05.03- A idade adulta

A Cristologia
16 de outubro de 2018 Pamam

PARTE X

Em suas prédicas, o grande nazareno não poupava os dogmas e os misticismos do credo mosaico, por serem os poderosos sacerdotes do Templo homens devassos, incapazes de respeitar as leis dos homens e as da natureza, que exerciam o seu mister no único empenho de extorquir esmolas à ingênua devoção e inconsciente crença do pobre povo ignaro.

Lascivos, indolentes, sibaritas e céticos, sendo profundos conhecedores dos dissolventes sentimentos e pensamentos gregos, a sua existência se inclinava sobre os jáspeos seios e os lábios de coral das voluptuosas e ternas mulheres da Jônia e da Assíria, que possuíam terríveis segredos de um sensualismo ilimitado. Mas enquanto Jesus verberava ferinamente os sacerdotes, acendia no espírito do povo o sentimento para a prática do bem, como base fundamental em uma nova Grande Era, já que ele veio decretar o final de A Era da Sabedoria e estabelecer neste mundo A Era da Verdade.

Da sua boca saíam sempre as seguintes palavras:

Elevai o humilde, socorrei o necessitado, matando-lhe a fome do espírito e do corpo, estai sempre preparados para desculpar os vossos inimigos”.

Esclarecei-vos primeiro, para depois poderdes esclarecer”.

Ao pronunciar essas palavras, elas lhe deixavam o rosto como que iluminado, fazendo transparecer a sua auréola esplendorosa de luz, enunciativa da paz e do amor que havia em seu valoroso espírito, além da sua profunda sinceridade e da sua mais extrema pureza de alma, que deslumbrava aos que o ouviam e cativava aos que o fitavam.

Dentre os numerosos ouvintes das suas prédicas, salientava-se Cláudia, mulher de Pôncio Pilatos, que da janela da torre Antonina fixava os seus olhares ardentes e melancólicos no jovem pregador, invectivado pelos fariseus e aplaudido, com entusiasmo, por uma multidão compacta, quando então, bastante admirada, assim exclamava:

Esse homem tem razão no que diz”.

Diante de Jesus, os fariseus procuravam defender várias cerimônias, inclusive o jejum, ao que com calma e comedimento, mas de forma clara e serena, que fazia a luz surgir nas inteligências mais obscuras, ele assim se expressava:

Acaso podeis lavar a vossa alma, ou purificar a vossa consciência, privando o corpo de alimento, quando ela está suja com as vossas ações?”.

Os fariseus, indignados contra ele, que assim abalava pelos alicerces as aparências que os conceituavam aos olhos da opinião pública, apodavam-no de herético, enquanto o povo delirante, assim bradava:

Rabi, rabi, continua a dizer a verdade ao povo!”.

Quando Jesus desceu ao átrio, no meio do entusiasmo da multidão, Cláudia se retirou da janela da torre de onde o vira e ouvira, e levando então a mão ao peito murmurou:

Como deve ser meigo e digno o amor desse homem!”.

Entretanto, Jesus se sentia um tanto melancólico e apreensivo, pois começava a ver ainda mais claro os sólidos pilares em que se achava ligada a alta sociedade judaica e, ao mesmo tempo, a extrema ignorância das baixas camadas. Estas não o compreenderiam, e aquela, de certo, não queria compreendê-lo, ressaltando toda a sua má vontade para com a espiritualização da nossa humanidade. E pressentia avançar sobre ele essa enorme montanha de dificuldades que se antolha sempre no caminho dos homens superiores.

Seguindo para o vale do Cedron, chega a Getsêmani, um jardim situado no sopé do Monte das Oliveiras, em Jerusalém, e, em companhia dos seus discípulos, estava ceando, quando alguém vem lhe dizer que um estranho pretendia lhe falar. Jesus o manda entrar. Era Nicodemos, membro do Sinédrio, possuidor de abastados haveres e muito respeitado na cidade pelo seu caráter reto e, ainda, de grande influência pessoal por seus princípios liberais, que havia escutado a prédica no pórtico do Templo, portanto, as teorias claras, honestas, francas e limpas de toda e qualquer hipocrisia, que haviam sido expostas por Jesus, sem artifícios, sem modos especulativos, tendo ficado profundamente impressionado.

Pediu para lhe falar em particular, e soube de todos os antecedentes de Jesus e os fins a que se propunha. Ouviu a Jesus com a máxima atenção, e quando o Nazareno, no ardor da palestra, expôs-lhe as suas teorias a respeito da composição do Universo, explicando o que é a alma encarnada e a sua verdadeira vida nos Mundos de Luz, que se movimentam pelo espaço em relação ao tempo, o ilustrado judeu exclamou:

— Tendes razão, mancebo. É assim que eu também entendo, mas o mal é fundo e a árvore, robusta.

Jesus o interrogou com o olhar claro, espelho da sua alma, em que se refletia toda a doce limpidez do seu espírito.

— Vindes tarde ou cedo demais — acrescentou Nicodemos. Sois um simples e um justo, mas desconheceis o volume dos rochedos que obstruem o vosso caminho. Jerusalém está longe de ser a vossa Galileia. Aqui há muita maldade, muita mentira, muita infâmia e muita hipocrisia. Todos vos olharão como um revolucionário, e o procurador de César vos mandará flagelar e expulsar da cidade como conspirador contra a autoridade romana e sublevador do povo.

Pensativo, Jesus cofiou a barba cetinosa.

— Não vos parece que bem vos aconselho?

— Sim, mas está escrito — respondeu ele, como que obedecendo a uma enorme força de vontade, que lhe dava o aspecto de iluminado, não querendo revelar que estava escrito por Deus, que é o Instituidor do instituto do Cristo em todas as humanidades.

— Então persistis?

— Sim. O fruto ainda não está sazonado ­— monologou. É preciso ensinar aos homens o caminho da verdade, espalharei a semente e ela um dia frutificará — demonstrando a sua consciência em decretar o final de A Era da Sabedoria e estabelecer o início de uma nova Grande Era, A Era da Verdade.

Nicodemos então o abraçou, dizendo ao mesmo tempo:

— Tens em mim um amigo — exclamou com sinceridade. A vossa ideia é grandiosa, sem dúvida, ela abalará, até aos fundamentos, a lei e o dogma, mas a vossa vida corre perigo.

Jesus sorriu e Nicodemos, absorto, continuou:

— Pensais, então, em derrubar a lei?

— Isso mesmo. É preciso acabar com o cínico e repugnante sofisma dos fariseus, e também com a forma baixa, vil e humilhante com que se trata o povo, deturpando as leis, os princípios e os preceitos naturais!

— Mas, atendei, é o nosso credo que ides afrontar…

— Em verdade vos digo, senhor, que não é com a alma suja e a consciência manchada que às almas puras, os espíritos de luz já livres deste degredo, pode-se honrar, oferecendo-lhes bezerros, nacos de carne sobre as brasas, cera e dinheiro.

Nicodemos não soube o que responder.

— O Ser Total — continuou Jesus — sendo espírito, assim como nós, que somos a suas partículas, é também Força que vibra, Energia que radia, e que através de suas combinações radiovibra, e sendo ainda Luz, penetra em tudo o que existe, por isso quer menos aparências e melhores obras, e aqui neste mundo-escola faltam estas e sobram aquelas.

— Tendes razão — respondeu Nicodemos — e em mim encontrareis sempre um admirador sincero do vosso espírito, embora discorde em vários pontos das vossas teorias.

— Mas a luz há de se fazer — disse Jesus, como que respondendo a um interlocutor invisível, que nada mais era do que os espíritos de luz que integram a plêiade do Astral Superior que estavam lhe assistindo.

Nicodemos se despediu de Jesus e quando já à distância, assim exclamou para si mesmo:

Esse galileu há de ir longe!”.

 

PARTE XI

Jerusalém, assim como todas as grandes cidades do Oriente sujeitas ao domínio romano e cheias de costumes gregos, no tempo de Jesus, era o foco de uma incrível imoralidade e devassidão, pois que ao final de uma Grande Era e início de uma nova Grande Era ocorre sempre a mais sórdida vilania. O próprio Salomão, há cerca de um milênio antes, filho adulterino de Betsabé, apesar de casado com uma egípcia formosíssima, da família dos faraós, não se contentava com menos de 700 mulheres e 300 concubinas oriundas de todas as nações onde fossem encontradas mulheres formosas. O que não dizer da época de Jesus!

