04.02- Spinoza

A Era da Verdade
10 de outubro de 2019 Pamam

Nascido Baruch Spinoza, ele encarnou em Amsterdã, Países Baixos, o antigo nome dado a Holanda, no ano de 1632, e desencarnou em Haia, Países Baixos, obviamente que na Holanda, tendo sido um veritólogo que seguiu a linha racionalista dentro da chamada Filosofia Moderna. Encarnou no seio de uma família judaica portuguesa que havia fugido da inquisição lusitana, sendo considerado o fundador da crítica bíblica moderna.

Embora o seu pai fosse um negociante próspero, ele não sentiu nenhuma inclinação para o comércio, preferindo passar o tempo na sinagoga, absorvendo o credo e a história da sua raça. Era um estudante notável, tendo sido olhado pelos mais velhos como sendo um futuro luminar do judaísmo. Cedo passou do estudo da Bíblia para o estudo meticuloso do Talmude, e deste para os escritos de Maimônides, Levi Ben Gerson, Ibn Ezra e Hasdai Crescas, quando então o pendor pelos estudos o levou aos escritos de Ibn Gabirol e a Moisés de Córdova.

A identificação de Deus com o Universo formulada por Moisés de Córdova impressionou bastante a Spinoza, o qual seguiu também o sentimento de Bem Gerson, que ensinava a eternidade do mundo, e ainda o de Hasdai Crescas, que admitia ser a matéria do Universo o corpo de Deus. Em Maimônides encontrou uma análise favorável da doutrina de Averroes sobre a imortalidade da alma.

Para Spinoza, os mais hábeis defensores da fé credulária se colocam como sendo os seus maiores inimigos, porque a sutileza em excesso engendra dúvidas e estimula o espírito de análise. Isto aconteceu ao veritólogo ao ler Maimônides, tendo se acentuado ainda mais ao ler os comentários de Ibn Ezra, no qual os problemas da velha fé credulária são formulados mais diretamente, sendo muitas vezes abandonados como insolúveis. Assim, quanto mais Spinoza meditava, tanto mais as frágeis certezas da velha fé credulária se fundiam na dúvida.

Daí foi apenas um passo para que passasse a estudar aquilo que os veritólogos tendentes ao falso cristianismo haviam escrito sobre os grandes problemas de Deus, no caso o deus bíblico, e do destino humano. Para tanto, aprendeu o latim com um mestre holandês, o que o fez penetrar no acervo do pensamento medieval europeu. Estudou Sócrates, Platão e Aristóteles, mas os seus pendores veritológicos fez com que pendesse para os veritólogos da Escola Atomista, estudando Demócrito, Epicuro e Lucrécio, com os estoicos deixando nele uma marca indelével. Estudou os veritólogos escolásticos, dos quais tomou não somente a terminologia, como também o método geométrico de exposição por meio de axioma, definição, proporção, prova, escólio e corolário.

Estudou Giordano Bruno, que foi desencarnado pela Inquisição, o qual considerava que espírito e matéria eram unos, com cada partícula da realidade se compondo inseparavelmente do físico e do psíquico, em que o objeto da Filosofia consistia em apreender a unidade na diversidade, em ver o espírito na matéria, em descobrir a síntese em que as contradições se fundem, em se elevar ao supremo conhecimento da unidade universal, que é o equivalente intelectual do amor de Deus.

Tudo isso se integrou na estrutura íntima do sentimento de Spinoza, uma vez que os veritólogos produzem mais sentimentos do que pensamentos, enquanto que os saperólogos produzem mais pensamentos do que sentimentos.

Finalmente ele foi influenciado por Descartes, cuja noção central era do primado da consciência, daí a proposição de que o espírito conhece a si mesmo ainda mais e imediatamente do que pode conhecer a qualquer outra coisa, em que o espírito conhece o mundo externo unicamente através das percepções e sensações que esse mundo externo lhe proporciona. Em sendo assim, toda filosofia deve começar com o eu pensante individual: “Penso, logo existo”. Há que se ressaltar neste pondo o individualismo intelectual proporcionado pela Renascença.

Mas o que o atraiu em Descartes foi a inclinação de submeter tudo no Universo a leis mecânicas e matemáticas, exceto Deus e a alma. Dado o impulso inicial por Deus, dizia Descartes, repetindo a Anaxágoras dois mil anos depois, tudo o mais, na Geologia e em todos os processos e desenvolvimentos não mentais, pode ser explicado partindo de uma substância homogênea que existisse a princípio sob a forma desintegrada — a hipótese nebular de Laplace e Kant —, e todos os movimentos dos animais e do corpo humano se tornam movimento mecânico ou ação reflexa, como, por exemplo, a circulação do sangue. Tudo no mundo e todos os corpos, é tudo máquina. Porém, fora do mundo, Deus; e dentro do corpo, a alma.

