06.01- Voltaire

A Era da Verdade
10 de dezembro de 2019 Pamam

François-Marie Arouet, mundialmente conhecido pelo pseudônimo de Voltaire, encarnou em Paris, no ano de 1694, e desencarnou também em Paris, no ano de 1778, tendo sido um escritor, ensaísta, deísta e intelectual iluminista francês. Por pouco ele deixou de vir ao mundo, sendo tão franzino e doentio que a ama não lhe deu mais que um dia de vida, mas a ama errou por muito, pois Voltaire viveu mais de oitenta anos, porém por toda a vida o seu organismo frágil atormentou com moléstias o seu indomável espírito.

Voltaire encarnou em uma família abastada, burguesa e aristocrata, tendo a sua mãe desencarnado quando ele tinha apenas sete anos de idade. Estudou com os jesuítas no Collège Louis-le-Grand, onde se revelou um aluno brilhante. Frequentou a Societé du Temple, de livres pensadores e de libertinos, em que o termo libertino se refere aos intelectuais e literatos europeus que se abstraíam de princípios morais do seu período, mas a palavra foi cunhada por Calvino para depreciar aos seus oponentes políticos. Por causa dos seus versos irreverentes contra os governantes, foi preso na Bastilha nos anos 1717 e 1718, onde iniciou a tragédia Édipo, em 1718, e o Poema da Liga, em 1723, e onde adotou o pseudônimo de Voltaire.

Não demorou muito para que Voltaire se tornasse célebre e rico, mas em uma discussão com o príncipe Rohan-Chabot foi preso novamente, tendo sido obrigado a se exilar na Inglaterra pelo período de 1726 a 1728, onde implementou a sua obra e o seu pensamento para um movimento reformador. No ano de 1730, em sua liberdade, escreveu uma tragédia intitulada de Brutus. Em 1731, criticou a guerra em sua História de Carlos XII. Em 1733, criticou os dogmas tidos como sendo cristãos, em sua Epístola a Urânio, e as falsas glórias literárias em O Templo do Gosto.

Escreveu ainda uma das obras que mais o projetaram, intitulada de Cartas Filosóficas, ou Cartas Sobre os Ingleses, que criticava o regime político francês, fazendo espirituosas comparações entre a liberdade inglesa e o atraso da França absolutista, clerical e obsoleta. As autoridades proibiram e queimaram o livro em praça pública, forçando Voltaire a deixar Paris e se refugiar no castelo de Cirey, onde procurou renovar a tragédia Zaire, em 1732, A Morte de César, em 1735, e Mérope, em 1743. Em 1746, obteve um lugar na Academia Francesa, graças a algumas de suas poesias, como o Poema de Fontenoy, em 1745, tendo ido para a corte no mesmo ano na condição de historiógrafo real. Convidado por Frederico II, o Grande, da Prússia, foi viver na corte de Potsdam, onde publicou inicialmente o conto Zadig, em 1747, e posteriormente O Século de Luiz XIV, em 1751, e Micrômegas, em 1752. Em 1753, depois de um conflito com o rei, retirou-se para uma casa perto de Genebra, onde ali chocou ao mesmo tempo os católicos, com a sua obra A Donzela de Orleans, em 1755, os protestantes, com o seu Ensaio Sobre os Costumes, em 1756, e criticou o pensamento de Rousseau com o seu Poema Sobre os Desastres de Lisboa, publicado em 1756.

Replicou os seus opositores com o conto Cândido, em 1759, refugiando-se em seguida em Ferney, que em sua homenagem passou a se chamar Ferney-Voltaire. Prosseguiu a sua obra escrevendo tragédias, como Tancredo, em 1760, contos filosóficos dirigidos contra os aproveitadores, como Jeannot e Colin, em 1764, contra os abusos políticos, como o Ingênuo, em 1767, contra a corrupção e a desigualdade das riquezas, como O Homem de Quarenta Escudos, em 1768, denunciou o fanatismo clerical e as deficiências da justiça e celebrou o triunfo da razão, como o Tratado Sobre a Tolerância, em 1763, e o Dicionário Filosófico, em 1764.

