07.01- Kant

A Era da Verdade
26 de janeiro de 2020 Pamam

Kant encarnou em Köenigsberg, reino da Prússia, no ano de 1724, e desencarnou no mesmo local, no ano de 1804, podendo ser considerado como um autêntico veritólogo. Foi o quarto dos nove filhos de Johann Georg Kant, um artesão fabricante de correias para carroças, e de Regina, tendo encarnado em uma família protestante, do segmento luterano, por isso teve uma educação austera em uma escola pietista graças a intervenção de um pastor, sabendo-se que o pietismo é um movimento oriundo do luteranismo que valoriza as experiências individuais do crente, tendo surgido no final do século XVII, como oposição à negligência da ortodoxia luterana para com a dimensão pessoal do credo, tendo o seu auge entre os anos de 1650 e 1800. À revelia da sua educação credulária, na vida adulta se tornou cético em relação ao credo, como veremos mais adiante, embora preservasse a crença em Deus.

Passou grande parte da adolescência como sendo um estudante regular, pois que preferia o bilhar aos estudos, tendo a convicção um tanto curiosa de que uma pessoa não podia ter uma direção firme na vida enquanto não alcançasse os trinta e nove anos de idade.

Em sendo um veritólogo, Kant levava uma vida metódica, para que assim pudesse aprimorar cada vez mais a sua moral. Diz um dos seus biógrafos, que a sua vida foi como o mais regular de todos os verbos regulares, que consistia no seguinte:

Levantar-se, tomar café, escrever, lecionar, jantar, passear. Cada qual dessas coisas tinha o seu tempo marcado. E quando, com o seu sobretudo cinzento, ele aparecia de bengala à porta de sua casa, e caminhava para a pequena alameda de tílias que ainda se chama O Passeio do Filósofo, os vizinhos sabiam serem exatamente três e meia da tarde. Dava esse passeio, em todas as estações, e se o tempo embruscava e nuvens escuras prenunciavam chuva, viam Lampe, o seu velho criado, dirigir-se apressadamente para o lugar em que ele estava, a sobraçar, como um símbolo de prudência, um grande guarda-chuva”.

Kant refletia com bastante cuidado e demoradamente antes de agir, sendo prudente ao extremo, por isso se conservou no celibato, já que por duas vezes pensou em pedir a mão a uma jovem, mas em um dos casos refletiu tanto tempo que a jovem se casou com outro candidato menos prudente, e, no outro caso, a jovem se mudou de Köenigsberg antes que o veritólogo se resolvesse a pedi-la, sendo talvez que o veritólogo considerasse que o matrimônio lhe estorvaria a diligente procura da verdade, pois Talleyrand costumava dizer que “um homem casado fará tudo pelo dinheiro”, e Kant já havia escrito aos vinte e dois anos que “já tracei a linha que pretendo seguir. Vou encetar a minha carreira e nada me impedirá de continuá-la”.

Em 1755, Kant iniciou o seu trabalho de livre docente na Universidade de Köenigsberg, onde durante quinze anos exerceu a esse cargo inferior, tendo sido rejeitada por duas vezes a sua candidatura a professor efetivo. Em 1770, foi nomeado catedrático de lógica e metafísica. Após muita labuta como docente, escreveu um compêndio de pedagogia, que costumava dizer que continha muitos ensinamentos de qualidade, dos quais ele jamais aplicou algum deles. De qualquer maneira, uma de suas regras práticas era se dedicar de preferência aos alunos de capacidade média, pois aos obtusos considerava que ninguém poderia valer, enquanto que aos geniais, tirar-se-iam a si mesmos de apuros.

Em função de ser um simples professor, não se poderia esperar que ele viesse a assombrar o mundo com uma nova doutrina metafísica. De fato, ele mesmo não tinha tal esperança, pois que na idade de quarenta anos escreveu que “tenho a sorte de ser um adorador da metafísica, mas a minha amada poucos favores me tem concedido até agora”, referindo-se a ela como “o abismo sem fundo da metafísica”, comparando-a com “um oceano sombrio sem praias nem fanais”, juncado dos destroços de muitos naufrágios filosóficos. Chegou, inclusive, a atacar os metafísicos que se instalaram nas altas torres da especulação “açoitadas, comumente, por grandes vendavais”, sem prever que seria o desencadeador de uma tempestade metafísica.

Mas antes de continuarmos a explanação, cumpre esclarecer o que seja realmente a metafísica, para que assim o leitor atento possa tirar as suas próprias conclusões sobre o veritólogo, quando ele trata a respeito daquilo que considera ser a metafísica.

Deus é formado de substâncias, que se dividem em Essência e Propriedades. A Essência é o Ser Total. As Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total. As Propriedades da Força e da Energia formam o Universo, enquanto que a Propriedade da Luz penetra todo o Universo. Tudo aquilo que se refere à propriedade da Força é metafísico, enquanto tudo aquilo que se refere à propriedade da Energia é físico. Temos assim que o Universo tanto é metafísico como físico, como não poderia ser diferente.

Os seres saltam do Seio do Ser Total e se individualizam, iniciando as suas evoluções pelo Universo, em busca das suas realizações como espíritos. Assim, eles passam a evoluir por intermédio das propriedades da Força e da Energia, passando a formar os seus corpos fluídicos, que correspondem a cada uma das coordenadas universais por que passaram, sabendo-se que as estrelas são partículas das propriedades da Força e da Energia, por isso elas fornecem as coordenadas universais.

Quando os seres adquirem o raciocínio e o livre arbítrio, eles se tornam espíritos, quando então passam a evoluir também por intermédio da propriedade da Luz, formando os seus corpos de luz. Note-se que todas as coordenadas universais por que passaram se encontram representadas em seus corpos fluídicos, as quais eles penetram com os seus corpos de luz.