Foi com base nesses antecedentes mentais que ele se viu intimado a comparecer perante os velhos da sinagoga para se defender de heresias, sendo-lhe oferecido uma certa quantia em dinheiro para que ele se mantivesse leal à sinagoga e à velha fé credulária, pelo menos na aparência, tendo Spinoza recusado a oferta, quando então a Sinagoga Portuguesa de Amsterdã, em 27 de julho de 1656, puniu-o com o chérem, o equivalente hebraico da excomunhão católica, pelos seus postulados a respeito de Deus em sua obra, defendendo que Deus é o mecanismo imanente da natureza, e que a Bíblia é uma obra metafórico-alegórica, que não pede leitura racional e não exprime a verdade sobre Deus, no que se encontrava absolutamente correto, já que Jeová, o deus bíblico, não passa de um espírito inferior tremendamente obsessor. Van Vloten nós dá a fórmula utilizada nessa excomunhão:

Os chefes do Conselho Eclesiástico fazem público que, já bem convencidos dos atos e opiniões erradas de Baruch de Spinoza, procuraram por todos os meios e com várias promessas desviá-lo do mau caminho. Mas não conseguiram fazê-lo mudar de ideia; ao contrário, como se acham cada vez mais certos das horríveis heresias publicamente por ele confessadas, e diante da insolência com que tais heresias são difundidas, do que deram testemunho muitas pessoas de crédito na presença do próprio dito Spinoza, ele as aceita como provadas. Feito do estudo da matéria pelo Conselho Eclesiástico, o mesmo resolve, como resolvido tem, que o dito Spinoza seja anatematizado e desligado do povo de Israel, e que a partir deste momento seja colocado em anátema com a seguinte condição:

Com o assentimento dos anjos e santos nós anatematizamos, execramos, amaldiçoamos e expulsamos Baruch de Spinoza com audiência da comunidade sagrada em presença dos sagrados livros onde os seiscentos e treze preceitos estão escritos pronunciando contra ele a maldição com que Elisha amaldiçoou os filhos e mais todas as maldições do Livro da Lei. Amaldiçoado seja de dia e amaldiçoado seja de noite, dormindo e acordado; indo e vindo. O Senhor que nunca o perdoe ou o receba; e que a ira do Senhor não cesse contra este homem e o carregue de todas as maldições do Livro da Lei e apague o seu nome debaixo do céu e o afaste de todas as tribos de Israel, sobrecarregado com todas as maldições contidas no Livro da Lei — e possam todos que são obedientes ao Senhor ser salvo neste dia.

Por esta advertimos a todos que ninguém com ele deve ter contato por gesto ou palavra, nem por escrito; ninguém lhe deve prestar assistência, nem permanecer no mesmo teto que o abrigar, nem se aproximar dentro da distância de quatro cúbitos, nem ler nada por ele citado ou escrito por sua mão”.

Spinoza recebeu a excomunhão com uma coragem impressionante, principalmente porque era totalmente convicto a respeito dos seus sentimentos veritológicos, afirmando que ela não lhe compelia a nada, embora se visse irremediavelmente só, preferindo viver sozinho, mas livre da fé credulária, já que ele era um racionalista. Entretanto, o seu pai, que o havia considerado como sendo a esperança da família, mandou-o embora de casa. A sua irmã procurou lesá-lo de uma pequena herança, com Spinoza tendo levado o caso aos tribunais, e depois de ganhar a demanda desistiu da herança em favor da irmã. Os seus amigos passaram a evitá-lo. Tudo isso fez com que ele utilizasse de muito pouco humor em suas obras. Ele afirma o seguinte:

Os que desejam achar a causa dos milagres e estudam as coisas da natureza como filósofos, em vez de se deslumbrarem diante delas como mentecaptos, breve são tidos como ímpios e heréticos, e, como tais, proclamados pelos que as massas adoram como intérpretes da natureza e dos deuses. Porque estes homens sabem que quando a ignorância é posta de lado, cessa o deslumbramento — único meio pelo qual a sua autoridade é mantida”.

