02.03- Os talentos

A Adm. de Empresas
16 de junho de 2020 Pamam

Estando compreendido que as vocações se manifestam como o resultado das obrigações naturais exercidas no pretérito, apresentando-se como sendo uma disposição inata, uma aptidão para o seu exercício no futuro, e estando circunscritas ao âmbito da tendência, da propensão, ou da inclinação para elas, é porque elas, as vocações, sendo distintas das próprias obrigações naturais, não passam de efeitos ou de consequências destas. E em as vocações não passando de efeitos ou de consequências das obrigações naturais, é de se indagar:

Qual é então a ligadura, o vínculo, o laço, que serve para unir ou associar as obrigações naturais com as suas respectivas vocações?

Antes de tudo, é preciso que se saiba que essa ligadura decorre do fato, já mencionado, de que as obrigações naturais exercidas pelos espíritos no decorrer de várias encarnações, ensejam a que eles adquiram e acumulem um cabedal considerável de conhecimentos e de experiências em relação a elas, que são conjugados com os atributos que lhes são inerentes.

O exercício contínuo dessas obrigações naturais por parte de alguns espíritos, proporciona ainda, como resultado, um acúmulo de conhecimentos e de experiências cada vez maior no cabedal daqueles já adquiridos, ensejando a que eles não somente se aperfeiçoem cada vez mais, como também se diferenciem em relação aos demais, no desempenho do poder e das ações a elas inerentes.

Agora sim, sabendo-se do fato de que os espíritos podem adquirir e acumular um enorme cabedal de conhecimentos e de experiências em relação a determinadas obrigações naturais que foram exercidas no pretérito, a sua decorrência é a de se afirmar que eles, encontrando-se em pleno destaque no exercício das suas obrigações naturais, estão a exercer um talento, que é justamente a ligadura, o vínculo, o laço, que serve para unir as obrigações naturais com as vocações.

Mas ainda se pode observar que nunca se diz que esses espíritos estão exercendo simplesmente um talento, mas sim e sempre um talento natural, mesmo que, teoricamente, desconheça-se que essa naturalidade seja originária das próprias obrigações naturais, por serem elas quem proporcionam os conhecimentos e as experiências necessários e específicos — que são as germinadoras do aperfeiçoamento do próprio talento — para que os espíritos possam operar e influenciar sem maiores restrições neste mundo.

E caso isso não baste para que se compreenda que os espíritos estão simplesmente exercendo um talento natural, a certeza de que todos os nossos conhecimentos e de que todas as nossas experiências são decorrentes dos nossos próprios poderes e das nossas próprias ações, respectivamente, leva-nos a afirmar que eles, estando de acordo com as leis e os princípios em relação à natureza, conforme a sua singeleza, estão também a seguir uma ordem natural, ou a força regular que orientam as coisas, que, em outras palavras, é a própria naturalidade em si. E aqui fica evidente porque o talento, sendo natural, não pode deixar de também ser ingênito, inato, posto que nascido com a pessoa, em face da existência do atavismo psíquico.

O talento, então, pode ser compreendido como sendo um enorme cabedal de conhecimentos e de experiências, que proporciona ao espírito detentor de todo esse cabedal, uma grande capacidade e uma extrema habilidade no exercício de uma ou mais obrigações naturais, em conformidade com os seus atributos.

Sabendo-se que é a própria obrigação natural quem determina o campo e as condições para a aquisição do talento pelo espírito, através dos conhecimentos e das experiências necessários que proporcionam e especificam a sua competência no assunto, a proposição que se deduz necessariamente da expressão deste juízo, é a de que, desde que ele possua o talento, é porque também possui a disposição, a aptidão, ou seja, a vocação para o exercício da obrigação natural relacionada a esse talento, obrigação natural essa que deve ser pronunciada e distinta das demais, uma vez que ela, e somente ela, encontra-se diretamente relacionada aos próprios conhecimentos e às próprias experiências que foram adquiridos, por isso foi ela quem proporcionou e especificou tudo ao espírito.

Portanto, quando se diz que um espírito, ao encarnar, traz consigo a sua vocação, isso quer dizer que ele traz consigo a sua disposição ou a sua aptidão inata para uma determinada obrigação natural. E isso ainda quer dizer que ele também traz consigo um talento, isto é, um cabedal de conhecimentos e de experiências necessários para o exercício dessa obrigação natural para a qual tem vocação. Não esquecendo que os atributos sempre têm que se encontrar presentes.