Nessa fase inicial de evolução como espíritos, lançando mão do livre arbítrio, eles decidem a ênfase que vão dar em suas jornadas evolutivas, quer dizer, se vão evoluir, sobremaneira, por intermédio da propriedade da Força, ou se vão evoluir, sobremaneira, por intermédio da propriedade da Energia, embora tenham que evoluir por intermédio de ambas as propriedades, assim como também pela propriedade da Luz. Desta maneira, a decisão ou é pelo lado metafísico ou pelo lado físico do Universo, que os vinte termos da evolução humana retratam assim:

ITEM DISCRIMINAÇÃO VERITOLOGIA    Lado metafísico SAPEROLOGIA Lado físico
01 A essência de Deus (o ser)      Ser religioso

Veritólogo

     Ser cientista

Saperólogo

02 A propriedade de Deus com a qual o ser se ocupa em primeiro plano      Força      Energia
03 A manifestação que prepondera no ser      Poder      Ação
04 O órgão mental que caracteriza o ser      Criptoscópio      Intelecto
05 A função do órgão      Percepção      Compreensão
06 A finalidade do órgão      Captação      Criação
07 A atividade básica exercida pelo ser      Religião      Ciência
08 O teor da atividade básica exercida pelo ser      Conhecimento      Experiência
09 A forma de transmitir o teor da atividade básica exercida pelo ser      Teorias

a priori

     Teorias

a posteriori

10 A forma de aprender a atividade básica exercida pelo ser (forma de evoluir)      Estudo      Sofrimento
11 O local onde reside o teor da atividade básica exercida pelo ser      Espaço      Tempo
12 A finalidade da atividade básica exercida pelo ser      Verdade      Sabedoria
13 O atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Moral      Ética
14 A natureza do atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Absoluta      Relativa
15 A aplicação do atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Individual      Relacional
16 O elemento anterior de produção do ser, no exercício da atividade básica      Sensibilidade      Sentido
17 O elemento final de produção do ser, no exercício da atividade básica      Sentimento      Pensamento
18 A forma pela qual o ser transmite o que produz      Vibração

Magnética

     Radiação

Elétrica

19 A relação entre o ser os fatos e os fenômenos      Causa      Efeito
20 A finalidade do ser      Onipotência      Onipresença

INSTITUTO DE CONGREGAÇÃO

A SAPEROLOGIA DO RACIONALISMO CRISTÃO

ITEM DISCRIMINAÇÃO      RATIOLOGIA
01 A essência de Deus (o ser)      Ser Universal
02 A propriedade de Deus com a qual o ser se ocupa em primeiro plano      Luz
03 A manifestação que prepondera no ser      Existência
04 O órgão espiritual que caracteriza o ser      Consciência
05 A função do órgão      Coordenação
06 A finalidade do órgão      Unir o criptoscópio       e o intelecto
07 A atividade básica exercida pelo ser      Religiociência
08 O teor da atividade básica exercida pelo ser       Saber , por                      excelência
09 A forma de transmitir o teor da atividade básica exercida pelo ser      Teorias
10 A forma de aprender a atividade básica exercida pelo ser (forma de evoluir)      Raciocínio
11 O local onde reside o teor da atividade básica exercida pelo ser      Universo
12 A finalidade da atividade básica exercida pelo ser      Razão
13 O atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Educação
14 A natureza do atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Divina
15 A aplicação do atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica      Espiritual
16 O elemento anterior de produção do ser, no exercício da atividade básica      Amizade Espiritual
17 O elemento final de produção do ser, no exercício da atividade básica      Amor Espiritual
18 A forma pela qual o ser transmite o que produz      Raios de luz
19 A relação entre o ser os fatos e os fenômenos      Causa e Efeito
20 A finalidade do ser      Onisciência

É por isso que no aristotelismo a metafísica é caracterizada pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível, cuja investigação pode ser capaz de fornecer um fundamento a todas as ciências particulares, por meio da reflexão a respeito da natureza primacial do ser, denominada de filosofia primeira. Note-se que Aristóteles compilava a todos os conhecimentos que haviam sido transmitidos pelos veritólogos pré-socráticos, cujos assuntos correlatos eram metafísicos.

Já no kantismo, a metafísica é considerada pelos estudiosos do assunto como sendo o estudo das formas ou leis constitutivas da razão, o fundamento de toda a especulação a respeito das realidades suprassensíveis, que engloba a totalidade cósmica, Deus ou a alma humana, sendo a fonte dos princípios gerais para o conhecimento empírico. Essa metafísica kantista é obscura, notadamente porque ainda não se sabia o que era a razão, que é igual a verdade + sabedoria.

A CRÍTICA DA RAZÃO PURA

Antes de mais nada, faz-se mister esclarecer que somente através dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, em união, irmanação, congregação, com as experiências físicas acerca da sabedoria, é que se pode alcançar a razão. E como Kant, apesar de ser um veritólogo, não conseguiu alcançar a verdade, e muito menos a sabedoria, vai por águas abaixo a sua crítica da razão pura, notadamente porque não existe razão pura, ou mesmo razão prática, pois ou se alcança a razão ou não se alcança, com ela se bastando a si mesma.

Os filólogos ficam confusos quando tratam acerca da razão, fazendo um emaranhado de conjecturas, pois afirmam que a razão é a faculdade de raciocinar, apreender, compreender, ponderar, julgar, e, por fim, que ela é a inteligência humana, quando então, com base em tudo isso, vêm afirmar que “o homem tem o uso da razão”, mas, na realidade, a nossa humanidade ainda se encontra na fase da imaginação, devendo entrar na fase da razão em um breve período de tempo. E como se não estivessem satisfeitos com tantos disparates, alguns estudiosos vêm afirmar que a razão é o raciocínio que conduz à dedução ou dedução de algo.

De qualquer maneira, os estudiosos do assunto consideram que a razão pura assume o significado daquilo que não nos vem por intermédio dos sentidos, sendo independente de toda a experiência sensorial, sendo também o conhecimento que temos em virtude da natureza e da estrutura inerentes ao espírito. Note-se que todos falam acerca do espírito, mas não ousam adentrar no âmbito da espiritualidade, assim como se tivessem medo de serem ridicularizados pelos cientistas, que por sua vez se encontram mesclados com os religiosos. No caso em questão, falam da natureza e da estrutura do espírito, mas não sabem acerca dessa natureza e dessa estrutura do espírito, e nem procuram investigar a isso.

