05.02- Da encarnação à idade adulta

A Cristologia
14 de outubro de 2018 Pamam

PARTE II

Nasceu em Nazaré, uma pequena cidade da Galileia, provavelmente no ano 750 de Roma, um menino que recebeu o nome de Jesus, não na manjedoura, que é uma das muitas fábulas inventadas, sem muita imaginação, para impressionar ao rebanho de crentes, mas sim no berço, notadamente porque José, o seu pai biológico, era carpinteiro.

Então a data provável estimada pelo Racionalismo Cristão para o nascimento de Jesus, o Cristo, é o ano 3 a.C., pois sabe-se que na República Romana os anos não eram contados, quando, ao invés disso, eles eram nomeados em homenagem aos cônsules que chegavam ao poder no início do ano, como, por exemplo, 205 a.C. foi o ano do consulado de Públio Cornélio Cipião Africano e de Públio Licínio Crasso. Entretanto, quando na república tardia, tanto os sábios como os historiadores começaram a contar os anos pela data da fundação da cidade de Roma, embora diferentes sábios e historiadores tenham utilizado datas diferentes para este evento. A data mais utilizada, hoje em dia, é a que foi calculada por Marco Terêncio Varrão, relativa ao ano de 753 a.C., mas outros sistemas variaram por décadas a seguir. As datas marcadas por este método eram rotuladas de ab urbe condita, que significa após a fundação da cidade, sendo abreviada pela sigla AUC.

O recém-nascido viu a luz do mundo obscurecida pelas neblinas da miséria, pois o seu pai, José, e a sua mãe, Maria, viviam penosamente do resultado dos seus trabalhos manuais. De qualquer maneira, a infância de Jesus transcorreu serena, em um meio social acanhado, mas tão isento de influências corruptoras, quanto limpa e sã era atmosfera de Nazaré.

Esse berço do cristianismo fica localizado em uma faixa de terreno situada no cume do grupo de montanhas que fecham, pelo norte, a planície de Esdrélon, nome grego da planície denominada hoje de Merdi ibn Amir, significando o prado do filho de Amir. Cercam-na jardins viçosos e pomares balsâmicos. Vastíssimos horizontes se descortinam do planalto em que se encosta. Ao ocidente, desenvolvem-se as famosas linhas de Carmel, rematadas por uma ponta abrupta, que parece se estender para o mar.

Para além, avistam-se a dupla cumeeira de Magedo, as montanhas do país de Sichem, os montes Gelboé, o grupo pitoresco a que estão presas as recordações graciosas ou terríveis de Sulém e Endor, e o Tabor arredondado. Por entre Sulém e Tabor, descortinam-se o vale do Jordão e as planícies da Pereia. Ao norte, as serranias de Safed encobrem São João do Acre, mas deixam ver o contorno do golfo de Caifa.

A população pouco numerosa, alojada em habitações singelas e toscas, é alegre e de caráter brando. Ali, naquelas alturas purificadas pelos ventos das campinas, naqueles miradouros de paisagens pacíficas, não tinham guarida o fanatismo sombrio e nem a implacável ferocidade do Sul, com a natureza se espelhando nos espíritos, neles reproduzindo toda a sua inspiração de amor.

Encerrado nesse pequeno mundo, Jesus aprendeu, de certo, o que ensinava o bazzan, o leitor das sinagogas, mas não é de crer que tivesse frequentado a escola superior de escribas, ou o Soferim, um tratado talmúdico não canônico que lida especialmente com as regras relativas à preparação dos livros tidos como sendo sagrados, bem como com os regulamentos para a leitura da lei, que pertence aos denominados tratados menores. Não estudou o grego e nem se iniciou na cultura helênica, que era muito difundida na Judeia, nas cidades habitadas por pagãos.

O seu idioma natal era o dialeto siríaco, mesclado de hebraico. A sua educação foi exclusivamente judaica. Todavia, ficou tão alheio à extravagância escolástica que no seu tempo se ensinava em Jerusalém, como aos ensaios da saperologia credulária da escola israelita de Alexandria, sendo apenas lícito supor que não desconheceu totalmente os princípios apostolares de Hillel, o Ancião, ou o Babilônico, que era considerado um líder judaico babilônico, tendo vivido entre 60 a.C. e 7 d.C. Se é possível deduzir da sua doutrina e dos seus atos a história do seu espírito, a leitura do Antigo Testamento lhe causou uma profunda e indelével impressão, tendo essa leitura lhe despertado o interesse, que, aliás, era geral, pelas interpretações alegóricas e pela poesia contida nos Salmos.

Os profetas exaltaram o seu corpo mental e foram como que os seus mestres. O Livro de Daniel, e possivelmente o de Enoque, começaram a modelar a sua inteligência infantil. Ainda um tanto afeito à imaginação, em razão da sua credulidade e da sua falta de preconceitos, deixou-se absorver na contemplação ideal dos quadros proféticos, evidenciados todos pelos raios da cólera e da glória de Jeová, e ignorante como era das realidades políticas e sociais do mundo, com facilidade se embrenhou nas regiões do sobrenatural. Diz-se que logo na infância manifestou a inteligência das grandes mentalidades destinadas a serem guias de toda uma humanidade, e que, ainda menino, discutia com os doutores na sinagoga.

O povo hebraico, oprimido pelo estrangeiro, ultrajado na sua fé credulária e sem dinastia tradicional e nem nacionalidade, refugiara-se de tantos males e tantas vergonhas no formoso sonho, na ardente esperança de um renascimento político e religioso, na verdade credulário, que julgava ler nas frases patrióticas dos seus profetas. Sonhava com a restauração da casa de Davi, com o triunfo de Jeová sobre os deuses estrangeiros e de Israel sobre as nações do mundo, e tanto mais alimentava a crença no se sonho, quanto mais lhe pesava a realidade.

Essas crenças e esperanças exaltavam os espíritos, proibiam-lhes a resignação, aferravam-nos ao mosaísmo e à sua lei, impeliam-nos a procurar nos textos as revelações do futuro, nas discussões sutis desses textos para lhes forçar o sentido. Portanto, era grande a atividade mental nas escolas e nas sinagogas, e perpétua a agitação social no país. A todo momento rebentavam sedições a pretexto do menor insulto ou vexame real ou suposto, feito pelos romanos ao culto nacional ou aos seus adeptos, e os sediciosos afrontavam a morte com a certeza dos mártires.

O fervor credulário não reagia somente contra os estrangeiros, os zelotas, que seguiam a uma seita estabelecida por Judas, o Galileu, apesar de a palavra designar em nossos dias alguém com excesso de entusiasmo, a sua verdadeira origem se prende ao movimento político judaico do século I, que procurava incitar o povo da Judeia a se rebelar contra o Império Romano e expulsar os romanos pela força das armas, que conduziu à primeira guerra entre a Judeia e Roma, entre 66 e 70, por isso os zelotas tinham se associado para matar quem transgredisse a lei perante eles.

Ao mesmo tempo, como acontece sempre que em um povo, mormente um povo oriental que crê com fanatismo e espera com ansiedade, surgem por toda parte homens que resumiam em si o estado moral dos seus concidadãos, exagerando-lhes as certezas e as aspirações, sendo ouvidos e respeitados pela credulidade até quando se lhes apresentavam como taumaturgos e adivinhos. Um desses homens foi Judas, o Galileu, que se fez chefe da revolução, a um só tempo política e credulária.

Jesus foi influenciado por esse movimento moral, aspirando, com o ar, as ideias messiânicas; ajeitou-as, porém, à índole do seu espírito, distanciando-se do mosaísmo. O seu Deus já não é mais o déspota iracundo que escolheu Israel como um mau pai escolhe um filho, entre muitos, para transmitir-lhe a benção e a herança: é o Deus de toda a nossa humanidade.

Elevou-se acima dos preconceitos nacionais e dos dogmatismos teocráticos, para conceber um Deus universal na sua paternidade e no seu amor. O reino de Deus ou o reino do céu que ele esperava e fazia esperar, não era o reinado do Messias ou de um novo Davi, ou, ainda, do judaísmo, e não devia ter uma realização material, como a querer afirmar que Deus se encontra em cada um de nós, consoante o estágio evolutivo em que nos encontramos, assim dizendo:

O reino de Deus está entre vós”.

Não havia nenhuma intenção política, nenhuma aspiração nacional na concepção desse reino. Jesus se despreocupara totalmente dos problemas que agitavam os patriotas desesperados com a dominação romana, por isso dizia:

Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”.

Às esperanças mundanas, apontava o céu. Aos sofrimentos morais, oferecia, como consolação, a prática das virtudes: humildade, abnegação e perdão. À justiça, propunha, como suprema regra, o seguinte axioma:

Não faças a outrem o que não queres que ti façam a ti”.

O amor ao próximo e a fraternidade universal, deviam ir até ao extremo da mansidão, através dos seguintes aforismas:

Se alguém te intentar um processo por causa da tua túnica, dá-lhe o manto”.

Ama aos teus inimigos, faz o bem a quem te odeia, vibra, radia e radiovibra por aqueles que te perseguem”.

Quem se humilha será exalçado, quem se exalça será humilhado”.

O Nazareno, pois, forneceu uma direção inteiramente nova e original às aspirações do povo hebraico, e fez sair do messianismo uma doutrina toda moral e ética. Não falava contra a lei mosaica, mas lhe reconhecia a insuficiência e ensinava doutrinas que realmente não se lhe opunham, instituindo um culto puro, uma crença espiritualista sem sacerdotes e sem cerimônias externas, baseada toda em sentimentos superiores e em pensamentos positivos, com base nas Substâncias de Deus, nas relações imediatas da consciência com a Inteligência Universal.

A crença formalista e ostentosa dos fariseus, os membros do grupo credulário judaico, surgido no século II a.C., que viviam na estrita observância das escrituras credulárias e da tradição oral, cujos membros foram acusados de formalistas e de hipócritas até nos Evangelhos, enchia-o de repulsa e, apesar da mansidão do seu caráter, arguia-os com veemência, assim:

Eles receberão a sua recompensa. Quanto a ti, quando deres esmola, a tua mão esquerda não deverá saber o que faz a direita, para que a tua esmola fique oculta e o teu Pai, que vê oculto, a possa te restituir.