Quanto maior for a vocação, tanto maior será o talento, pois ambos são diretamente proporcionais. E à medida que se elevam as grandezas dessa proporção direta, igualmente se elevam a capacidade e a habilidade do espírito no exercício da respectiva obrigação natural, com ele tendendo a obter sempre o máximo de rendimento com o mínimo de esforço em suas ações.

É por isso que quando um espírito abdica de grandes facilidades colocadas à sua disposição, quando contraria a todos os tipos de conselhos e interesses, quando emprega um imenso esforço e suporta grandes sacrifícios com o propósito de exercer uma obrigação natural, dizemos que esse espírito está procurando seguir a sua tarefa vocacional e assim exteriorizar o seu talento.

E se ele realmente for detentor dos atributos espirituais que forem sendo requisitados no decorrer de toda a sua luta, com certeza irá contrariar a opinião de quem quer que se manifeste contra os seus ideais, e triunfará na sua empreitada, sem se importar com o juízo que dele possa este mundo insensato fazer. Em virtude desta realidade, é muito importante que cada um aprenda a penetrar no âmago da sua própria alma, a fim de que possa verificar se o entusiasmo que manifesta é proveniente da sua real vocação, ou, apenas, de fundo vaidoso.

Nós vemos no cotidiano da vida, as vocações se manifestarem nos espíritos para que eles exerçam os seus talentos por intermédio das mais diferentes obrigações naturais. Observamos com frequência, apenas para efeito de ilustração, aqueles com vocação para a Matemática, ou para a Física, ou para a Química, ou para a Biologia, ou para a Engenharia, ou para a Administração, ou para a Medicina, ou para o Direito, ou para a Literatura, ou para a Música, etc. E, normalmente, quando a força dessas vocações se faz líder das ações desses espíritos, eles sempre encontram um meio para segui-las, não importando as dores, os sofrimentos, as alegrias, as tristezas, as satisfações, ou o que quer que seja que sirva de estímulo ou desestímulo dessas suas ações, pois que o fundamental para eles é o seguir da vocação, sabedores que são que há sempre um caminho que se destina ao seu cumprimento, e que esse caminho é apenas deles conhecido. Podendo até acontecer que o talento seja um tanto quanto limitado.

As academias e as sociedades científicas, geralmente denominadas de institutos, acolhem aqueles com vocação para a Matemática, a Física, a Química, a Biologia, etc. Os estabelecimentos públicos e particulares de ensino, normalmente denominados de escolas, acolhem aqueles com vocação para a Engenharia, a Administração, etc. As universidades que professam ciências, comumente conhecidas como faculdades, acolhem aqueles com vocação para a Medicina, o Direito, a Literatura, etc. Os locais de instrução destinados a propagar determinados conhecimentos artísticos, habitualmente denominados de conservatórios, acolhem aqueles com vocação para a Música, a Pintura, etc. Embora hoje em dia haja uma mescla entre todos eles. Não considerando aqui os cursos profissionalizantes, que também têm a sua real importância no contexto da instrução, assim como os demais cursos médios.

No entanto, apesar da existência de todos esses locais de ensino, que proporcionam aos espíritos o estudo e a prática, quer dizer, os meios criptoscopiais e intelectuais necessários para o desempenho das suas obrigações naturais, vemos, com frequência, muitos desses espíritos, com vocações afloradas para todas essas atividades ilustradas, após serem acolhidos por esses centros de ensino, e, ao término dos seus cursos, já em pleno exercício das suas respectivas profissões, tornarem-se medíocres, mercenários, vaidosos, corruptos, depravados, ridículos, e outras adjetivações tais. Ao que se deve indagar:

Por que tanto desperdício de talentos? Por que tantas profissões desprovidas ou carentes dos seus verdadeiros artistas?

