05.04- Da prisão à desencarnação

A Cristologia
16 de outubro de 2018 Pamam

PARTE XVII

Há cerca de dois milênios que Jesus desencarnou, martirizado pelos fariseus, em consequência de infâmias e calúnias assacadas contra esse magnífico pregador do bem e da virtude, preso quando tinha 33 anos, para se ver processar pelo crime de heresia ou por ser revolucionário, crimes que lhe foram imputados pelos sacerdotes fariseus.

Mas após o acontecido com Lázaro, Jesus se dirige a Betânia. Lázaro e a sua família, radiantes de alegria, acolhem-no, ofertando-lhe um jantar de honra, do qual compartilharam os apóstolos.

Sabedores de que Jesus se encontrava de passagem por Betânia para ir pregar em Jerusalém, os feirantes e vendedores de hortaliças depressa fizeram espalhar nos mercados da Cidade Santa — como assim ainda é considerada Jerusalém — a novidade, que passando de boca em boca, dentro em pouco era conhecida de todo o povo.

No dia seguinte, acompanhado dos discípulos, encaminha-se Jesus para Jerusalém. A gente do povo, pelo qual era muito querido, deixa a cidade e, em número superior a dez mil pessoas, segue para o arrabalde denominado de Betfajé, onde desembocava a estrada que Jesus palmilhava, desde Betânia. Quando Jesus apareceu, a multidão o recebeu com gritos de entusiasmo e, oferecendo-lhe uma bonita jumenta branca, obrigou-o a montá-la. Ramos, palmas e flores foram espalhados pela estrada, estendendo o povo mantos e capas à sua passagem, com as mulheres erguendo nos braços os filhos, gritando vivas ao rei de Israel:

— Hosana ao filho de Davi, que vem salvar Israel!

Assim entrou Jesus em triunfo, nessa Jerusalém mentirosa e hipócrita, tida como se fosse uma cidade santa. Mas um pressentimento parecia avisá-lo do que se tramava contra ele e, meditativo, cofiava a barba, sentindo-se estremecer, não por temer a morte, mas por ainda não haver terminado a missão que trouxera do seu Mundo de Luz à Terra.

Enquanto ele assim refletia, o Sinédrio se reunia de novo na casa de José Caiafa, a instâncias de Hanã, que apresentava o auto de blasfêmia atribuído a Jesus, no qual lhe era imputada “a afirmação de que destruiria o Templo e o reedificaria em três dias”. Assinavam o auto, como testemunhas, vários fariseus e algumas pessoas importantes da cidade.

Nicodemos compreendeu que Jesus estava irremediavelmente perdido. Foi então que José de Arimateia, que em silêncio vinha admirando a Jesus, considerou oportuno se erguer para defendê-lo, causando verdadeiro assombro entre os demais membros do Sinédrio, pois era uma voz respeitada e altiva que Jesus tinha em sua defesa. Além de homem sério e rico, José de Arimateia exercia também uma grande influência em Jerusalém, e por simpatizar muito com Jesus, repugnava-lhe deixá-lo condenar sem o seu protesto.

Ergueu, pois, a voz, e em tom violento acusou o alto sacerdócio como sendo o responsável pelo atrofiamento do progresso, em detrimento do povo, entregue ao fausto e a devassidão, e como único culpado de aparecerem homens capazes de chamar o povo de Israel ao caminho do bem, propugnando por uma lei baseada em princípios dignos e sérios, de trabalho e de respeito.

Hanã estava lívido de cólera, e o Sumo Pontífice teve de impor silêncio a José de Arimateia, que havia reduzido o sumo sacerdócio à condição de devasso, comercialista e explorador da credulidade do povo.

Alguns membros do Sinédrio ficaram impressionados com as acusações de José de Arimateia, mas o ouro de Hanã e a política de José Caiafa tinham feito o bastante para ser votada a prisão de Jesus, em nome da ordem pública e da preservação do Estado.

Todavia, essa prisão produzia calafrios, não somente nos mandantes, mas também nos executores, porque sendo ele grandemente estimado pelo povo, e havendo muitos forasteiros galileus na cidade, temiam um levante geral que produzisse uma tremenda revolução. Por essa razão, decidiram que não fosse preso no Templo, quando a dissertar, mas sim fora, e de surpresa.

José de Arimateia e Nicodemos foram os únicos a votar contra a prisão. E tão logo foi encerrada aquela tenebrosa reunião, Nicodemos correu a avisar Jesus, contando-lhe tudo quanto se passara, na presença de Maria Madalena, Cefas, Tiago, Pedro, João e Judas. Nicodemos aconselhou a fuga, mas Jesus, calmo e resignado, apenas respondeu:

— Mais uma vez muito te agradece, Nicodemos, a minha alma. Mas se cumpra o dever.

Na manhã seguinte, Judas procurou Hanã em sua casa, mantendo com ele uma demorada conferência.

Jesus se conservava cada vez mais meditativo, não pelo aviso de Nicodemos, mas por ver a sua obra interrompida.

Quase ao pôr do Sol, reúnem-se os discípulos para jantar com o mestre, e João, o discípulo mais moço, dissertou sobre a obra de Jesus, dando-lhe as suas palavras um grande contentamento. Seguiram-no, com entusiasmo, todos os demais, à exceção de Judas, que se mantinha taciturno e reservado, comendo pouco e não dizendo uma só palavra.

Por duas vezes, Jesus o surpreendeu a olhá-lo de revés e com uma certa expressão de deslealdade, tanto assim que o mestre, voltando-se para agradecer aos discípulos as palavras de conforto, exclamou:

— As vossas palavras me consolam, porém, em verdade vos digo que dentre vós algum deverá me trair.

O efeito dessas palavras foi terrível entre aqueles homens, que se entreolharam, mudos de espanto. Mas Jesus continuou a recomendar a todos que se amassem muito uns aos outros.

Ao se levantarem da mesa, um vago pressentimento de perigo próximo assaltou a todos aqueles homens. Jesus e os demais serenamente se despediram do dono da casa, e saíram para a rua. Pouco depois, Judas se dirige a Maria Madalena e exclama:

— Maria, uma palavra!

— Que queres?

— Sabes que Jesus deve ser preso por ordem do Sinédrio?

— Sei.

— E que se fala em o condenarem à morte?

Maria estremeceu, violentamente.

— E seria possível salvá-lo? — interrogou ansiosa.

— Sim.

— O que é preciso, para isso?

— Sê minha, uma hora… um minuto apenas, e Jesus será salvo.

— Bandido! Miserável! Maldito sejas! — e partiu em carreira vertiginosa para alcançar a Jesus, que se dirigia com os discípulos para o vale do Cedron.

Estranhou ele, ao chegar ao horto de Getsêmani, não ver Judas entre os companheiros, e João, que também dera pela falta do companheiro, toma-o logo pelo traidor.

Chorosa, Maria Madalena se dirige a Jesus, quase sem poder se expressar:

— À Terra lançaste a semente da tua grande e generosa ideia: a doutrina da verdade. Ela frutificará nas almas dos bons e dos justos. Dá por terminada a tua missão e foge de Jerusalém e da Judeia. Se preciso for, eu te acompanharei, pois por ti quero dar a vida. Nada temo. Nada desejo que não seja te salvar da morte. Vamos, meu Jesus, é noite… uma hora… um minuto… um instante…, apenas, e será tarde. Os que me amam e te odeiam, e os que me odeiam porque te amo, não dormem.

Maria se lança aos pés de Jesus, em uma tremenda súplica. Ele, em tom paternal, levanta-a e murmura:

— Não devo e nem posso fazer o que me pedes.

— Por quê?

— Escuta. Quando tu apareceste na Galileia, tive um momento em que pensei te possuir, como minha mulher, casando-me contigo. Mas ouvia me segredar ao ouvido uma voz: “Tu não pertences ao mundo, aqui te encontras para dar prosseguimento à obra a que te comprometeste. Não te embaraces, caminha e caminha sempre, como homem livre, cumprindo o teu dever para com a humanidade”. Obedeci. De então para cá, conheces bem a minha vida. A obra que tentei é grande, superior às forças de um homem. Que seria de mim se as partículas que emanam do Ser Total não me intuíssem e ajudassem?

— Sinto e pressinto que a obra se interrompe. Os malvados não acreditam na tua conversão à verdade, querem te conquistar novamente a carne, não os satisfazes, revoltam-se, vingando-se em mim, por eu ser o espírito que estabelece A Era da Verdade. Paciência, Maria, já estou cansado de sofrer e lutar, mas o meu dever é caminhar até à morte do corpo, porque o espírito, este continuará na luta em plano Astra Superior.

Maria Madalena sufocou um grito.

Chegavam ao horto os meirinhos do Templo, acompanhados de soldados, os quais, sem qualquer formalidade prévia, entraram no telheiro. À frente, um homem com o rosto encoberto nas pregas da túnica, que parecia dirigir aos demais, portando a ordem de prisão que havia sido emanada do Sinédrio.

Os discípulos acordaram. De pronto, supuseram do que se tratava, e quiseram resistir, tendo Pedro ainda puxado a sua espada. A escolta os cercou, e o homem embuçado indicou Jesus aos soldados. Os discípulos arremeteram, mas Jesus exclamou:

— A lei é a lei, e é em nome dela que sou preso. Ordeno-vos que não tenteis resistir.

Jesus chega escoltado a Jerusalém, sendo conduzido à casa de Hanã, naquelas altas horas da noite. À distância vinha Maria Madalena, sozinha, com a alma torturada, por ver Jesus a caminho do martírio.

Hanã, velhaco e matreiro, como velhaco e matreiro são todos os sacerdotes, não querendo descobrir o ódio que lhe ia na alma, indagou:

— És tu, então, Jesus de Nazaré, que te intitulas “filho de Deus” e pretendes destruir a lei de Israel, que foi a de nossos gloriosos antepassados?

— Sou! — respondeu Jesus.

Várias pessoas presentes pasmaram da convicção, da coragem e do destemor de Jesus.