Foi iniciado maçom em 1778, o mesmo ano da sua desencarnação, na Loja Les Neuf Sceurs, em Paris, tendo ingressado no Templo apoiado no braço de Benjamin Franklin, embaixador dos Estados Unidos na França, na época. A sessão foi dirigida pelo venerável mestre Lalande, na presença de 250 irmãos. Voltaire foi revestido com o avental que pertenceu a Helvetius e que fôra cedido para a ocasião pela sua viúva. No mesmo ano foi chamado para Paris, tendo sido recebido em triunfo pela Academia e pela Comédie-Française, onde lhe ofereceram um busto. Estando já velho e esgotado, desencarnou em 30 de maio de 1778.

Segundo os estudiosos do assunto, jamais escritor algum exerceu tanta influência enquanto vivo. Apesar do exílio, da prisão e da condenação de quase todos os seus livros pelos melindrosos potentados da Igreja e do Estado, ele abriu caminho para mostrar toda a sua intelectualidade, quando então passou a ser cortejado por reis, papas e imperadores, pois que os altos potentados tremiam ante a sua presença e o povo prestava ouvidos para não perder uma das suas palavras. Era uma época em que muitas coisas pediam um grande demolidor, por isso Nietzsche dizia que “pediam leões do riso”, e, de fato, “a tudo aniquilou com o riso”. Ele e Rousseau foram as duas vozes de um processo de transição econômica e política da aristocracia feudal para a soberania da classe média. Vendo na prisão do Templo as obras de Voltaire e Rousseau, Luiz XVI, estando prisioneiro, disse: “Esses dois homens destruíram a França”; o que significava a sua dinastia. De fato, Voltaire agitou a alma francesa contra os abusos da Igreja, rompendo tal bombardeio que sacudiu o poder do clero na França e auxiliou a derrubar um trono.

Atribuíam-lhe a paternidade de todas as coisas chistosas e ferinas cochichadas em Paris, havendo entre elas duas poesias que acusavam o Regente de desejar usurpar o trono, o que causou a fúria do regendo, que se encontrando com Voltaire no parque, disse-lhe: “Sr. Arouet, aposto que poderei lhe mostrar uma coisa que o senhor ainda não viu”. “Qual”? “O interior da Bastilha”. Voltaire a viu no dia seguinte, 16 de abril de 1717. Mas o Regente, havendo percebido que havia prendido um inocente, soltou-o e lhe deu uma pensão, tendo Voltaire escrito uma carta agradecendo e o haver se preocupado com o seu sustento, pedindo-lhe permissão para então dali por diante ele próprio se preocupar com a sua moradia.

Quase de um pulo passou da prisão para o palco, pois a sua tragédia Édipo foi representada em 1718 e bateu todos os recordes parisienses, sendo levada à cena quarenta e cinco noites seguidas. O seu velho pai, que fôra censurá-lo, não conseguia esconder o seu contentamento em um camarote, exclamando a cada lance sensacional: “Oh! O maroto! O maroto”! Quando após a representação o poeta Fontenelle foi ver Voltaire e lhe condenou a peça com um louvor excessivo, dizendo ser “muito brilhante para uma tragédia”, Voltaire retrucou sorrindo: “preciso reler as suas pastorais”.

Voltaire preferia a monarquia à democracia, partindo do princípio de que na primeira basta educar apenas um homem, enquanto que na segunda há a necessidade de se educar milhões, salientando que o coveiro os leva a todos antes que dez porcento concluam o curso.

Ele manifestou a Mme. du Châtelet a sua esperança de que deveria haver meios de se aplicar a filosofia à História, tentando traçar a história da civilização sob o fluxo dos sucessos políticos. Na realidade, toda a história da civilização deve ser reescrita, principalmente de 4.000 anos para os dias de hoje, quando da encarnação de Hermes, a primeira encarnação do espírito que se deslocou da sua humanidade para a nossa, dando início a uma Grande Era, a Era da Sabedoria, tendo depois encarnado como Krishna na Índia, como Confúcio, na China, como Platão, na Grécia, e, por fim, como Jesus, na Palestina, quando então alcançou a condição do Cristo, mas do Cristo da sua humanidade, e não da nossa, que tem que produzir o seu próprio Cristo, quando então decretou o final da Era da Sabedoria e decretou o início da Era da Verdade. Assim, a história da civilização obedece rigorosamente ao plano de espiritualização da nossa humanidade formulado por esse fabuloso espírito. Mas vejamos o que Voltaire disse a respeito da história da civilização:

Somente os filósofos deveriam escrevê-la. Em todas as nações a História é desfigurada pela fábula, até que a Filosofia venha a esclarecer o homem, e quando ela chega, afinal, em meio a esta escuridão, encontra o espírito humano tão cego por séculos de erros que mal pode libertá-lo, encontra montanhas de cerimônias, fatos e monumentos para provarem mentiras”.