Levando-se em consideração esse modo de encarar a razão pura, a crítica kantiana não quer dizer precisamente um ataque, mas sim uma análise crítica, uma vez que Kant não se põe a atacar a razão pura, a não ser no fim, para lhe mostrar as limitações, pois que pretende mostrar as suas possibilidades e elevá-la acima do impuro conhecimento que nos vem pelos canais deformadores dos sentidos, quando, na realidade, os sentidos não captam conhecimentos, mas sim criam experiências, que se resolvem por intermédio do pensamento.

Por ser um veritólogo, Kant sabia que a experiência não trazia qualquer conhecimento, pelo menos os conhecimentos metafísicos acerca da verdade. Mas o que aconteceria se existisse conhecimento independente da experiência dos sentidos, conhecimento cuja verdade fosse certo para nós, mesmo antes da experiência, ou seja, um conhecimento “a priori”? A verdade absoluta e a ciência absoluta então não se tornariam possíveis? Existe tal conhecimento absoluto? Temos aqui o problema da primeira crítica, pois como ele afirmou: “O meu caso é saber o que podemos fazer com a razão se suprimirmos todo o material e auxílio da experiência”. Nota-se aqui, que Kant se encontrava engatinhando em busca de fazer valer o seu criptoscópio para que então pudesse perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, mas ele preferiu apenas a atacar os problemas que encontrava, perdido no labirinto dos seus sentimentos.

E assim, perdido no labirinto dos seus sentimentos, passa a fazer um exame da origem e da evolução dos conceitos, como se quisesse realizar uma análise da estrutura do espírito, mas, por incrível que pareça, sem se esforçar por adentrar no âmbito da espiritualidade. A crítica da razão, seja ela pura ou prática, não faz sentido, a não ser em se levando em consideração a tremenda ignorância acerca da razão, por isso toda a análise de Kant é improfícua, mas em sua supina ignorância ele considera que realizou algo de útil, que conseguiu resolver alguma problema, quando, na realidade, criou-os, pois que assim ele se expressa:

Aspirei principalmente a que este livro fosse completo, e me atrevo a sustentar que não deve existir um só problema metafísico que aqui não haja sido solvido, ou para cuja solução não se haja ao menos dado a chave”.

Mas ele se encontra absolutamente correto quando a sua crítica passa a ferir o ponto central, ao procurar se afastar da experiência, já que esta é ação e efeito, enquanto que o conhecimento é poder e causa, referindo-se à razão como se fosse o seu criptoscópio, apesar de ignorar a existência deste, por não encontrar outro termo que viesse a justificar o seu pendor para a percepção e a captação dos conhecimentos, quando assim se expressa:

A experiência não é de modo algum o único campo a que o nosso entendimento deva se confinar. Diz-nos a experiência aquilo que é, mas não que deva necessariamente ser assim e não de outro modo. Por isso, nunca nos proporciona verdades realmente gerais, e a nossa razão, que se sente principalmente ansiosa por esta espécie de conhecimento, torna-se, por ela, mais estimulada para saber, do que satisfeita. As verdades gerais, que tragam ao mesmo tempo o característico de uma necessidade interior, devem independer da experiência, ser claras e certas por si mesmas”.

É certo que os conhecimentos são transmitidos por intermédio de teorias “a priori”, enquanto que as experiências são transmitidas por intermédio de teorias “a posteriori”. Percebendo esta realidade, Kant procurou mostrá-la se utilizando da Matemática, considerando que o conhecimento matemático é verdadeiro e certo, não se podendo conceber que alguma futura experiência o contradiga, sendo possível acreditar que o Sol poderá nascer amanhã no poente ou algum dia, que em algum mundo imaginável de amianto o fogo não queimará a madeira, mas em hipótese alguma podemos crer que dois vezes dois possa ser outra coisa que não quatro.

Tais verdades são verdadeiras antes da experiência, não dependendo da experiência passada, presente ou futura. Por isso, são verdades absolutas e necessárias, sendo inconcebível que algum dia possam se tornar não verdadeiras. Mas de onde se pode tirar esse característico do absoluto e da necessidade? Não da experiência, pois a experiência não nos fornece outra coisa além de sensações e fatos isolados, cuja sequência pode se modificar no futuro. Sabendo-se que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade são absolutos, ligando-se diretamente ao espaço, por isso não sofre modificações no espaço, pois não precisa se aprimorar, enquanto que as experiências físicas acerca da sabedoria são relativas, ligando-se diretamente ao tempo, por isso sofre modificações no tempo, pois precisa se aprimorar.

O caráter necessário dessas verdades consideradas por Kant é tida como advindo da estrutura do espírito, embora não se saiba que estrutura seja essa, do modo natural e inevitável com que o nosso espírito humano não é uma cera passiva onde a experiência e as sensações gravam a sua vontade absoluta e, além disso, caprichosa, e nem é o nome abstrato das séries ou agrupamentos de estados mentais, mas sim um órgão ativo que modela e coordena as sensações em ideias, órgão que transmuta a caótica multiplicidade dos fatos da experiência em ordenada unidade de pensamento.

A ESTÉTICA E A LÓGICA TRANSCENDENTAIS

O esforço para estudar a estrutura inerente ao espírito ou às leis inatas do pensamento, é o que os estudiosos do assunto consideram ser a grande tese de Kant, ao que ele denomina de filosofia transcendental, por ser um problema que transcende a experiência dos sentidos, por isso ele diz que “chamo de conhecimento transcendental o que se ocupa menos com objetos, do que com os nossos conceitos a priori dos objetos”, o que seria os nossos modos de correlacionar a experiência em conhecimento.

Considera-se que existem dois graus ou estágios nesse processo de elaborar a matéria-prima da sensação, convertendo-a no produto do conhecimento. O primeiro é a coordenação das sensações, aplicando-lhes as formas de percepção: espaço e tempo. O segundo é a coordenação das percepções assim desenvolvidas, aplicando-lhes as formas de concepção: as categorias do pensamento. Pode-se aqui observar o emaranhado do palavrório, próprio dos veritólogos que não se utilizam da sabedoria para fazer eco na compreensão humana.

Empregando o termo estética com o significado de sensação ou sentimento, Kant denomina o primeiro desses graus ou estágios de estética transcendental, e utilizando da palavra lógica com a significação de ciência das formas do pensamento, passa a denominar o segundo desses graus ou estágios de lógica transcendental.