— És, então, um ímpio que blasfemas da lei de Moisés, que não respeitas os dogmas e que chamas o povo à revolta contra os seus pastores espirituais, concitando-os, assim, à cólera de Deus?

— Enganas-te, Hanã — respondeu Jesus com altivez — nem chamei o povo à revolta  e nem blasfemei da lei de Moisés. Publicamente tenho ensinado a doutrina da verdade à luz clara do Sol, assistido pelo Ser Total, que clarividencia a inteligência e que a tudo incita e movimenta, para o aperfeiçoamento espiritual de todos os espíritos. Somente quem fosse cego e surdo é que não me teria podido ver e ouvir no pórtico de Salomão.

— Quanto aos meus discípulos, são homens humildes, inofensivos e bons. Não quero destruir a lei, mas acabar com a hipocrisia e a falsidade daqueles que a administram e ensinam ao povo coisas absurdas, fora das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais que a tudo regem, e que à razão e ao bom senso repugnam, por serem baseadas na mentira. Percebes, Hanã?

— Cala-te, irreverente! — berrou, com voz afônica, o velho Hanã, roxo de cólera, para em seguida um criado dar uma bofetada na face de Jesus. Isto é para falares com mais respeito ao grande luminar do credo de Israel, entendes, aventureiro pregador?

— Desculpo-te, infeliz, mas continuarei a falar! — respondeu-lhe Jesus.

— Negas, então, que és um sedutor credulário, que queres perder o povo e afastá-lo do seu Deus e do seu culto?

— Nego! — exclamou Jesus com energia. E se não me acreditas, pergunta a todos que me têm ouvido, que eles falarão por mim.

— Negas, também, aposto, que te intitulas o filho do Pai, do qual dizes receber ordens?

Jesus empregava muito a palavra Pai para se fazer compreender pelos ignorantes da verdade, desconhecedores da composição do Universo: Força e Energia. E aqui se pode fazer uma analogia com a heroína francesa Joana D’Arc, que via e ouvia os espíritos de luz, para que assim pudesse coroar o rei da França, e então esta nação viesse a cumprir com o seu papel entre as nações atuais, que por isso foi queimada na fogueira pela Igreja Católica, esse credo genocida que tem a petulância de se dizer cristão.

— Não, isso eu não nego. Não reconheço o deus que dizes adorar, por ser rancoroso, ciumento, vingativo, sem piedade e justiça. Mas sim ao Ser Total, cujas partículas estão em toda parte, que são os espíritos já livres deste degredo, que se encontram a assistir a todos os atos bons ou maus que a humanidade vem praticando.

Lavrou-se um auto desse interrogatório, e Hanã, saboreando uma taça de leite, onde boiavam torrões doces e folhas de rosa, exclamou pausadamente:

— Levem esse homem à casa de José Caiafa. Só ele é o Sumo Pontífice. E só ele pode condenar ou absolver.

 

PARTE XVIII

A escolta de novo tomou Jesus sob a sua responsabilidade, levando-o preso à casa de José Caiafa, onde já se encontrava reunido o Sinédrio. Jesus é conduzido à sala oficial. Constituído em tribunal, o Sinédrio o aguardava, e Jesus a todos impressionou com a sua doce serenidade. José Caiafa apresentou ao Tribunal o auto dos fariseus que o tinham ouvido dizer que “destruiria o Templo de Deus e o reedificaria em três dias”. As testemunhas, corrompidas e subornadas pelo ouro de Hanã, confirmaram tê-lo ouvido proferir a terrível blasfêmia. José Caiafa pediu a Jesus a explicação daquelas palavras, ele, porém, escusando-se, não respondeu. José Caiafa não insistiu e se fingindo disposto à clemência, pergunta:

— Dizem também que tu te intitulas o “Messias, filho de Deus”. Isto é verdade?

Jesus se ergueu, e com a voz pausada e forte, que ressoou no espírito de todos os presentes como se fôra o som de um clarim, bradou:

— Em verdade vos digo, homens de Naftali e da Judeia, sacerdotes da lei, fariseus e servidores do Templo, e a ti, José Caiafa, Sumo Sacerdote e Pontífice Máximo, que eu sou aquele de que falam as profecias, e entre vós me encontro para dizer a verdade.

E continuou dizendo:

— Sou um homem como os demais, composto de espírito, alma e corpo carnal, e não vim para destruir templos e nem pregar mentiras, mas para esclarecer a humanidade, guiando-a para a vida eterna, que é aquela que o espírito vive quando deixa o corpo, juntamente com a sua alma, e transpõe a este planeta, ascendendo aos Mundos de Luz que rolam pelo Universo. Chegou o momento de acabar com o sobrenatural e com os mistérios, que são produtos da ignorância humana, jamais aceitos pelos que raciocinam em maior profundidade.

E fitando serenamente a todos os presentes, prosseguiu:

— Podeis ficar certos de que o povo vos há de abandonar e maldizer pelos martírios infligidos, pela extorsão e pelo embrutecimento a que o vindes submetendo, há séculos. Todos saberão que nem as cerimônias do culto, nem os seus sacrificadores, poderão salvar a alma, se as suas consciências não estiverem limpas de culpa.

Assim concluindo:

— Tenho estado entre o povo para lhe ensinar o caminho da salvação do espírito, falando-lhe em linguagem simples, mas pura. Não sou embusteiro, nem charlatão. Fisicamente, sou um simples mortal, como todos, e nada possuo, nada quero a não ser o cumprimento do meu dever, que me ordena que estabeleça A Era da Verdade neste mundo, baseada em conhecimentos metafísicos.

Roxo de cólera, Reboão, um dos mais instruídos e devassos dos sacerdotes, bradou:

— O que esse homem diz é uma infâmia!

Nicodemos não presenciou a essa memorável sessão do Sinédrio, e José de Arimateia se acovardou diante das disposições hostis dos seus colegas, pois se viu sozinho em campo, e esse isolamento lhe quebrou a força moral.

Jesus foi levado da sala, e o Conselho entrou em deliberação.

Nesse momento entrava Hanã, lívido e desfigurado, com todo o corpo em convulsivo tremor. Ao sair da casa do Sumo Pontífice, encontrara-se com Maria Madalena, que em altos gritos, bradou:

— Assassino!

— Dá-me uma palavra, uma palavra apenas, e Jesus será salvo! — dizia, ainda, o velho apaixonado.

— Nunca! — retorquiu Maria Madalena, com altivez. Jesus morrerá, bem o sei, mas jamais tocarás no meu corpo. As tuas carícias me envenenaram o sangue e o espírito. Jesus me salvou, porque nunca pensou em conquistar o meu corpo, mas sim a minha alma. Esta lhe pertence, e o meu corpo tombará em sua defesa.

Hanã se sufocava de cólera e de ciúme, dizendo:

— Pensa no que fazes, louca!

— Vai-te, velho réptil repulsivo e nojento, foge da minha vista, sapo asqueroso, com figura de homem. Que eu nunca mais te encontre no meu caminho, senão…

E Maria Madalena, abaixando-se, apanhou uma pedra, arrojando com força contra Hanã, que passou sibilando rente à face do velho. Se o tivesse acertado, poderia tê-lo matado, algo que o Astral Superior não permitiu. Hanã gritou por socorro, mas quando os criados acudiram, Maria Madalena já tinha desaparecido.

Foi assim alterado que ele se apresentou no Sinédrio, onde levou a questão para o campo da política e dos interesses pessoais, acusando a Jesus de homem perigoso que atacava a lei e o dogma, e demonstrando que desde que o rabi começara a predicar em Jerusalém, os rendimentos do Templo haviam baixado consideravelmente.

Hanã defendeu a tese de que a exaltação dos espíritos, provocada por aquele homem, acarretaria consequências iguais ou piores que as causadas pela revolução fomentada por Judas, o Gaulonita, que foi apenas política, dizendo que Jesus estava à frente de um movimento de caráter credulário contra as leis de Moisés e os dogmas judaicos, e se não for pronta e energicamente detido, acabará por tomar conta do povo e levar o poder romano a proceder com rigor e força, ameaçando de ruína o Templo e pondo em risco o privilégio de todos os sacerdotes e até a autoridade credulária de César, que a tem transferido, em toda a sua plenitude, para os judeus.

Apesar dessa exposição ter sido habilmente tratada e no fundo encerrar verdades indiscutíveis, o Sinédrio teve os seus escrúpulos.

O tribunal credulário se compunha dos seguintes juízes: José Caiafa, Presidente e Sumo Pontífice do credo judaico; Joram, Sareas, Diarábias, Ptolomeu, Josafá, Sabinti, Subato, Áquias, Samaci, Putifar, Mesá, Rifar, Rosmofino, Simão, o leproso, Táreas, Eierino, Nicodemos, José de Arimateia e Reboão.

Dentre eles, Joram, Áquias e José de Arimateia tomaram a defesa de Jesus, com grande interesse e dignidade. Mesá pediu a aplicação justa da lei, observando que se devia ouvir o réu. Mesmo os mais virulentos, consideravam que Jesus devia responder pelo crime, mas não sofrer a pena de morte, que diziam não ser merecida.

A discussão se azedou , tomando grande calor, e Hanã tornou a falar:

Se Jesus tornar a predicar em Jerusalém e na Galileia, o Templo irá por terra e nós seremos as vítimas. Devemos pesar bem as consequências das prédicas proferidas por esse revolucionário religioso, que ocasionarão a ruína do sacerdócio, uma vez que elas afastam o povo da sua devoção ao Templo.

Tocando, assim, na corda sensível, que era o interesse pecuniário, ele estava quase certo do triunfo. E não se enganou. Os sacerdotes, na posição de juízes, temeram pelas suas riquezas e a vida ociosa e fácil que levavam. Jose Caiafa e os demais, à exceção de José de Arimateia, Joram e Áquias, concordaram com a exposição de Hanã, e Nicodemos, apesar de integrar o tribunal, não compareceu.