O momento trágico veio logo depois da excomunhão, quando certa noite ele ia pela rua e um fanático lhe deu uma demonstração de sua teologia intolerante de faca em punho, tendo Spinoza se desviado rápido e escapado com um leve ferimento no pescoço. A partir daí foi viver no sótão de uma casa na estrada de Outerdek, perto de Amsterdã, tendo como hospedeiros cristãos da seita mononita, que assim puderam compreender mais a contento ao herético.

A sua obra intitulada de Tractatus Theologico-Politicus traz como princípio básico o fato de que a linguagem da Bíblia é repleta de metáforas, ou alegorias, não somente porque compartilha da tendência dos orientais para o seu ornamento literário e o exagero descritivo, mas também porque os profetas e apóstolos eram forçados a cortejar o gosto popular, com o fim de impressionar as imaginações, com as Escrituras sendo primariamente elaboradas para um certo povo e secundariamente para toda a espécie humana, em consequência tinham que ser adaptadas o máximo possível à compreensão das massas, no entanto elas não explicam as coisas pelas suas causas, apenas as descrevem na ordem e no estilo mais próprios para impelir os homens à devoção, sobretudo os não educados, em que o seu objeto não é convencer a razão, mas sim empolgar a imaginação, daí a abundância de milagres e as constantes aparições de Jeová, o deus bíblico, dizendo assim:

As massas querem que o poder e a providência de Deus sejam mais demonstráveis com o desdobramento de fatos extraordinários, que contrariam a concepção corrente dos fenômenos naturais… Supõem, na realidade, que Deus se conserva inativo, enquanto as natureza age de maneira normal, e vice-versa, que o poder da natureza e as causas naturais ficam de lado quando Deus entra a agir, imaginam pois os dois poderes distintos entre si”.

Neste ponto vamos encontrar o sentimento básico de Spinoza, que Deus e a natureza são apenas um, mas os homens são propensos a crer que em benefício deles Deus, no caso o deus bíblico, rompe a ordem natural das coisas, assim os judeus deram uma interpretação miraculosa da dilatação do dia com o fim de impressionar aos outros, ou talvez a si próprios, e provar que eram eles os favoritos de Jeová, o deus bíblico, incidentes como este abundam na história primitiva de todos os povos.

Sendo interpretada literalmente, a Bíblia se mostra repleta de erros, contradições e óbvias impossibilidades, como as do Pentateuco escrito por Moisés. Já a interpretação filosófica revela através da névoa das alegorias da poesia o pensamento profundo de grandes pensadores e chefes, e torna compreensível a persistência da Bíblia e a sua enorme influência sobre os homens. Nessas duas interpretações, o povo sempre exigirá um credo imaginoso, aureolado do sobrenatural, e se uma dessas formas de fé credulária for destruída, ele criará outra.

Mas para Spinoza o filósofo sabe que Deus e a natureza são a mesma coisa, agindo necessariamente e de acordo com as leis invariáveis. Na realidade, Deus é o Todo, em que do Ser Total vem todas as partículas, que são os seres, juntamente com os seus corpos fluídicos, parcelas das propriedades da Força e da Energia, que formam toda a natureza, do ser atômico ao ser humano, com a diferença que este último possui também o corpo de luz formando a sua alma, já que ele evolui também por intermédio da propriedade da Luz.

O sentimento de Spinoza de que Deus e a natureza são a mesma coisa nos leva diretamente ao pampsiquismo, doutrina setecentista notabilizada especialmente pelo racionalista Leibniz, segundo a qual a matéria possui uma essência espiritual ou anímica, ou seja, um sentimento racional que acredita que todas as coisas têm uma natureza psíquica, ou seja, uma alma, o que é uma realidade, por isso a matéria não existe, sendo apenas uma mera ilusão.

Mas o erro em que incidem muitos pampsiquistas é a supressão da identidade de Deus, quando afirmam que Ele é a própria natureza, uma vez que Deus é formado de Essência e Propriedades, em que a Essência é o Ser Total, e as Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total. Então todo o Universo é formado pelas partículas das propriedades da Força Total e da Energia Total, que formam as estrelas, de onde emanam os fluidos, em que da propriedade da Força vem o espaço, as leis e o magnetismo, da propriedade da Energia vem o tempo, os princípios e a eletricidade, e de ambas em conjunto vêm o próprio Universo, os preceitos e o eletromagnetismo, sabendo-se que o Universo é todo fluídico. E a propriedade da Luz penetra todo o Universo, o qual se encontra contido totalmente em Deus. Enquanto que os mundos são formados pelos seres, partículas do Ser Total, que orbitam ao redor das estrelas, cujos mundos formam a natureza propriamente dita. É justamente por isso que o Racionalismo Cristão afirma que Deus é a Inteligência Universal. Então não se pode suprimir a identidade da Inteligência Universal.