Em sua imensa intelectualidade, Voltaire procurava um princípio unificador que pudesse servir de lastro a toda a história da civilização, convencendo-se de que esse lastro era a história da cultura. E foi mais além, criando a primeira filosofia da história, quando deliberou que em sua história cogitaria da espécie humana e da evolução do espírito, dizendo:

Eu quero escrever uma história não de guerras, mas de sociedade. Verificar como viviam os homens no seio das suas famílias e quais as artes que ordinariamente cultivavam… O meu intuito é a história do espírito humano, não um mero minudenciar de fatos insignificantes… desejo conhecer quais os fatos que, da barbárie, conduziram os homens à civilização”.

É certo que as perseguições e os desenganos lhe afetaram a fé na vida, mas tanto a fé como a esperança sofreram um maior abalo quando chegaram as notícias do tremendo terremoto em Lisboa, em novembro de 1755, em que desencarnaram cerca de trinta mil pessoas. O cataclismo ocorrera no dia de Todos os Santos, com as igrejas estando entupidas de fiéis, com a morte tendo rica seara a ceifar. Voltaire se sentiu profundamente impressionado, mas se irritou quando o clero francês tentava explicar a catástrofe como a punição dos pecados do povo lisboeta, foi quando deu vazão a um ardente poema, no qual forneceu um vigoroso realce ao antigo dilema, que assim dizia: ou Deus podia evitar o mal e não o quis, ou quis evitá-lo e não pôde. No site pamam.com.br se encontra a explicação para os terremotos e outros desastres tidos como sendo naturais.

Com o advento da guerra dos Sete Anos, Voltaire considerou loucura ou suicídio o arrasamento da Europa com o fim de determinar se seria a Inglaterra ou a França que ganharia umas poucas geleiras de neve no Canadá, e quando mais acesa ia a luta, saiu a lume uma réplica de Rousseau ao poema sobre Lisboa, em que afirmava que era a si mesmo que o homem deveria culpar pelo desastre. Voltaire ficou enfurecido ao ver o seu nome ser enxovalhado, voltando contra Rousseau a sua arma representada pelo seu intelecto e pelo seu sarcasmo, quando então escreveu em apenas três dias o Cândido.

Os acontecimentos da época o levaram da cortesia zombeteira do agnosticismo para um ardente anticlericalismo, que não admitia transigências, declarando guerra implacável para “esmagar a infame” intolerância clerical. A Igreja sentiu a imensa influência intelectual de Voltaire, quando então, nesse ponto crítico, os seus sacerdotes fizeram uma tentativa para suborná-lo, por intermédio de Mme. de Pompadour, sendo-lhe oferecido o chapéu de cardeal em troca de sua reconciliação com a Igreja, suborno que o intelectual evidentemente não aceitou, assim como se dirigir hierarquicamente alguns bispos que falavam a língua do sobrenatural pudesse seduzir a um homem que era o soberano do mundo intelectual. A partir daí, segundo Catão, pôs-se a rematar todas as suas cartas com o “Esmaguemos a infame”. Voltaire dirigiu um apelo aos seus amigos e companheiros contra a igreja e todo o sistema, convocando-os para a luta, dizendo:

Vamos, valente Diderot e intrépido D’Alembert, coliguemo-nos… derrotemos os fanáticos e os hipócritas, destruamos as insípidas declarações, os vis sofismas, a história mentirosa… os absurdos sem conta; não deixemos os que têm bom senso sob a sujeição dos que o não têm, e a geração que está nascendo nos deverá razão e liberdade”.