Quando orares, não imites os hipócritas que gostam de fazer oração em pé nas sinagogas e cantos nas praças, para serem vistos pelos homens. Em verdade te digo que eles recebem a sua recompensa. Quanto a ti, se queres orar, entra no teu gabinete e, fechada a porta, reza a teu Pai, que está no segredo. Ele vê oculto e te atenderá. Quando orares, não faças extensivos discursos como os pagãos, que imaginam ser atendidos à força das palavras. Deus, teu pai, sabe o que precisas, antes que lhe peças”.

Não praticava o ascetismo, e a alta noção que tinha das relações do homem com Deus, resumia-se em uma prece que compusera com frases piedosas, já utilizadas pelos judeus, para se fazer entender pelo povo: “Pai nosso, que estais no céu…”. Com Jesus, pois, aparece pela primeira vez no mundo, a ideia de uma crença fundada exclusivamente na pureza e na fraternidade humanas, que Ernest Renan assim diz:

Uma ideia tão elevada, que nesta parte a Igreja cristã haveria de trair completamente as intenções do seu Chefe, e mesmo nos nossos dias, só poucas almas são capazes de se prestar a ela”.

Essas doutrinas, muito tempo meditadas em silêncio nos campos de Nazaré e de Canaã, para onde se transportara Maria após a desencarnação do esposo, começaram, finalmente, a se expandir, em uma espécie de apostolado. A palavra do moço apóstolo tinha a doçura do seu caráter amorável e o prestígio das sublimes concepções morais e éticas que a inspiraram. Logo o rodeavam discípulos atentos e, depois, entusiastas.

Como os rabis do templo, Jesus encerrava os seus princípios em aforismos concisos, expressivos na forma, e, às vezes, enigmáticos, alguns extraídos do Antigo Testamento ou de pensadores mais modernos, como Antígonos de Soco e Jesus, filho de Sirá e Hilel. Esses aforismos, que se gravaram na memória dos ouvintes, eram por eles repetidos, sendo transmitidos, de espírito a espírito, de lugar a lugar, o pensamento e a voz do mestre, com a fama da sua grande sabedoria.

Os proselitismos, então, eram fáceis e prontos. Era o templo das pequenas igrejas, dos essênios e dos terapeutas. Em breve, Jesus se achou à frente de um grupo de pobres e humildes galileus que o amavam com o reflexo do seu próprio amor imenso, e que o escutavam como se fôra a voz de Deus, o que o era realmente, em razão de Deus nele se encontrar contido em uma proporção inconcebível, em razão do seu elevadíssimo estágio evolutivo.

Em relação ao seu local de nascimento, diz Ernest Renan o seguinte:

… só por um esforço que não se compreende, é que se poderia, segundo a lenda, dar Jesus como tendo nascido em Belém”.

Ignora-se a data fixa do seu nascimento. Supõe alguns que foi no reinado de Augusto, pelo ano 750 da fundação de Roma, sendo mais provável ter sido no reinado de Tibério, provavelmente poucos anos antes do primeiro ano da Grande Era que todos os povos civilizados abrem no dia em que ele nasceu. Sabe-se que o cálculo que serve de base para a era vulgar, foi feito no século VI, por Dionísio, o Pequeno. Esse cálculo envolve certos dados puramente hipotéticos.

Na Galileia, o povo era constituído por várias raças, dentre outras, a dos fenícios, sírios, árabes e alguns gregos. Havia muito misticismo, por isso muitos eram os convertidos ao judaísmo. Todavia, torna-se impossível formular aqui qualquer questão sobre a raça, ou mesmo indagar sobre que sangue circulava nas veias daquele que mais contribuiu para escurecer em nossa humanidade as distinções de sangue. Jesus veio da classe do povo. Os seus pais eram de nascimento mediano, artífices que viviam do seu trabalho, naquele estado tão comum no Oriente, que nem é de abastança e nem de miséria.

A habitação de José, o pai de Jesus, é provável que muito se assemelhasse às pobres lojas iluminadas apenas pela luz que entra pela porta e que servem, ao mesmo tempo, de oficina, cozinha e quarto de dormir, mobiliadas com uma esteira, algumas enxergas deitadas no chão, um ou dois vasos de barro e uma caixa pintada. A família, provinda de um ou de muitos matrimônios, era bastante numerosa. Jesus tinha irmãos e irmãs, dos quais parece ter sido o mais velho. Renan não afirma, categoricamente, que Jesus tivesse tido instrução, mas diz:

É de crer que aprendera a ler e a escrever, segundo o método do Oriente, que consistia em meter nas mãos da criança um livro, cujo conteúdo repetia em cadência com os seus condiscípulos, até que o soubesse de cor”.

É duvidoso, portanto, que compreendesse bem os escritos judeus na linguagem aramaica, e os seus princípios de exegese, tanto quanto o podemos comparar pelos seus discípulos, que se pareciam muito com os que então vogavam, e que são a essência dos Targuns e dos Midraschim, que eram as traduções e os comentários judaicos da época talmúdica. O mestre-escola nas pequenas cidades judaicas era o bazzan, ou leitor das sinagogas.

Pode-se supor que sobre o espírito de Jesus houvesse uma grande influência dos princípios de Hilel. Este, cinquenta anos antes de Jesus, estabelecera aforismos que tinham muita analogia com os que depois Jesus explanara. Pela doçura do seu caráter, pela oposição que fazia aos hipócritas e aos sacerdotes, Hilel foi o verdadeiro mestre de Jesus.

 

PARTE III

Jesus não tomou conhecimento das novas ideias criadas pelo sentimento e pelo pensamento gregos, bases de toda religião e ciência, em sua mescla, que a própria ciência moderna tem confirmado a essa cientificidade, em que se confirma a exclusão das forças sobrenaturais, ao que ele atribuía a uma singela crença das eras remotas ao governo do Universo. Quase um século antes de Jesus, exprimia Lucrécio a inflexibilidade do regime da natureza. A negação do milagre — esse pensamento de que tudo se produz no mundo por leis, princípios e preceitos em que não têm parte alguma a intervenção pessoal de entes superiores — era do direito comum nas grandes escolas de todos os países que tinham abraçado o sentimento e o pensamento gregos, que eram provenientes do Período Doutrinário.

A própria lenda se apraz em mostrar a Jesus, desde a infância, erguido contra a autoridade paterna e saindo das vias comuns para seguir a sua vocação. É certo, pelo menos, que as relações de parentesco pouco apreço lhe mereceram. Não parece que a sua família houvesse lhe tributado um grande afeto, considerando-se mesmo que algumas vezes Jesus foi duro para com ela, pois chegava a ter em pouco apreço os laços de sangue, como todos os homens que são preocupados exclusivamente com uma grande ideia.

Jesus não foi um teólogo e nem um saperólogo que houvesse elaborado um corpo de doutrina mais ou menos combinado. Para ser seu discípulo, não era preciso assinar formulário e nem pronunciar profissão de fé credulária, mas sim da fé racional, diga-se de passagem, bastando apenas segui-lo com convicção. Posteriormente, os adeptos das sutilezas metafísicas com que começou o falso cristianismo a combater, no século III, não foram, de nenhum modo, formados pelo seu fundador: Jesus; pois que ele não teve dogmas e nem misticismos, mas apenas uma resolução pessoal fixa, advinda dos páramos da espiritualidade, que podemos considerar como sendo o estabelecimento do instituto do Cristo em nossa humanidade.

Desde cedo, Jesus entrou na ardente atmosfera que criou na Palestina ideias confusas que não provinham de nenhuma escola, pois estavam no ambiente fluídico e cedo passaram a influenciar o seu espírito. Sem hesitações, ou dúvidas, subia ele ao cume da montanha de Nazaré, sentava-se, meditava e, isento de egoísmo — a origem dos nossos males e tristezas que nos levam a andar por caminhos contrários à virtude —, não pensava senão na sua obra e na nossa humanidade, pois que era da sua seara a nossa espiritualização.

Jesus nunca deu grande importância aos acontecimentos políticos do seu tempo. José, o seu pai, desencarnou antes que ele alcançasse qualquer evidência pública, ficando Maria na chefia da família, motivo pelo qual passaram a chamá-lo de “o filho de Maria”, quando o queriam distinguir dos seus homônimos. Ao que tudo indica, tendo ficado como estrangeira em Nazaré, pela morte do marido, Maria se retirou para Canaã, de onde talvez fosse natural.

Nesse lugar, Jesus fixou morada por algum tempo, exercendo a profissão do seu pai, que era carpinteiro. Esta circunstância nem era desprezível e nem molesta, ou ofensiva, pois o costume judaico exigia que o homem dedicado aos trabalhos intelectuais aprendesse um ofício, tanto que se afirma que Paulo de Tarso, o São Paulo do catolicismo, tendo tido uma educação e instrução esmeradas, era construtor de tendas.

Jesus não se casou, pois não poderia mais se prender aos laços carnais, em razão da sua elevadíssima posição alcançada como Cristo, por isso toda a sua produção de amor foi empregada naquilo que ele considerava uma vocação advinda dos páramos da espiritualidade. A afeição extremamente delicada que nele se notava para com as mulheres, não o separou do apego exclusivo que tinha à sua ideia espiritualizadora. Tratava as mulheres como se fossem as suas irmãs, sendo isento de sensualidade.

Uma elevadíssima noção de eternidade, que não deveu ao judaísmo, e que parece haver sido criação da sua sublime alma, e somente dela, de algum modo, foi o princípio da sua imensa força de vontade.

Para bem compreender a Jesus, é preciso abstrair o que se tem metido de permeio entre o Evangelho e nós. Deísmo e panteísmo formaram os dois polos da Teologia. As miseráveis discussões da escolástica, a aridez da alma de Descartes, a profunda incredibilidade do século XVIII, amesquinhando a Deus e O limitando, de algum modo, por exclusão de tudo o que não fosse Ele, afogaram todos os sentimentos fecundos da divindade, no seio do moderno racionalismo.

