03- A RENASCENÇA

A Era da Verdade
26 de setembro de 2019 Pamam

Nós vimos que Jesus, o Cristo, veio a este mundo para estabelecer o instituto do Cristo no seio da nossa humanidade, quando nessa ocasião decretou o final de A Era da Sabedoria e estabeleceu o início de A Era da Verdade. Pelo fato dele ser um dos dois expoentes da sua humanidade, quando na ocasião assumiu a condição do seu Antecristo, ele se integrou à nossa humanidade com o intuito de formular um plano para a nossa espiritualização, tendo que encarnar várias vezes neste nosso mundo-escola para a concretização do seu fabuloso plano espiritualizador, quando então encarnou como Hermes, no Egito, como Krishna, na Índia, como Confúcio, na China, como Platão, na Grécia, e, finalmente, como Jesus, na Palestina, quando então alcançou a condição do Cristo, estabelecendo esse instituto no seio da nossa humanidade.

Em sua última encarnação como Jesus, o Cristo, ficou bastante evidenciada a imensa supremacia da sua evolução espiritual em relação aos integrantes da nossa humanidade, com todos ficando atônitos com a grandeza da sua sabedoria em relação ao povo, além da verdade e da razão contida em suas palavras, algo que ainda não tinha acontecido no decorrer da história desta nossa última e definitiva civilização, e caso ele não tivesse sido assassinado pelos membros do Sinédrio, sob as expensas de Hanã, movido por ciúmes atrozes de Maria Madalena, que deixou a sua condição de amante do velho ciumento para segui-lo, muito mais verdade e sabedoria ele teria nos trazido, embora tivesse falado em um linguajar ameno e rústico para que o povo ignorante pudesse entendê-lo, já que seria inútil falar às claras.

Esse impacto causado pela encarnação de Jesus, o Cristo, em que ele estabeleceu o instituto do Cristo no seio da nossa humanidade, mas não o cristianismo, uma vez que nesse tempo os seres humanos ainda não se encontravam preparados para tamanho salto na espiritualidade, o que ocorre até aos dias de hoje, proporcionou a que ele fosse endeusado, dando origem ao falso cristianismo, em que a Igreja Católica se assenhorou desse falso cristianismo, tendo por base o sobrenaturalismo, o misticismo e os dogmas contidos em sua doutrina, sendo tudo isso inexistente, fora do âmbito da realidade, por isso não acessível à compreensão humana, em que a percepção deslizava por completo em todas essas incongruências, tendo por isso sido estabelecida a fé credulária.

Nesse falso cristianismo, a fé credulária foi adotada para suprir os devaneios desses primeiros tempos após o Cristo, em que encarnaram muitos espíritos que buscavam a verdade, fazendo valer acima de tudo os seus criptoscópios, portanto, as suas percepções, ao arrepio da sabedoria, do intelecto e da compreensão, embora buscassem nos gregos suprir a essas deficiências, com todos sendo impregnados pelas doutrinas advindas do falso cristianismo, preponderando sempre um deus descrito pela Bíblia, o famoso Jeová, que não passa de um espírito tremendamente obsessor, embora alguns veritólogos conseguissem alcançar em seus escritos algo sobre o verdadeiro Deus, apesar se referirem a Jeová, o deus bíblico.

E assim surgiu a Idade da Fé, que compreendeu o período de 1 a 568, em que se acreditava na missão salvadora de Jesus, o Cristo, na sua ressurreição corporal e na sua volta para estabelecer o reino dos céus, que iria ser o fundamento maior do falso cristianismo inicial, embora o novo credo não vedasse que os apóstolos continuassem a aceitar o judaísmo, pois conforme consta em Atos, “todos os dias eles regularmente se encaminhavam para o Templo”, e, ao mesmo tempo, seguiam o regime alimentar, obedeciam às leis cerimoniais judaicas e no começo pregavam unicamente para os judeus, com frequência nos pátios do Templo.