O ponto fundamental é saber o que se designa precisamente por sensações e percepções no sentimento de Kant, e como pode o espírito transformar as primeiras nas segundas. Os estudiosos consideram que a sensação é apenas a consciência de um estímulo, assim como um sabor na língua, um cheiro nas narinas, um som nos ouvidos, um raio de luz na retina e uma pressão nos dedos, sendo considerado isto tudo como sendo a matéria-prima a principiar a nossa experiência, é isto o que sente a criança nos primeiros dias de sua indecisa vida mental, mas ainda não é conhecimento. Que estas sensações se reúnam em torno de um objeto no espaço e no tempo, por exemplo, em uma maçã, que este cheiro nas narinas, o sabor na língua, a luz na retina, a pressão reveladora da forma nos dedos e na mão, reúnam-se e se agrupem por si mesmos em torno dessa coisa, temos agora a impressão não tanto de um estímulo, como de um objeto particular, estando aqui uma percepção.

A sensação se transforma em conhecimento, com as sensações se juntando por si mesmas, ordenando-se espontânea e naturalmente, tornando-se em percepção? Locke e Hume dizem que sim, enquanto Kant diz que não, pois a associação de sensações ou ideias não se faz meramente pela continuidade no espaço e no tempo e nem pela similitude ou por serem os fatos mais recentes, frequentes ou intensos, ela é, acima de tudo, determinada pelo fim que o espírito tem em mira. As sensações e os pensamentos são servidores, esperam o nosso chamado e não acodem se não precisamos deles. Existe um agente selecionador que os utiliza e é o seu amo. Além das sensações e das ideias há o espírito.

Kant acredita que esse agente de seleção e coordenação emprega, antes de tudo, dois métodos simples para a classificação do material que lhe é apresentado: o senso do espaço e o senso do tempo. Assim como o general coordena as mensagens que lhe são trazidas de acordo com o lugar de onde vem e o tempo em que foram escritas, encontrando assim uma ordem e um sistema para todas, também o espírito localiza as suas sensações no espaço e no tempo, atribuindo-as a este ou aquele objeto, ao tempo atual ou ao passado. O espaço e o tempo não são coisas percebíveis, mas modos de percepção, e meios de fornecer um sentido às sensações, o espaço e o tempo são órgãos da percepção.

Tudo isso não passa de simples especulação, que se transforma em um palavrório que não faz eco na compreensão desenvolvida, mas, de qualquer maneira, não deixa de mensurar o esforço por parte dos veritólogos para a busca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade. Então vamos esclarecer o que aqui foi exposto.

Em primeiro lugar, cumpre esclarecer o que seja a sensitividade, que pode ser considerada como sendo a gênese das funções animais, começando por notar que em princípio é aquela que precede a todas as outras, servindo-lhe de natureza íntima, dando-lhes origem, por isso é a sua geratriz, o ponto de partida da vida animal. Assim, pois, a sensitividade é a primeira manifestação vital perceptível, que começa na célula.

No decorrer do processo da evolução, a sensitividade cria o tato, o primeiro e o mais geral de todos os sentidos, a seguir os demais sentidos, que são físicos, assim como o pensamento. E o processo da evolução continua célere, a sensitividade deixa de ser o que era, apenas alavanca da força e da energia vitais bio-zoogênica, converte-se em sensibilidade, que é um instrumento mais aperfeiçoado, preparado para receber impressões de outra ordem, que são metafísicos, assim como o sentimento.

Todas as coisas possuem o órgão mental denominado de criptoscópio, por menos desenvolvido que seja, cujo órgão mental emite vibrações pelo espaço, que são metafísicas, assim como também possuem o órgão mental denominado de intelecto, por menos desenvolvido que seja, cujo órgão mental emite radiações pelo tempo, que são físicas. Essas vibrações e radiações emitidas pelas coisas vão de encontro ao nosso criptoscópio e ao nosso intelecto, causando uma sensação, que tanto pode ser metafísica como física. É por isso que Kant considera que o espírito localiza as suas sensações no espaço e no tempo, atribuindo-as a este ou aquele objeto.

Mas acontece que o espírito utiliza o seu criptoscópio para perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que se encontram no Espaço Superior, através das suas vibrações, o que para tanto tem que desenvolver a sua moral em elevadíssimo nível para que possa se elevar a ele. De modo análogo o espírito utiliza o seu intelecto para compreender e criar as experiências físicas acerca da sabedoria, que se encontram no Tempo Futuro, através das suas radiações, o que para tanto tem que desenvolver a sua ética em elevadíssimo nível para que possa se transportar a ele.

Então toda essa especulação de Kant acerca da estética e da lógica transcendentais somente faz embaralhar as mentes dos estudiosos do assunto.

A CRÍTICA DA RAZÃO PRÁTICA

Como dito anteriormente, não existe razão pura e nem razão prática, uma vez que a razão somente pode ser alcançada por intermédio da união, da irmanação, da congregação, entre os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e as experiências físicas acerca da sabedoria, quando então ela se estabelece de vez, não sendo pura e nem prática, sendo simplesmente razão, em cuja Grande Era toda a nossa humanidade vai adentrar, pois que eu reencarnei neste mundo para decretar o final de A Era da Verdade e estabelecer o início de A Era da Razão, já que Jesus, o Cristo, decretou o final de A Era da Sabedoria e estabeleceu o início de A Era da Verdade.

Kant era um veritólogo, e em sendo um veritólogo ele obviamente que tratava acerca da Veritologia, e não da razão, cujo tratado é denominado de Ratiologia, por isso a sua crítica da razão prática não trata especificamente da Ratiologia, mas sim da Veritologia, em que o atributo básico obtido pelo ser, no exercício da atividade básica, é a moral. É a moral, pois, que proporciona a que o espírito se eleve ao Espaço Superior em busca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, uma vez que ele é o seu repositório.