O pensamento materialístico de Deus, como juiz supremo das ações humanas, tal como se fosse um poderoso rei do Universo a distribuir prêmios e castigos, em tudo é contrário aos ensinamentos do racionalismo de Jesus. Se Deus, na verdade, é um ente determinado fora de nós, quem julga ter relações particulares com Deus é um visionário, assim como visionários, mais propriamente médiuns videntes e ouvintes, eram Abraão e Moisés. Não existe qualquer visão sobrenatural, pois que tudo é proveniente de mediunidades, por isso o deísta que seja um pouco consequente se vê na impossibilidade de compreender as grandes crenças do passado. O panteísmo, por outro lado, suprimindo a personalidade divina, está tão longe quanto é possível do Deus vivo das religiões antigas.

Alguns homens que mais altamente perceberam ou compreenderam a Deus, como Buda, São Francisco de Assis, Luiz de Mattos, e outros, em alguns momentos das suas vidas foram deístas ou panteístas? Tal pergunta poderia ser considerada como sendo até um contrassenso, pois as provas metafísicas e físicas acerca da existência de Deus, tê-los-iam deixado indiferentes, uma vez que sentiam o divino em si mesmos, estando ou não conscientes de que Deus se encontra em nós mesmos, consoante o estágio evolutivo em que nos encontramos. Mas coube a Jesus o primeiro lugar nessa grande família dos verdadeiros filhos de Deus, por isso ele não tem visões, já que Deus não lhe falta, como a quem está fora dele, pois que Deus está nele, o que o faz se sentir como Deus, tirando do seu próprio espírito tudo o que diz sobre o Pai.

Se Deus se encontra em Jesus nas maiores extensões que se possa conceber, então Jesus vive no seio de Deus por uma comunicação de todos os instantes. Mas como Deus é o Todo, ele não pode vê-Lo e nem ouvi-Lo, mas vê e ouve aos espíritos de luz que integram a plêiade do Astral Superior, sem carecer de trovões e nem de sarça ardente, como Moisés, de tempestade reveladora, como Jó, de oráculos, como os antigos sábios gregos, de espírito familiar, como Sócrates, do anjo Gabriel, como Maomé.

A imaginação e a alucinação de uma Santa Teresa de Ávila, por exemplo, nada valem aqui. O alheamento do sufi — uma corrente mística do islamismo — que se proclama idêntico a Deus, também é algo muito diverso. Não há um só momento em que Jesus enuncie o sacrílego pensamento de que ele seja Deus. Julga-se sim, em direta comunhão com Deus. Julga-se sim, filho de Deus. A mais elevada consciência de Deus que tem existido no seio da nossa humanidade, foi sem qualquer sombra de dúvida a de Jesus.

Compreende-se também que Jesus, partindo de tal disposição de alma, não era, de nenhum modo, um saperólogo especulativo, como Aristóteles, ou mesmo um veritólogo hipotético, como Buda. Nada se encontra mais fora da teologia escolástica do que o Evangelho. Para Jesus, Deus é o Pai, tal como se fôra o Ser Total. Essa é toda a teologia do Nazareno.

E isso não era nele um princípio teórico, uma doutrina mais ou menos provada que pretendia inculcar aos outros. Não obrigava os seus discípulos a desenvolver o raciocínio, não exigia deles nenhum esforço de atenção, embora a esperasse. Não impunha aos outros as suas concepções, impunha-as a si mesmo.

Há almas superiores e altamente desinteressadas, detentoras de muita elevação espiritual, que apresentam esse caráter de perpétua atenção a si mesma e de extrema susceptibilidade pessoal, que, em geral, é mais próprio das mulheres. Esta personalidade exaltada não é egoísmo, porque homens assim possuídos de um ideal dão a vida, de bom grado, para firmar a sua obra. É a identificação do “eu” com o objeto por ele abraçado, levada ao limite extremo. É o orgulho para aqueles que não veem na aparição nova senão a fantasia pessoal do fundador. É o dedo de Deus para os que veem o resultado. Aqui vai o doido a par do homem inspirado, em que a diferença consiste no doido não ser bem sucedido, em face da sua tremenda obsessão. Até hoje, ainda não foi concedido aos desvarios do espírito obrar de um modo sério sobre o caminhar da nossa humanidade.

Por certo, Jesus não chegou de improviso a esta alta afirmação de si mesmo. Mas é provável que, desde os seus primeiros passos, ele se considerasse para com Deus na relação de um filho para com o seu Pai. Está nisto o seu grande ato de originalidade, que nada tem de comum com a sua raça, pois que nem o judeu e nem o muçulmano compreenderam a essa elevada concepção do amor. O Deus de Jesus está contido nele mesmo, por isso não é esse ser superior, fatal, que nos mata quando lhe apraz, que nos salva quando quer. O Deus de Jesus é o nosso Pai. Ouvimo-lo quando escutamos um ligeiro sopro que grita em nós mesmos: “Pai”. O Deus de Jesus não é o déspota parcial que escolheu Israel para o seu povo e que o protege de todos e contra todos. É o Deus da nossa humanidade, de todas as humanidades que seguem na esteira fluídica universal, pois que o Universo Nele está contido.

Jesus não é um patriota como os macabeus, um teocrata como Judas, o Gaulonita. Elevando-se, desassombradamente, acima dos preconceitos da sua nação, estabelecera a paternidade universal de Deus. O Gaulonita asseverara que mais cumpria morrer do que dar a outro que não fosse Deus o nome de “Senhor”. Jesus deixa esse nome a quem quer usar dele, e reserva para Deus um título mais grato. Concedendo aos potentados da Terra, que para ele são os representantes da força, um respeito cheio de ironia, funda a consolação suprema, o recurso ao Pai que todos têm no céu, o verdadeiro reino de Jesus que todos têm no espírito.

 

PARTE IV

A expressão “reino de Deus” ou “reino do Céu”, foram os termos prediletos de Jesus para exprimir a revolução que iria desencadear neste mundo. Como quase todos os termos messiânicos, o nome de Deus é tirado do Livro de Daniel. Segundo o autor desse livro, aos quatro impérios romanos que hão de cair, sucederá um quinto império, que será dos Santos, e que durará eternamente. Esse reinado de Deus sobre a Terra, amoldava-se, naturalmente, às mais diversas interpretações. Para a teologia judaica, o “reino de Deus” não é, quase sempre, senão o próprio judaísmo, como se fosse o verdadeiro credo, o culto monoteísta, a devoção.

Jesus, nos últimos tempos da sua vida física, considerou que esse reinado iria realmente se realizar, materialmente, por intermédio de uma pronta renovação do mundo. Mas, sem dúvida, não foi esse o seu primeiro pensamento.

A admirável moral que tira da noção do Deus-Pai, não é a dos entusiastas que julgam o mundo ao ponto de acabar e se preparam, com ascetismo, para uma catástrofe quimérica, mas sim a de um mundo que quer viver e tem vivido. “O reino de Deus está dentro de vós”, dizia ele aos que procuravam, com sutileza, sinais exteriores, como a querer dizer que Deus está contido em cada um de nós, em conformidade com o estágio evolutivo em que nos encontramos.

A concepção realista do começo do reino divino não foi mais do que uma nuvem, um erro passageiro que a morte fez esquecer. O Jesus que fundou o verdadeiro reino de Deus, o reino dos mansos e dos humildes, é o Jesus dos primeiros dias, dias castos como se a voz do seu Pai repercutisse no seu espírito com um som mais puro.

Houve, então, alguns meses, talvez um ano, em que a voz do moço carpinteiro tomou, de repente, uma estranha suavidade. Um incomensurável encanto o envolvia, e os que o tinham visto até então já não o reconheciam. Ainda não possuía discípulos, e a turba que se apinhava à sua volta não formava uma seita e nem uma escola, mas acusava já um espírito comum, um não se sabe quê de suavidade penetrante.

O seu caráter amável, sem dúvida, é um desses aspectos deliciosos que aparecem algumas vezes na raça judaica. Traçavam ao redor dele, digamo-lo assim, um círculo de fascinação, ao qual quase ninguém, no meio dessas populações benévolas e singelas, podia escapar. Com efeito, o paraíso teria sido transportado para a Terra, caso as ideias do jovem mestre não tivessem excedido muito aquele nível de bondade medíocre, acima do qual ninguém tem podido, até hoje, elevar a espécie humana. A fraternidade dos homens e as consequências morais e éticas que dela resultam eram deduzidas, com delicados sentimentos e pensamentos.

Como todos os rabis daquele tempo, Jesus, sendo pouco afeito aos raciocínios seguidos, encerrava toda a sua doutrina em aforismos concisos, de forma expressiva, às vezes enigmática e singular. Algumas dessas máximas eram colhidas nos livros do Antigo Testamento, outras em pensamentos de sábios mais modernos, como Antígono de Soco, Jesus, filho de Sirá, e Hillel, que tinham chegado ao seu conhecimento, não em decorrência de sábios estudos, mas como provérbios muitas vezes repetidos.

A sinagoga era rica em máximas enunciadas com muita felicidade de expressão, que formavam uma espécie de literatura proverbial corrente. Jesus adotou quase toda essa instrução oral, mas lhe imprimindo o cunho de um espírito superior. Aquilatando os deveres traçados pela lei e pelos antigos, ele queria a perfeição. Todas as virtudes de humildade, de desculpa, de tolerância, de abnegação, de rigor para consigo mesmo, cujas virtudes foram denominadas de cristãs, se se quer dizer, por essa forma, que elas, em verdade, foram pregadas por Jesus, estavam em embrião nesses primeiros preceitos. Quanto à justiça, contentava-se em repetir o axioma já conhecido: “Não faças a outrem o que não desejas que te façam”; mas essa velha sabedoria, ainda muito egoísta, não o satisfazia.

 

PARTE V

Jesus não falava da lei mosaica, mas conhecia a sua insuficiência, como o dava a entender. Repetia sempre que era preciso fazer mais do que os antigos sábios tinham feito, condenava o juramento, censurava a pena de Talião, reprovava a usura, aconselhava um culto puro, uma doutrina e um sistema sem sacerdotes e sem práticas exteriores, em face da profunda ignorância humana, todo baseado em sentimentos superiores e em pensamentos positivos, na imediata relação da consciência com Deus, ou o Ser Total.