Em sendo um veritólogo, torna-se óbvio que Spinoza segue, sobremaneira, a propriedade da Força, em que dela vêm as leis, sendo por isso que ele as obedece e reverencia, pois sabe que nas Escrituras o deus bíblico “é descrito como sendo um legislador ou príncipe, dotado de piedade, senso de justiça, etc., meramente por concessão à ignorância e ao fraco entendimento do povo”, como ele mesmo diz, e continua a dizer que, “na realidade, Deus age pela necessidade de sua natureza, e os seus decretos são verdades universais”.

Spinoza não faz a separação entre o Velho e o Novo Testamentos, considerando que o credo dos judeus e dos cristãos se tornam um único, sempre que a interpretação filosófica mostra a mesma essência e origem em fatos rivais, sendo postas de lado as desinteligências filhas do ódio, quando então afirma o seguinte:

Sempre me admirei de que pessoas atreitas a se exaltarem como fiéis praticantes do credo cristão — quer dizer, praticantes do amor, da alegria, da paz, da temperança e da caridade para com todos os homens — disputassem com tão rancorosa animosidade, e diariamente denunciassem tanto ódio, em vez das virtudes que professam”.

Os judeus sobreviveram apesar do ódio que os falsos cristãos lhes votavam, em que a perseguição lhes deu a unidade e a solidariedade necessárias a uma contínua existência racial, pois sem as perseguições eles teriam se misturado com os outros povos da Europa, perdendo-se na massa que os envolvia. Mas não há razão para que o judeu e o falso cristão não cheguem a um acordo em matéria de credo, depois de afastada toda a insensatez, de modo a viverem em paz e em cooperação.

Para Spinoza, o primeiro passo a ser dado nessa direção seria uma compreensão idêntica de Jesus, o Cristo, vide a categoria intitulada de A Cristologia neste site, pois estando arredados os dogmas eivados de improbabilidades, os judeus reconheceriam a Jesus, o Cristo, como sendo o maior e o mais nobre dos profetas, quando, na realidade, ele não era um profeta, que não existe, mas sim um autêntico ratiólogo. De qualquer maneira, Spinoza não aceita a divindade de Jesus, o Cristo, porém o coloca como sendo o primeiro dos homens, quando diz o seguinte:

A eterna sabedoria de Deus… mostra-se em todas as coisas e em Jesus, o Cristo, mais que em tudo… Cristo foi mandado não só para ensinar aos judeus, mas a toda a espécie humana.. Acomodou-se à compreensão do povo… e com tanta frequência falava por parábolas”.

Spinoza considera que a ética de Jesus, o Cristo, é quase sinônimo de sabedoria, pois, de fato, a moral se alia à verdade, enquanto que a ética se alia à sabedoria. E assim ele reverencia ao Nazareno, considerando que ele se alça ao amor intelectual de Deus. Assim, a figura nobre de Jesus, o Cristo, libertada dos impedimentos dos dogmas que só conduzem a disputas e divergências, arrastará para si todos os homens, e talvez em seu nome um mundo torturado de guerras suicidas e ódios encontre afinal a unidade da fé, da fé racional, diga-se de passagem, e a possibilidade da irmanação.

Embora muitos autores utilizem linguagens obscuras em suas obras filosóficas, aqueles que são mais dados a leituras não devem esmorecer diante dessas linguagens sibilinas, pelo contrário, devem se revestir de uma coragem incomum para tentar desvendar os segredos da vida e os enigmas do Universo, assim como fez Spinoza, que nos conta como abandonou a tudo na vida pela Filosofia, da seguinte maneira:

Depois que a experiência me ensinou que todas as coisas comuns da vida são fúteis e vãs, e quando vi que todas as coisas que eu temia e que me temiam nada tinham de bom ou de mau em si, salvo no que pudesse afetar ao espírito, determinei inquirir se não havia algo verdadeiramente bom, capaz de comunicar a sua bondade e por meio da qual o espírito pudesse ser impressionado com exclusão de tudo o mais. Determinei investigar se me era possível descobrir e atingir a faculdade do gozo eterno de uma contínua felicidade… Atentei nas vantagens que as honras e as riquezas conferem e vi que eu teria de se excluído da sua aquisição, caso desejasse seriamente investigar o meu assunto… Mais um homem possui honras e riquezas, mais o seu prazer cresce, e em consequência mais e mais as procura aumentar, e quando não as alcança o sofrimento é profundo. A fama tem isso contra si, que se as procuramos temos de dirigir a nossa vida de modo a agradar à fantasia dos homens, evitando aquilo que os desgoste e fazendo aquilo que lhes agrade… Mas a dedicação a uma coisa eterna e infinita, unicamente ela nos dá ao espírito um prazer contínuo, livre de decepções… O maior dos bens é o reconhecimento da união do espírito com o Universo… Quanto mais o espírito sabe, mais compreende a sua força e a ordem da natureza; quanto mais compreende a sua força, mais apto será para se dirigir e estabelecer as suas regras; e quanto mais compreende a ordem da natureza, mais facilmente será capaz de se libertar das coisas inúteis; aqui está todo o método”.

Note-se que Spinoza era um veritólogo, portanto para ele somente do conhecimento vem o poder e a liberdade, mas se a felicidade contínua se encontra na percepção do conhecimento, há também o reconhecimento na obtenção da compreensão, já que ele era mais perceptivo do que compreensivo, mas que esta última tem também o seu valor. E se ele era mais perceptivo do que compreensivo, para o seu modo de vida em busca da verdade ele estabelece uma simples regra de vida com a qual se conformou fielmente, qual seja:

  1. Falar de maneira compreensível ao povo e por ele fazer tudo quanto não nos prive de alcançar os nossos objetivos;
  2. Gozar unicamente os prazeres necessários à conservação da saúde;
  3. Por fim, ganhar unicamente o necessário para a manutenção da vida e da saúde, e para o custeio do que não se oponha ao que procuramos.

É certo que o criptoscópio é o órgão mental que busca captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, valendo-se da percepção, enquanto que o intelecto é o órgão mental que busca criar as experiências físicas acerca da sabedoria, valendo-se da compreensão. Mas tendo o seu intelecto também desenvolvido, não tanto quanto o seu criptoscópio, Spinoza se defrontou com as seguintes indagações:

  1. Como posso saber se o meu conhecimento é realmente conhecimento?
  2. Como posso confiar em meus sentidos quanto ao material que levam à razão?
  3. A minha razão merece confiança na sua apreciação desse material trazido pelos sentidos?
  4. Não será prudente examinar o veículo antes de nos confiarmos a ele?
  5. Não será prudente fazermos o possível para melhorá-lo?

Sendo um veritólogo ignorante da existência e da função dos órgãos mentais, o que é natural, Spinoza vem afirmar que “Antes de mais nada, um meio tem que ser encontrado para melhorar e clarificar o intelecto”. Esse meio encontrado para melhorar e clarificar o intelecto diz respeito ao fato de que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, de responsabilidade do criptoscópio, têm que ser transmitidos com a inserção de experiências físicas acerca da sabedoria, de responsabilidade do intelecto, formando assim uma saperologia, ou uma filosofia, como queiram, para que assim os conhecimentos possam fazer eco na compreensão.

Spinoza era um autêntico veritólogo, por isso ele se ocupava mais dos conhecimentos, fazendo valer o seu criptoscópio. E em relação aos conhecimentos ele considerava o seguinte:

  1. Há os conhecimentos por ouvir dizer, como o que faz conhecer do dia em que se nasce;
  2. Há vagas experiências, conhecimentos empíricos no sentido depreciativo, como quando um médico sabe que um tratamento não possui base científica, mas que por impressão geral é usualmente empregado;
  3. Há a imediata dedução, ou conhecimentos obtidos pelo raciocínio, como quando se conclui sobre a imensidade do Sol com base na diminuição dos objetos à medida que deles nos afastamos. Este tipo de conhecimento é superior aos anteriores, mas ainda assim sujeito a súbitas refutações da experimentação direta, por milhares de anos a ciência raciocinou deste modo sobre um éter, que agora já não encontra nenhum favor entre os físicos;
  4. A melhor forma de conhecimento é a que provém da imediata dedução e direta percepção.

Na Ética, Spinoza reduz as duas primeiras formas de conhecimento a apenas uma, e denomina conhecimento intuitivo à percepção das coisas sob a forma de eternidade, ou em suas relações eternas, vide o tópico 23.01- A mediunidade de intuição, contido em Prolegômenos. Daí a fundamental distinção do veritólogo entre a ordem temporal — o mundo das coisas e incidentes — e a ordem eterna — o mundo das leis e da estrutura. Nós podemos considerar a ordem temporal como sendo a ordem das experiências, constituído de princípios mutáveis; e a ordem eterna, mais propriamente a ordem espacial, como sendo a ordem dos conhecimentos, constituído de leis imutáveis.