É por isso que o veritólogo passa a considerar que a realidade da nossa vida é precisamente o nosso senso moral, que é o nosso sentimento iniludível, em face das tentações, que nos leva a ponderar sobre se isto ou aquilo é um mal. E mesmo que nós venhamos a ceder às tentações, o sentimento moral permanece, mesmo que adormecido, devemos completar. Assim, se “pela manhã eu faço projetos e à noite cometo loucuras”, é óbvio que nós sabemos que são absurdos, por isso renovamos depois os nossos projetos. Kant indaga o seguinte: que coisa é que nos traz o pungir do remorso e a nova resolução? E ele mesmo responde que é o imperativo categórico existente em nós, a ordem incondicional da nossa consciência, para procedermos como se o máximo da ação fosse se tornar, por nossa vontade, uma lei universal da natureza.

Kant considera que por intermédio de um sentimento vivo e imediato, nós devemos evitar um determinado procedimento que, adotado por todos os homens, tornaria impossível a vida em sociedade. E aqui ele ataca a mentira, ao considerar o caso de alguém querer se sair de apuros dizendo uma mentira. Neste caso, mesmo que esse alguém possa querer a mentira, não pode de modo algum pretender que mentir venha a ser uma lei universal, pois certamente com semelhante lei não pode haver compromissos. Então ele passa a considerar que não deve mentir, mesmo que a mentira lhe venha a ser vantajosa. Assim, a prudência passa a ser condicional, cujo lema é proceder honestamente quando for a melhor tática. Mas a lei moral em nossos espíritos é incondicional e absoluta.

O poder se liga diretamente à moral, que é individual, pois que ele é a manifestação que prepondera no ser quando se evolui por intermédio da propriedade da Força, enquanto que a ação se liga diretamente à ética, que é relacional, quando se evolui por intermédio da propriedade da Energia. Mas Kant considera que uma ação é salutar não pelo bom resultado ou por sua sensatez, mas sim quando é praticada em obediência ao íntimo sentimento do dever, a esta lei moral que não procede da experiência pessoal, mas legisla imperiosamente e a priori sobre o nosso procedimento passado, presente e futuro, sabendo-se que as leis são espaciais, enquanto que os princípios são temporais.

Mas para tanto se torna necessário que se adquira a boa vontade, que o veritólogo considera como sendo a única coisa incondicionalmente boa neste mundo, que é a vontade de querer obedecer à lei moral, independentemente do seu proveito ou desvantagem para nós. Assim, não devemos nos preocupar com a felicidade, mas sim cumprirmos o nosso dever, esquecendo-se de acrescentar que a felicidade é justamente o cumprimento do nosso dever aqui neste mundo-escola, pois quem cumpre com o seu dever não pode deixar de ser feliz, mesmo que a felicidade venha a ser relativa.

Para Kant, “a moral não é propriamente a doutrina do modo de sermos felizes, mas sim do modo como podemos nos tornar dignos dela”. Então ele aconselha que procuremos a felicidade para os outros, mas, quanto a nós mesmos, demandemos a perfeição, quer nos traga felicidade, quer nos traga sofrimento, devendo-se acrescentar que o sofrimento é próprio da vida terrena, pois que ele é um dos modos de se evoluir, juntamente com o estudo e o raciocínio, além do mais o sofrimento tanto pode ser doloroso como prazeroso.

Sendo altruísta ao extremo, sem deixar de se preocupar consigo mesmo, Kant considera que devemos realizar a perfeição em nós e a felicidade nos outros, sendo esta a regra humana de proceder para consigo mesmo e para com os outros, mas sempre como um fim, e nunca como simples meios. Desta maneira, vivendo em conformidade com este princípio, poderemos criar uma comunidade ideal de seres racionais, o que para tanto basta apenas que venhamos a proceder como se já pertencêssemos a ela, aplicando a lei perfeita no estado imperfeito. Em se tratando de um princípio, o veritólogo considera que é uma ética difícil de seguir, essa que coloca o dever acima da beleza e a moral acima da felicidade, mas que somente assim poderemos deixar de ser animais e começar a ser deuses.

É essa ordem absoluta para o cumprimento do dever que vem a provar o nosso livre arbítrio, pois não poderíamos conceber uma noção como o dever se não nos sentíssemos livres. Não podemos provar dessa liberdade com a razão abstrata, e aqui o veritólogo atribui mais um complemento para a razão, como se existisse a razão abstrata, que ele considera havê-la provado a sentindo diretamente na crise da escolha moral. Mas ele sente essa liberdade como a própria essência do seu ser íntimo, do puro ego, sentindo dentro de si a atividade espontânea de um espírito a modelar a experiência e a escolher os seus fins.

Quando se iniciam as nossas ações, elas parecem seguir leis fixas e invariáveis, o que ocorre somente porque percebemos os seus resultados por meio dos sentidos, que revestem a tudo o que transmitem com a vestidura daquela lei de causalidade, criado pelo nosso próprio espírito. No entanto, nós nos achamos além e acima das leis que criamos tendo em mira compreender o mundo sensível, em que cada um de nós é um centro inicial de força e de poder criados. Sentimos, de certo modo, que não podemos provar que somos todos livres, mas o veritólogo não consegue provar que somos todos livres porque a quase totalidade dos seres humanos é escrava das paixões, vide o tópico 12.05- A liberdade, em Prolegômenos, neste site.

Mas mesmo reconhecendo não poder provar que somos todos livres, o veritólogo reconhece que somos todos imortais, o que implica na existência e na depuração do espírito, portanto, na evolução espiritual, mas mesmo assim ele não adentra na espiritualidade. Entretanto, ele afirma compreender que a vida não se assemelha àqueles dramas tão apreciados pelo povo, em cujo desfecho os maus são castigados e os atos de virtude premiados, considerando que cada vez mais a sabedoria da serpente é melhor do que a mansidão da pomba aqui neste mundo, e que os ladrões podem triunfar se roubarem em alta escala.