Entre as mulheres mais lindas de Jerusalém, no tempo de Jesus, destacava-se Maria Magdala, galileia de origem, que concentrava em si o ideal da beleza feminina. Maria Magdala era a amante oficial do velho Hanã, sogro de José Caiafa, o sumo pontífice dos judeus. E tanto era deslumbrante a sua beleza, que Cláudia, a mulher de Pôncio Pilatos, quando a viu pela primeira vez, ficou deslumbrada.

O velho Hanã, apaixonado loucamente por aquela beldade sem rival, fazia cair uma perene chuva de ouro sobre ela, de quem tinha ciúmes ferozes. Maria Magdala, ou Madalena, ainda possuía um aluvião de escravas, cada qual mais serviçal, que queriam até lhe adivinhar os menores desejos, porém, apesar disso tudo, não se sentia feliz, por isso inúmeras vezes as suas escravas a viam por entre os olivais de Getsêmani contemplando o firmamento à beira de um poço em ruínas, ou junto a um cedro centenário, com lágrimas a lhe tremularem nos olhos, como se fossem gotas de orvalho.

Cláudia passou a ser sua amiga íntima, quase diariamente a visitando, tomando juntas a refeição da tarde, despedindo-se sempre cada vez mais amigas e ligadas por uma estranha simpatia que as unia.

Certa tarde, Cláudia entra agitada e nervosa nos jardins onde Maria Madalena se entretinha brincando com as rolas domesticadas. As duas amigas se abraçam.

— Estás doente? — pergunta Maria Madalena.

Cláudia se senta à moda do Oriente sobre o felpudo tapete da Pérsia estendido no solo e, levando a mão ao peito, do lado esquerdo, respondeu, em voz baixa:

— Parece-me que amo, Maria.

— Tu! — exclamou a outra com um sorriso aflorado nos lábios. Tu, amares? Tu, que nunca sentiste amor, como me tens dito?

— Vais talvez te rir de mim, tu, que nunca amaste também. Mas se soubesses como ele é belo, como a sua voz é harmoniosa, como as suas palavras chegam ao mais fundo da nossa alma, como o seu olhar refulge e por toda a sua pessoa se espalha um tom de suavidade, de carinho, de altivez, de energia e de convicção! … Oh, Maria! Se o soubesses, talvez o amasses também.

— Mas quem é esse ídolo tão extraordinário, já, aos meus olhos, somente pelo que me dizes?

— Jesus de Nazaré, um pobre galileu visionário que tem pregado coisas contra o teu credo, muito querido na Judeia, segundo me contou, hoje, Caiafa.

— Tenho ouvido falar desse rapaz — respondeu Maria Madalena, pensativa. É da Galileia, meu patrício, e, se não me engano, sobrinho de Maria Cléofas, que é amiga da minha mãe.

— A família dele é gente pobre, o pai era carpinteiro — continuou Maria Madalena. Contou-me minha mãe que quando ele começou a pregar, os irmãos e primos lhe fizeram tal oposição que o obrigaram a sair de Nazaré. Mas eu não o conheço.

— E o que tencionas fazer, Cláudia?

— Possuí-lo — respondeu Cláudia, com altivez.

— Há de ser difícil.

— Por quê?

— Esses visionários, quase sempre, são castos.

— Sim, como Gamaliel, Osâmias, Caiafa e o teu Hanã, que todos pertencem ao mesmo culto e têm mais sensualidade naqueles ossos do que cabelos tens na cabeça.

— Mas… e o teu marido?

Cláudia sorriu com desprezo.

— Pôncio faz o que eu quero e não se mete na minha vida. A tempo vinha! Se não fosse eu, ele havia de ser tanto Procurador da Judeia, como esse frágil galileu é filho do tal rei David, que morreu há uns centos de anos, como tu me tens contado.

Maria Madalena muda a conversa, porque essa conversa não lhe interessava. Passam-se as horas. Cláudia a abraça, despedindo-se, quando, nesse momento, entra Hanã, todo alegre, com um bracelete precioso cravejado de pérolas maiores que um grão de tremoços, para oferecê-lo a Maria Madalena. Essa preciosidade ele a comprara, pela manhã, a um mercador amigo, vindo de Damasco para negociar, em Jerusalém, com os vendilhões do Templo.

Já noite, Jesus caminhava sozinho, absorto em suas meditações transcendentais, quando uma sombra negra saiu de entre os olivais e tomando o passo ao meditativo nazareno, exclamou:

— Para!

Jesus era animoso. Os receios e fraquezas dos seus discípulos, por vezes acovardados, tinham-lhe fortificado ainda mais o ânimo e encorajado o seu espírito. Por isso, sem se atemorizar, parou e indagou, serenamente:

— Quem és e o que de mim pretendes?

— És tu Jesus de Nazaré? — perguntou o intruso, com aquela doçura de voz que revela sempre o encanto feminino.

— Sou.

— Conheces-me?

Jesus a fitou com aquele modo singular e refletido que lhe era próprio e, após um instante de observação, respondeu:

— Não.

— Pois sou Cláudia, a mulher de Pôncio Pilatos, o Procurador de César, na Judeia.

— E o que pretendes de mim?

— Ouvi-te, durante todo o tempo em que ontem pregaste no Templo.

— E vens, de certo, a mando de Pôncio Pilatos sondar o meu pensamento, crendo-me um agitador, não é verdade?

— Não, isso nunca — atalhou Cláudia, com um tom de sinceridade que fez Jesus olhá-la atentamente.

— Então, se falas a verdade, foi apenas o efeito da minha prédica que te levou a me esperar, a esta hora da noite, nesta solidão imensa?

— Talvez… — e Cláudia, tomando-lhe a mão, obrigou-o a se sentar sobre a enorme raiz descoberta de um cedro.

— Sou sincera — continuou ela. Preciso te ouvir, conhecer-te e te admirar, porque talvez nisso encontre o bálsamo e o conforto de que tanto careço.

— Tens, então, ofendido muito ao teu próximo, prejudicando a tua alma, e por isso desejas agora enveredar por melhor caminho? — indagou Jesus, que sendo extremamente bem intencionado, jamais poderia supor as intenções da sua interlocutora.

Cláudia não soube responder, e Jesus, conhecendo nessa indecisão o seu erro, sorriu e acrescentou:

— Por certo, desconheces a tua composição espiritual e física, e falas em alma, ignorando o que ela significa, pois, se o soubesses, estarias compenetrada de que as boas ou más ações a acompanham, não somente na trajetória deste planeta, mas até à eternidade. Infelizmente, os meus irmãos em espírito não se têm dignificado pela conduta. Todo o mau sacerdócio que explora, aí nos templos, a ingenuidade e a crença, utiliza uma hipocrisia que causa revolta às almas evoluídas. Esses fariseus que se fazem passar por austeros e puros aos olhos ingênuos do vulgo, estão repletos de mazelas e de vícios destruidores no homem, da essência mais pura do espírito. Se não for possível demovê-los, pelo menos ficam sabendo que são criminosos conscientes e se vão salvando os que são bem intencionados. O meu dever é fazer luz sobre os espíritos encarnados, e essa luz há de se fazer.

— Nesse caso, a tua ação é toda moral e pacificadora?

— Sim, embora o erro seja imenso e os homens persistam nele.

— Receias algum atentado?

— Não.

— És um grande espírito, rabi — atalhou Cláudia. Mas, dize-me: não te seria melhor a vida se deixasse essa tarefa em que consumirás toda a tua mocidade e o valor e os dotes da tua alma sublime e boa? Estás ainda em tempo de recuar.

Jesus sorriu.

— Recuar! Falas-me em recuar, quando dentro de mim eu vejo a longa estrada a percorrer sobre a Terra!