Revolucionou o judaísmo com as suas ideias, e os sacerdotes não o desculpavam por isso. Ele então indagava:

Para que medianeiros entre o homem e o seu Pai?

Sabendo que Deus era o Ser Total, a Força Total, a Energia Total e a Luz Total, ele também indagava:

De que servem essas purificações, essas práticas martirizantes, que não passam além do corpo?

A hipocrisia dos fariseus que voltavam a cabeça, quando oravam, para ver se alguém os estava observando, que davam esmolas publicamente e punham nas vestes sinais que os denunciavam como pessoas piedosas, todas essas momices de falsa devoção o deixavam um tanto indignado, pelo que dizia:

A ti te digo que, quando quiseres orar, entra no teu gabinete, e depois de fechares a porta, ora a teu Pai, que está oculto, mas vê na profundidade do segredo. E, quando orares, não faças largos discursos como aqueles que imaginam que devem ser atendidos à força das palavras. Deus conhece as tuas necessidades antes que alguma coisa Lhe peças”.

Fazia saber que a oração grega ou romana sempre foi um palavreado enfatuado e cheio de egoísmo. Como era praxe os fiéis fazerem as suas oferendas diante do altar, Jesus atentou para o fato de que nunca um sacerdote foi capaz de dizer ao seu fiel, assim:

Se quando trouxeres a tua oferenda ao altar te lembrares que o teu irmão tem alguma queixa contra ti, deixa ficar a oferenda diante do altar e vai primeiro te reconciliar com o teu irmão; volta depois, e farás, então, o teu oferecimento”.

Na antiguidade, somente os profetas judeus, especialmente Isaías, na sua antipatia contra o sacerdócio, tinham suspeitado da verdadeira natureza do culto que o homem deve a Deus, que não deve ser propriamente um culto, mas sim as vibrações magnéticas, as radiações elétricas e as radiovibrações eletromagnéticas. Daí a razão de Jesus admoestar aos sacerdotes, fazendo-o da seguinte maneira:

Que me importa o grande número das vossas vítimas? Já estou saciado, a gordura das vossas ovelhas me enoja, importuna-me o vosso incenso, porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Purificai os vossos pensamentos, deixar de praticar o mal, aprendei a praticar o bem, procurai a justiça, e depois vinde”.

O espírito humano do tempo pendia para as pequenas igrejas e para o movimento dos essênios e dos terapeutas. De toda parte surgiam rabis, cada um com a sua própria doutrina, como a de Schomia, Abtalion, Hilel, Schammai, Judas, o Gaulonita, Ganvaliel, e muitos outros, cujas máximas compuseram o Talmude, que, em verdade, começou a ser escrito no segundo século da nossa era. No tempo de Jesus se escrevia muito pouco, pois os doutores desse tempo não faziam livros, uma vez que tudo se passava em palestras e lições públicas, às quais se procurava dar uma feição que se não pudesse esquecer.

O moço carpinteiro de Nazaré começou a difundir publicamente as suas máximas, em sua maior parte já conhecidas, mas às quais imprimia o cunho de quem quer regenerar o mundo. Ele era visto apenas como um rabi a mais, mas a verdade é que começou a influenciar pessoas de não larga idade que, ansiosas, já o procuravam, em conjunto, para ouvi-lo. Ainda não haviam aqueles que se consideravam cristãos, mas o instituto do Cristo já se encontrava fundado no seio da nossa humanidade.

Jesus chegou a travar relações com um homem que diziam ser extraordinário. No décimo quinto ano do reinado de Tibério, surgiu, na Palestina, Iocanã, ou João, um moço ascético, possuído de um fogoso entusiasmo, mas que era de casta sacerdotal. Desde a sua infância João Batista foi nazir, sendo por isso sujeito, por voto, a certas abstinências. Atraiu-o o deserto da Judeia, e ali passava a vida, como se fôra um iogue da Índia, vestido de peles ou panos fabricados com pelo de camelo, comendo apenas gafanhotos e mel silvestre.

O povo tinha tal confiança em João Batista, que até o julgava a ressurreição, no caso a reencarnação, do profeta Elias. A crença nas ressurreições era vulgar naquele tempo, com muitos chegando a pensar que Deus iria fazer levantar dos seus túmulos alguns dos antigos profetas para guiarem Israel ao seu final destino. Havia também quem supusesse que João Batista era o próprio Messias, pois ele pregava contra os sacerdotes ricos, contra os fariseus, contra o judaísmo oficial e, tal como Jesus mais tarde, era acolhido pelas classes menosprezadas.

Jesus estava propenso a seguir João Batista, mas este nunca pensou em criar um credo, enquanto que Jesus almejava uma doutrina e um sistema puros que estivessem em conformidade com o seu racionalismo. O estilo de João Batista, em seus discursos, era severo e duro. As expressões de que se servia contra os seus adversários, eram das mais violentas. Por isso, João Batista foi preso. Mas Jesus prosseguiu em suas pregações, e, em muitas ocasiões, pregava tal qual João Batista. Todavia, não podemos considerar João Batista como sendo propriamente o mestre de Jesus, uma vez que cada um criou a sua própria escola, com ambos sendo jovens, estimando-se mutuamente, tendo sido Jesus um dos primeiros a saber da sua morte, permanecendo fiel e grato à sua memória.

Bem cedo João Batista fôra impedido de prosseguir na sua carreira profética. A extrema vivacidade com que se exprimia criava embaraços aos potentados. Herodes Antipas, o tirano, vivia em sobressalto com as prédicas de João Batista, por isso o mandou prender e encerrar na fortaleza de Machero, onde, por certo, terminou morrendo torturado, contando a tradição que ele fôra decapitado. Mas era tanta a fé credulária nele depositada, que os seus discípulos confiavam na sua vinda próxima, como sendo o Messias.

Até à morte de João Batista, no verão do ano 31, Jesus se conservou nas vizinhanças do mar Morto e do Jordão. A escola de João Batista se acanhou, enquanto que a de Jesus se ampliou. Com João Batista, Jesus aprendera a ter mais ação, mais força nas suas pregações, passando a se apresentar às massas com mais autoridade e confiança nas suas ideias espiritualistas.

Ambos haviam chegado à conclusão de que o mal reinava neste mundo. Os reis matavam os profetas. Os sacerdotes e os doutores não faziam aquilo que recomendavam que os outros fizessem. Os justos eram perseguidos. E aos bons somente cabiam as lágrimas. Um mundo assim, pensavam, era como se fosse inimigo de Deus.

Jesus deixou de ser o conformado a pregar o reino dos céus, para se transformar no revolucionário transcendente a querer renovar o espírito da nossa humanidade, começando pelas bases, com o propósito de fundar na Terra o ideal que havia concebido. Quando ele falava no reino de Deus, emprestava-lhe um sentido moral e ético de elevado alcance social, embora soubesse de antemão que não iria lograr ser compreendido, pois que o reino de Deus por ele considerado era a consciência de que Deus se encontrava em nós mesmos, consoante o nosso estágio evolutivo, e que assim todos deveriam moldar as suas condutas de acordo com as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais.

Judas, o Gaulonita, mostrara a Jesus a inutilidade das sedições populares, e daí ser pouco provável que ele tenha tido qualquer interferência na política. A revolução que Jesus quis levar a cabo era toda ela relativa à educação, que engloba a moral e a ética. Aquele que procura seguir o seu racionalismo, pois, deve ser isento de peias. Para ele, a liberdade não existe fora da verdade, daí a razão pela qual ele veio decretar o final de A Era da Sabedoria e estabelecer o início de A Era da Verdade. A pátria não é tudo, pois o ser humano, como espírito evoluindo pelo Universo, é anterior e superior ao cidadão.

Compreendamos melhor a posição de Jesus, a influência da sua força e do seu prestígio tanto como de doutrinador como de sistematizador. O deísmo praticado no século XVIII, e certo protestantismo, têm-nos habituado a considerar o fundador do que denominamos de cristianismo somente como um grande moralista, como um grande benfeitor da nossa humanidade. Já não vemos no Evangelho, senão boas máximas, daí o lançarmos prudente véu sobre o estranho estado intelectual em que ele veio à luz.

Não acreditemos que se possa mover o mundo com a simples ideia da felicidade ou mesmo da moralidade individual. O pensamento de Jesus foi muito mais profundo. A sua ideia revolucionária deve ser tomada no seu todo, e não com aquelas tímidas supressões que lhe subtraem, precisamente, o que lhe deu maior eficácia para a regeneração da nossa humanidade.

Na essência de um ideal não espiritualizador, há sempre uma utopia, mas quando queremos representar o Nazareno da consciência moderna, o consolador, o juiz dos novos tempos, pois que afirmou: “É chegado o tempo de separar o joio do trigo“; fazendo o que ele fez há séculos, passamos apenas a considerá-lo — com as condições do mundo real muito diversas do que elas são — como sendo um libertador moral, quebrando, sem armas, os ferros que algemam o negro, melhorando a condição do proletariado, libertando as nações atribuladas. Mas, diante dos fatos, o que vemos? Vemos revoluções e guerras, o sangue jorrando pelas ruas, os campos se enchendo de cadáveres, as sementeiras, as árvores queimadas e tudo destruído, em um chocante contraste entre o ideal e a triste realidade.

Jesus já está com trinta anos. Ainda não faz mais do que comunicar os seus pensamentos a algumas pessoas secretamente atraídas para ele. É agora que inicia de fato as suas preleções públicas. É de crer que a ele chegassem muitos dos admiradores de João Batista. Forma o seu primeiro núcleo, que anuncia, ousado, logo que volta para a Galileia.

Os pensamentos judaicos são avessos à arte e a mitologia, mas eivados de dogmas e misticismos. A simples forma do homem tinha superioridade sobre a dos querubins e a dos animais fantásticos, que a imaginação do povo, desde que sofrera a influência da Assíria, supunha dispostos, em ordem, em torno da divina majestade. Porém, Ezequiel dizia:

O ser assentado no trono supremo, muito acima dos monstros do carro misterioso, o grande revelador das visões proféticas, tem a figura de um homem”.