Lavrada a sentença, Jesus foi de novo introduzido na sala, e o Sumo Sacerdote, devidamente paramentado, leu o pergaminho encerado, onde o estilete gravara o seguinte laudo condenatório:

Aos 15 de Nizan, estando reunido o Sinédrio da Judeia em casa de José Caiafa, Sumo Sacerdote e Pontífice Máximo de Jerusalém, foi-lhe apresentado o rabi Jeschona Bem Jeschona, da cidade de Nazaré, Galileia, acusado de sedutor e blasfemador, acusações todas confirmadas pelas testemunhas que assinaram o auto e compareceram a este Tribunal, e sendo interrogado, declarou ser o Messias, filho de Deus, vindo à Terra para salvar os homens, não tendo negado a sua blasfêmia de que destruiria o Templo de Deus e o reedificaria em três dias. O Sinédrio o reconheceu, por maioria, como réu do crime de blasfemador e destruidor do culto estabelecido e, segundo a lei estatuída para tais crimes nefandos, condena-o à morte, em nome da lei e do respeito ao culto”.

Jesus ouviu a sentença sem pestanejar e nem mudar de cor. Não se lhe contraiu um só músculo do rosto, que se mantinha sereno e calmo, o que levou os falsos e covardes juízes a admirarem a sua coragem.

José Caiafa fez sinal aos guardas, e Jesus foi levado para a estrebaria do palácio, onde o amarraram a um poste utilizado para prender jumentos.

 

PARTE XIX

Somente a sentença do Sinédrio não bastava para Jesus morrer, por não possuir o Tribunal as atribuições executivas. Somente o Legado Imperial a podia mandar executar, se o condenado fosse cidadão romano. Mas como Jesus era judeu, o Procurador podia sancionar a sentença ditada pelo Sinédrio. Urgia, pois, que Pôncio Pilatos a ratificasse, antes de principiarem as festas da Páscoa. Logo de manhã, pouco depois do Sol nascer, o Sinédrio se reuniu de novo na casa de José Caiafa, para submeter o processo à ratificação de Pôncio Pilatos.

Era sexta-feira, dia 14 do Nizan, equivalente a 3 de abril, primeiro dia da Páscoa, e aquele em que se devia comer o cordeiro ritual. Os sacerdotes mandaram buscar Jesus, ordenando que lhe atassem as mãos atrás das costas.

Como, segundo o rito, os judeus que entrassem em casa de um pagão durante as solenidades pascoais, ficavam poluídos e proibidos de as celebrar, Jesus devia ser julgado no pátio da Pretória, situado ao ar livre, e, como tal, fora dos tetos pagãos.

Informado do que se tratava, o Procurador não ocultou o seu desgosto ao se ver, contra a vontade, envolvido em tal caso.

Imparcialmente falando, Pôncio Pilatos era um bom procurador e amigo de fazer a justiça. Além disso, não apreciava os judeus, por considerá-los fanatizados por um credo que ele não compreendia e que cobria de motejos e epigramas, chamando o seu deus de “Deus da carne assada”, em uma alusão à imolação dos cordeiros e vitelas sobre as grelhas sagradas.

Foi, pois, com supremo tédio e mau humor que Pôncio Pilatos tomou conta do processo que condenara Jesus à morte.

Envolto na sua toga branca, com barra de púrpura, Pôncio Pilatos se encaminha para a Pretória. O povo abre alas, em silêncio, à sua passagem, cumprimentando-o com reverência, não por estima e respeito, mas pelo pavor que tinha do Império Romano. Subindo o pedestal, senta-se na cadeira curul, sendo Jesus conduzido, entre os soldados, e colocado à sua frente.

Sarêas, que era vogal do Sinédrio, saudando o pretor, começa a ler, em voz pausada, o auto do processo.

Pôncio Pilatos, com os olhos semicerrados e o queixo apoiado na mão, ouve a leitura. De vez em quando, curioso, crava o olhar em Jesus, parecendo admirá-lo. Era a primeira vez que o via, porém se sentia impressionado com aquele homem do povo. Demais, ele percebia em tudo aquilo uma vingança mesquinha e baixa do sacerdócio, que abominava.

Após a leitura do auto do processo, Pôncio Pilatos descruzou as pernas e, dirigindo-se a Jesus, disse-lhe, em voz lenta, pausada e sonora:

— Os teus te trazem aqui depois de te haverem condenado à morte. Acusam-te de te intitulares rei dos judeus e blasfemares da sua lei, que é também a tua. Vamos, responde, o que fizeste para assim procederem?

Jesus avançou um pouco e, olhando fixo para o Procurador, respondeu:

— Pretor, a mim me condenaram sem me ouvirem. Queres tu me ouvir, sem que eles me ouçam?

Os sacerdotes e fariseus ergueram as vozes, em um cavo ruído de protesto, mas Pôncio Pilatos, indignado, bateu com a mão nos descansos da sua cadeira curul, e os litores, erguendo as varas, gritaram:

— Em nome de César, silêncio!

Cessaram-se os protestos.

— Esse homem tem razão — exclamou Pôncio Pilatos. Preciso ouvi-lo, assim como também vos ouvi.

E se dirigindo a Jesus, disse-lhe:

— Segue-me.

Desceu do pedestal, atravessou o pátio e se encerrou com Jesus em uma sala do palácio. Teve pena dele, vendo-o tão débil e fatigado, mandou-o sentar e, com bondade e interesse, assim lhe falou:

— Acusam-te de te intitulares o rei de Israel, filho de Davi, e atentares contra o poder de César. Isto é verdade?

Jesus estava ciente de que o Império Romano fazia parte do plano de espiritualização da nossa humanidade, por ele mesmo elaborado, então respondeu com energia:

— Não. Reconheço como dominante o poder de César, e esses homens te enganam.

Pôncio Pilatos ficou perplexo.

— Mas — exclamou, após um momento de reflexão — acusam-te também de blasfemador. Eu nada sei dessas coisas do teu credo, mas me cumpre acatar as sentenças do Sinédrio, e tu estás condenado…

— … à morte, bem o sei — atalhou Jesus, com tanta tranquilidade, que Pôncio Pilatos se surpreendeu.

— Vejo que és vítima de uma intriga dos sacerdotes, e a mim cumpre não deixar que se cometa um crime. Preciso, porém, que me esclareças, claramente, sobre as causas que levaram tão longe a vingança do sacerdócio.

— Eu te digo, romano — respondeu Jesus.

E a traços largos, desenhou toda a sua agitada existência, desde os primeiros anos, a proclamação dos seus princípios de igualdade perante as leis da natureza, de paz e de fraternidade entre todos os homens, e a fundação de uma doutrina simples, baseada em um princípio honestíssimo de consciência e amor ao próximo.

Pôncio Pilatos era pouco teólogo, mas bastante inteligente para compreender, na súmula, as preciosas ideias de Jesus. E se admirou de um simples homem do povo ser detentor de uma orientação saperológica tão completa, tão racional, ao ponto de fazê-lo sentir a impressão moral com que ele se impunha.

Jesus, desejando a tudo explicar, não para escapar da sentença condenatória à morte, à qual pouca importância dava, mas para estabelecer a verdade, discorreu sobre os altos e transcendentais princípios da vida, expondo a Pôncio Pilatos que a sua missão entre os homens tinha a finalidade precípua de esclarecê-los, transmitir-lhes o conhecimento de si mesmos, adiantando que todos possuímos uma origem comum, e como espíritos encarnados, em evolução, temos presença efêmera na Terra, que é um mundo-escola e depurador, e que é a ignorância destas verdades que leva a humanidade à prática de todos os crimes.

Intitulava-se filho de Deus, explicava, para se fazer compreender pelos sectários, crentes, fanáticos credulários, enfim, gente de toda espécie, pois se falasse de outra forma, não poderia ser compreendido.

Há aqui que se ressaltar que nem mesmo pelos seus discípulos Jesus foi compreendido, como assim continua sendo incompreendido por todos os seres humanos, como veremos mais detalhadamente no próximo capítulo deste site de A Filosofia da Administração, ao tratarmos dos seus ensinamentos. Ele jamais alimentou qualquer pretensão, além de viver humildemente entre os homens, favorecendo-os com os princípios de amor espiritual e respeito que explanava, com base unicamente naquilo que sentia ser a razão da vida. Nunca o seduziram as posições de destaque credulário ou mesmo social, e como somente o preocupava a vida eterna do espírito, cuidava apenas de cumprir o seu dever na Terra para com a nossa humanidade.

Pôncio Pilatos não pôde compreender as últimas explicações fornecidas por Jesus, mas se convenceu de que estava diante de um homem de grande valor, talento e inconcussa dignidade, idealista e absolutamente inofensivo. E se levantou, resolvido a salvá-lo.

 

PARTE XX

Apenas se retirava e a porta se abriu, e Cláudia, a mulher de Pôncio Pilatos, correu para Jesus e o apertou convulsivamente nos braços, cobrindo-o de beijos. Jesus ficou surpreendido, mas a sensual romana, apertando-o fortemente, murmurava-lhe ao ouvido:

— Amo-te! Amo-te! Se te salvares, hás de ser meu, e então poderás te vingar como quiseres de toda essa gente canalha do Templo.

E receosa de que o marido aparecesse, fugiu rápida, como a visão de um sonho. Jesus, então, lançou-lhe um olhar sereno, repassado de piedosa compaixão.

Pôncio Pilatos sobe ao pedestal e exclama:

— Interroguei Jesus, e das suas respostas, depreendi que não é um revolucionário, mas sim um homem de princípios de elevada moral, ainda que possa ser considerado um fantasista, ele é inofensivo, tanto para o poder de César como para todos vós.

Os sacerdotes acolheram tais palavras com um grande sussurro de desagrado. Pôncio Pilatos percebeu o rugir da onda, e querendo também agradar aos sacerdotes, prosseguiu:

— Não pretendo, porém, usar da minha autoridade, e por isso, respeitando o antigo costume do reino, faculto ao povo, neste dia, conceder a liberdade e perdoar a um preso. Submeto, pois, à vossa escolha aquele que quiserdes.