— E se uma mulher rica e poderosa, que te adorasse até à loucura, dissesse-te: ama-me, como eu te amo, abandona a tua tresloucada missão, dá descanso a essa alma ardente. Pensa, pensa bem rabi, as trevas são densas e os homens maus, tu mesmo o disseste.

Jesus a fixou atentamente e, em tom enérgico, replicou:

— E acaso existiria uma mulher que ousasse me afastar do caminho da verdade? — indagou Jesus, como que se referindo ao início de A Era da Verdade que estava estabelecendo neste nosso mundo-escola.

— Existe sim — exclamou Cláudia, com entusiasmo. Sou eu, Cláudia, mulher do Procurador da Judeia, delegado de César Tibério Augusto, que te amo e te quero salvar dos perigos que vais encontrar no teu caminho.

Jesus se levantou e, com gravidade, disse:

— Mulher, aquela que não sabe respeitar o nome do seu marido, não é digna de viver.

E sem um menor gesto de enfado, ou mesmo qualquer sinal de desprezo, sendo antes todo comiseração e dó por aquela infeliz, afastou-se lentamente, caminhando pelo vale de Cedron.

Cláudia, absorta, surpresa e envergonhada, ficou estática, a segui-lo de vista, até que ele se perdeu na escuridão da noite.

Maria Madalena, naquela tarde em que Cláudia lhe revelou o seu segredo, embora o ocultasse, ficou pensativa, desejosa de ouvir as prédicas de Jesus. E isso fez, tão logo soube o dia em que ele ia ao Templo fazer as suas pregações.

De repente surgiu entre a multidão que ouvia a Jesus, um enorme burburinho, e o povo abre alas à passagem de uma mulher de deslumbrante beleza, vestida com uma magnificência quase real.

— É Maria Magdala! — exclama um fariseu.

— A amiga de Hanã — observa um escriba.

Efetivamente, Maria Madalena se dirige para perto de onde Jesus predicava. Ouve-o atentamente, e quando ele fala, fervorosamente, das riquezas mal adquiridas, ela, como que impulsionada por uma força, levanta-se, despojando-se de todas as suas joias, e as atirando ao povo, exclama:

— Jesus tem razão! Tomai essas riquezas mal adquiridas e reparti o seu produto entre os velhos, os famintos, os cegos e as crianças sem lar e sem pão! — e então, chorando e beijando a túnica de Jesus, oferece-se para acompanhar aos apóstolos, por desejar ser, como eles, uma companheira de causa, para servir à doutrina da verdade.

Jesus concluiu a sua prédica, aconselhando a todos a naturalidade e a modéstia, demonstrando que a verdadeira riqueza é aquela que parte do ouro puro das nossas ações, e não do metal vil com que adornamos as nossas vestes. Enquanto Nicodemos exclama a um dos seus colegas do Sinédrio:

— Esse homem tem, realmente, um grande talento!

O povo se retira, alguns chorando, enquanto os fariseus se revoltam e praguejam.

Jesus regressa à Galileia, depois de se haver despedido apenas de Nicodemos e da boa gente de Getsêmani, que tão carinhosamente o acolhera, e dos seus discípulos galileus.

Segundo nos conta Alfredo Galis, Jesus saiu de Jerusalém pela mesma estrada por onde fôra ter à cidade, passando perto de Sichem, entre os montes Ebel e Garazim. Este último indicava naturalmente a Samaria, pequeno povoado encravado entre a Galileia e a Judeia, as duas vastas províncias judaicas. O culto que se praticava em Samaria era o de Garazim, ou seja, o judaico, igual ao de Jerusalém, mas sem o luxo e o orgulho que a influência política levara a essa grande cidade.

Jesus não queria saber de dogmas, de misticismos e nem dos credos e das suas seitas, sendo amigo de toda gente, sempre fiel ao seu pensamento de que os homens em essência, quer dizer, em espírito, são todos irmãos. Nesses termos e nessa ordem de ideias, advinda de um pensamento límpido e verdadeiramente democrático, que a estupidez humana ainda não soube compreender, Jesus escolhera a estrada de Sichem como sendo o melhor caminho para a Galileia, sem querer saber se podia ou não beber a água ou comer o pão de um samaritano. Esses princípios, criados pelo ódio e pela estupidez ignaros, ele não somente desconhecia, como não os admitia.

Para ele não existiam dogmas, misticismos, ódios, prevenções e fórmulas exteriores, como as criadas para a adoração de Jeová, o deus bíblico, e outros, materializados pela ignorância dos seres humanos e reduzidos à forma humana ou não, nas figuras dos espíritos obsessores quedados no astral inferior, pois que eles também são partículas do Ser Total, uma vez que só concebia os homens como sendo irmãos e, pelas boas obras, pelo seu mútuo amor, pela honestidade de consciência e igualdade de princípios, sendo hereges ou não, podiam merecer todo o respeito e a mais distinta consideração.

Mas podia supor o Nazareno, que apontando à humanidade o único caminho a seguir neste mundo, caminho este sério, honesto e digno de ser seguido por todos os espíritos encarnados na Terra, os seus grandiosos ensinamentos e princípios espiritualizadores viessem a ser vilmente deturpados, convertendo-os, falsamente, em um deus absurdo, um espírito trevoso quedado no astral inferior, servindo-se do seu grandioso nome como bandeira e escudo para a criação de credos e seitas que têm acendido, por questões teológicas, ódios e paixões entre os homens, levando-os a guerrear entre si, quando a base das suas pregações, de extrema simplicidade, faz compreender claramente que Deus, tal como sendo formado de Substâncias, que se dividem em Essência e Propriedades, em que a Essência é o Ser Total, o Espírito Universal, e as Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total, a Alma Universal, em que as partículas do Ser Total evoluem pelo Universo, adquirindo cada vez mais as parcelas das Suas Propriedades.

Em sendo Deus o Ser Total, em Essência, torna-se óbvio que Ele não assume a tola pretensão de querer ser adorado, de querer ser reverenciado, de querer ser cultuado, mas quer sim, e isto faz parte da mais pura lógica, ações dignas por parte das Suas partículas, que são os seres do Ser Total, as criaturas do Criador, sendo esta a única maneira de todos os seres humanos se encaminharem, dia a dia, em seus retornos para Ele.

O ideal de Jesus era unir a todos por laços de amor indissolúveis, que somente com a verdade sendo transmitida poderia proporcionar a esse desiderato, pois que tendo a sabedoria sido já estabelecida na face da Terra, com a união, a irmanação, a congregação, entre a verdade e a sabedoria, é que se poderia alcançar finalmente a razão, por intermédio das ações espiritualizadoras do Antecristo, cujo papel ele havia exercido na sua humanidade, sabendo de antemão que caberia ao nosso Antecristo o estabelecimento da amizade espiritual no seio da nossa humanidade, fazendo emergir a solidariedade fraternal entre todos os seres humanos, com a prática do bem se acentuando cada vez mais e com a prática do mal sendo gradativamente se extinguindo, até que a nossa humanidade viesse a ter o seu próprio Cristo em seu seio, quando, enfim, o amor espiritual poderia ser definitivamente estabelecido neste nosso mundo-escola, pois que ele se situa acima do bem e do mal, em razão dos raios de luz produzidos serem bem mais esplendorosos do que os raios de luz da amizade espiritual.

Assim, o Nazareno deplorava a existência negativa dos credos e das suas seitas, sentindo-se compungido diante das seleções de raças e de povos, uma vez que o amor que pregava tinha o sentido universal, por ser de natureza espiritual. Deste modo, o “crê ou morre” que foi muito utilizado posteriormente pelo catolicismo, que se diz cristão, embora jamais o tenha sido, nunca foi por ele admitido, como também não admitia crentes e ou fanáticos, queria sim, todos os seres humanos esclarecidos, aptos para o trabalho e para a compreensão racional da vida, em conformidade com o seu racionalismo, daí a razão da fundação do Racionalismo Cristão por parte de Luiz de Mattos.

Encontrando-se um tanto fatigado, Jesus se senta perto de um poço. Pensativo, recorda as amizades que haviam sido conquistadas em Jerusalém, as ponderações acertadas de Nicodemos, quando nesse instante se aproxima uma mulher nova e formosa, que passa a encher a bilha que levava com a água do poço. Sentindo sede, Jesus lhe pede água. Com espanto, a samaritana o olha e pergunta:

— És judeu?