No Livro de Daniel, no meio da visão dos impérios representados por animais, no momento em que se inicia a sessão do grande julgamento e que são abertos os livros, um ser, “semelhante a um filho do homem”, aproxima-se do Ancião dos Dias, que lhe confere o poder de julgar o mundo e de governá-lo por toda a eternidade.

Nas línguas semitas, a expressão “filho do homem”, é simplesmente um sinônimo de homem. Mas tal impressão causou o Livro de Daniel, que chegou a ser, em certas escolas, um dos títulos do Messias. Jesus, aplicando-o a si, proclamava o seu messianismo e afirmava a próxima catástrofe, em que havia de figurar como juiz.

Uma porção de homens e mulheres, todos caracterizados por igual espírito de candura juvenil e de singela inocência, aderiram a ele, dizendo-lhe: “Tu és o Messias”.  E como o Messias havia de ser filho de Davi, conferiram-lhe esse título, que era o símbolo do primeiro. Isso não deixou de causar embaraço a Jesus, por haver ele nascido do povo, e não de reis. Para Jesus, nenhum título era mais honroso do que o de “filho do homem”.

Em Cafarnaum, onde mais tarde veio a residir, foi hospedado na casa de um homem de nome Jonas, pai dos irmãos André e Simão, cujo sobrenome era Cefas ou Pedro. Nasceram em Betsaida, mas se estabeleceram em Cafarnaum. Pedro era casado, e tinha filhos, com Jesus se sentindo bem em sua casa. André fôra discípulo de João Batista, e já conhecia Jesus de vista. André e Simão, ou Pedro, eram pescadores, e Jesus, brincando, dizia-lhes: “Hei de fazer-vos pescadores de homens”.

Eram grandemente dedicados a Jesus. Da família Zabdia ou Zebedeu, pescadores ricos, descendiam Tiago e João, ambos também admiradores de Jesus. Salomé, a mulher de Zebedeu, acompanhou Jesus até à morte, como a sua fiel discípula. Depois, surgiu Maria Madalena, mulher de grande formosura, que também acolheu os ensinamentos de Jesus. Outras mulheres, algumas ricas, gostavam de ouvi-lo, e choraram, mais tarde, com a sua morte.

De quando em quando, ele se reunia em conferência com Pedro, Tiago e João. Formavam uma espécie de junta íntima e, através deles, Jesus se inteirava do que se passava entre os que duvidavam dos seus ensinamentos.

Era extrema a afeição de Jesus por Pedro, que antes havia encarnado como Cícero, em Roma, o qual possuía caráter reto, sincero e obediente, sendo pouco místico, comunicando a Jesus as suas dúvidas, as suas repugnâncias naturais, as suas fraquezas puramente humanas, mas sempre com uma franqueza respeitosa. Por vezes, Jesus o repreendia, em termos amigáveis, sem lhe faltar com a confiança e a estima.

João era mais novo do que Pedro, e Jesus tinha por ele um carinho paternal. Era tal a admiração de João por Jesus, que a conservou até à velhice e, ao fazer a sua biografia, por certo deturpou um tanto a verdade dos fatos. É o mal dos homens. Platão, como biógrafo de Sócrates, fez o mesmo, somente vendo as qualidades do mestre, apresentando-o ainda maior do que foi. De igual modo procedem os homens, quando inimigos, passando a deturpar a realidade dos fatos, as ações generosas, escondendo, sem escrúpulos, a verdade, para prejudicar aqueles que lhes fizeram sombra ou que foram ou são os seus desafetos.

Jesus se servia da casa de Simão ou Pedro para fazer preleções sobre a sua doutrina, e o povo já considerava Pedro um grande entre aqueles que seguiam os ensinamentos de Jesus, que lhe deu o nome siríaco Kefa, que significa Pedra, dando a entender que fazia dele a pedra angular do seu edifício doutrinário. Isso causou inveja a Tiago e João, tendo a mãe deste perguntado a Jesus por que preteria os seus filhos por Pedro. Jesus a doutrinou, mas a inveja contra Pedro continuava. Talvez por isso é que Jesus se referia a João como discípulo querido, para colocá-lo em situação de igualdade com Pedro. Dois mil anos depois, os homens continuam com iguais sentimentos, sendo maus e invejosos.

As preleções de Jesus eram suaves, doces, de um encanto irresistível, porque se encontravam impregnadas da essência da natureza, mas, por vezes, elas eram causticantes. Amava as flores e o campo, de onde tirava, às vezes, lições úteis em seus ensinamentos.

Havia uma grande analogia entre os ensinamentos de Jesus e os de Buda. Jesus, com a sua Ratiologia, de âmbito universal, fundou o alto espiritualismo, o qual, no decurso dos séculos, tem enchido muitos espíritos de alegria na sua passagem por este nosso mundo-escola.

 

PARTE VI

Jesus compreendeu que o mundo oficial e os ricos, por conveniência, não aceitavam os seus princípios saperológicos, mas sentiu que era compreendido pelos humildes e pelos simples, sendo esta a razão de lhe haverem atribuído falsamente os seus biógrafos tantas parábolas por ele nunca proferidas. Como poderia Jesus, portador de uma inteligência inimaginável, dizer: “O reino de Deus é dos pobres de espírito”; “O reino de Deus é para as crianças, para os enjeitados, vítimas da arrogância social”. E outras tolices mais, como: “Somente os pobres poderão ser salvos”; “Está próximo o reinado dos pobres”; “Ai de vós, ricos, que tendes no mundo a vossa consolação”; “Quando derdes um banquete, não convideis os vossos parentes, amigos e vizinhos ricos, porque vos convidariam, depois, e teríeis a paga do convite. Convidai os enfermos, os coxos e os cegos, porque de tudo sereis pagos na ressurreição dos justos”; “Dar aos pobres, é emprestar a Deus”. Esse gosto exagerado pela pobreza, não podia ser de larga duração, por representar uma simples utopia.

Como todos os grandes homens, Jesus era afeito ao povo e folgava em lhe falar. O seu pensamento se encaminhava para os pobres e, confortando-os, dava-lhes a boa nova da salvação. Assim é que todos os enjeitados do judaísmo ortodoxo eram os seus prediletos.

O amor pelo povo, o sentimento do caudilho democrático, que faz viver em si o espírito das turbas, do qual se reconhece o seu intérprete natural, mostravam-se, a cada passo, nos atos e discursos de Jesus. Encontrara ele, nessa gente que vivia fora das regras comuns, mais distinção e elevados sentimentos do que em uma burguesia pedante, formalista, orgulhosa, com apenas aparente moralidade, a denominada moral utilitária. Os fariseus, exagerando as prescrições mosaicas, chegaram ao ponto de se julgar maculados pelo contato de homens menos severos do que eles. Os fariseus e os doutores assim diziam:

— Vejam com que gente ele come.

Ao que ironicamente, Jesus assim respondia:

— Os homens que têm saúde, não são os que carecem de médico. O pastor que perdeu uma ovelha das cem que apascentava, deixa ficar as noventa e nove para ir ao alcance da perdida, e, depois que a encontra, leva-a, alegre, nos ombros, para o rebanho.

De modo verberante analisava os fatos, e jamais deixou de se aproximar daquele que errou, para ajudá-lo a sair do erro, e depressa deixava o rico para se aproximar do que havia perdido os haveres. Não tinha afetações exteriores, nem mostras de estudada severidade. Não se furtava à alegria e, de bom grado, ia aos festejos de noivados. Ele mesmo assim dizia, como a que se lembrar da sua condição como o Antecristo da sua humanidade:

Mais feliz, ainda, é aquele que, desprendido de ilusões, em si mesmo produz a aparição celeste, e sem sonho milenário, sem paraíso quimérico, sem sinais do céu, mas só pela retidão da sua vontade e pela poesia do seu espírito, sabe de novo criar em si mesmo o verdadeiro reino de Deus”.

A notícia dos bons sucessos doutrinários de Jesus, previstos por João Batista, chegava até à sua prisão. O povo já se convencia de que chegara o Messias anunciado pelos profetas. João Batista quis se certificar da verdade acerca dos boatos e, como recebia na prisão a visita dos seus discípulos, escolheu dois deles para irem à Galileia ouvir a Jesus. Os dois discípulos, que encontraram Jesus no auge da sua reputação, participaram-lhe a mensagem de João Batista, e, depois, voltando ao cárcere, revelaram ao prisioneiro o que viram, sendo de crer que este tivesse morrido contente por estar certo de viver já aquele que anunciara.

As disposições indulgentes que Herodes Antipas demonstrara, no princípio, para com João Batista, não podiam ser muito duradouras, pois este insistia em afirmar ser o casamento do Tetrarca da Galileia ilícito, e que devia repudiar Herodíades, a mulher com quem vivia, passando a censurar a vida escandalosa que levava. Herodes mandou prendê-lo. Do cárcere, João Batista trocou ainda mensagens com Jesus.

Ao que tudo indica, o Tetrarca da Galileia estava disposto a perdoar João Batista, mas Herodíades, a neta de Herodes, o Grande, devotava-lhe um ódio mortal e jurara vingança. Em um aniversário de Herodes Antipas, Herodíades instigou a sua filha Salomé a lhe pedir a cabeça de João Batista. O pai acedeu, mesmo que contrariado. O executor desceu ao cárcere e dele voltou trazendo a cabeça de João Batista em um prato, o qual foi recebido por Salomé, que o entregou à mãe.

Os discípulos de João Batista obtiveram o corpo do seu mestre, depositando-o em um túmulo, tendo o povo ficado desgostoso. Seis anos depois, Harret, acometendo Herodes Antipas para reconquistar Machero e vingar a desonra da sua filha, derrotou-o, fragorosamente, com esta derrota sendo considerada pelos admiradores de João Batista, um castigo pela sua morte.

A notícia da morte de João Batista foi levada a Jesus, por seus discípulos. O último passo que ele dera, junto a Jesus, acabara por estabelecer estreitas relações entre as duas escolas. Jesus, que sempre falara de João Batista com grande admiração, receando que aumentasse a malquerença de Herodes Antipas, tomou algumas precauções e se retirou para o deserto, deixando patente que João Batista havia encarnado todo o querer de Elias, e que ele era o Messias prometido. João Batista passou à história como era na realidade: austero preparador e triste pregador de penitências. Foi ele quem abriu a era dos mártires cristãos.