É notável a percepção que Spinoza tem de Deus, afastando-se rigorosamente de Jeová, o deus bíblico, para considerá-Lo como sendo o Todo, assim como se Ele estivesse contido em todas as coisas e todas as coisas Nele estivessem contidas. Vejamos o que ele diz sobre Deus:

Tenho uma vista de Deus e da natureza totalmente diversa da que os cristãos em regra propõem, porque afirmo que Deus é a causa imanente de todas as coisas e não causa externa. Digo: tudo está em Deus, tudo vive e se move em Deus. E isto mantenho com o apóstolo Paulo e talvez com cada um dos filósofos da antiguidade, embora de maneira diversa. Poderei ainda me aventurar a dizer que as minhas vistas são as mesmas dos velhos hebreus, como pode ser inferido de certas tradições por mais alteradas e falsificadas que tenham sido. Constitui, porém, erro completo se dizer que o meu propósito… é mostrar que Deus e a natureza são uma e a mesma coisa. Nunca tive tal intenção”.

Como se pode claramente constatar, Spinoza não era um pampsiquista no sentido de considerar a Deus como sendo a natureza e suprimir a Sua identidade. Não, nós somos os seres do Ser Total, as parcelas de Força da Força Total, as parcelas de Energia da Energia Total e as parcelas de luz da Luz Total, esta última quando alcançamos a condição de espíritos, por isso somos as coisas da Coisa Total, e como somos inteligências, somos as inteligências da Inteligência Total, ou da Inteligência Universal, como assim Luiz de Mattos, o veritólogo maior, chamava a Deus, e a Inteligência Absoluta não pode ser suprimida ao ser comparada com a natureza, a qual é formada unicamente por seres, dos seres atômicos aos seres humanos.

Embora não procurasse adentrar a fundo na espiritualidade, ou não reunisse as condições propícias para tanto, Spinoza não considera que o espírito seja material e nem que a matéria seja mental, mas passa a confundir o espírito com o corpo, pois considera que o processo cerebral não é causa ou efeito do pensamento, nem os dois processos são independentes e paralelos, porque não existem dois processos vistos internamente como pensamento e externamente como ação, existindo apenas uma entidade, ora vista internamente como espírito, ora externamente como matéria, mas na realidade uma indissociável mistura de ambos. Assim, para Spinoza, espírito e corpo não atuam um sobre o outro porque são um e outro, quer dizer, são um só, consoante as suas palavras, quando diz:

O corpo não pode determinar o cérebro a pensar, nem o cérebro pode determinar o corpo a entrar em movimento ou cair em repouso… a decisão do espírito e o desejo e a determinação do corpo são uma e a mesma coisa”.

Na realidade, as parcelas das propriedades da Força e da Energia formam a alma, que se denomina de corpo fluídico, ou perispírito, ou duplo etéreo, o qual é a matriz do corpo físico, que por sua vez é formado por seres, com cada um tendo a sua função específica, por isso obedecem às injunções da sua matriz em suas regulações. Para tanto o corpo fluídico se liga ao corpo físico por intermédio dos cordões fluídicos, que ficam ligados ao cérebro, onde transmitem todas as atividades mentais, e ao coração, onde transmitem todas as atividades corporais. Sem esquecer que a alma é formada pelo corpo fluídico, que são parcelas das propriedades da Força e da Energia, e pelo corpo de luz, que são parcelas da propriedade da Luz.

Dá-se a denominação de monística a doutrina que explica todos os fenômenos do Universo como sendo simples variações de uma só e mesma substância, afirmando que há apenas uma substância única, eis aqui o dogma fundamental do monismo, mas essa substância única se transforma continuamente, e é das sucessivas transformações por que passa que resultam todos os fenômenos em que se desdobra a natureza em seu eterno desenvolvimento. É o que se diria da linguagem de Spinoza, o verdadeiro fundador do monismo, já que defendeu que Deus e a natureza eram dois nomes para a mesma realidade, embora distintos, mais propriamente a única substância em que consiste o Universo e da qual todas as entidades menores constituem modalidades ou modificações, afirmando que Deus e a natureza eram seres de infinitos atributos, entre os quais a extensão e o pensamento eram apenas dois desses atributos conhecidos por nós neste mundo.

 

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