— Sou da Galileia.

Como os samaritanos formavam um pequeno grupo étnico-credulário originário da Samaria, uma região montanhosa do Oriente Médio, constituído pelo antigo reino de Israel, situado em torno da sua antiga capital Samaria, rival do vizinho reino do sul, que era o reino de Judá, ela indagou a Jesus:

— E pedes água a uma samaritana?

Com o seu natural sorriso, o olhar meigo e respeitador, Jesus lhe responde:

— E o que tem isso? Acaso não somos todos irmãos?

A samaritana entregou imediatamente a bilha ao Nazareno, e ele, bebendo lentamente a água, estando já saciada a sede, diz-lhe:

— Em verdade te afirmo, mulher, que dar de comer aos famintos e de beber aos sedentos, é uma ação elevada que agradará sempre aos espíritos de luz.

— Ainda mesmo que seja a de um judeu? — retrucou a samaritana.

— Não há crenças nem preconceitos que possam diminuir as boas ações que sejam naturais da alma humana.

— Mas nunca ouvi falar assim!…

— Deixa, mulher, que atrás de tempo, tempo vem, há de chegar a ocasião em que os homens verdadeiros e sinceros não precisarão de templos e montes para neles fazerem adorações, porque saberão vibrar sentimentos superiores, radiar pensamentos positivos e radiovibrar as suas combinações, conservando no espírito a verdade e a sabedoria, que são os únicos meios para se alcançar a razão. Os templos desses homens verdadeiros e sinceros serão as suas próprias consciências.

A samaritana ficou deslumbrada com o que ouvia da boca de Jesus, vendo nele um propagador do valor, do amor e da justiça, que desejava e lutava por uma humanidade toda unida, irmanada, congregada, em uma só família.

 

PARTE XII

Jesus entra na Galileia aplaudido pelo povo, sendo cada vez mais querido e respeitado. Mas os anos e a experiência entre os homens o levaram à meditação sobre a ignorância da sua imensa maioria, se não de todos, com o pobre a invejar o rico e o rico a menosprezar o pobre. E como de pronto não pudesse fornecer outro remédio que viesse conciliar a essas diferenças preconceituosas, procurou ao menos atenuar os sofrimentos daqueles menos afortunados, insinuando no espírito dessa gente que o reino dos pobres era o céu.

Convencido de que se encontrava em uma nação de profetas, taumaturgos e outros exploradores da ignorância humana, os quais haviam povoado a mente do povo de falsas concepções acerca da vida espiritual, em que predominavam as divindades celestiais e outras imposturices mais por parte dos espíritos obsessores, o grande idealista considerou mais prudente não combater o pensamento reinante acerca do deus, pelo povo assim considerado, e também do céu, simplesmente porque esse pensamento estava profundamente enraizado no espírito do povo, cujas raízes remontavam desde muitos séculos, mas, pelos menos, procurou definir a Deus como sendo o Criador de tudo.

Sendo detentor de uma notável capacidade de observação, Jesus ansiava por reformas que a todos libertassem da escravidão dos sentidos, algo que ainda hoje as ciências tidas como sendo modernas, ou mesmo contemporâneas, não conseguiram ainda se libertar, e não se sentia bem com o calor das manifestações de carinho que recebia em toda parte, pois que ele não queria tratar de si mesmo, mas sim da obra regeneradora de usos e costumes em que estava empenhado em sua missão espiritualizadora.

Chamavam-no de rabi, título com que o distinguiam, que dentro do judaísmo assumia o significado de professor, de mestre, ou, literalmente, de grande, mas que não satisfazia a sua alma, desejosa da grandeza eterna, cuja grandeza eterna não é propícia a honrarias, mas sim a obras, aliás, a grandes obras, daí a razão de se dizer que “honrarias, antes merecê-las e não tê-las, do que tê-las e não merecê-las”.

Quando em Jerusalém, estudou de perto tanto os homens como as ordens social, política e credulária, tendo observado a profunda ignorância do povo, a tremenda astúcia e a imensa sagacidade do sacerdócio, o egoísmo dos ricos e as condições de miséria, quase infamantes, dos pobres. Comparou a disciplina das tropas romanas aguerridas e educadas na arte da guerra, acostumadas a obedecer aos chefes, sem preconceitos e nem hesitações, com o povo judaico inerme, desarmado, falador e acomodado, sem a menor educação militar, estando todo ele dividido em crenças e fórmulas dogmáticas, os ricos fazendo causa comum com os dominadores, os pobres à espera de que viesse das nuvens a salvação providencial, embora eles não fizessem o menor esforço para quebrar as algemas da ignorância e da servidão que os manietavam. Todas estas misérias de Israel, caíram no seu ânimo como a pedra em um túmulo, sufocando as intenções primitivas da sua missão espiritualizadora neste nosso mundo-escola.

Estando convencido de que nada podia esperar da Terra e nem dos homens que sobre ela se debatiam em lutas estéreis, de interesses, de vaidade, de soberbia, de ódio, e tudo o mais do gênero, a sua grande alma se voltou, então, para o mundo espiritual, fazendo-o pensar demoradamente no Ser Total, a Essência criadora de todos os seres, assim como também nas leis espaciais, nos princípios temporais e nos preceitos universais, cuja legislação a tudo rege. A resolução que tomou o iria expor, ainda mais, ao ódio dos seus inimigos.

Concebeu, então, que todos os males do povo provinham das falsas crenças. Atacá-las pela base, batalhar até à intransigência, estabelecendo conhecimentos metafísicos consubstanciados na verdade e experiências físicas consubstanciadas na sabedoria, baseados nos dois únicos elementos componentes do Universo — Força e Energia —, em que a Luz a tudo penetra, para se alcançar a razão, era o que lhe ditava a consciência, quando, em recolhimento, reexaminava a sua obra de explanador do Racionalismo Cristão, quando se encontrava integrado à sua humanidade, ainda na condição do seu Antecristo.

Nesse seu empreendimento grandioso, cheio de clarividência, iniciado após o seu regresso à Galileia, não pôde Jesus ir além dos dezoito meses.

Nesse ínterim, Maria Madalena chega também à Galileia. Procura Jesus e lhe diz:

— Rabi, peço-te que não voltes a Jerusalém, onde te esperam grandes perigos, invejas, ódios e rancores.

— Por quê? — pergunta Jesus, ingenuamente.

Ela, pensativa e chorando, quis lhe ocultar as tramas de Hanã, agora o seu ex-amante. E confusa, baixando a voz, responde:

— Pelo muito que és amado.

Jesus se calou, parecendo refletir.

— Em que pensas?

— Em ti, mulher!…

Maria sufocou a voz, após soltando um grito:

— Em mim, a mais desprezível e infame das mulheres?

— Sim, Maria, se o teu arrependimento é sincero e se realmente amas a verdade, pois tu eras rica, vaidosa, cortejada e querida, vivendo nesse meio corrupto e de falsas grandezas, onde se mata o corpo e se corrompe a alma. És jovem e formosa, e talvez não saibas a vida de sacrifícios que te espera.

— O que tu e os teus companheiros passarem, eu passarei também.

— Lembra-te que os que me seguem não têm lar, nem bens, nem posição, nem dinheiro, nem comodidades. Vivem como podem e dizem que me amam, porque falo a verdade.

— E acaso alguém poderá te estimar e respeitar mais do que eu? Alguém poderá ser mais dedicada, mais humilde, mais obediente do que esta pobre e desgraçada mulher que a ti e aos teus discípulos veio procurar, abandonando as suas riquezas, o seu fausto e essa vida desregrada e de prazeres fáceis que tão deleitosa lhe corria em Jerusalém?

— Felicito-lhe, Maria! E que nunca te arrependas de ter abandonado a essa vida dissoluta. Sê boa, pura em pensamentos e atos, que as vibrações, as radiações e as radiovibrações dos espíritos superiores, aqueles que já habitam os seus Mundos de Luz, chegarão a ti, confortando-te e te fortificando para que ainda muito possas fazer, como mulher esclarecida.