Conhecendo a intenção de Pilatos, os sacerdotes já haviam segredado a vários homens do povo o nome de Bar Abbas, ou Barrabás, para ser perdoado, sendo ele um tremendo patife que em uma sedição assassinara um homem, tendo o sacerdócio distribuído moedas em profusão, e por isso os venais gritavam:

— Solte-se Barrabás! Barrabás!

Extremamente indignado, Pôncio Pilatos mandou soltar o assassino. Cumpria, pois, condenar a Jesus.

O Procurador o condenou pela parte ridícula da acusação, que dizia se haver ele intitulado Rei dos Judeus, e mandou açoitá-lo com varas verdes.

Jesus foi levado à praça pública, onde os executores lhe colocaram na cabeça uma coroa de espinhos, que lhe feriu as carnes, lançaram sobre ele uma capa de púrpura, fizeram-lhe empunhar uma cana, e assim o mostraram ao povo do alto da tribuna. Alguns soldados mercenários lhe dirigiam insultos, para a grande indignação dos romanos, que eram homens sérios, encanecidos na disciplina e nos campos de batalha, aos quais repugnava aquela cena humilhante contra um homem indefeso e resignado.

O Procurador desceu novamente do pedestal, imaginando ter satisfeito a opinião pública. Mas, a esse tempo, o dinheiro já havia corrido em profusão e se ouviam gritos partidos de todos os lados:

— À cruz, à cruz!

— Esse homem pertence ao Tetrarca! — bradou Pôncio Pilatos, empregando o último esforço em favor de Jesus.

Herodes Antipas se achava em Jerusalém, onde fôra assistir às festas da Páscoa. Pilatos ordenou, então, a Jesus que acompanhasse os soldados à casa do Tetrarca.

— É inútil — respondeu Jesus —, Herodes Antipas me conhece bem, e eu mal posso me suster em pé. Poupa-me dessa fadiga escusada.

Pôncio Pilatos se admirou de tanta coragem e desprendimento, e erguendo as pregas da toga, retirou-se, depois de lançar aos sacerdotes um olhar de nojo e desprezo.

Estando intimamente revoltados com a atitude do Pretor, os sacerdotes e fariseus, para produzirem uma encenação no meio do povo ignorante, alguns ajoelhados e com as mãos erguidas, clamavam por justiça, gritando com toda a força dos seus pulmões:

— Israel está perdida! Quem nos salvará?

Sarêas, o vogal do Sinédrio, adiantou-se, e a sua mão clara, de falanges longas e desencarnadas, bateu com força a potente aldrava de ferro polido da porta do Palácio da Justiça. O soldado cruzou a lança e a porta se abriu, deixando ver a sala lajeada de mármore, ao centro da qual se ostentava uma estátua de Augusto em bronze, de tamanho colossal. Um tribuno do Palácio da Justiça perguntou o que desejava, e Sarêas respondeu:

— Ide e dizei ao Pretor que gentes de Israel, sedentas de justiça e de equidade, estão a lhe esperar.

Um grande silêncio se fez, e logo apareceram dois litores empunhando as varas e, atrás deles, majestoso e altivo, o Pretor, que saudou a estátua de Augusto, voltou-se para os sacerdotes e exclamou:

— Pedis justiça e equidade? Escuto-vos.

Sarêas avançou um passo, guardando-se de pousar os seus pés no solo da casa do pagão, e com voz pausada e vibrante, disse:

— Em nome do Sinédrio, cujo poder e retidão de juízo César nunca deixou de reconhecer, venho te pedir uma decisão acerca do destino de Jesus, visto não terdes confirmado e nem anulado a sentença proferida.

— Eu fiz o que devia — respondeu Pôncio Pilatos, vermelho de cólera contra aquela infame velhacaria. Interroguei o vosso condenado, estudei atentamente o auto de culpa, e nele não encontrei motivo bastante para confirmar o exagero da vossa sentença. As suas mãos estão limpas de sangue e não consta que tirasse para si o que a outrem pertencia. Agora mesmo, quando vós me chamastes, acabava de receber uma informação de Herodes Antipas, que pertence à vossa lei e dogma e é homem reto e de sã prudência, na qual me diz que Jesus de há muito predica na Galileia, que ele mesmo o ouviu por mais de uma vez, e apenas o considera um visionário e um idealista inofensivo, que não prejudica ao Estado e nem perturba a lei. Fostes precipitados, César não é cruel e muito menos um assassino.

A última frase do Pretor calou no espírito dos sacerdotes como um insulto dirigido diretamente ao Sinédrio, e Pôncio Pilatos viu bem o seu efeito pintado em todas aquelas fisionomias hipócritas e devassas.

Reboam, decano dos membros do Sinédrio, dirigiu-se a Pôncio Pilatos e, em romano, proferiu as seguintes palavras:

— Procurador e homem da confiança de César Augusto, imperador dos romanos, sábio, preclaro e justo, tu ignoras a índole da missão política que se encobre atrás das palavras desconexas desse homem, a quem julgas um visionário inofensivo. Há bastantes anos que ele ofende as nossas leis, e nós temos sido magnânimos e leais, que até o deixávamos predicar no Pórtico de Salomão. A tua mulher bem o via do alto da torre, e ela que te diga se algum de nós o ofendeu.

E Reboam, deitando um olhar reverso ao Procurador, buscava-lhe no rosto o efeito da sua insídia, pois era voz corrente em Jerusalém que Cláudia estava apaixonada por Jesus.

Pôncio Pilatos permaneceu impassível. As leviandades da sua mulher de há muito que não o incomodavam.

— Fomos tolerantes — prosseguiu o velho sacerdote —, mas, acima de tudo, prezamos a paz e a tranquilidade pública, e só reconheceremos rei da Judeia a Tibério, imperador dos romanos. Temos dados de sobra para podermos afiançar que o partido dos gaulonitas revive, e Jesus de Nazaré, como geralmente o conhecem, é o seu chefe oculto.

Pôncio Pilatos estremeceu.

— O seu idealismo — continuou o velho sacerdote — e as suas visões são apenas o véu que encobre a sua política revolucionária, e quando o vimos entrar em triunfo pela Porta do Ouro, na sua volta de Betânia, pareceu-nos ser tempo de sustar a marcha revolucionária desse inimigo de César. Assim, praticarás tu o contrário, tu que o representas e cobras do seu erário?

— Tende cuidado com as vossas palavras! — bradou Pôncio Pilatos, cheio de cólera. Um procurador de César não precisa aprender os seus deveres com os bárbaros judeus desta ínfima colônia asiática.

O insulto fôra violento, mas Reboam prosseguiu, como se o não tivesse ouvido:

— Sabemos que tu te importas tanto com a nossa lei ofendida como com as profecias de Jesus, a cuja vida tampouco ligas importância alguma. Não imagines, porém, que esses bárbaros da mais ínfima colônia asiática sejam néscios que não compreendem as tuas intenções. Tu o que queres, romano, é a destruição de Judá. Tu queres salvar a Jesus para que ele faça a revolução e, depois, lançares contra nós, em nome do dever, as lanças dos teus soldados. Queres, ainda, o sangue dos filhos pacíficos de Israel, para te apresentares a César como soldado vencedor e exigires, depois, a paga da tua vitória, um proconsulado ou mesmo um lugar eminente na Itália. Ou talvez, quem sabe, sonhas com esta realeza de Israel que pretendes conservar em Jesus? Mas descansa, que nós estamos tranquilos com a nossa consciência e, condenando o homem que contra César se revoltou, merecemos o seu aplauso justiceiro e imparcial. Daqui a Roma não se gasta um ano. César verá a nossa sentença e o teu proceder, e então saberemos como ele avalia a confiança que lhe deve merecer o seu Procurador na Judeia.

Reboam tossia secamente e, trêmulo, arrimado ao bastão de marfim e ouro, voltou para junto dos colegas.

Pôncio Pilatos estava indignado e enojado com tamanha infâmia. Em um relance, viu toda a miséria que envolvia a trama para o intrigarem com César, pretendendo se servir dos seus inimigos, encabeçados por Elias Lama, que os representaria na reclamação junto ao imperador. Conquanto não compactuasse intimamente com as pretensões dos intrigantes, seria complacente para com os judeus, por política e cálculo, para evitar uma revolta e, assim, poupar o sangue dos legionários, que tão precioso lhe era.

Teve, pois, Pôncio Pilatos, medo da sua queda, e assim, levado pelo medo, sofreou os elevados impulsos que até ali o haviam levado a defender Jesus. Caminhou em passos mal seguros até o limiar da porta, e com uma voz cava, exclamou:

— Ouvi as vossas acusações e ameaças, parece-me que não tendes razão e nem sois justos, pois julgo que até hoje, e já há sete anos que os governo, não transgredi a lei e nem os meus deveres. Não receio as vossas ameaças, porque César não entregaria o governo da Judeia a um homem a quem não depositasse a mais absoluta confiança, mas reconheço que entre o meu e o vosso poder, devem existir harmonia e unificação.

Após uma breve pausa, esfregando e sacudindo as mãos, como se quisesse lavá-las do sangue inocente que iria manchá-las, prosseguiu:

— Neste caso, se a vida de Jesus vos é necessária por interesse do vosso dogma e em defesa da vossa lei, tomai-a. Eu julgava que a flagelação e o ridículo vos satisfariam, mas vejo que exigis a cruz. Pois crucificai-o, que eu cedo às vossas reclamações, mas de todo esse negócio em que quereis fazer uma vítima, eu lavo as minhas mãos do sangue inocente que ides derramar.

— Descansa, Pôncio, fomos nós que o condenamos, e se o seu sangue tiver de cair, que caia sobre as nossas cabeças.

Pôncio Pilatos pareceu se sentir aliviado de um grande peso, e ratificando a sentença do Sinédrio, mandou entregá-la a José Caiafa, retirando-se, lentamente, depois de lançar aos sacerdotes um olhar de desprezo.