A escola de João Batista, que não morreu com o seu fundador, viveu algum tempo como distinta da de Jesus. Mais tarde, com a desencarnação de ambos os pregadores, João Batista e Jesus, algumas pessoas permaneceram em uma e outra. Houve luta doutrinária, posteriormente, com João, o Evangelista, combatendo a cerimônia do batismo de João Batista.

Jesus ia a Jerusalém quase todos os anos, pela festa da Páscoa. Ao que tudo indica, foi no ano 31, depois da morte de João Batista, que se verificou a mais importante estada de Jesus na capital. Seguiam-no muitos discípulos, mas ele dava pouca ou nenhuma importância à peregrinação, mas não a desprezava, para não irritar a opinião judaica, que ainda não combatera. A comunidade galileia era muito estranha ao país, pois Jerusalém era uma cidade de pedantismo, de acrimônia, de disputas, de ódio e de baixezas de espírito. O fanatismo era extremo, e as sedições credulárias muito frequentes.

O serviço do culto trazia consigo um sem número de atos repugnantes, especialmente operações mercantis, que davam ensejo a se estabelecerem lojas no recinto considerado como sendo sagrado, em razão do ambiente fluídico. Vendia-se ali o gado para os sacrifícios e havia mesas para cambiar o dinheiro, com os oficiais inferiores do templo exercendo as suas funções com a vulgaridade dos sacristãos. Jesus, então, dizia que “A casa da oração está convertida em um covil de ladrões”, entendendo-se as orações como sendo as vibrações magnéticas, as radiações elétricas e as radiovibrações eletromagnéticas a Deus e ao Astral Superior. Conta-se a tradição que um dia, não mais podendo sofrear a cólera, azorragou aqueles desprezíveis vendedores, deitando-lhes por terra as mesas de negócios.

Dizia-se também que Jesus era pouco afeito ao templo. O culto por ele concebido não podia admitir aquelas cenas, mais próprias de açougues. Desagradavam-lhe todas as velhas instituições judaicas, e lhe doía a alma se ver obrigado a se conformar com elas. O templo excluiu aqueles que não eram judeus do seu recinto, através de editais desdenhosos.

O orgulho do sangue começa a ser combatido por Jesus, que já não se considera judeu e passa a ser um revolucionário, no mais alto grau, chamando os homens para um culto único: o do amor ao próximo. Proclama dos direitos do homem, no sentido universal, e não os do judeu; a verdadeira crença do homem, não o credo judeu; a redenção do homem, não a do judeu. Distancia-se de Judas, o Gaulonita, e de Matias Margalot, que pregavam a revolução em nome da lei.

Jesus estabelecera a verdadeira espiritualidade em nossa humanidade, estabelecida não sobre o sangue, a matéria, mas obviamente que sobre o espírito, através do seu racionalismo, hoje posto institucionalmente pelo Racionalismo Cristão. Moisés via e ouvia os espíritos obsessores, principalmente na figura de Jeová, o deus bíblico, um espírito tremendamente obsessor, enquanto que Jesus era um instrumento do Astral Superior, por isso o templo judeu já não tem mais razão de ser, e está irrevogavelmente condenado.

Em razão disso, os judeus passaram a considerar Jesus como sendo um inimigo, por ele haver deitado por terra todas as práticas dos devotos da carne, das momices, dos sacrifícios de cordeiros “divinos”, etc., já que ele também não dava apreço aos jejuns, querendo somente a prática do bem e a desculpa recíproca, em que nisso consistia a sua lei. Nos ensinamentos de Jesus não há nada de sacerdotal. O sacerdote prega o sacrifício público, dissuade da oração íntima secreta, por saber que ela dispensa os intermediários, portanto, a eles próprios.

Renan assevera que no Evangelho não é encontrada a recomendação de qualquer prática credulária atribuída a Jesus. O batismo não tinha qualquer valor para ele, e quanto à oração, somente a admitia quando partia do espírito e era feita com sentimentos superiores e pensamentos positivos, quer dizer, eram as vibrações magnéticas, as radiações elétricas e as radiovibrações eletromagnéticas a Deus e ao Astral Superior.

Jesus atacou os guardadores do sábado, os quais são chamados atualmente de sabatistas, que hoje pertencem a um ramo credulário protestante. Posteriormente, a guarda do sábado passou a ser um pretexto para as miseráveis disputas de jesuítas e a raiz de crenças supersticiosas. Por isso mesmo, Jesus se comprazia em desafiar aos seus adversários, violando abertamente a guarda do sábado. Às censuras que por isso lhe faziam, respondia com agudas zombarias. Censurava grande número de cerimônias hoje consideradas como sendo modernas, muito apreciadas pelos devotos. Para as abluções, para as sutilíssimas distinções das coisas puras e impuras, não tinha contemplação, e indagava:

— Também podeis lavar a vossa alma? O que conspurca o homem não é o que ele come, mas sim o que lhe sai do espírito, raça de víboras. Não falam senão no bem, mas são maus no interior. Da boca só sai o que não cabe no espírito.

O jovem Jesus, democrata, não admitia outro senhor que não fosse Deus, e não podia tolerar as honrarias prodigalizadas aos soberanos, nem os títulos, muitas vezes mentirosos, que lhes eram atribuídos.

Nas suas preleções, Jesus dava a entender que os credos e as suas seitas separam os homens, os quais precisavam se unir pelo sentimento de solidariedade fraternal, que cada um deve se condoer do sofrimento do outro, sem qualquer distinção credulária. A solidariedade fraternal humana, na sua concepção mais alta, era a essência de todas as suas preleções na Galileia ou em Jerusalém. Alguém lhe perguntara:

— Os nossos pais adoravam sobre a montanha. Vós desejais que se vá adorar em Jerusalém?

Ao que Jesus respondera:

— Em verdade te digo que chegará o momento em que ninguém precisará subir a montanha nem ir a Jerusalém para adorar ao Pai. Os verdadeiros adoradores somente o adorarão em espírito e verdade.

Em função da extrema ignorância e do espírito adorador do povo, esse foi um dos seus maiores ensinamentos. Assim, ele havia fundado uma religação pura com a alta espiritualidade, sem data, sem pátria, sem sacerdotes, que todos os espíritos, pela elevação dos seus sentimentos e pelo transporte dos seus pensamentos, deverão celebrar, por todo o sempre, por ser essa religação pura com a alta espiritualidade estabelecida pela verdade.

Jesus nunca admitiu a existência do milagre, e jamais se inculcou homem sobrenatural ou enviado divino para fazer curas. A Medicina, instituída na Grécia cinco século antes de Jesus, era, em sua época, desconhecida na Judeia pelos judeus da Palestina. Na Judeia, a Medicina era o que ainda é hoje em muitas partes, principalmente no Oriente: nada científica, e entregue às superstições e à inspiração individual. Em tal indigência de conhecimentos científicos, a presença de um homem superior que trate o doente com carinho e lhe dê, por alguns sinais sensíveis, a esperança do seu restabelecimento, é um remédio muitas vezes decisivo. Em muitos casos, salvo o de lesões perfeitamente caracterizadas, o contato de uma pessoa dedicada e amiga vale tanto ou mais do que drogas da farmácia. A alegria de ver curada a pessoa amiga, geralmente cura, pois que as doenças são de natureza espiritual. Jesus, como os seus contemporâneos, não possuía a ideia do que fosse uma ciência médica racional. No entanto, pensava que se a doença era um castigo por uma infração espiritual, devia ser normalizada por pensamentos de valor.

No tempo de Jesus, havia bastante loucos na Judeia, em virtude de se entregarem às dissoluções e às bebidas. Muitos deles, ouvindo Jesus falar, corrigiram-se e modificaram as suas vidas. A influência espiritual do homem que ouviam, fazia bem àqueles infelizes.

Há muita falta de verdade nas curas que uma grande parte de credulários fanáticos atribui a Jesus. Mesmo tendo alcançado o elevadíssimo estágio evolutivo do Cristo, ele era como outro homem qualquer, quer dizer, não podia alterar as leis espaciais, os princípios temporais e os preceitos universais, que legislam toda a vida que existe no Universo.

 

PARTE VII

A verdadeira ação doutrinária de Jesus durou apenas dezoito meses. Durante esse tempo, nada acrescentou ao que já vinha pregando, porém se tornou mais enérgico em suas palavras, ao ponto de ser tomado, algumas vezes, por um caudilho democrático.

Mas a revolução desejada por Jesus, consistia apenas na religação dos seres humanos com a alta espiritualidade, diferentemente do culto de Moisés, que lidava diretamente com os espíritos obsessores quedados no astral inferior, notadamente Jeová, o deus bíblico. Por isso, ele nunca teve e nem queria ter na Terra, nem ricos da Terra e nem o poder material, tais como sendo coisas dignas dos seus cuidados, não tendo qualquer ambição exterior, sendo devotado totalmente ao seu ideal espiritualista, por isso nunca saiu da sua desdenhosa pobreza. Julgaram-no uma espécie de jovem que segue a profissão de fé do Vigário Saboiano, descrito por Jean-Jacques Rousseau, tal era a pureza dos sentimentos e pensamentos que revelava.

Jesus jamais marcou qualquer prazo para a sua volta à Terra, posto que ele não pertence à nossa humanidade, mas sim à humanidade que seguimos na esteira evolutiva do Universo. Interrogado sobre se viria e quando seria a sua vinda, recusou-se sempre a responder, tendo, porém, dito certa vez: “Esse dia só o sabe o Pai”; mas se referindo ao fato de que era preciso que todos estivessem atentos, prontos para o dia da partida de cada um deste mundo, conservando a sua lâmpada acesa e velando pela vida, como alguém que chega de improviso para um cortejo. Ele quis dizer com isso que o homem deve manter lúcido o raciocínio e vigilante o seu espírito, para não ser colhido inesperadamente pela chamada morte, a desencarnação, à medida que os anos forem passando, e fique a lâmpada, o espírito, que é luz, apagada, em trevas, na atmosfera da Terra. Eis aqui o motivo das suas palavras: “Sempre prontos para partirem, para velarem e ter a sua lâmpada acesa”.