 

PARTE XIII

Predicando na Galileia, com a sinagoga cheia não somente de galileus de todas as camadas, mas também de muitos fariseus oriundos de Jerusalém, atraídos pela fama de Jesus, assim ele se expressou, em uma das suas prédicas:

— Em verdade vos digo que não é Moisés, mas sim o Criador quem vos dá o pão espiritual. Esse pão o recebeis através das boas obras, pois nós todos somos partículas Suas, e eu entre vós me encontro para explanar a verdade.

— Isso não se diz — murmuraram, a um só tempo, diversos conterrâneos de Jesus, vindos de Nazaré para escutá-lo nas prédicas. Por acaso não o conhecemos nós, assim como ao pai, à mãe e aos irmãos? Não é ele filho de José, irmão de Tiago? Com que direito nos quer fazer acreditar que não é filho de José e Maria?

Ignorantes que eram, não conseguiam alcançar o sentido figurado das palavras pronunciadas pelo orador. Por essa razão, muitas vezes, Jesus teve que se servir de palavras que intimamente combatia, por não expressarem a verdade, mas que considerava necessárias para atrair o povo, inclusive crentes e fanáticos feitos pelos inúmeros credos e seitas.

Em uma das suas prédicas, ficou tão entristecido, tão cheio de mágoa com o estado psíquico da maioria dos seus ouvintes, que sentindo o ressentimento entre eles pelo que havia dito, resolveu seguir para Tiberíades.

Já noite, Jesus passeia sozinho à beira da praia. Um barco balouça sobre as ondas, enquanto uma rola adormecida em uma palmeira deixa antever um ponto branco no fundo da folhagem. Contemplando diretamente a natureza, um pouco cansado, senta-se em uma pilha de cordas e redes pertencentes aos pescadores, onde meditativo se deixa ficar. Maria chega, bate-lhe no ombro, e indaga:

— Mestre, o que tens?

— Ah! És tu, Maria?

— Sim. A Lua já vai alta e eu soube que ainda não estavas recolhido. Parece-me que sofres.

— Talvez tenhas razão no que dizes, Maria. Sofro sim, porque vejo que os homens não se desejam salvar.

Maria se senta ao seu lado, e logo após indaga do Nazareno:

— E quando terminarás a tua missão? Quando chegará a hora de descansares dessa luta que te fadiga o corpo e martiriza a alma?

— Quando tiver cumprido o meu dever na Terra e nela deixar o corpo para ascender, como espírito, ao meu Mundo de Luz!

— Pensas em morrer, mestre? — indaga Maria Madalena, com a voz um tanto trêmula.

— Não. Mas acaso os que se dispõem a servir à causa da verdade podem se dizer livres da morte física, de um momento para outro?

— E me lembrar que tu podias ser tão feliz na tua cidade de Nazaré, amado e respeitado como merece a tua grande alma.

— Cala-te, mulher, que não sabes o que dizes!

Reagindo contra o desânimo que por momentos pareceu dominá-lo, Jesus se levanta, caminha para o horto de Genezaré, e com palavras repassadas de doce e terna suavidade, fala aos companheiros da sua missão esclarecedora e dos perigos que o esperam, dando-lhes conselhos úteis e ponderados.

Como os demais discípulos, Maria Madalena ouve, atenta, a Jesus, quando dois homens se aproximam dizendo que lhe queriam falar. Maria Madalena os manda entrar, vendo que se tratava de servidores de Hanã, que fôra o seu poderoso amante, antes dela conhecer a Jesus e resolver segui-lo, adotando a moral que é própria dos seguidores da verdade.

— Maria — falou o emissário mais velho — aqui vimos a mando do nosso grande amo e senhor, o prudente Hanã, que é Abraão, em sua santa guarda, para te pedir que abandones esse galileu e nos acompanhes a Jerusalém.

— Hanã — continuou o outro — autorizou-nos a te dizer que a tua leviandade está perdoada, pelo muito que te ama, e que encontrarás o seu coração mais puro e bem intencionado que o cordeiro Pascal, quando marcha para o sacrifício. Terás novas riquezas, em substituição das que repartiste com a gentalha: sedas, pérolas, servos, ouro, âmbar, e tudo mais quanto ambicionares, contanto que a tua presença dê felicidade e prazer ao sumo sacerdote de Jerusalém. Se soubesses…

— Basta de palavras!

Interrompe Maria Madalena em tom altivo, dizendo com a voz cheia de energia:

— Ide-vos, e dizei ao vosso amo que jamais abandonarei a Jesus e os seus discípulos por todas as riquezas de Salomão, eles são pobres de haveres, mas ricos de espírito, e pregam a verdade.

— Acautela-te, Maria — rosnou o judeu mais velho. Hanã é poderoso, enquanto que Jesus não passa de um galileu revolucionário, sem proteção e nem valor, que Herodes Antipas pode mandar supliciar, de um dia para o outro.

— Não temo a cólera desse velho pontífice, desdentado e devasso. Dizei-lhe que se Jesus precisar de um escudo que o defenda, esse escudo serão a minha alma e o meu corpo.

— Estás louca, Maria!

— Não estou doida, Natasiel, ouviste? Não estou doida! Eu sigo a Jesus porque amo a verdade, e as suas palavras me chamaram ao caminho do bem e da virtude. Ele me respeita e me estima porque eu me arrependi e abandonei a vida dissoluta que levava. Não quer o meu corpo, como o teu velho amo. Sabes, agora, por que jamais o abandonarei?

Os dois emissários judeus se entreolharam, encolheram os ombros e indagaram:

— É essa a tua última palavra?

— Sim.

— Pois fazes mal, Maria. Perdes uma grande fortuna e, também, vais perder a Jesus.

Maria Madalena lhes voltou as costas, e quando os dois homens saíram para a estrada, disse o mais velho a mais novo:

— Se Hanã apanha Jesus em Jerusalém, a sua vingança vai ser terrível.

— Assim o penso — respondeu o outro.

 

PARTE XIV

Todos os discípulos de Jesus eram galileus, à exceção de Judas, que era filho de um lavrador humilde e honesto da pequena cidade de Cariote, perto de Judá e de Hebron. Ele era diferente de todos os demais discípulos, pois possuía um caráter reservado, meditativo, concentrado e tímido, ao passo que os outros eram expansivos, alegres, francos, simples e ingênuos. Dizendo ter gostado das suas prédicas, pediu permissão para acompanhá-lo.

Certo dia, Jesus teve de ir a Cafarnaum dissertar sobre a doutrina da verdade, valendo-se da sua imensa sabedoria. Maria Madalena ficou no horto remendando as roupas, estando a consertar uma túnica roxa de Jesus, que lhe havia dado um homem rico de Betsaida, quando lhe apareceu Judas, que pretextando doença, deixara-se ficar em Genezaré.

— Então não acompanhaste o mestre?

— Sentia-me um pouco doente e, também, desejava te falar reservadamente.

— A mim? Algum perigo ameaça a Jesus?

— Não, descansa.

— Então, o que queres me dizer?

— É grave, Maria, o que tenho a te comunicar, e espero que saibas dar às minhas palavras o devido valor.

— Fala, que eu te escuto.

Maria Madalena parou de coser.

— Tenho trinta anos — começou Judas, baixando os olhos para não sofrer a persistência do olhar daquela mulher que o deslumbrava — e possuo em Cariote alguns bens, suficientes para não pensar no dia de amanhã. Sou só no mundo. E vivi, até há pouco, sem afetos, sem amor e esperança de consolo.

— E depois?

— Depois, um dia vi uma mulher tão bela, tão formosa e sedutora como não poderá haver outra igual, e essa mulher se apoderou de toda a minha alma, de toda a minha vida, sem eu poder resistir a este sentimento que me domina.

— Fazes mal, Judas.

— Por quê?

— Não diz Jesus que aqueles que o quiserem seguir, como discípulos, precisam ser livres e independentes, amando somente a verdade?

— Sim, mas Jesus, se nos pode dar conselhos, não pode domar os impulsos mais íntimos.

— E o que desejas fazer?

— Tomar a essa mulher por esposa.

— E abandonar a Jesus?