Jesus estava irremediavelmente perdido. A medonha e infamíssima vingança de Hanã fôra até onde podiam ir os instintos de uma alma cruel e mesquinha, devorada pelo ódio de um vil ciumento.

O velho que já fôra o sumo pontífice, pedindo para Jesus o suplício da cruz, ainda queria acrescentar ao martírio a ignomínia. Esse suplício não era judaico, mas romano, sendo reservado aos escravos condenados por crimes infamantes.

No fundo da alma de Hanã só havia peçonha, mais venenosa do que a dos répteis mais peçonhentos e traiçoeiros, tanto assim que não se contentou em se vingar mandando condenar Jesus à morte pela forma utilizada entre os judeus, que consistia na lapidação — antiga pena de morte que consistia em apedrejar os condenados — ou enforcamento e apedrejamento do cadáver. Ele quis ainda mais escárnio para saciar a sua alma de abutre, aquele martírio ainda não lhe era suficiente, pois queria gozar, confundindo Jesus com os ladrões e assassinos da mais baixa esfera.

Eis a verdadeira razão de Jesus na cruz.

 

PARTE XXI

Os soldados conduzem Jesus entre dois assassinos para o Gólgota, onde três carpinteiros preparam três cruzes para nelas serem pregados, com vida, aqueles três homens, sendo costume cada criminoso carregar a sua própria cruz até ao lugar do suplício.

Os três companheiros de infortúnio de Jesus eram fortes e robustos, e à ordem emanada dos carpinteiros para cada um carregar o instrumento do seu suplício, eles o fizeram bem, porém Jesus, de natureza frágil e delicada, nascido para os exercícios da inteligência e nunca para os do corpo, teve dificuldade em erguer e pôr aos ombros a sua cruz.

A distância a ser percorrida até o local da crucificação era regular, e Jesus mal podia andar livre do madeiro, quanto mais sobrecarregado com ele. Vendo-se só, desamparado e esquecido pelos apóstolos, os seus olhos derramavam lágrimas que lhe regavam continuamente as faces, e dos seus pés e ombros caíam sangue, formando um filete pelo caminho já percorrido. Em dado momento, Jesus tropeçou, deixou cair a cruz e se feriu em um dos joelhos, que deitava muito sangue.

A escolta fez alto, e o centurião, penalizado pelo estado de Jesus, indagou:

— Podes seguir?

— Já não aguento mais.

A certa distância caminhava um transeunte, que chamado por ordem do centurião, este assim lhe disse:

— És forte e vigoroso, segura essa cruz e ajuda esse homem a levá-la, pois ele não a pode carregar.

O aldeão encarou a Jesus e empalideceu, exclamando pasmado:

— É o rabi da Galileia!

— É sim — respondeu o centurião. Anda, vamos com isso!

Chegados ao lugar do martírio, cada qual foi pregado na sua cruz, tendo os dois assassinos resistido à crucificação. Jesus, resignadamente, deitou-se na cruz que fôra levada, até ali, por Simão Cirineu, estendeu os braços e, no momento em que os carrascos iam pregar os cravos, o centurião virou o rosto para o lado, comovido com a barbaridade praticada com aquele inocente.

Quando a cruz começava a ser levantada, chega apressado um escriba do Sinédrio com uma placa de madeira negra, em caracteres brancos, em que se lia o seguinte dístico:

JESUS DE NAZARÉ, REI DOS JUDEUS.

Pregaram a placa na cruz e a ergueram, para cravá-la ao solo.

Dentre os muitos que ali começavam a chegar, destacavam-se duas senhoras: uma, já idosa, outra, nova e bonita. Eram Salomé, mãe de João e mulher de Zebedeu, e Maria Madalena, que ficaram estupefatas diante daquele quadro horrível.

Jesus as reconheceu, olhou-as piedosamente, e lágrimas sentidas lhe rolaram pelas já desencarnadas faces.

Maria Madalena se animou e lhe disse:

— Fugiram todos, mestre, tiveram medo.

Muitos eram os fariseus embriagados que ali se encontravam para chasquear de Jesus, tendo até dois brutos, mais animais do que gente, urinado em um monte de areia e, com ela fazendo bolos, atirando-os sobre Jesus.

Maria Madalena perdeu a calma. Atirou-se contra os dois imbecis, esmurrou-lhes a cara e fez espirrar sangue do nariz do mais novo. Um velho escriba apanhou uma pedra e a atirou em Jesus, errando o alvo, pois ela bateu na cruz.

O centurião, indignado com o procedimento inferioríssimo desses fariseus e escribas, lança mão da espada e investe contra eles, que covardemente se afastam, proferindo blasfêmias e imprecações.

Entristecido e compadecido, mais pelo que presenciava do que pelas próprias dores da crucificação, o seguinte pensamento passou a dominar a Jesus:

Por minha causa já o sangue jorra entre os meus semelhantes. Na hora da expiação, os meus olhos presenciam estes fatos. O que estará reservado à minha alma ver do meu Mundo de Luz?”.

Longe ainda estava de conceber que em seu nome iria ser criada a Inquisição, espalhando terrores inimagináveis, torturando, trucidando, matando, roubando e desonrando os que ousassem pensar com liberdade, e ainda, o estabelecimento das Cruzadas, que com o símbolo da cruz, iria promover as guerras contra aqueles que não compartilhavam das suas crenças, em cujas guerras pereceram milhares e milhares de seres humanos. Que altares seriam erguidos, com supostas efígies suas e adoradores de todas as espécies surgiriam a mendigar favores, benefícios e perdão para as suas faltas e os seus crimes cometidos, mesmo os mais abomináveis, pelo mau uso do livre arbítrio. Que iria se criar, sob o seu suposto patrocínio, um credo de Estado, de fundo negocista, com milhares e milhares de parasitas falando em seu nome, como se tivessem recebido mandato seu, com poderes para representá-lo, os mais amplos e ilimitados, com os quais criaram falsos oráculos compostos por uma casta de certos cultos cobertos de soberbas, pompas e honrarias, no vestir e tudo o mais, obrigando a todos, vaidosamente, a lhes dispensarem um tratamento fidalgo, esse credo mentiroso, dogmático, místico e sobrenatural, que gerou inúmeras seitas exploradoras da bolsa do povo, por intermédio dos seus sacerdotes também parasitas, além de tremendamente mentirosos.

 

PARTE XXII

Surgem no Gólgota dois homens sérios, graves e distintos, que se encaminham por entre o público, quando enfim param diante da cruz, deixando à suas passagens os espectadores entregues a comentários segredados com espanto, uns aos ouvidos dos outros. São Nicodemos e José de Arimateia, ambos pertencentes ao Sinédrio. Chegando mais próximo da cruz, Nicodemos fala a Jesus:

— Ânimo, amigo!

Jesus envia a Nicodemos e a José de Arimateia um olhar agradecido, ao tempo em que lhe cai a cabeça sobre o ombro esquerdo, pois já não a podia mais sustentar, tais eram as dores torturantes daquele suplício.

— Ouviste? Ouviste? — segredou um escriba ao ouvido de um sacerdote.

— O quê?

— Nicodemos chamou de amigo ao rei dos judeus! Agora dou razão aos que dizem que ele se inclina para os essênios…

— Eu te dou um pontapé que te arrebenta, miserável escriba! — cortou Nicodemos se dirigindo ao escriba, pois que o tinha escutado.

Maria Madalena, de todos os discípulos do mestre, era a única que compartilhava dos martírios de Jesus, pois nenhum outro ali se encontrava para confortá-lo. Ela estava debruçada sobre uma pedra, quando sentiu que alguém lhe batera no ombro. Era Cláudia, que lhe tomando as mãos, apertou-as entre as suas, chorando e pedindo perdão.

— Tu! ­

Exclamou Maria Madalena com espanto. E apontando-lhe Jesus, prosseguiu com grande mágoa, na qual se traduzia toda a agonia da sua alma:

— Ei-lo, Cláudia! Ele vai morrer, e eu o acompanharei.

— Como tu o estimas! — exclamou Cláudia.

— E concorreste tu também para a sua morte! Duvidaste da sua castidade, supondo-o meu amante, e quiseste conquistá-lo, confundindo-o com aqueles devassos que apenas viam em mim uma galileia formosa a tentá-los à cobiça da carne. Para eles, Maria Madalena, a galileia, não possuía alma. Mas se enganaram, porque nunca me senti tão feliz como desde o dia em que me vi livre dos grilhões da devassidão, despida dos adornos mal adquiridos, trazidos para mim por aqueles que, apesar de sacerdotes, não passavam de desprezíveis sensualistas.

— Perdoa-me, Maria, eu não compreendia a existência desse amor espiritual! O meu marido quis salvá-lo, tu sabes?

— Disseram-me, em Jerusalém.

— E Herodes Antipas também.

— Sim?

— Fui pedir por ele e fui atendida pelo Tetrarca, porém nada se conseguiu, por ter o rabi Reboam ameaçado Pôncio com a desconfiança de César.

— Canalha! ­— e no olhar de Maria Madalena fulgia um relâmpago de ódio.

Mas Cláudia continuou a conversa, agora muito baixo, para que ninguém a ouvisse, segredando aos ouvidos de Maria Madalena uma esperança de salvação para Jesus:

— Talvez ainda o possamos salvar.

— Como?

— Eu trouxe comigo um filtro que dá todas as aparências da morte durante algumas horas. Jesus arde de sede, pedirá água, e eu ensoparei a esponja nesse líquido, que ele sugará com avidez. Verás o seu efeito. Eu sei que os seus amigos Nicodemos e Arimateia reclamaram o corpo a Pôncio, e trazem ordem para que ele lhes seja entregue. O resto te pertence, ajuntou — limpando uma lágrima que corria.

Maria Madalena lhe apertou as mãos e as beijou.

— Eu sou tua amiga, provo-te — exclamou Cláudia.

— Água, deem-me água — suplicou Jesus, com angústia.