Jesus afirmava sempre que na vida eterna não há diferença de sexo. Que homem e mulher só existem na Terra, ou nos mundos-escolas. Ao falar da ressurreição, quis apenas significar que todo espírito tem de se redimir das suas faltas.

Como supunham os seus discípulos, o mundo não acaba, mas é renovado, como assim previa Jesus. O seu pensamento foi fecundo e, se não chegou a ser compreendido em seu tempo, pelo fato de ser transcendente a este mundo, sendo obrigado a empregar muitas vezes o simbolismo em suas palavras, está sendo agora compreendido pelo Antecristo e por aqueles que melhor souberem analisar o seu pensamento. Daí a razão dos seus ensinamentos terem produzido frutos eternos em nossa humanidade.

A doutrina e o sistema transmitidos por Jesus eram transcendentais e completamente voltados para a espiritualidade, sem que tivessem qualquer analogia com a doutrina sobrenaturalística da Igreja Católica Apostólica Romana. Ele fincou a base para a criação de um mundo melhor para a nossa humanidade, com base no seu racionalismo, que se evidencia por intermédio do Racionalismo Cristão.

O reino de Deus, tão falado por Jesus, não era senão o amor ao próximo, ou, pelo menos, a prática do bem, uma ordem de coisas melhores do que as já existentes, o reinado da justiça, para cujo estabelecimento deve contribuir cada ser humano, na proporção das suas forças morais e éticas, portanto, educacionais.

Tudo aquilo que se encontrava na mente de Jesus era concreto e substancial, embora para muitos parecesse, às vezes, um tanto místico, em razão dele haver transcendido ao ambiente terreno e falar da melhor maneira para ser compreendido, se não para todos os seres humanos, pelo menos para o Antecristo, que iria fazer surgir o seu racionalismo no seio da nossa humanidade após dois mil anos da sua vinda. Por isso, ele foi o homem que mais convictamente acreditou na realidade da vida e na autenticidade de um ideal espiritualista.

Abraçando as utopias do seu tempo e da sua raça, com elas soube proclamar as mais sublimes verdades. O seu reino não era o próximo apocalipse que, segundo a lenda, estava iminente a se manifestar no céu, mas sim, e sem dúvida, o reino do espírito, criado pela liberdade e pelos sentimentos e pensamentos que movem os homens virtuosos. Ele queria uma religação pura com os espíritos de luz que integram o Astral Superior, sem práticas místicas e dogmáticas, com o homem sendo transformado em um valioso templo entesourado de virtudes.

O Novo Testamento está desabonado pelos absurdos que contém, e não pode deixar de ser tido como de importância secundária e ininteligível, alterado que foi, de mil maneiras, e repelido por todos os estudiosos que realmente estudam os porquês da vida.

Não se duvida que Jesus tenha escolhido a Pedro, dentre os seus discípulos, para dar prosseguimento à sua pregação espiritualista, além de Tiago, João, André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, um segundo Tiago, Tadeu, Simão, o Zelote, e, finalmente, Judas Iscariotes, que eram os doze da tribo de Israel que formavam um corpo de discípulos privilegiados, em que Pedro conservava a sua primazia toda fraterna e paternal, desde que Jesus lhe confiara a responsabilidade de propagar a sua obra.

Logo após a desencarnação de Jesus, houve muitos impostores, como os há, em grande número, hoje em dia, a explorar a credulidade popular, em seu nome, logo todos os sacerdotes que falam em nome de Jesus são impostores, pois que são semeadores da ignorância, e a ignorância é o grande mal da nossa humanidade, como assim afirmou Jesus.

Foi somente uma vez que Jesus se pronunciou sobre o casamento, com clareza, proibindo o divórcio para constituir novo casamento, sem motivo justificado. Não aparece nos ensinamentos de Jesus nenhum motivo para lhe atribuírem o direito canônico.

Condenando o batismo, Jesus explicou que o espírito não se batiza, pois que ele somente se purifica pela prática das boas ações. Portanto, o batismo do espírito para aqueles que pensam e raciocinam sobre a vida, está em os pais educar e instruir os seus filhos, de modo a que eles sejam sempre úteis ao todo, que é a nossa humanidade, da qual todos nós fazemos parte.

Sempre esteve longe do pensamento de Jesus a ideia de um livro credulário que contivesse um código e artigos de fé credulária, por isso ele não somente não escreveu tal livro, como era contrário ao espírito da seita nascente e à composição de livros ditos sagrados.

Em princípio, os Evangelhos tiveram um caráter puramente particular e uma autoridade muito mais estreita do que lhes atribui a tradição, que, por seus absurdos, não passam de uma utopia perante os verdadeiros ensinamentos de Jesus. A moral, vinda dos Evangelhos, se tomada a sério, levaria os povos à inércia, à indiferença, por tudo que torna a vida útil na Terra. Um exército de mendigos seria visto se fosse admissível ser “o reino de Deus para os pobres”; enquanto, de modo contrário, mesmo pregando essa mentira, vemos os sacerdotes sempre dotados de poder e riqueza, na história desta nossa civilização.

Nos últimos tempos da vida de Jesus, ele era visto menos afável, áspero mesmo, ao ponto dos seus discípulos, por vezes, dizerem que não o compreendiam. Algumas vezes, quando o contrariavam, o seu mau humor o levava a praticar atos inexplicáveis e, na aparência, absurdos. Não porque a sua virtude houvesse diminuído, pois que a virtude não diminui, mas porque a tremenda luta pelo ideal do Cristo se tornava cada vez maior e ainda mais irrealizável. Ao que tudo indica, ele não se conformava em apenas estabelecer o instituto do Cristo no seio da nossa humanidade, queria fazer ainda bem mais que o idealizado em seu Mundo de Luz.

Isso o magoava e até mesmo o indignava, porque via cair sobre ele o ódio e as prevenções que condenam a ideia verdadeiramente espiritualizadora, desde o momento em que ela procura converter os homens das práticas sobrenaturais para a prática universal. O tom que adotara em suas dissertações, chegava a ser até temerário. A morte viria desembargar uma situação excessivamente crítica e lhe barrar um caminho já sem saída.

No primeiro período da sua vida, Jesus não encontrou oposição séria à sua posição ratiológica, portanto, de âmbito universal. Em virtude da excessiva liberdade que se gozava na Galileia e do número de pregadores que surgiam de toda parte, a sua pregação só teve importância em uma sociedade muito limitada. Mas depois de ter penetrado no caminho luminoso das suas explanações espiritualizadoras, começou a tempestade espiritual a bramir. Por isso, por mais de uma vez teve que se esconder e fugir, não porque Herodes Antipas o incomodasse, mas por ter corrido o boato de que outro não era ele senão João Batista, ressuscitado de entre os mortos. Diante desse boato, Herodes Antipas ficou inquieto e empregou toda a astúcia para afastar dos seus domínios o novo profeta, cujo proceder pacífico, contrário às agitações populares, tranquilizou, por fim, ao Tetrarca, dissipando o perigo.

As lutas do moço nazareno contra a hipocrisia oficial, todavia, eram contínuas. Jesus era mais do que o reformador de um credo antiquado, místico e dogmático, que lidava apenas com os espíritos obsessores quedados no astral inferior, era o criador da religação espiritual dos seres humanos com a alta espiritualidade, com os espíritos de luz integrantes do Astral Superior, cuja ação representava a espiritualização da nossa humanidade, somente concretizada essa ação com a fundação do instituto do Racionalismo Cristão, através de Luiz de Mattos, o nosso veritólogo maior, já próximo ao final da Era da Verdade.

Os aristocratas de Jerusalém desdenhavam de Jesus, mas consentiram que os homens simples o tivessem por profeta. Havia, porém, desencadeada uma guerra de morte contra Jesus, por ser ele um espírito novo que aparecia no mundo e fazia decair tudo quanto o havia precedido.

João Batista era profundamente judeu, mas Jesus praticamente não o era, pois a ele interessava sempre, e acima de tudo, a delicadeza do sentimento moral e do pensamento ético. Não disputava senão quando argumentava com os fariseus, por vezes, procedendo com ironia. Os fariseus, cheios de ódio, não podiam admitir que esse mestre da ironia deixasse de pagar com a própria vida o seu triunfo sobre eles. Desde a Galileia, os fariseus procuravam atingir a Jesus, empregando contra ele as manobras que deveriam, mais tarde, surtir bom efeito em Jerusalém.

 

PARTE VIII

De há muito que Jesus pressentia os perigos que o rodeavam. Durante dezoito meses deixou de ir a Jerusalém, mas na festa dos Tabernáculos, do ano 32, os seus parentes, sempre malévolos e incrédulos, convidaram-no para assisti-la. O evangelista João insinuou que nesse convite havia um projeto oculto para prejudicar a Jesus. E tanto isto procede, que os parentes assim diziam:

Revela-te ao mundo. O que fazes não deve ser feito em segredo. Vai à Judeia para que todos vejam aquilo que sabes fazer”.

Em princípio, Jesus recusou, pressentindo a traição. Porém, partida que foi a caravana dos peregrinos, pôs-se a caminho, sem ninguém o saber. Foi o último adeus à Galileia.

Certo dia, na propriedade de Simão, Jesus meditava. Retirou-se para o monte das Oliveiras, passando a clamar nesse momento de amargura:

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados. Quantas vezes tenho tentado reunir os teus filhos, e tu não tens querido”.

Havia pessoas boas em Jerusalém e na Galileia que aceitavam os ensinamentos de Jesus, mas era tal o peso da ortodoxia dominante, que muitos poucos se atreviam a defendê-lo, com medo das represálias, pois o alto sacerdócio e os saduceus lhe votavam um imenso desprezo, embora os saduceus, assim como Jesus, repelissem as tradições dos fariseus, negando a ressurreição e a existência dos anjos. Enquanto a burguesia farisaica, na realidade, sentindo-se ameaçada pela doutrina do novo mestre, procurava chamá-lo para o campo das questões políticas e comprometê-lo no partido de Judas, o Gaulonita.