A resposta para tais perguntas nos fornece Luiz de Souza, em termo, quando diz que as vocações podem ser desvirtuadas, quando fortes tendências individuais dominem a força de vontade. Quando essas tendências pendem para o lado mau, por absoluta falta de atributos espirituais superiores e positivos, surgem, como exemplo, os políticos e os servidores públicos corruptos, os tubarões da economia, os advogados desonestos e mentirosos, os médicos mercenários, os habilidosos batedores de carteira, os técnicos do roubo e do assalto, os engenhosos planos usurpadores, enfim, a ciência do crime. Por aqui se pode constatar plenamente que os atributos comandam a nossa inteligência, em todos os setores da vida.

Já foi dito que os atributos adquiridos no exercício das obrigações naturais, que dizem respeito diretamente às atividades essenciais do espírito, são imprescindíveis para o exercício das obrigações naturais que dizem respeito às atividades de relação com este planeta e com os semelhantes. E que, seguindo a lógica desta concepção, ninguém de bom senso iria se dignar em aceitar com resignação o fato de alguns espíritos poderem operar e influir sobre o meio de uma forma direta e intensa, interferindo com relevância na sobrevivência material dos semelhantes e na organização da vida no planeta, sem que para tanto tivessem adquirido o devido preparo espiritual.

É, portanto, a falta do preparo espiritual necessário para o exercício das profissões, um dos grandes fatores responsáveis pelos males da nossa humanidade. E é justamente com base nesse fator que se esteia a afirmativa do autor de que “as vocações podem ser desvirtuadas, quando fortes tendências individuais dominem a força de vontade”, pois quando os espíritos, ao invés de procurarem o reino espiritual, que os capacitam aos cumprimentos das obrigações naturais e também dos deveres, procuram o reino da matéria, que os conduzem à ânsia insana de desfrutar dos seus gozos efêmeros, ilusórios, tendem sempre para o mau, e “quando essas tendências pendem para o lado mau, surgem, como exemplo, os políticos e os servidores públicos corruptos, os habilidosos batedores de carteira, os técnicos do roubo e do assalto, os engenhosos planos usurpadores, enfim, a ciência do crime”, conforme complementa o autor.

A grande diferença que existe entre os atributos espirituais necessários para o exercício das obrigações naturais e os conquistados até hoje, no exercício das profissões, deve-se à ignorância da vida espiritual. É preciso, então, que se estabeleça o equilíbrio de qualquer maneira, para que não se permita que a balança penda demasiadamente apenas para um lado, a fim de que esta questão não se decida de maneira favorável e definitiva para uma das partes, que é justamente a parte da matéria, onde reside todo o mal encontrado neste mundo, em função da ignorância.

Se a nossa humanidade não conseguir estabelecer esse equilíbrio, onde o rico egoísta de outrora é o pobre ou o favelado de hoje, onde o servidor público corrupto de outrora é o desempregado de hoje, e tantas e tantas outras contradições da vida, equilíbrio esse somente possível através do Racionalismo Cristão, a civilização atual fatalmente fracassará, como já fracassaram tantas outras, sufocadas pelo materialismo grosseiro em que se encontravam.

Portanto, é preciso que todos se libertem da ignorância em que vivem, que se esclareçam em relação à vida espiritual, ou da vida fora da matéria, que tornem a consciência de que cada um, sem uma única exceção, fazendo parte integrante de Deus, como partícula Sua que é, em essência, que compreendam que é através Dele que, aos poucos, vão-se acessando maiores parcelas das Suas Propriedades, na medida exata em que delas forem se fazendo merecedores, por intermédio do cumprimento das leis espaciais, dos princípios temporais e dos preceitos universais, que regem a evolução de todos os seres, até se confundirem com Ele próprio, ao conquistarem a finalidade da evolução na onipotência, na onipresença e na onisciência. Sendo para tal fim que cada um, simplesmente, existe, na grande finalidade evolutiva, pois que a nossa existência é eterna e universal.

Em razão disso, se cada um existe, não pode existir com o fim em si mesmo, mas sim no todo do qual faz parte integrante, que é a nossa humanidade. Em decorrência, não pode também se bastar a si mesmo, uma vez que, quer queira, quer não, é obrigado a conviver com os próprios semelhantes e a se adaptar ao meio ambiente em que vive. Então é o todo humano que deve proceder o seu retorno para o Criador, em seu conjunto, e não individualmente. Atira-se assim, por terra, o instituto esdrúxulo da salvação.

 

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