Voltaire era bem consciente acerca da patifaria sacerdotal, tanto que no Tratado Sobre a Tolerância afirmou que suportaria os absurdos dos dogmas se o clero vivesse em conformidade com as suas prédicas e tolerasse as divergências de opiniões. Ele considerava que o primeiro passo para o saneamento da sociedade era a destruição do poder clerical, em que a intolerância se enraizava, dizendo:

“As sutilezas de que nenhum vestígio se encontra nos Evangelhos são as fontes das sangrentas dissenções da história cristã. O homem que me dizia “crede como eu’, senão vos assassinarei. Qual o direito que um ser criado livre força outro igual a pensar como ele próprio? O mal de todos os séculos foi o fanatismo entretecido de superstição e ignorância”.

Um panfleto de Voltaire intitulado de As Perguntas de Zapata, um candidato ao sacerdócio, diz que Zapata pergunta ingenuamente: “Como poderemos demonstrar que os judeus, a quem queimamos às centenas, foram durante quatro mil anos o povo eleito de Deus?”. E prossegue com perguntas que deixam visíveis as incoerências narrativas e cronológicas do Velho Testamento: “Quando dois concílios se anatematizam um ao outro, como sucedeu muitas vezes, qual é o infalível?”. Por fim, não recebendo resposta, Zapata começou a pregar a religião de Deus com toda a simplicidade, anunciando-O ao mundo como o Pai comum, dispensador de recompensa, de punição e de perdão. Expurgou a verdade das mentiras e extremou a religião do fanatismo, ensinou e praticou a virtude, sendo manso, bom e honesto, tendo sido queimado em Valladolid no ano da graça de 1631.

Voltaire não chegou a mencionar que o cristianismo praticado era totalmente falso, mas em uma de suas mais ferinas piadas, afirmou que “O cristianismo deve ser divino, uma vez que durou cerca de 1.700 anos, apesar de tão cheio de baixezas e absurdos”. Ele mostra como quase todos os povos antigos tinham mitos análogos, apressando-se a disso concluir estar provado que os mitos são invenções dos sacerdotes, dizendo que “O primeiro sacerdote surgiu quando o primeiro velhaco encontrou o primeiro tolo”. Ele criticava severamente a Teologia, considerando que foram as suas divergências que causaram tantas acirradas disputas e guerras credulárias, ao afirmar o seguinte:

Não foi o povo… que deu causa a essas ridículas e fatais questiúnculas de onde saíram tantos horrores… Homens que o trabalho do povo engorda em agradável ócio, enriqueceram-se com o suor e a miséria dos simples e lhes inocularam no coração o fanatismo destruidor para melhor senhoreá-los. Fizeram o povo supersticioso, não para que o povo temesse a Deus, mas sim para que temesse a eles”.

Apesar de combater tenazmente a classe sacerdotal, que na realidade é a mais nefasta classe de todos os tempos, Voltaire não era um incrédulo, pois repelia resolutamente o ateísmo, chegando até a rastrear a condição do verdadeiro Deus como sendo a Inteligência Universal, mas acertando quando considera a Ele como sendo o Grande Todo, como assim demonstra o seu escrito a Diderot:

Confesso que não concordo com a opinião de Saunderson, que nega a Deus por ter nascido cego. Talvez me engane, mas no seu lugar eu reconheceria uma grande inteligência que me deu tantos substitutos para a vista; e apercebendo-me, pela reflexão, das admiráveis correlações entre todas as coisas, eu suspeitaria da existência de um Obreiro infinitamente hábil. Se é grande presunção querer adivinhar o que é Ele e porque Ele fez tudo quanto existe, parece-me presunção também negar que Ele exista. Tenho grande desejo de me encontrar contigo, quer te consideres uma de Suas obras, quer uma partícula desprendida, pela força da necessidade, da matéria eterna e necessária. Seja o que for que sejas, és uma parte digna do grande Todo que não compreendo”.