Referindo-se indiretamente à espiritualidade, o veritólogo considera que se a justificação da virtude fosse meramente a utilidade e a conveniência terrenas, e aqui ele se refere à moral utilitária, mal avisados andariam os bons, mas conhecendo tudo isso, sofrendo com frequência o choque brutal dessa verdade, sentimos ainda a ordem mental de procedermos bem, praticando o bem desinteressadamente. Pois como poderia persistir este senso da retidão se não sentíssemos que esta vida é apenas uma parte da vida, que este sonho terrestre é unicamente um embrionário primórdio a que se sucede um novo despertar? Se não soubéssemos vagamente que nesta vida ulterior e mais longa se erguerá a concha da balança em que nem um copo d’água dado de coração deixará de obter restituição cêntupla? Note-se que aqui o veritólogo se refere à vida espiritual, mas que sabe vagamente ao seu respeito.

É nessa referência à vida espiritual que Kant proclama a existência de Deus, do verdadeiro Deus, e jamais de Jeová, o deus bíblico, que não passa de um espírito trevoso. Para ele, o senso do dever subentende e justifica a crença em recompensas futuras, devendo-se aqui acrescentar que não existem recompensas pelo cumprimento do dever, a não ser que se considere como recompensa a aquisição da felicidade relativa e a evolução espiritual. Para o veritólogo, “o postulado da imortalidade… deverá nos levar à suposição da existência de uma causa adequada a este efeito, em outras palavras, deve ser um postulado da existência de Deus”.

A RELIGIÃO E A RAZÃO

Antes de mais nada, deve aqui ser esclarecido que as religiões são as fontes das ciências, pois que elas são as encarregadas dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade relativas às parcelas do Saber, fornecendo as causas, enquanto que as ciências são as encarregadas das experiências físicas acerca da sabedoria relativas às parcelas do Saber, fornecendo os efeitos; portanto, estamos nos referindo aqui ao credo, termo este que ora em diante utilizaremos, que sendo totalmente sobrenatural, nada tem a ver com a razão, não podendo haver comparação entre um e outro.

De qualquer maneira, Kant negou arrojadamente a teologia racional, reduzindo o credo à fé credulária e à esperança morais, sabendo-se que os credos praticam a moral utilitária, o que provocou protestos de todos os alemães ortodoxos. Enfrentar a revolta dos credulários ortodoxos requereu do veritólogo uma coragem pouco vista neste mundo de meu Deus, quando de modo intrépido tornou público, aos sessenta e seis anos de idade, a sua obra intitulada de Crítica da Faculdade de Julgar, e, aos sessenta e nove anos, a sua obra intitulada de A Religião Dentro dos Limites da Razão Pura.

Em sua Crítica da Faculdade de Julgar, Kant volta a discutir o argumento da finalidade, que em sua primeira crítica rejeitara por ser prova insuficiente da existência de Deus. Começa por correlacionar a finalidade e a beleza, em que esta, ao seu ver, é algo que revela proporção e unidade de estrutura, como se pré-traçadas por uma inteligência, observando que a contemplação de um fim harmônico dá sempre um prazer desinteressado, e que “o interesse pela beleza da natureza por si mesma é sempre uma manifestação do bem”.

Muitas coisas naturais patenteiam tal beleza, como a harmonia e a unidade, quase no levando à noção de um desígnio sobrenatural, em que o advérbio quase indica uma pequena diferença, mas que não deixa de ser uma diferença. Kant diz que existem na natureza muitos exemplos de desperdício e confusão, assim como inúteis repetições e multiplicações, o que não procede, a não ser quando entra a ação do homem, mas, de qualquer maneira, a natureza conserva a vida, mas à custa de sofrimentos e mortes. Por isso, a aparência de uma finalidade exterior não é prova contundente da Providência, então os teólogos que tanto se utilizam desta ideia deveriam abandoná-la, e os cientistas que a abandonaram deveriam retomá-la, pois é magnífico ponto de partida e conduz a centenas de revelações, já que a finalidade existe, indubitavelmente, mas uma finalidade interna, da harmonia das partes em relação ao todo, e se as ciências interpretarem as partes de um organismo em termos de sua significação em relação ao todo, verá nisto um admirável complemento para aquele outro princípio heurístico, qual seja, a concepção mecânica da vida, que também é frutífero para descobertas, mas que, isolado, jamais poderá explicar nem mesmo o desenvolvimento de uma folha de relva.

Da circunstância de não se dever basear o credo na lógica da razão abstrata, mas sim na razão prática do senso moral, conclui-se que quaisquer bíblias ou revelações devem ser julgadas pelo seu valor moral, não podendo por si mesmas ser juízes de um código moral. Assim, as igrejas e os dogmas só têm valor enquanto auxiliam o aperfeiçoamento moral da humanidade, pois quando os credos ou cerimônias credulárias passam a valer mais do que a excelência moral como prova de credulariedade, é que o credo desapareceu.

Para Kant a igreja é uma comunidade de pessoas unidas pelo culto a uma lei moral comum. Foi para estabelecer tal comunidade que Jesus, o Cristo, viveu e morreu, foi esta a verdadeira igreja que ele edificou, igreja contrastante com o eclesiasticismo dos fariseus, no que podemos acrescentar que Jesus, o Cristo, veio para instituir o instituto do Cristo no seio da nossa humanidade, que se inicia por intermédio do Racionalismo Cristão, o qual já se encontra estabelecido no seio da nossa humanidade, ainda em forma de doutrina, mas que com a minha explanação lhe será acrescido o devido sistema. E ele diz acertadamente o seguinte:

Cristo aproximou da Terra o reino de Deus, mas não foi compreendido, e, em lugar do reino de Deus, foi o dos clérigos que se estabeleceu entre nós”.

Desta maneira, ele passa a considerar que os pontos da fé credulária e os rituais substituíram novamente o viver virtuoso, e, ao invés de se ligarem pelo credo, os homens se dividiram em mil seitas, e todas as modalidades de extravagâncias pias foram inculcadas como uma espécie de cortesania celeste, em que todos podem obter, por meio de lisonjas, as mercês do regedor do céu, que neste caso, podemos dizer, trata-se do deus bíblico e outros.

Kant considera que os milagres não servem de prova a um credo, pois não podemos confiar nos testemunhos que os atestam, e a prece é inútil, caso o seu intuito for a alteração das leis naturais que governam todas as coisas. Finalmente, atinge-se o auge da perversão, quando a igreja se torna instrumento nas mãos de um governo reacionário; quando o clero, cuja função é consolar e guiar a humanidade sofredora com a fé credulária, a esperança e a caridade credulárias, torna-se o fator do obscurantismo teológico e da opressão política.