A sua forte eloquência sobressaía e causava grande impressão todas as vezes que se tratava de combater a hipocrisia, assim como os dizeres abaixo:

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que lançastes mão da chave da ciência e não vos servis dela senão para fechar aos homens as portas do reino da verdade”.

Não entrais no reino da verdade e impedis que os outros entrem”.

Ai de vós, que arruinais as casas das viúvas, simulando longas orações”.

Insensatos e cegos propositais, que pagais o dízimo por um raminho de hortelã, de cedro, de cominho, e desprezais os preceitos graves, como a justiça e a compaixão”.

Assim se dirigia Jesus à aristocracia e a burguesia do seu tempo, que tomava nota das suas palavras para invocar contra ele as leis que sustentavam uma teocracia intolerante. Por isso, a sua morte ficou resolvida desde o mês de fevereiro ou princípios de março, mas ele ainda escapou por algum tempo, por se ter retirado para Efrom, cidade pouco conhecida. Mas já havia sido expedida a ordem de prisão para ser executada logo que ele fosse a Jerusalém e lá fosse reconhecido por alguém.

Jesus regressou a Jerusalém, estando cada vez mais ciente de que iria ser preso e morto. Tanto que se reuniu o Conselho na casa de José Caiafa, o sumo pontífice dos judeus, chefe do Sinédrio, ficando resolvida a imediata prisão de Jesus, mas fora do templo onde ia todos os dias, para se evitar um motim. Sem negar que Judas Iscariotes tivesse contribuído para a prisão de Jesus, é de supor que as maldições que pesam sobre ele tenham muito de injustas. Contudo, não deixará de haver razão para guardar as palavras atribuídas a Jesus, na última ceia:

Em verdade vos digo que um de vós me trairá”.

De fato, Jesus foi denunciado por Judas, tendo sido ele uma das testemunhas contra Jesus. Os discípulos disseram que o crime atribuído a ele foi de “sedução” e, salvo algumas minudências de imaginação rabínica, há as narrativas dos Evangelhos no processo, extraídas do Talmude, o livro sagrado dos judeus.

O plano dos inimigos de Jesus, por intermédio de uma devassa testemunhal e pela sua própria confissão, era convencê-lo de blasfêmia e de atentar contra o credo mosaico, condenando-o à morte, segundo a lei, e depois fazer aprovar a condenação por Pilatos, no que foram bem sucedidos, pois atendendo à situação dos romanos na Judeia, Pilatos não podia deixar de proceder como procedeu. Quantas sentenças de morte, ditadas pela intolerância credulária, têm forçado a mão do poder civil! O rei da Espanha, que para condescender com o clero católico fanático, mandava à fogueira centenas dos seus súditos, era mais censurável do que Pilatos, porque representava um poder mais completo do que era o dos romanos em Jerusalém. De qualquer maneira, o poder civil dá provas de fraqueza quando se torna perseguidor ou intransigente às solicitações do clero. Portanto, não foram Tibério e Pilatos que condenaram Jesus à morte, mas sim o velho partido judaico, do qual eram chefes Hanã e José Caiafa.

Jesus não foi um criador de dogmas ou propagador de símbolos, mas sim o iniciador no mundo da verdadeira espiritualidade, pelo que se pode compreender, dessa forma, porque ainda hoje se nos apresentam o cristianismo completamente deturpado da sua originalidade, sendo, pois, um falso cristianismo, e aqueles que o seguem sendo todos anticristãos. Como sendo fruto de um movimento espiritualista perfeitamente espontâneo, estando despido, em sua origem, de todas as peias dogmáticas e místicas, resultou a vontade de lutar sempre pela liberdade de consciência.

 

PARTE IX

Falemos agora de Jesus livre de dogmas e misticismos, como de um homem de convicções doutrinárias, desprendido, valoroso, inteligente, um ratiólogo verdadeiramente espiritualista, que soube ir muito além do mundo físico, fazendo sentir ao povo a continuação da vida após a morte do corpo, tal como assim é apresentado pelo Racionalismo Cristão.

Em 1910, em Santos, começou a haver um grande interesse pelo estudo da Espiritologia, o tratado do espírito, no plano científico. Luiz José de Mattos e Luiz Alves Thomaz se sentiam atraídos um pelo outro para essa sublime tarefa. Ambos, dotados de sentimentos superiores e de pensamentos positivos, tinham, no entanto, grande prevenção contra o espiritismo, porque muitos dos seus praticantes não eram moral e socialmente muito recomendáveis. Por outro lado, a Igreja, por intermédio dos seus sacerdotes, também propagava que o espiritismo era arte do demônio, etc.

A contradizer essas ideias, veio a ciência. Na Europa e na América, homens de grande saber estudavam aos fenômenos espiríticos. O Dr. Pinheiro Guedes, conceituado médico brasileiro, explica o espiritismo científico, não para ser praticado pelo povo ignorante, mas para demonstrar a real existência do espírito, quando na sua obra intitulada de Ciência Espírita, fornece as mais sábias lições sobre a vida fora da matéria, explicando as causas dos fenômenos visíveis e invisíveis.

Luiz de Mattos, sendo influenciado por muitos amigos, mas sempre precavido contra os embusteiros do espiritismo e dos demais credos e seitas, tornado livre pensador, além de crítico que realmente o era, entrega-se ao estudo da vida fora da matéria, lendo obras de vários autores nacionais e estrangeiros. Depois de mais de um ano de estudos e investigações, comprometeu-se com Luiz Thomaz a codificar o Espiritismo Racional e Científico Cristão, para fazer vir a luz no espírito humano sobre a razão de ser da encarnação e da desencarnação do espírito, indispensáveis à sua evolução.

Fundada em Santos, no grande Estado de São Paulo, a primeira Casa Racionalista Cristã, começaram a se congregar, em torno desses dois homens, várias pessoas de sentimentos superiores e de pensamentos positivos, embora a maioria fosse constituída por pessoas humildes e obedientes à ordem e a disciplina instituídas por Luiz de Mattos para falar em público. Esses homens admiravam a semelhança que existia entre a doutrina que ele transmitia e a de Jesus, pois o Jesus que ele apresentava aos já militantes era bem diferente do que se exibiam nas igrejas católicas e outras.

Luiz de Mattos deslumbrava os ouvintes com as suas pregações, causando sensação nas sessões doutrinárias realizadas na capital de São Paulo e na cidade de Santos. Cada vez mais empolgado pelo valor da obra de Jesus, toma posição na imprensa para fazer despertar a consciência humana para as verdades que pregava. Foi um dos que souberam enxergar ao longe. Estudou, pensou, raciocinou sobre os fatos e os fenômenos psíquicos e físicos, e não quis ficar impassível. Prometeu e fez a obra esclarecedora sobre a vida espiritual, não deixando dúvidas em relação ao que o homem representa neste nosso mundo-escola.

Apresentou Jesus como sendo um homem que não condescendia com o erro, o embuste ou a mentira, a quem se atribui a máxima: “Somente a verdade poderá livrar o homem das garras da ignorância e levá-lo ao cumprimento do dever”.

A Igreja teria prestado um grande serviço ao mundo se, ao invés de se organizar em uma espécie de monarquia, tivesse procurado levar adiante os ensinamentos de fraternidade e de simplicidade transmitidos por Jesus. César Cantu, assim afirmou:

Eis, pois, a Igreja organizada em monarquia eletiva, mais ou menos representativa. Partira da democracia, passara pela oligarquia; havemos de vê-la ir consolidando e desenvolvendo o princípio monárquico. É certo que esta fórmula lhe deu a força da unidade e lhe permitiu resistir às tempestades da história. Mas também a imobilizou e impediu de acompanhar os progressos do espírito humano e as transformações dos organismos sociais”.

Democrata, por excelência, que fôra Jesus, não pode hoje, como espírito, deixar de estar com aqueles que pugnam por um viver simples, pelo trabalho racional, por um padrão de vida que assegure o bem-estar, por um regime governativo democrata, em que povo e governo se entendam, para que despareçam da face da Terra os famintos, os esfarrapados, os indolentes e os vencidos.

O falso cristianismo não trabalhou pela espiritualização humana. Se o sectarismo credulário tivesse encarnado a vontade de Jesus, outro seria o estado espiritual dos povos do mundo. É de crer que quando Galério, em 1° de março de 311, em seu nome e em nome de Constantino e Licínio, publicou um edito contrário às perseguições de Diocleciano aos ditos cristãos, estivesse movido por intentos elevados.

É profundamente lamentável que o credo dito cristão, assim como as suas seitas, não tenham seguido pelo caminho apontado pelos ensinamentos de Jesus, mas sim pelos interesses dos imperadores romanos. Se tivesse seguido os ensinamentos ratiológicos de Jesus, não existiriam catedrais ornamentadas de ouro, com mendigos à porta. Haveriam mais escolas e menos templos, e não teríamos analfabetos e nem criminosos a encher os presídios.

A Igreja negou a evolução espiritual por motivos óbvios, pois que a salvação é o seu sustentáculo, tendo por base a fé credulária. Constantino lhe conferia o direito de possuir bens fundiários, e ela deixou, desde então, de se interessar pelas esmolas dos fiéis. As doações e os legados bastavam para o custeio do culto e a sustentação do sacerdócio. De qualquer maneira, pode-se constatar alguma elevação espiritual desse imperador, que dava independência e encargos à Igreja como órgão do Estado, para servir ao povo. Mas o que se vê é justamente o contrário. A Igreja ostenta riquezas sem conta, pedindo sempre aos ricos, os seus milhões, para ganhar o céu, e ao pobre, os minguados centavos para que o “santo” padre venha a ter o seu pão.

Eis porque, ao invés de os pedintes diminuírem, seguindo o exemplo que lhes é dado pela Igreja, que não se cansa de pedir, em desacordo, portanto, com o que teve em vista Constantino. Poderia esse imperador ter até outros intentos ocultos, vendo na Igreja uma arma política internacional, mas, pelo que exteriorizou, criando um credo oficial para o Estado, quis proporcionar os meios de se cultivar o espírito, socorrendo aos necessitados através da Igreja.

 

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