— Não, totalmente não. Mas Jesus quer mudar as leis da natureza e, como tal, eu não aceito as suas imposições.

É doloroso quando ao serviço de uma causa como a da verdade, não se é compreendido. Jesus nunca cometeu tal heresia. Ele era claro e explícito nas suas prédicas, porém os perversos, os infelizes, de fundo rancoroso, ainda bastante animalizados, é que deturpavam o seu sentido. Na realidade, ao decretar o final de A Era da Sabedoria e estabelecer o início de A Era da Verdade, ele quis dizer o seguinte:

Nós, os servidores da causa da verdade, não podemos ter apegos às coisas da Terra”.

Jesus nunca defendeu o celibato. Muito pelo contrário, pregava a constituição da família e combatia sempre a vida dissoluta, pois que a moral é fundamental para quem quer seguir a verdade, aconselhando aos jovens o recato e a abstinência, para não legarem, em tempo algum, enfermidades às esposas e aos filhos. Portanto, ele quis apenas incutir no espírito dos seus discípulos a continência do sexo, para não se deixarem tentar por ele, vindo a falir a luta empreendida, pois ele conhecia bem a natureza humana.

— Serás um rebelde, entre tantos amigos fiéis — respondeu Maria Madalena a Judas. Cometerás uma deslealdade, uma traição se procederes em desacordo com os ensinamentos do mestre.

— Pois bem, acompanhá-lo-ei, sempre, se essa mulher me quiser acompanhar também.

— E não sabes se ela te quer acompanhar?

— Não.

— Ainda não te falaste sobre isso?

— Agora mesmo.

Maria empalideceu.

Judas lhe revela o que se havia passado no pórtico de Salomão, e diz que desde aquele dia a sua imagem se lhe gravara no íntimo da alma, não lhe dando sossego, e que não mais a poderá esquecer.

Ela, então, pede-lhe que nunca mais repita semelhantes palavras.

Cambaleando como um ébrio, com a voz estrangulada, Judas lhe pergunta:

— Então me recusas?

— A ti, como recusaria ao Tetrarca e ao César, se me quisessem para sua mulher.

Judas se retirou do horto, deprimido, somente ali voltando depois de terem regressado Jesus e os discípulos que o haviam acompanhado.

Aproximava-se a festa dos Tabernáculos. Os seus parentes, alguns fariseus, que hipocritamente fingiram transigir com ele, e vários falsos amigos, malévolos e incrédulos, incitam-no a partir para Jerusalém. Embora houvesse percebido nesses conselhos a traição disfarçada, Jesus acedeu, porém não acompanhou a caravana dos galileus que se encaminhavam para as festas que iriam ser realizadas naquela cidade, pois lhe repugnavam a bajulação, a pompa e o fausto, por isso não queria entrar em Jerusalém chefiando a caravana de forasteiros, mas sim ali chegar sem rumor, na sua simplicidade natural. Daí o ter aconselhado aos discípulos a seguirem com os forasteiros, pois ele iria sozinho. Com isso não concordaram, porém, João, Judas e Maria Madalena, que ficaram para acompanhá-lo.

A caminho de Jerusalém, partem os quatro. Mas Jesus se sentia invadido por essa repulsa quase instintiva que nutria pelos fariseus, escribas e sacerdotes, gente maldosa, velhaca, hipócrita e especuladora, tão contrária ao seu modo de ser e de sentir, pois as aparências mundanas, por mais belas e esplendorosas que fossem, incomodavam sempre a natural singeleza da sua alma um tanto rústica e inimiga de pompas e artifícios.

A notícia da chegada de Jesus a Jerusalém correu logo de boca a boca. Os sacerdotes e os potentados se sentiam agitados, praguejavam e mandavam os seus apaniguados se infiltrar entre o povo, para saber quando ele faria as suas prédicas no Templo. E, informados, para lá se dirigiam, nos dias marcados.

De novo no Templo, Jesus observou que ali não estavam apenas os que desejavam se orientar pelas suas sábias palavras, todas esclarecedoras da verdade, mas também alguns elementos provocadores para lá mandados pelo seu maior inimigo, o poderoso Hanã, desde que se decidiu a acolher Maria Madalena.

Esses infelizes agitadores, a cada palavra de Jesus, não poupavam os mais ignóbeis e artificiosos sofismas, no intuito de deturpar o sentido daquilo que ele dizia. Revoltado com tanta patifaria, mas sem perder a fleuma e a serenidade, pôs de parte a prudência, que até então havia utilizado, e passou a ferir de morte, com críticas e admoestações, a hipócrita sociedade judaica. Entretanto, essas críticas não teriam um maior efeito, ou mesmo as piores consequências, uma vez que os próprios sacerdotes, no íntimo, davam-lhe razão, caso não fosse o ódio mortal que se destilava, cada vez com maior intensidade, do espírito conturbado de Hanã.

Na realidade, tão logo Hanã tomou conhecimento de que Jesus novamente se achava em Jerusalém com Maria Madalena, estando ela mais formosa do que nunca, ficou ainda mais furioso. O poderoso Hanã haveria dado de ombros, sem se incomodar, caso Jesus tivesse se limitado a discutir a lei e os textos considerados como sendo sagrados. Mas concorrer para que a amante o abandonasse, era algo que jamais poderia esquecer. Tanto assim, que passou por cima da lei, maculando o nome do seu genro José Caiafa, mesmo sabendo que este, como sendo o sumo pontífice, passaria à história acusado de ter causado a morte de Jesus.

Nicodemos, amigo de Jesus e membro do Sinédrio, foi um dos convidados por Hanã para a reunião secreta do alto sacerdócio, na casa de José Caiafa. Mas ele, sereno e justo, ouvia com grande repulsa as falsas acusações que se faziam a Jesus, chegando mesmo a querer defendê-lo perante esse tribunal judaico, em sua maioria composto de devassos e subservientes, mas depressa se conteve, pensando que o momento carecia de prudência, pois um dos seus companheiros, do trato íntimo de Hanã, exclamou:

— Por quê? Tu também és galileu? Consulta as Escrituras e me responde se pode vir um profeta da Galileia!

Nicodemos, que tudo percebia e não ignorava de onde partia o raio, conhecendo bem os fatos que motivaram a reunião, disfarçou como pôde a sua revolta, mas, no íntimo, tomou a resolução de ir cautelosamente prevenir a Jesus, o que fez tão logo terminou aquela reunião.

Era já noite, tudo estava em silêncio, quando Nicodemos, embrulhado na sua túnica, encaminhou-se para Getsêmani, à procura de Jesus, no horto. A porta estava aberta, e uma candeia de cobre, presa a um gancho de ferro seguro na parede escura do fundo, iluminava o compartimento, deixando entrever João e Pedro, que conversavam, a meia voz, junto a uma mesa, e um pouco mais adiante, Jesus se encontrava lendo uns pergaminhos que tinham vindo da Galileia. À entrada de Nicodemos, João e Pedro se ergueram, um tanto receosos, mas Jesus correu a abraçá-lo, com elevada estima e distinta consideração.

— A esta hora aqui! — exclamou admirado.

— Tinha que te falar, rabi ­— respondeu Nicodemos.

— Diz.

— Sabes que o Sinédrio já se ocupa da tua pessoa, e que o alto sacerdócio discute a teu respeito?

— Não sabia — respondeu Jesus.

— Pois para que o fiques sabendo, é que te vim procurar.

Jesus lhe lançou um olhar de reconhecimento, um daqueles seus olhares que valiam pelo mais belo dos poemas.

— Tens no alto sacerdócio o teu mais cruel inimigo.

— José Caiafa?

— Não, Hanã, o seu sogro.

— O velho?

— Sim.

Jesus ficou pensativo.

— E que mal eu fiz a esse homem?

— Roubaste-lhe a amante.

— Eu! — exclamou Jesus, deveras admirado.

— Pois não sabias que Maria Madalena, a tua discípula, era a amante querida do velho Hanã?

— Não!

— Creio-te, porque sei que os teus lábios não sabem mentir. Estás, pois, prevenido do perigo que corres. E agora, pergunto-te: persistes no teu intento?

— E te parece que deveria retroceder? — perguntou Jesus com energia.