E tanto procede a crença em Deus, que para Holbach Voltaire frisa que o próprio título do seu livro, Sistema da Natureza, indica uma inteligência divina organizadora, ao que podemos chamar de Inteligência Universal, negando firmemente os milagres e a eficácia sobrenatural da criação, já que as preces de nada valem, devendo ser substituídas pelas vibrações, radiações e radiovibrações a Deus e ao Astral Superior, sem jamais incluir o peditório, principalmente em relação à violação das leis naturais, mas sim na aceitação delas como sendo a vontade imutável de Deus, quando assim diz:

Eu estava na porta do convento quando Sóror Féssue disse a Sóror Confite: “Visivelmente a Providência me atende; sabes quanto amo meu pardal, ele teria morrido se eu não tivesse rezado nove ave-marias para lhe obter a cura”… um metafísico lhe observou: “Irmã, nada há tão bom como ave-marias, principalmente quando uma moça as reza em latim e nos arrabaldes de Paris; mas não posso crer que, por mais lindo que o seu pardal seja, Deus se preocupe com ele; creia que Ele tem mais coisas em que cuidar…”. Sóror  Féssue: “Senhor, vossas palavras sabem a heresia. Delas meu confessor… deduziria que não acreditais na Providência”. O metafísico: “Cara irmã, acredito, como acredito na luz do Sol, em uma Providência geral, que estabeleceu para toda a eternidade as leis que regem todas as coisas, mas não creio que uma Providência particular altere o mecanismo do Universo por causa do seu pardal”.

Voltaire se defende dos ataques de seus amigos ateus, compreendendo ser de fundamental importância a distinção entre superstição e credo, dizendo a Holbach, na palavra de Deus segundo o seu entendimento:

Tu mesmo afirmas que a crença em Deus… arredou alguns homens do crime, é quanto me basta. Mesmo que essa crença evitasse só dez homicídios ou dez calúnias, eu me persuadiria de que todos a deveriam seguir. Afirmas que a religião produziu incontáveis infortúnios: dizes de preferência que a causadora foi a superstição que domina o nosso infeliz globo. Ela é a mais cruel inimiga do puro culto devido ao Ser Supremo. Odiemos o monstro que sempre dilacerou o seio de sua mãe, os que o combatem são benfeitores do gênero humano. A superstição é uma serpente que afoga a religião com o seu abraço, devemos lhe esmagar a cabeça sem ferir a mãe que ela asfixia”.

Voltaire dirige a Deus uma eloquente invocação, comprovando definitivamente que não era ateu, apenas um revoltado com as patifarias dos credos, quando assim diz:

O teísta é um homem firmemente convencido da existência de um ser supremo tão bom quanto poderoso, que criou todas as coisas… que pune sem crueldade todos os crimes e premia bondosamente todas as ações virtuosas… De acordo, sobre este ponto, com o resto do Universo, o teísta não se filia a seita alguma das que se contradizem mutuamente. Sua religião é mais antiga e espalhada, pois a simples adoração de um Deus precede todos os sistemas do mundo. Ele fala uma língua que todos os povos entendem, ao passo que estes não se vendem uns aos outros. Tem irmãos desde Pequim até Caiena e conta todos os sábios entre os seus adeptos. Crê que a religião não consiste nas opiniões de uma ininteligível metafísica, nem em vãs ostentações, e sim na adoração de Deus e na prática da justiça. Fazer o bem é o seu culto, e a submissão a Deus o seu credo. Brada-lhe o maometano: ‘Mal de vós se não fordes em peregrinação até Meca’ — o padre lhe diz: ‘Sereis maldito se não fordes em romaria até Notre Dame de Lorette!’. O teísta despreza Meca e Lorette, mas socorre o indigente e patrocina o oprimido”.

Nos últimos dez anos de sua vida, Voltaire tanto se empenhou na campanha contra a tirania eclesiástica, que negligenciou a sua luta contra a corrupção e a opressão políticas, confessando que “a política não é o meu campo de batalha, sempre tomei como fito tornar os homens menos tolos e mais respeitáveis”. Ele sabia o quão complexa se pode tornar a matéria política e expunha plenamente as suas convicções à proporção que aumentava em anos, afirmando o seguinte:

 “Estou farto de toda essa gente que quer governar as nações do alto de suas águas-furtadas, desses legisladores que pretendem reger o mundo com os seus folhetos de dois cêntimos… incapazes de governar as suas mulheres ou a sua criadagem, sentem grande prazer em regular o Universo… A verdade não tem o nome de um partido. É dever de um homem… ter preferencias, mas não exclusivismos”.

De qualquer maneira Voltaire era extremamente politizado, mantendo o pensamento de um verdadeiro patriota, pois considerava que se um homem deseja que o seu país prospere, que não fosse às custas de outros países, sendo a um só tempo inteligente e um cidadão universal.