Maria Madalena correu a buscar a cana que um soldado tinha encostado a lança e, rápida, molhou-a na esponja, espremeu-a, disfarçadamente, e nela entornou o líquido azulado contido em um pequeno tubo de ouro que Cláudia lhe entregara. Aproximando a esponja da boca de Jesus, ele a sugou, ansioso, e logo sentiu ânimo, nova vitalidade, mas quase imediatamente teve um tremor convulso, soltou um grito, a face se encobriu de uma lividez cadavérica, pendeu a cabeça sobre o peito, abriu ainda os lábios arroxeados, e expirou.

Eram três horas da tarde.

O centurião, voltando-se para Nicodemos e José de Arimateia, que silenciosos e tristes olhavam o suposto cadáver de Jesus, exclamou, em mau caldaico:

— Pobre rapaz!

Nicodemos lhe mostrou a ordem da autoridade romana para lhe ser entregue o corpo de Jesus.

— Antes do Sol posto — respondeu o centurião.

Os presentes comentavam a morte de Jesus, quando um soldado de sentimentos inferiores tirou da lança e lhe deu um golpe no lado esquerdo. O sangue correu, mas o corpo não manifestou o menor sinal de vida.

Como os dois sentenciados, companheiros de infortúnio de Jesus, ainda vivessem, os soldados acabaram por matá-los a pancadas, com barras de ferro, pois o povo receava a profanação do sábado, uma vez que o Sol já estava declinando.

Estando os dois sentenciados mortos e Jesus supostamente morto, foram arrancadas as cruzes, quando então Nicodemos e José de Arimateia, seguidos de dois homens que levavam linhos e perfumes balsâmicos, descravaram Jesus, cobriram-no com um lençol e o colocaram sobre uma maca de ramos secos, afastando-se lentamente a caminho de Getsêmani.

Maria Madalena os seguiu chorando e cheia de dor, enquanto Cláudia, em sentido contrário, também se retirava chorando e penalizada.

Chegaram com o cadáver ao horto de José de Arimateia, quase ao anoitecer. Maria não o abandonara um só instante. Segundo o costume judaico, Jesus devia ser envolto em uma mortalha ensopada em mirra e aloés, e depois enfaixado com largas tiras de linho.

Reverentemente, Nicodemos e Jose de Arimateia, ajudados por Maria Madalena, depuseram o corpo sobre o leito, e foi ela quem lavou as chagas que os cravos tinham aberto nas mãos e nos pés de Jesus, com uma fina esponja embebida em água aromatizada.

Nicodemos e José de Arimateia notaram que o corpo de Jesus não conservava aquela frialdade própria dos cadáveres, e independente desse fenômeno, outro existia, pois dos lábios brancos escorria uma espuma viscosa, levemente rosada.

Maria Madalena, que a tudo assistia, não pôde ocultar por mais tempo o segredo que mantivera com Cláudia, confessando aos dois amigos de Jesus o que havia se passado entre ela e a esposa de Pôncio Pilatos. Espantado, Nicodemos indagou a Maria Madalena:

— E não será isso um sonho do teu delírio?

— Então é preciso esperar — observou José de Arimateia.

— Esperemos — disse Nicodemos. E se realmente ele se salvar, urge afastá-lo o mais depressa possível de Jerusalém.

— Tens razão, meu amigo. Esse rapaz, ressuscitado e aparecendo de novo em Jerusalém, revolucionaria a Judeia em peso.

— E nós, que somos chamados de essênios e samaritanos. Tu, que reclamaste o corpo a Pôncio, e eu que te ajudei e o tenho em minha casa, imagina o que nos faria o sacerdócio, secundado pelos fariseus!

E José de Arimateia olhou com medo a face lívida de Jesus. Nesse instante, vendo estampada a preocupação nas faces dos amigos de Jesus, Maria Madalena então replicou:

— Nada receiem. Se ele viver, irá comigo para Magdala.

Nicodemos e José de Arimateia a olharam com admiração e respeito, por verem o amor desinteressado e puro daquela mulher que, pela doutrina de Jesus, tudo havia deixado no mundo: gozos, prazeres, riquezas e falsas alegrias; e como um cão fiel e dedicado, seguira-o naquela sua agitada existência cheia de perigos, de lutas e desconfortos. Esse seu procedimento despreendido, impunha-se naturalmente à simpatia e a consideração dos homens.

José de Arimateia fechou as portas cuidadosamente, tendo antes percorrido o horto, desconfiado de que alguém os tivesse seguido, vindo se sentar ao lado de Nicodemos, junto ao leito onde pousava o corpo de Jesus.

Jerusalém estava em festa, com o povo e os forasteiros se embriagando. Nicodemos e José de Arimateia faziam comentários sobre toda aquela miséria e o grande crime perpetrado pelo Sinédrio. Era uma baixeza!

Subitamente, Maria Madalena abafou um grito, fazendo sinal a Nicodemos e a José de Arimateia para que ambos se aproximassem.

O rosto de Jesus se tingia de uma levíssima cor rosada, o peito arfava em suavíssima ondulação, e dos lábios descerrados saía um tênue sopro de vida.

Maria Madalena tremia de tanta ansiedade e prazer, empalidecendo repentinamente, dominada pela comoção.

Nicodemos lhe deu de beber um gole de água, temendo que desmaiasse, porém nada disso aconteceu, enquanto Maria Madalena já estava calma, a esperar o desfecho da tragédia.

Nicodemos e José de Arimateia fitavam Jesus com respeito e ternura, quando então ele abriu suavemente os grandes olhos azuis. Contemplando aquele olhar tão doce, tão meigo, tão terno, tão amorável e expressivo, que ninguém mais supunha ver novamente, Maria soltou um grito.

— Jesus!

Fitando Maria Madalena, Nicodemos e José de Arimateia, Jesus murmurou com a voz um tanto cavernosa:

— Não posso mais. Até à eternidade, meus grandes amigos!

E assim, voltando a face para o lado esquerdo, as pálpebras lhe desceram lentamente, uma palidez medonha lhe envolveu o rosto, soltou um débil suspiro e ficou inerte.

Maria Madalena se precipitou para ele, deveras aflita, bradando:

— Jesus, Jesus, volta!… Ouves-me? Sou eu que te chamo! — e nessa tremenda aflição se abraçou ao corpo de Jesus, beijando-lhe docemente a fronte.

Mas Jesus não mais assistia ao seu corpo carnal, pois os cordões fluídicos que ligavam a sua alma a esse corpo carnal haviam sido rompidos, os ferimentos que recebera foram profundos, a vida anímica estava gasta, não era mais possível ao seu espírito acalentar o corpo mutilado pelos cravos que o mantiveram pregado na cruz e lhe esfacelaram as falanges das mãos e os ossos das pernas.

Maria Madalena soltou um grito de pavor. O corpo de Jesus estava morto para sempre.

Já altas horas da noite, Nicodemos e José de Arimateia, chorando, levaram o corpo de Jesus para a sepultura. Maria Madalena lhe beijou a testa, e, logo em seguida, puxaram a pedra, tapando o sepulcro.

A pequena distância, sentada, Maria Madalena, sem mais lágrimas para derramar pelo Nazareno, colocou a cabeça entre as mãos e apoiou os cotovelos sobre as pernas

Nicodemos e José de Arimateia, avaliando a imensa dor daquela que fôra uma discípula fiel, cabisbaixos, retiram-se, sem ânimo para lhe dar uma palavra de consolo.

— Como Maria sofre! — segredaram, um ao ouvido do outro.

 

PARTE XXIII

Onze horas da noite, no horto. Tudo dormia. Maria Madalena busca no jardim uma alavanca de ferro, e arredando a pedra que cobria a sepultura, retira dali o corpo de Jesus e torna a colocar a pedra no mesmo lugar. Em profundo silêncio, dirige-se ao curral. Aparelhando a mula em que José de Arimateia costumava viajar, leva-a pelas rédeas até junto do corpo e o coloca sobre ela. Monta-a, aconchegando o corpo a si, de forma a fazer o menor volume possível, e como ainda não tivesse ocorrido a rigidez cadavérica, envolve-o em seu manto e se encaminha, por atalhos, para a estrada de Sichem.

Já mais conformada, vendo se aproximar o romper da aurora e não querendo ser notada pelos viandantes, apressa o trote da mula, o que não a impediu de passar por dois viajantes que não a viram, por irem dormitando sobre as corcovas desses pacientes animais.

À distância, surpreendeu-a um corpo pendurado em uma figueira existente do lado esquerdo da estrada. Ao se aproximar, tentou passar sem dar importância ao caso, mas como que impulsionada por uma força estranha, resolveu se aproximar do suicida. E qual não foi o seu espanto ao reconhecer o corpo de Judas!

— Maldito sejas, traidor infame! — exclamou Maria Madalena.

O mau discípulo, fustigado pelo remorso, não pudera resistir, suicidando-se no mesmo dia em que Jesus subia ao Gólgota.

Maria Madalena parecia se sentir com mais vida e dizia a si mesma: “Ninguém as faça, porque aqui as paga”. Bem dizia Jesus: “O mal desejado a outrem, pelo caminho vem”; “Conforme pensarmos, assim seremos”; “Cada um atrai aquilo em que pensa: o bem ou o mal”.

Maria Madalena chegou a Tiberíade quase ao meio-dia, em uma hora semideserta, por estarem os pescadores na pesca ou com as suas famílias a festejar a Páscoa, em Jerusalém.

Evitando os casais e procurando os caminhos solitários, que bem conhecia, chegou a discípula de Jesus a um lugar selvagem, distante da praia, à borda de um lago, onde cresciam fetos verdejantes. Apeou da mula, tomou a muito custo o corpo de Jesus e foi escondê-lo entre os fetos. Cansada e debilitada, não somente pelas torturantes dores morais, mas também pela falta de alimento e a viagem estafante, sentou-se meditativa.