— Não — respondeu Nicodemos, abraçando-o. És um homem de bem, e te admiro. Previa a tua resposta, e pensei em ti. Aqui não estás seguro, e é justo que te defendas, pois a tua obra ainda não está concluída.

— Tens razão — murmurou Jesus, pensativo.

— Reservei-te um local onde estarás ao abrigo de qualquer cilada. Na aldeia de Betânia, no alto da colina, na vertente do Jordão, a hora e meia de Jerusalém, possuo uma propriedade que trago de renda a um tal Simão, um bom homem, meu amigo, que me deve favores e é leal e dedicado. Vive com duas sobrinhas, Marta e Maria, raparigas de bem, e um irmão delas, Lázaro, rapaz de belos sentimentos e melhores intentos. Aí encontrarás lugar seguro contra qualquer traição. Já os avisei da tua chegada. Amanhã te apresenta, que serás recebido como em família.

— E os meus amigos.

— Descansa, que esses não correm perigo. São demasiados humildes e ignorantes para que alguém lhes dê importância em Jerusalém.

— E Maria?

— Maria pode te acompanhar ou, se não o quiseres, fica aqui em segurança. É mulher resoluta, e Hanã jamais ousará recorrer à violência. Isso seria um escândalo, de que se aproveitariam os fariseus, e ao sacerdócio não convém dar asas à loquacidade intrigante e difamadora desses escaveirados doutores.

Nicodemos se levantou.

— Agradeço-te tudo quanto fazes por mim — disse-lhe Jesus.

Abraçaram-se, ambos a chorar, e se despediram, entre os soluços de Nicodemos, que parecia prever a morte antecipada de Jesus.

 

PARTE XV

Ao romper do dia, Jesus falou com os seus discípulos, dizendo-lhes que às 9:00 horas estaria no pórtico de Salomão, onde na véspera o tinham reptado vários fariseus, e sem se referir ao destino que estava a seguir, tomou o rumo de Betânia.

Com receio de se apresentar em Jerusalém, Maria Madalena ficou só no horto, sentada junto a um poço, enquanto fiava uma estriga tão loura como os seus cabelos, quando se aproximou um rapazote de uns 10 anos, muito da sua estima, para lhe dizer que uma mulher a procurava e lhe desejava falar. Pedindo ao rapazote que a guiasse até ela, pouco depois, com espanto, reconhecia Cláudia, a mulher de Pôncio Pilatos.

— Não me esperava, compreendo — exclamou Cláudia — mas soube que estavas em Jerusalém com o teu profeta, e quis te ver nesta sua nova encarnação de arrependida. Hás de confessar que és uma mulher de espírito.

— Não blasfemes, Cláudia!

— Queres, então, que eu acredite em tua conversão?

— Quero.

— Como me julgas inocente! Então eu seria tão néscia assim?

— Enganas-te, minha amiga. Morri para o mundo, e quero expiar as minhas culpas.

— As tuas culpas, dizes? E quais são elas? O seres realmente formosa entre as formosas? Repara que quando uma mulher diz isso a outra, o elogio é sincero e duplica o valor. Os homens gostavam de ti e te cobriam de ouro e pérolas! Que mal encontras nisso?

— Fazer do meu corpo um comércio infame.

— Estás, então, uma senhora pura, quase virgem, aposto!

— Não, mas estou no caminho da honra e da verdade.

— E tudo isso te deu o teu esfarrapado Jesus! Olha que o velho Hanã sempre te dava coisas mais úteis. Lembras-te quando ele te ofereceu um rico bracelete, naquela noite em que fomos a Betfagé comer figos e beber vinho de Sichem, com dois romanos alegres e divertidos?

— Tudo isso esqueci, Cláudia, e se me estimas, não me recordes esses tempos de ignorância e perdição.

— Desculpa, Maria, não te julgava tão ciosa da tua honestidade atual…

— Insultas-me, ouço-te, mas paciência.

— Lembras-te da nossa conversa em tua casa, na véspera daquela loucura que fizeste no Templo?

— Lembro-me sim, e daí?

— Não te disse que o amava?

— Disseste.

— Pois se o disse, acreditaste, por um momento, que eu me deixaria vencer na luta, desistindo dele, eu, Cláudia, romana legítima e mulher de Pôncio Pilatos, o Procurador da Judeia, em nome de César?

— E por que não?

— Porque eu não quero, ouviste? Foge de Jerusalém, abandona esse homem e faz com que me pertença. Pede-me o que quiseres, fortuna, importância e honrarias. Serás mulher de um romano ilustre, se tanto ambicionares, mas me ajude a conquistar esse homem — lentamente a voz de Cláudia passara da imposição orgulhosa à humilde súplica.

— É impossível o que de mim exiges, Cláudia.

— Por quê?

— Porque ele ama a verdade, e não as mulheres. Cuida do espírito, e não da carne.

— Desgraçada, proferiste a sua perda.

E Cláudia se levantou, como se estivesse sido mordida por uma áspide, retirando-se em um verdadeiro estado de desvairamento. Maria Madalena, então, encaminha-se para o horto, quando vê sair um homem por trás de um monte de palha com o olhar também desvairado, e no rosto uma lividez de cadáver, murmurando:

— Oh! A vingança! A vingança!

Era Judas Iscariotes.

Em Jerusalém, era sempre grande a afluência de fariseus e políticos no pórtico do Templo. O velho Hanã, de conluio com alguns membros do Sinédrio, seus amigos particulares, dispusera as coisas na casa do seu genro José Caiafa para preparar uma cabala destinada a comprometer Jesus junto à autoridade romana.

Certo dia, dissertando sobre os bens terrenos, Jesus fez referência à transitoriedade das coisas materiais e à perenidade das espirituais, representadas por ações nobilitantes. A peroração fôra admirável, os fariseus e os samaritanos que o ouviam também o aplaudiram, chegando-se a ele, em companhia de um espião de Pôncio Pilatos, como se estivessem realmente convertidos pela sua eloquência, quando então assim se pronunciaram:

— Mestre, vemos que és um homem verdadeiro e que, sem quaisquer considerações, ensinais retamente a cumprir o dever. Dize-nos, pois, o que pensas: achas que se deve pagar o tributo a César?

Jesus cravou neles o olhar brilhante, profundo e sereno, e fitando a efígie de uma moeda romana, respondeu:

— Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus!

Estas sábias palavras do Nazareno equivalem a dizer: dai ao homem o que é do homem, e ao espírito o que é do espírito.

Aos fariseus aterrados, o espião exclamou:

— Esse homem é justo e digno!

O espírito esclarecido e a consciência reta de Jesus lançaram por terra o ardil vergonhoso de Hanã.

Mas ele é ainda submetido a uma nova prova. Ao sair do Templo, passava a pequena distância, conduzida por oficiais de justiça, uma mulher algemada, por haver sido surpreendida pelo marido em flagrante crime de adultério. A mulher estava descalça e chorava de dor, por a obrigarem a caminhar sobre pedras soltas e cortantes, lançadas no caminho para consertá-lo. Feridos pela derrota, os fariseus lhe apontaram a mulher adúltera, e um deles, sorrateiramente, perguntou:

— Mestre, tu que és tão justo e sábio, na tua opinião como deve ser tratada aquela que desonrou o nome do marido e dos filhos?

Jesus, sorridente, compreendeu a malícia, e lhe indicando os montes de pedras, respondeu bem alto para que todos ouvissem:

— De vós, o que nunca pecou que lhe atire a primeira pedra.

Os fariseus, confundidos e envergonhados, voltaram-lhe as costas, rosnando:

— Esse homem não pode e nem deve existir.

Jesus acabara de feri-los diretamente no íntimo das suas misérias e das suas consciências hipócritas, e essas feridas os infelizes gozadores geralmente nunca desculpam.

 

PARTE XVI

A constituição física de Jesus era muito delicada. O inverno lhe alterava muito a saúde, já agravada pelos grandes sofrimentos morais que se refletiam profundamente em seu organismo. Marta e Maria, as duas sobrinhas de Simão, o leproso, cuidavam dele com o máximo de carinho e solicitude.

