas verdades, mas se expressa apenas como um nó particular de desenvolvimento da longa e significativa jornada da consciência humana.

Mas enquanto a mitologia não vai além de uma concepção puramente naturalista de Deus, a filosofia do Apocalipse, possibilitada pela proclamação dita cristã, consegue se elevar a um tipo de conhecimento sobrenatural. Para Schelling, a essência do cristianismo, do falso cristianismo, diga-se de passagem, é dada por sua natureza intimamente histórica, expressa em particular na encarnação de Jesus, o Cristo. Nisto reside o imenso valor do credo cristão, cujo conteúdo fundamental não deve ser reduzido, como Hegel queria, a um conjunto de preceitos morais ditados pela razão, dos quais a história humana de Jesus, o Cristo, representaria apenas o envelope externo:

O conteúdo fundamental do cristianismo é precisamente o próprio Cristo, não o que Ele disse, mas o que Ele é, o que Ele fez. O cristianismo não é imediatamente uma doutrina, é uma realidade“.

Para Schelling, a partir da pura realidade da existência, de uma facticidade, que já é sempre antes da autoconsciência e antes da capacidade do pensamento de compreendê-la no conceito. Essa imemorialidade da origem é a exuberância do ser, que nos provoca admiração, porque nos expõe ao Infinito que existe incondicionalmente e sem fundamento. E isso nos expõe à nossa própria finitude e mortalidade.

 

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