Após longo repouso, busca pedras, faz uma parede em volta do corpo de Jesus, para resguardá-lo dos abutres, e volta a se sentar.

Mergulhada em profunda concentração, fica como que adormecida, e vê, em sonho, a revelação do seu futuro pelo Astral Superior. Encoraja-se, fita o lugar onde se encontra o corpo de Jesus, e agora intuída pelo Astral Superior, assim se expressa:

Repousa tranquilo o corpo do grande homem. A sua alma de batalhador incansável, continua a lutar. Ela não podia ser compreendida, porque se batia por ideais elevados. Ainda por muitos séculos a sua obra não será compreendida, tal o egoísmo e a ignorância dos homens!

Alma da minha alma! Eu jamais te esquecerei. Continuarei a te amar e a te respeitar, e nunca trairei a doutrina da verdade, por ti ensinada e pregada ao povo e aos teus discípulos que, covardes, abandonaram-te todos. Nenhum te imitou na grandeza espiritual, pois foste o maior entre os maiores, e o mais humilde entre os humildes.

Agora que estás na eternidade, entre os espíritos superiores, vês, ainda melhor, que só a alma que incitava uma mulher perdida, soube avaliar, desinteressadamente, a elevação dos teus sentimentos e dos teus pensamentos e a vastidão infinita do teu amor espiritual, e que esses que te seguiam apenas foram movidos pelo interesse da bem-aventurança eterna.

Não te acompanharam com a alma esclarecida, porque os cegava a ambição de uma vida melhor, depois da morte, ambição que não os deixava compreender o verdadeiro significado das tuas palavras. Por isso te seguiam e te ouviam maquinalmente. Esses que te perderam, meu Jesus, não revelaram as qualidades superiores às da alma humana esclarecida, e se mostraram bem dignos uns dos outros, os mandatários da tua morte física e os teus discípulos.

Ensinaste-me a conhecer a minha composição espiritual e humana, e me dizias haver espírito, alma e corpo, explicando ser essa também a composição de tudo quanto tem vida. Demorando o raciocínio sobre o estado da nossa humanidade, e mesmo ignorando o fim da tua obra, prevejo nela oceanos de sangue e atrocidades malditas! Parece-me que sinto estremecer a terra sob os meus pés!

Como foram perversos contigo os homens, que são as feras mais impiedosas e selvagens de toda a criação, porque o que eles te fizeram, nem os tigres fariam.

No fundo pestilento do ‘eu’ humano, existem víboras medonhas, que sob o estímulo do ódio, do ciúme, da inveja e do egoísmo, dilaceram as carnes dos seus irmãos e os aniquilam, como te aniquilaram a ti!

Eu conhecia e conheço bem os homens, e porque os conheço bem, não posso acreditar na sua regeneração. Só tu, entre milhões, foste bom e puro, e soubeste afastar, com desprezo sincero, a tua límpida vista das pompas falsas do mundo.

Quiseste salvar a nossa humanidade, esclarecendo-a, e ela te pregou em uma cruz como o mais ignóbil dos ladrões e o mais repulsivo dos facínoras!

Foste o mais puro dos homens e, entretanto, prevejo, hão de praticar os mais hediondos e infamantes crimes em teu nome!

Oh! Meu Jesus, como me parece estar vendo e ouvindo homens e gritos agonizantes e espadas ensanguentadas! Eu vejo, eu vejo homens de rostos sinistros empunhando báculos e cruzes e fendendo crânios!

Pressinto que por toda parte se servirão do teu nome, como bandeira, para a prática de crimes bárbaros. Queimarão em fogueiras, nas praças públicas, lindas mulheres, depois de as desonrarem e de lhes dar a beijar a cruz, com suposta efígie tua. Centenas de vítimas agonizarão, publicamente, sobre piras embrasadas, na presença de homens coroados e de mulheres rastejando mantos de púrpura. O meu olhar mergulha até o fundo das masmorras lúgubres, onde se praticarão infâmias medonhas e atrocidades crudelíssimas.

Tu, que foste dos simples o mais simples e tão pobre que mal podias mudar de túnica, terás supostos representantes cobertos de ouro, de rendas e de púrpura, cada qual mais preocupado em ostentar falsas honrarias nas vestes do maior luxo, que se intitularão discípulos teus. Tu ensinavas a amar a verdade e a simplicidade, e eles vão ensinar a mentira, a vaidade e a hipocrisia. Tu pregavas a transitoriedade da vida terrena e a perpetuidade da vida espiritual, e eles falsearão a tua doutrina, pondo em tua boca palavras que nunca proferiste.

Repito: em teu nome roubarão, em teu nome desonrarão, em teu nome enclausurarão, em teu nome matarão!

Até quando, até quando essa comédia, ó Jesus de Nazaré?”.

Estando Maria Madalena absorta, esquecida do mundo, transcendida a este mundo, em pensamento, terminou assim a sua contemplação de Jesus e cobriu as pedras com fetos e ervas silvestres.

 

PARTE XXIV

Cheia de fraqueza, Maria Madalena colhe tâmaras maduras na frondosa árvore ali existente, come-as, leva a mula que estava a pastar e a beber água no poço, amarra-a no tronco de uma palmeira e se deita na relva para refazer a sua vida anímica, que é própria da alma, pois estava exaurida de forças. E assim adormeceu.

Quando acordou, já era Sol posto. Ao longe, recolhiam-se alguns barcos de pesca. A mula, cansada, havia se deitado também, e dormia tranquila. Maria desperta-a, dá-lhe alguns punhados de erva e a leva para beber água, monta-a, em seguida se dirige à estrada, a caminho de Jerusalém, chegando à casa de José de Arimateia ao amanhecer.

O bom homem estava inquieto pela sua ausência, e ao vê-la exclama:

— Ainda bem que voltaste!

— Volto para me despedir, mais uma vez, do túmulo de Jesus, e para ver se os discípulos se dispõem a levar por diante a sua missão.

José de Arimateia fez que não percebia, e prosseguiu indagando:

— Foste a Jerusalém?

— Fui — respondeu ela, com voz firme. Tinha de falar com Cláudia.

A esse tempo batem à porta do horto, José de Arimateia foi abri-la.

Eram Joana, Maria Salomé e Cleofas, que prevenidos por Nicodemos, vinham orar junto ao túmulo do mestre.

José de Arimateia os guiou até o túmulo, mas em lá chegando, verificou que a lápide não estava como ele e Nicodemos a tinham deixado.

Com a alavanca, que estava no mesmo local onde a pusera, arredou a pedra e recuou, espavorido, soltando um grito de espanto. O túmulo estava vazio!

— Ressuscitou! — bradou Maria Salomé, erguendo as mãos e como que tomada por uma força estranha.

— Ressuscitou! — gritaram as demais mulheres, caindo de joelhos e rojando a face na terra.

O leitor sensato pode ser capaz de compreender perfeitamente que a denominada “Semana Santa” e a tão apregoada ressurreição de Jesus, não passam de uma comédia barata, apenas digna de quem a urdiu e representa. Isso tudo merece a censura severa de todos aqueles que respeitam espiritualmente a Jesus, o qual nos ensinou que no Universo existem apenas as propriedades da Força e da Energia, em que ambas combinadas, tais como sendo partículas das Propriedades da Força Total e da Energia Total, formam as estrelas, que fornecem as coordenadas universais, de onde emanam os fluidos, por onde tudo se comunica, por isso todo o Universo é fluídico, em que a Propriedade da Luz Total penetra a todas essas coordenadas. E que os seres são os habitantes do Universo, por isso eles formam todos os mundos que existem, cujos mundos ficam sob as égides das estrelas, orbitando ao redor.

A propriedade da Força contém o espaço, de onde emanam as leis e os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, que fornecem as causas de tudo quanto existe, assim como também o magnetismo, por onde os seres vão adquirindo os atributos individuais. A propriedade da Energia contém o tempo, de onde emanam os princípios e as experiências físicas acerca da sabedoria, que fornecem os efeitos de tudo quanto existe, assim como também a eletricidade, por onde os seres vão adquirindo os atributos relacionais. Daí a razão pela qual ambas as propriedades, combinadas, contêm o Universo, já que ele é formado pelo espaço e pelo tempo, de onde emanam os preceitos universais e o Saber, por excelência, assim como também o eletromagnetismo, por onde os seres vão adquirindo a educação.

É por isso que não se deve jamais contemplar o Universo com a visão dos olhos da cara, assim como fazem os cientistas, armados ou não com aparelhos e instrumentos, a não ser para casos específicos, mas sim com a visão astral, por ser ela proveniente da propriedade da Luz, que a tudo penetra e se projeta da inteligência para clarear o raciocínio, coordenando a verdade e a sabedoria, para que assim se possa alcançar a razão, repudiando tudo aquilo que se encontre fora das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais, como no caso da estapafúrdia ascensão do corpo humano de Jesus.

É de se indagar: ascender para onde e por quê? E para que existem o espírito e a sua alma? Ora, o corpo humano é todo formado por seres, tais como, em resumo, os seres atômicos, os seres moleculares, os seres celulares, os seres orgânicos e os seres aparelhantes, que se integram em obediência à sua matriz, que é o corpo fluídico, para que assim o espírito se sirva dele como veículo, na trajetória terrena.

Nessa estúpida imaginação da ascensão de Jesus em corpo humano, predomina a materialíssima representação credulária de que no hipotético céu todos vivem em carne e osso. E como para esses pseudoespiritualistas Jesus partiu para o céu, precisava levar o seu corpo humano para lá dele se servir, pois, do contrário, teria de esperar, como os demais pecadores, o dia do Juízo Final, em que os corpos dos “justos”, os “escolhidos do senhor”, que no caso são eles, os credulários, hão de se levantar das catacumbas, para ascenderem aos céus.