Presume-se que essas conclusões por parte de Kant residia no fato de que fôra justamente isto o que acontecera na Prússia. Frederico, o Grande, desencarnara em 1786 e a ele sucedera Frederico Guilherme II, a quem a política liberal do seu antecessor pareceu rescender impatrioticamente ao racionalismo francês. Foi demitido Zedlitz, ministro da educação de Frederico, o Grande, e nomeado Wöllner, que fôra definido por Frederico, o Grande, como “um sacerdote pérfido e intrigante”, que repartia o tempo entre a alquimia e os mistérios rosacrucianos, e ascendeu ao poder por se haver oferecido como “indigno instrumento” à nova política do monarca de restaurar compulsoriamente a fé ortodoxa. Em 1788, Wöllner expediu um decreto proibindo de se ensinar nas escolas, ou nas universidades, ideias credulárias que se afastassem da forma ortodoxa do protestantismo luterano, criou uma rigorosa censura a toda espécie de publicações e determinou que fosse demitido todo professor acusado de ensinar qualquer heresia contra a ortodoxia luterana.

Em princípio Kant não foi molestado, por ser velho, e, como disse um conselheiro real, porque poucas pessoas o liam e, mesmo assim, aqueles que o liam não o compreendiam. Mas o ensaio sobre o credo era compreensível, e, apesar de repassado de fervor credulário, trazia o forte paladar de Voltaire, por isso impossível de escapar à nova censura, tanto que a Berliner Monatsschrift, uma revista mensal publicada por Johann Biester e Friedrich Gedike, que tencionava publicá-lo, recebeu ordem de não o fazer.

Mesmo já contando com setenta anos de idade, Kant encontrou forças para enviar o ensaio a alguns amigos de Lena, que ficava fora da Prússia e era governada pelo duque de Welmar, para que o publicassem pela imprensa da universidade. Em 1794, Kant recebeu uma rigorosa ordem oficial do rei da Prússia, formulada nestes termos:

À nossa mais alta pessoa desagradou grandemente observar que dais mau emprego à Filosofia, fazendo-a solapar e destruir muitas das doutrinas fundamentais das Santas Escrituras e da cristandade. Exigimos, pois, imediatamente claras explicações e esperamos que no futuro não mais dareis causa a tal desagrado; e sim que cumprindo o vosso dever, usareis de tal arte que os nossos paternais desígnios sejam cada vez mais realizados. Se continuardes a resistir a esta ordem, podereis contar com desagradáveis consequências”.

Kant respondeu que todos os letrados têm o direito de formar os seus juízos pessoais sobre matéria credulária e de tornar conhecidas as suas opiniões. Mas, não obstante isso, manteve-se em silêncio durante aquele reinado.

A POLÍTICA E A PAZ ETERNA

Em 1784, Kant publicou uma breve exposição de sua teoria política sob o título O Princípio Natural de Ordem Política Considerado em Conexão com a Ideia de uma História Universal Cosmopolita, em que começa reconhecendo na luta de cada um contra todos o método com que a natureza desenvolve as latentes capacidades vitais, com a luta sendo a companheira indispensável do progresso, pois se os homens fossem totalmente sociáveis, o indivíduo se conservaria na estagnação, por isso se requer uma certa mescla de individualismo e competição para que a espécie humana perdure e se desenvolva. Vejamos o que ele diz:

Sem qualidade de natureza antissocial… os homens levariam a vida de pastor arcádico, em completa concórdia, contentamento e muito amor, mas neste caso as suas aptidões permaneceriam eternamente ocultas e em germe. Agradeçamos, portanto, à natureza por essa antissociabilidade, por essa invejosa emulação e vaidade, por essa insaciável ambição de riqueza e poder… O homem quer a concórdia, mas a natureza conhece melhor que ele o que convém à espécie, e ela quer a discórdia, para que o homem seja impelido a desenvolver mais esforços e aperfeiçoar as suas aptidões naturais”.

Esse sentimento de Kant vai de encontro à doutrina da unidade dos contrários, que talvez venha a ser o aspecto mais original do sentimento de Heráclito de Éfeso, em que a lei secreta do mundo reside na relação de interdependência entre dois conceitos opostos, em luta permanente, mas, ao mesmo tempo, um não pode existir sem o outro, já que nada existiria se não existisse, ao mesmo tempo, o seu oposto. Assim, por exemplo, uma subida pode ser pensada como uma descida por quem está na parte de cima. Entre os contrários se cria uma espécie de luta constitutiva do logos indiviso. Nessa dualidade, a luta entre os contrários superficialmente é uma guerra, mas no fundo é harmonia entre os contrários, em que Heráclito de Éfeso viu aquilo que definia o logos, a lei universal da natureza.

Para Kant, então, a luta pela existência não é completamente um mal. Entretanto, os homens percebem dever a luta se restringir a certos limites e se regular com regras, costumes e leis, que para ele é a origem e o desenvolvimento da sociedade civil. Ele diz o seguinte:

A mesma antissociabilidade que forçou os homens a viverem em sociedade se torna outra vez a causa de cada comunidade assumir a atitude de irrefreada liberdade em suas relações exteriores, isto é, como país, em relação a outros países, e, por conseguinte, cada país deve esperar dos outros os males que dantes molestavam os indivíduos, até que esses países sejam compelidos a formar uma união civil por leis”.

Toda a significação e todos os movimentos da História convergem para uma redução cada vez maior da pugnacidade e da violência e para a contínua ampliação dos domínios da paz, em que Kant se expressa da seguinte maneira:

Encarada como um todo, pode se considerar a história da espécie humana como a realização de uma oculta finalidade da natureza, de criar uma organização política interna e externamente perfeita, por ser o único estado em que podem plenamente se desenvolver todas as aptidões outorgadas por ela ao gênero humano”.

Se não houver tal progredir, os trabalhos das sucessivas civilizações serão como o de Sísifo, que roda continuamente um rochedo morro acima, para vê-lo se despenhar quando está quase a atingir o cume. A História, então, outra coisa não seria além de uma demência infinita e cíclica, e poderíamos supor, bem como o hindu, ser a Terra o lugar de expiação de antigas culpas esquecidas.