Embora ignorasse completamente que a nossa humanidade ainda vive na fase da imaginação, devendo ingressar brevemente na fase da razão, e que esta somente pode ser alcançada por intermédio dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, em união, irmanação, congregação, com as experiências físicas acerca da sabedoria, Voltaire, mesmo assim, acreditava sempre na razão, ao contrário de Rousseau, que confiava no sentimento da fraternidade para tornar a unir os elementos sociais divorciados pelo tumulto social e a supressão dos antigos costumes, considerando que se eliminassem as leis, os homens entrariam no reino da igualdade e da justiça. Quando enviou a Voltaire o Discurso Sobre a Origem da Desigualdade, contendo os seus argumentos contra a civilização, as letras e a ciência, e a favor do retorno à condição natural, como a dos selvagens e dos animais, Voltaire lhe respondeu o seguinte:

Recebi, senhor, o seu novo livro contra a espécie humana e lhe sou grato pela remessa… Jamais alguém se esforçou tão inteligentemente para nos transformar em animais; a leitura do seu livro nos dá a vontade de andar de quatro. Como, porém, já faz sessenta anos que perdi esse costume, sinto que infelizmente não me é possível retornar a ele”.

Voltaire se desgostou ao ver continuar no Contrato Social a tendência de Rousseau pelo selvagismo, escrevendo a Mr. Bordes, dizendo: “Ah, Monsieur, bem vê agora que Jean-Jacques se parece tanto a um filósofo como um macaco a um homem, é o cão de Diógenes que enlouqueceu”. Apesar disso, atacou as autoridades suíças por queimarem esse livro, apegando-se ao seu célebre aforismo: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o vosso direito de dizê-lo”. E quando Rousseau fugia de um centro de inimigos, Voltaire lhe mandou um convite especial para ficar com ele em Les Délices.

Diz-se que quando alguém se dispõe a mudar as instituições sem antes mudar a natureza dos homens, a sua natureza não mudada fará logo ressurgir as primitivas instituições, em que aí se encontra o velho círculo vicioso: os homens fazem as instituições e as instituições fazem os homens. E quem consegue romper a esse círculo vicioso? Voltaire e os liberais consideravam que a inteligência o faria, educando e transformando os homens lenta e pacificamente, enquanto que Rousseau e os radicais entendiam que o rompimento se operaria unicamente pela ação instintiva e ardente, que desmantelaria as velhas instituições e construiria outras novas, obedecendo ao coração, nas quais imperassem a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Sendo óbvio que Voltaire e os liberais se encontravam corretos, pois somente a inteligência constrói, sendo ela que irá proporcionar as mudanças que estão por vir, tendo em vista o esclarecimento espiritual da nossa humanidade.

Encontrando-se doente, com a saúde bastante debilitada, um padre foi confessá-lo, quando então Voltaire indagou ao sacerdote: “Quem o mandou cá, Monsieur l’abbé?”. O padre então respondeu: “Foi o próprio Deus”. Ao que Voltaire retrucou: “Muito bem! Muito bem! Deixe-me ver as credenciais”. O padre saiu sem a presa. Algum tempo depois, Voltaire mandou chamar outro padre chamado de Gautier, para ouvi-lo em confissão, tendo o padre atendido ao chamado, mas se recusou a absolver ao moribundo enquanto este não assinasse uma completa profissão da fé católica. Voltaire se revoltou contra a exigência, ao invés disso redigiu uma declaração que entregou ao seu secretário Wagner, em 28 de setembro de 1778, que dizia o seguinte:

Morro adorando a Deus, amando aos meus amigos, não odiando aos meus inimigos e detestando a superstição”.

Em 1791, a Assembleia Nacional da Revolução Triunfante obrigou Luiz XVI a mandar para o Panthéon os restos mortais de Voltaire. As cinzas da grande flama que se extinguira foram acompanhadas através de Paris por um cortejo de cem mil pessoas, ao mesmo tempo em que mais de seiscentas mil pessoas abriam alas. Liam-se no carro fúnebre os dizeres: “Voltaire deu um grande impulso ao espírito humano e nos preparou para a liberdade”. Em sua pedra tumular só foram necessárias três palavras: AQUI JAZ VOLTAIRE.

 

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