Não sabem esses infelizes credulários, que são enganados pela peçonhenta classe sacerdotal, a qual inocula o perigoso veneno da ignorância em suas frágeis mentes, que já nos encontramos no limiar do verdadeiro Juízo Final, pois já estamos no final de A Era da Verdade, cujo final acontecerá quando adentrarmos no que se denomina de A Era da Razão, quando então a nossa humanidade será obrigada a sair da fase da imaginação em que se encontra, representando tudo através de imagens, e adentrar na fase da concepção, formulando as ideias verdadeiras a respeito das coisas, dos fatos e dos fenômenos universais.

O leitor precisa apenas de um pouco de raciocínio, um mínimo que dele possa fazer uso, para que possa compreender que o espírito é uma partícula de Deus, um ser do Ser Total, uma criatura do Criador, que evolui pelo Universo adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, formando o seu corpo fluídico, passando pelas coordenadas universais, que passam a fazer parte integrante do seu corpo fluídico, por isso parte do Universo nele vai ficando contido, assim como também vai adquirindo parcelas da propriedade da Luz, formando o seu corpo de luz, através do qual vai penetrando as coordenadas universais por que passou, por intermédio da sua luz astral. A alma, pois, é formada pelo corpo fluídico e pelo corpo de luz.

Em sendo assim, como realmente é assim, e como jamais poderia ser diferente, torna-se óbvio que quando o espírito desencarna, o seu corpo carnal se desintegra, pois que são rompidos os cordões fluídicos que o ligavam ao corpo fluídico, e não tendo mais a matriz que integrava todos os seres que o compunham, estes retornam para os seus mundos de origem, caso não permaneçam integrados a este mundo-escola. E o que acontece com o espírito e a sua alma? Ora, sendo espírito e alma um conjunto inseparável, é óbvio que ele ascende ao Mundo de Luz que lhe corresponde, em conformidade com o estágio evolutivo em que ele se encontra, pois que a lei da afinidade e o princípio da atração não permitem que espíritos de categorias diferentes venham a habitar o mesmo Mundo de Luz. Mas isto somente ocorre quando o espírito não é excessivamente materializado, pois caso o seja, ao invés de ascender para o seu Mundo de Luz, ele fica decaído na atmosfera da Terra, fazendo parte integrante do astral inferior, sendo tantos os seus integrantes, que o número pode ser considerado como sendo incalculável.

Como se pode constatar claramente, para sustentar a essa grosseira intrujice, é preciso fechar o raciocínio à lógica e ao bom senso, pondo-se em uma fuga tresloucada do valioso templo da razão, erguido diante de si através da luz esplendorosa que emana da consciência, negando com renitência a Espiritologia e se deixando abater por um pesado fardo que lhe cai sobre a mente, fardo esse formado pela dura e ilusória matéria.

Ninguém pode alterar as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais que regulam toda a natureza, cuja legislação é diferente da humana, que é estabelecida ao bel-prazer de uns e desfeita ao bel-prazer de outros, mas que mesmo assim é enquadrada na legislação universal, quando esta não é seguida. Em regulando a natureza, a legislação universal passa a ser fixa e imutável, sendo igual para todos, desde o nascimento até à desencarnação.

Observemos o filho do monarca, considerado como se fosse de sangue azul. Não encarna ele tal como encarna o filho de um humilde lixeiro? Não desencarna ele tal como desencarna o filho de um humilde escravo? Nem um e nem outro deve deturpar a legislação universal, assim como ninguém.

Por que atrofiar a inteligência humana, ou mesmo limitá-la, se ela pode ser capaz de perscrutar o Universo? Não devemos esquecer que assim como somos os seres do Ser Total, as criaturas do Criador, somos também as inteligências da Inteligência Universal. Em sendo assim, pode-se indagar novamente: por que não admitir o progresso e a eternidade do espírito e a transitoriedade do corpo humano? Ao admitir o progresso e a transitoriedade do corpo humano, o espírito encarnado deve viver com simplicidade, naturalidade, integridade e respeito, esforçando-se por produzir a amizade espiritual, sendo solidário fraternalmente para com os seus semelhantes.

Se todos os seres têm a mesma fonte de origem — o Ser Total —, por que não a estudam, procurando a união pelo esclarecimento espiritual, pela cultura do espírito, pelo trabalho, pela amizade espiritual nascida da realidade do fato de que somos todos irmãos em essência?

Se Jesus nos ensinou que “Só a verdade fará livre o homem, levando-o ao cumprimento do dever”; por que, então, não sermos verdadeiros consoante a verdade, despidos de hipocrisia, de vaidade, de egoísmo e, principalmente, de insinceridade, a seguir o caminho da honra e do trabalho, não vivendo às custas da ignorância dos semelhantes, mas sim os esclarecendo acerca da verdadeira vida?

As igrejas, mesquitas, sinagogas e outros locais, tidos como templos, não devem ser utilizados para difundir os mistérios e os dogmas sobrenaturais, que não existem, pois que o verdadeiro Deus não se encontra nesses templos, apenas os espíritos obsessores. Os verdadeiros templos deveriam ser as escolas a ensinar a verdade e a sabedoria sobre a vida, para que todos os seres humanos venham a alcançar a razão, alcançando também a consciência, que é o templo da nossa inteligência, em que Deus se encontra presente, pois que ele se encontra em cada um de nós, desde que tenhamos essa consciência.

Jesus merece mais respeito. Portanto, vamos respeitá-lo, amando a verdade e praticando a sabedoria, assim como ele fez. Ao invés de se criarem fanáticos e crentes, em nome de Jesus, preparem-se os homens e as mulheres para a luta renhida da vida, ensinando-lhes leis, princípios e preceitos racionais, mostrando-lhes o caminho por onde devem trilhar, sem receio de errar, pois que o homem e a mulher esclarecidos serão inimigos do erro e do crime, enquanto que o homem e a mulher ignorantes, fertilizarão sempre o erro e o crime.

Jesus encarnou e desencarnou como todos os viventes humanos. Da sepultura foi o seu corpo retirado por Maria Madalena, para enterrá-lo em Tiberíade. Isto foi o que realmente aconteceu, e nunca, jamais, a sua ressurreição.

Ame-se a obra de Jesus, propagando-a e a praticando, notadamente a sua humildade e a sua simplicidade, se nem tanto, porque isto somente pode ser praticado por quem vem lá dos páramos da espiritualidade, que, pelo menos, passe a levar uma vida de relativo conforto, sem grandes exageros, para que assim possa levar uma vida digna e honrada, pois aquilo que lhe sobra em demasia, é aquilo que falta ao seu semelhante.

As mistificações que forem feitas em seu nome, somente sofrimentos dolorosos acarretarão aos mistificadores. O culto da adoração a Jesus, em que os sacerdotes induzem aos seus arrebanhados à sua adoração, como se fôra Deus, ou o seu filho unigênito, é crer em uma mentira, portanto, uma farsa, um embuste, um ludíbrio. Não devemos nos esquecer de que ele nunca aceitou pompas e honrarias como homem, quanto mais hoje, como espírito, notadamente quando ele se encontra reintegrado à sua própria humanidade, tendo nomeado a Luiz de Mattos como sendo o chefe da nossa humanidade.

Como todas as regras neste mundo tem as suas exceções, devemos ressaltar que diversos espíritos de luz encarnaram como sacerdotes, fazendo esse enorme sacrifício, tais como Antônio Vieira, Francisco de Assis, Francisco Xavier, Manoel da Nóbrega, Anchieta, Gusmão, Monte Alverne, Júlio Maria, Aguiar Café, Monsenhor Moreira, e outros, que já repugnavam a adoração de estátuas ou efígies, principalmente Antônio Vieira, que contra elas tanto se bateu publicamente, desde o púlpito até à imprensa, que pelas suas ideias verdadeiramente espiritualizadoras, foi ferrenhamente perseguido pela própria Igreja, a quem servia ao seu modo. Esses espíritos de luz traziam amortalhados os seus corpos humanos com uma batina, mas pregavam a dedicação ao trabalho e o respeito às boas obras, ao contrário dos sacerdotes parasitas e partidários das más obras.

Esses sacerdotes honrados, nunca deslustraram o confessionário. Confessavam sim, em obediência às leis canônicas, mas gostavam mais de fazê-lo fora do confessionário, fornecendo conselhos sensatos, baseados na experiência natural que tinham da vida, onde se encontravam as suas sabedorias. Pregavam a doutrina de Jesus através da prática das boas ações, mas nunca pelas adorações a manipansos ou dádivas de dinheiro para os altares e festas credulárias.

Esses e outros grandes vultos do catolicismo viveram e fecharam os olhos da matéria, respeitando a Jesus pela prática do bem, ensinando, desculpando e vibrando, radiando e radiovibrando a amizade espiritual, a solidariedade fraterna, e não o ódio ao seu semelhante, por mais que os houvessem feito sofrer.

Não esqueçamos que Maria Madalena reprovou a todos os discípulos de Jesus, afirmando que eles seguiam ao mestre somente porque queriam um lugar confortável na outra vida, não porque tivessem a convicção plena da vida após a morte, mas por acreditarem na possibilidade de Jesus estar correto no que dizia, não querendo assim arriscar as suas posições na outra vida.

Para que nenhum dos seus discípulos passassem a duvidar da espiritualidade, portanto, da vida após a morte do corpo humano, Jesus apareceu a eles em corpo fluídico, para mostrar na prática tudo aquilo que havia mostrado em teoria, pois se ele veio decretar o final de A Era da Sabedoria e estabelecer o início de A Era da Verdade, tornava-se preciso que nenhum dos seus discípulos viesse a duvidar da verdade que ele havia transmitido.

Sejamos verdadeiros para com Jesus, saibamos honrar todo o seu racionalismo que com um imenso sacrifício ele estabeleceu no seio deste nosso mundo-escola, como sendo o precursor do Racionalismo Cristão, que há de espiritualizar toda a nossa humanidade, pois que será através dele que deverá surgir o nosso Cristo, já que o nosso Antecristo já se encontra por estas mal traçadas linhas a revolucionar todo o ambiente terreno, envidando sacrifícios ingentes para poder dar a continuidade a esse instituto estabelecido por Deus: o Cristo.

 

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