Publicado em 1795, quando Kant contava setenta e um anos, o ensaio sobre a Paz Eterna é um desenvolvimento desse tema. O veritólogo reconhece quão fácil é nos rirmos a essa frase paz eterna, por isso, abaixo do seu título, escreve:

Estas palavras foram certa vez escritas por um estalajadeiro holandês em uma tabuleta em que estava pintado um cemitério”.

Kant considerava que os governantes não tinham recursos para empregar na educação pública porque todos os seus recursos eram destinados a contribuir para o custeio da primeira guerra, assim as nações não seriam verdadeiramente civilizadas enquanto não suprimissem todos os exércitos permanentes, então os exércitos permanentes estimularam as nações a se excederem umas às outras em número de homens armados, e neste caminho nunca se chega a um termo. Devido às despesas ocasionadas por esse estado de coisas, torna-se a paz, com o tempo, mais penosa do que uma breve guerra, e os exércitos permanentes serão assim causadores de guerras ofensivas, empreendidas com o fim de se livrarem de semelhante opressão, pois em tempo de guerra o exército se mantém a si mesmo no campo, com requisições, boletos e saques, de preferência no território inimigo, mas, sendo necessário, no do próprio país a que pertence, mesmo isto parece aos governos melhor do que mantê-lo com fundos públicos.

No parecer de Kant, a razão desse militarismo era devido à expansão europeia na América, África e Ásia, com as consequentes discórdias de ladrões a se disputarem a nova presa, pelo que diz:

Se compararmos os exemplos barbáricos de inospitalidade… com o procedimento desumano dos civilizados, e especialmente com o dos países comerciantes do nosso continente, as iniquidades que estes praticam, mesmo em seu primeiro contato com terras e gentes novas, enchem-nos de indizível horror, o simples ato de aproar a novas terras equivale para eles a uma conquista. Apenas descobertos a América, a região dos pretos, as ilhas das especiarias, o cabo da Boa Esperança, etc., foram tratados como terras sem dono, pois os aborígenes contavam como zero… E tudo isto era feito por nações que alardeavam credulidade, desmandando-se em atrocidades, consideravam-se as verdadeiras zeladoras da fé ortodoxa”.

Kant atribuía a cobiça imperialista à organização oligárquica das nações europeias, em que os despojos iriam pertencer a alguns poucos privilegiados, mas caso se implantasse a democracia e todos participassem do poder público, os despojos das rapinas internacionais seriam tão subdivididos que constituiriam uma tentação resistível. Disto resulta que o definitivo artigo para a paz eterna é o seguinte:

Todas as nações terão constituição republicana e apenas se declararão guerras por efeito de um plebiscito de todos os cidadãos”.

Assim, quando aqueles que deverão combater tiverem o direito de opção entre a guerra e a paz, não mais se escreverá com sangue a história, pelo que diz:

Por outro lado, em uma organização em que os súditos não influem com o seu voto nos atos do governo e que, por consequência, não é republicana, a declaração de guerra é de todas as coisas do mundo, considerada como a de menor monta. Pois, neste caso, o governante não sendo um simples cidadão e sim o dono do país, nada sofrerá pessoalmente com ela, nem mesmo precisará sacrificar os seus prazeres da mesa ou da caça, nem a vida em seus palácios suntuosos, festivais da corte e coisas semelhantes. Pode, portanto, preferir a guerra por motivos mínimos, como se se tratasse apenas de uma caçada, e quanto ao que diz respeito a lhe justificar a conveniência, deixar esse cuidado ao corpo diplomático, sempre pronto para tais empresas”.

Em 1795, a vitória da Revolução Francesa sobre os exércitos reacionários, levou Kant a esperar que as repúblicas se espalhariam então por toda a Europa e surgiria a ordem internacional baseada em uma democracia sem servidão nem explorações e empenhada na manutenção da paz, pois, afinal, a função do governo é auxiliar e desenvolver o indivíduo, e não usar e abusar dele, considerando-se que todo homem deve ser respeitado como um fim absoluto em si mesmo, e é um crime contra a sua dignidade de ser humano se utilizar do homem como de um mero instrumento para algum fim no exterior, proclamando pela igualdade, não de aptidões, mas de oportunidades para o desenvolvimento e emprego de aptidões, combate todas as prerrogativas de nascimento e de casta e atribui todos os privilégios hereditários a violentos atos de conquistas do passado.

A COISA EM SI

Na apresentação transcendental do espaço, Kant determina as condições subjetivas ou transcendentais da objetividade, considerando que se o conhecimento é relação, ou seja, o relacionamento do sujeito com o objeto, não se pode conhecer as coisas em si, mas apenas para nós, no que se encontra totalmente equivocado.

Não se pode duvidar da capacidade inteligencial do ser humano, uma vez que a inteligência é espiritual, e todos nós seres humanos somos espíritos. Mas Kant duvidou da capacidade inteligencial do ser humano porque ele não procurou transcender a este mundo, elevando-se ao Espaço Superior ou se transportando ao Tempo Futuro, condições sine quibus non para se perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e as experiências físicas acerca da sabedoria, respectivamente, já que este nosso mundo-escola é desprovido de tudo isso, notadamente porque a nossa humanidade ainda se encontra na fase da imaginação.

Pode-se sim conhecer a coisa em si objetivamente, não apenas para nós, mas para todo o Universo, notadamente porque todos os seres são coisas, já que são provenientes da Coisa Total, que é Deus.

Vejamos o exemplo de um átomo, que é a menor coisa que existe, ele pode sim ser conhecido em todos os seus fundamentos, não pelas teorias atômicas advindas das ciências, mas sim pela Ratiologia, pois que os cientistas ainda ignoram que os átomos são seres, e não formadores da matéria, já que esta não existe. A figura abaixo mostra o átomo como ser:

Então se um simples ser atômico pode ser conhecido em todos os seus fundamentos, torna-se óbvio que os seres moleculares também podem ser conhecidos, assim como todos os demais seres, inclusive os seres humanos, pois que todos os seres são coisas.

 

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