Jesus adoece. Os seus discípulos são chamados, inclusive Maria Madalena, sendo também avisado Nicodemos, que já o vinha visitando e havia providenciado para que nada lhe faltasse, pois cada vez mais se estreitavam os laços de amizade que uniam esses dois homens puros e bons.

A esse tempo, adoece também gravemente Hanã, e isso fez acender no espírito de Nicodemos a esperança de salvar o seu amigo Jesus, a quem aconselhou uma viagem ao Pireu, localidade situada às margens do rio Jordão, para se refazer, cuja viagem ele tomou todas as providências. Jesus não quis aceitar o generoso oferecimento de Nicodemos, pois que a sua preocupação maior era a doutrina, e não queria interromper a sua transmissão. Mas diante das ponderações do amigo, não se pôde escusar. O físico de Jesus carecia de grandes cuidados e absoluto repouso. Acompanharam-no ao Pireu, Maria, Simão, Zelotas, João e Pedro. Apesar de ali haver demorado apenas dois meses, esse retiro fez muito bem a Jesus.

Dessa viagem, resultou ainda uma grande alegria, pois o recebedor da cidade, Zaqueu, quis vê-lo, e Jesus, tendo aceitado lugar à sua mesa, logrou convertê-lo à verdade, convencendo-o de que a prática do bem é o que mais agrada à alma e concorre para a sua rápida ascensão no caminho da espiritualidade. Dentre outras conversões, destaca-se a do miserável mendigo Bartímeo, que provocou grande celeuma entre os inimigos de Jesus.

Judas ficara em Jerusalém, rancoroso, ciumento e vingativo. Na câmara escura da sua alma, descortinavam-se dramas tétricos. Receava ele que Maria Madalena houvesse tentado a Jesus, impedindo-o de prosseguir na sua obra espiritualizadora.

Os discípulos estavam desanimados com a ausência do mestre e, entre o povo, começavam a correr boatos de fuga, com os fariseus o apodando de covarde e charlatão. Urgia, pois, chamar Jesus para apresentá-lo de improviso ao povo.

Sempre pensando em prejudicar a Jesus, Judas arquiteta um plano audacioso, capaz de produzir entre o povo um verdadeiro alarido.

Lázaro, o irmão de Marta e Maria, achava-se possuído de profunda melancolia, ou seja, profundamente obsedado pelo astral inferior, e Judas, estando ciente dessa melancolia profunda, propôs aos condiscípulos a realização de um “milagre” praticado por Jesus, através do qual ele mesmo, Jesus, ficasse convencido do seu grande poder. Esta era uma forma de elevar, ainda mais alto, o seu nome, ganhando grande fama, pelo menos era o que ele dizia.

Os discípulos concordaram com essa proposta ardilosa imbuídos da maior boa fé, e Judas, munido de narcótico, desses que as magas gregas conheciam bem e que produziam a insensibilidade da morte, deu-o a Lázaro, para que ele caísse em um sono letárgico, do qual somente acordaria tendo passado muito tempo.

Lázaro entra em delírio e pede para ver Jesus antes de morrer. A família, que desconhecia a trama maliciosa de Judas, manda um mensageiro preveni-lo, que parte rápido, mas Lázaro se sente aflito, e não tarda a cair em estado cataléptico, uma morte aparente.

Em verdadeira perturbação e tristeza, a ingênua família anuncia a morte de Lázaro, logo comparecendo Tiago e Judas para prestarem os seus serviços ao morto e aos parentes. E, seguindo o rito judaico, ajudado por aqueles dois bandidos disfarçados, a família levou Lázaro para o sepulcro, tendo os dois ainda puxado a laje para cobrir a sepultura.

Na manhã seguinte, chega Jesus, que fica muito contristado quando lhe anunciam a morte de Lázaro. Mas médium vidente e ouvinte que era, pois que via e ouvia os espíritos integrantes da plêiade do Astral Superior, sendo o médium mais perfeito que já existiu, caso contrário não teria levado a cabo a sua missão espiritualizadora na Terra, manifesta o desejo de vê-lo, e os discípulos correm, pressurosos, a levantar a laje que cobria o sepulcro. Diante do suposto cadáver, Jesus tem a clarividência de que Lázaro não está morto, pois que a desencarnação somente se efetiva com o rompimento dos cordões fluídicos, então coloca as mãos sobre o seu corpo, sacode-o e lhe diz:

— Levanta-te e caminha!

Sobressaltado, Lázaro começa a abrir os olhos, perguntando onde está. Jesus lhe fala, amparando-o, e Lázaro, ao reconhecê-lo, exclama de joelhos:

— És tu, meu Jesus, que me vieste ressuscitar da morte!

As mulheres caem de joelhos e entoam louvores a Jesus, gritando os discípulos, em uníssono:

— Milagre! Milagre! Milagre feito pelo mestre!

Nesse mesmo dia, Jerusalém era sacudida com a notícia de que Jesus ressuscitara um morto em Betânia.

Agentes do Sinédrio são mandados àquela terra para colherem os informes reais, voltando de lá convictos de que tudo era verdade. Os fariseus ficaram desesperados, e o velho Hanã, que havia triunfado da doença, deixou transparecer nos lábios um sorriso sinistro, quando lhe contaram o fato.

A multidão, porém, sentiu-se comovida com a notícia daquele “milagre”, do qual ninguém ousava duvidar em Betânia. Os fariseus se viram repelidos, com desdém, por esse mesmo povo que os acatava com temeroso respeito, e em poucos dias as esmolas do Templo sofreram uma baixa considerável, provocando a ira do sacerdócio.

Feridos nos seus interesses pecuniários, o sacerdócio acordou da letargia em que vivia, e sentiu trepidar debaixo dos pés esse vulcão imenso que ameaçava destruir o Templo e apertar o julgo romano.

Jesus era um espírito grandemente esclarecido, disso estavam convencidos todos os membros do alto sacerdócio. Mas para eles era como se fosse um agitador credulário, e, por isso, mais fundo os feria nos seus interesses particulares e na importância social.

O Sinédrio se reuniu na casa de José Caiafa, o Sumo Pontífice nomeado por Valério Grato, que era bastante amigo dos romanos. José Caiafa não passava de uma figura ornamental do alto sacerdócio judaico. Saduceu até a medula, ilustrado nas ciências gregas, libidinoso e epicurista no mau sentido, pusilânime de ânimo fraco e passivo, não passava de um joguete ao bel-prazer do seu sogro Hanã, um político manhoso e excessivamente devasso.

Apenas a título de ilustração, deve aqui ser esclarecido que os saduceus eram os adeptos de uma seita ou um grupo de judeus presente na Judeia durante o período do Segundo Templo, desde o século II a.C., até a destruição do Templo em 70 d.C. A seita foi identificada por Flávio Josefo com o alto escalão social e econômico da sociedade na Judeia. O grupo cumpria variadas funções políticas, sociais e credulárias, dentre as quais se pode mencionar a função de manutenção do Templo. Os saduceus são frequentemente comparados com outras seitas do período, como os fariseus e os essênios, embora estes últimos sejam completamente diferentes.

Depois de uma larga discussão das medidas a serem adotadas contra Jesus, sob a proposta de Nicodemos, o Sinédrio opinou por sua expulsão de Jerusalém, decidindo entregá-lo ao Tetrarca, acusado de agitador do povo e de atentar contra a lei existente. Hanã fingiu se conformar com a resolução do Conselho proposta por Nicodemos.

Prevenido acerca dos acontecimentos, Jesus se retirou, incógnito, para Efraim, uma cidade obscura, mas não muito longe de Jerusalém. Aproximando-se, porém, a época dos festejos da Páscoa — que não passa de uma das muitas invencionices místicas dos sacerdotes para a exploração da credulidade pública, em que a Páscoa judaica, também conhecida como Festa da Libertação, celebra a libertação dos hebreus da escravidão no Egito —, Jesus, que sempre aproveitara as oportunidades para esclarecer o povo sobre a realidade da vida, não podia se quedar em silêncio nesse dia.

O rancoroso Hanã havia conseguido um mandado de prisão contra o Nazareno, caso ele fosse a Jerusalém predicar ao povo.

 

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