Os seres humanos podem agora compreender as razões pelas quais os nossos antepassados, no barbarismo dos primeiros séculos do falso cristianismo, afastaram-se dos progressos proporcionados pelos gregos e romanos, refugiando-se nas sombras da fé credulária, que ainda hoje, praticamente após dois mil anos, por mais incrível que pareça, ainda é o refúgio de bilhões de seres humanos, que sem dar trato ao raciocínio, ainda são crentes no sobrenaturalismo, nos misticismos e nos dogmas inventados pela classe sacerdotal, seguindo a essa classe nociva e peçonhenta tais como se fossem mansos carneirinhos prontos para serem tosquiados.

Posteriormente surgiu a Idade das Trevas, que compreendeu o período de 568 a 1299, em que com a fé credulária se propagando rapidamente em todas as regiões do mundo, as mentes dos seres humanos passaram a estagnar em relação ao progresso evolutivo, passando a ser embrutecidas pela absoluta falta de raciocínio lógico, proporcionando desta maneira o surgimento do fanatismo em relação às suas crenças, por conseguinte, a intolerância em relação às crenças dos próprios semelhantes. Com base no fanatismo e na intolerância proporcionados pela fé credulária, os sacerdotes passaram a dominar toda a cultura dos primeiros séculos, pois que eles se consideravam como sendo os ministros de Jeová, o deus bíblico, como sendo os representantes de Jesus, o Cristo, na Terra, passando a formar um ambiente fluídico trevoso  totalmente afeito aos cultos e ritos credulários, mesclados com preces, jejuns e penitências, em que nesse ambiente fluídico trevoso estavam mergulhados os imperadores, reis e toda a classe política das diversas nações, inclusive os veritólogos, predominando assim em todo o planeta uma cultura totalmente voltada para o desenvolvimento do criptoscópio, no que se refere à percepção voltada para o âmbito da imaginação, abafando completamente as manifestações do intelecto, no que se refere à compreensão voltada para a vida, uma vez que os espíritos profundamente intelectuais não estavam encarnando neste período.

Assim, após a fé credulária haver conseguido se estabelecer na cultura da nossa humanidade nos primeiros séculos após a vinda de Jesus, o Cristo, proporcionando a existência do período denominado de Idade da Fé, ela passou a prevalecer nos séculos seguintes, proporcionando a existência do período denominado de Idade das Trevas. Através dos próprios registros históricos, fica devidamente comprovado que a fé credulária é aborrecente à alma, pois que ela traz consigo os primórdios da cultura humana, sempre na escuridão das trevas, servindo como o principal instrumento para que a classe sacerdotal possa semear a ignorância em todos os recantos deste planeta, pregando as suas mentiras sobrenaturais, dominando assim a cultura dos povos, sempre apoiada em livros ditos sagrados, sendo todos eles mentirosos, pois que transmitidos aos médiuns por espíritos obsessores, inclusive por Jeová, o deus bíblico, e por Alá, o deus alcorânico, sem jamais deixar de explorar monetariamente aos seus arrebanhados, pois que para isso ela tem o respaldo desses livros nefastos. Como decorrência triste e lamentável destes fatos, os terríveis sacerdotes vão ficando cada vez abastados, enquanto que os seus cretinos arrebanhados vão ficando cada vez mais abestados.

Vale aqui ressaltar para maiores esclarecimentos, que somente ao final de A Era da Verdade é que a verdade pôde ser finalmente estabelecida no seio da nossa humanidade, quando então Luiz de Mattos encarnou neste mundo e pôde finalmente fundar o Racionalismo Cristão, em 1910, que pode ser considerado em sua fundação e após como sendo o instituto da verdade. Posteriormente, com a minha encarnação, eu pude então alcançar a condição do nosso Antecristo, em que agora me encontro a explanar o Racionalismo Cristão, unindo, irmanando, congregando, a verdade e a sabedoria, alcançando finalmente a razão.

Então eu vim a este mundo como Pamam para decretar o final de A Era da Verdade e estabelecer o início de uma nova Grande Era, A Era da Razão, pondo um fim nesse falso cristianismo que é praticado até os dias de hoje. Na realidade, ninguém ainda pode ser considerado como sendo cristão, sendo todos anticristãos, pois que praticam um falso cristianismo. Primeiro, todos têm que ser antecristãos, seguindo aos ideais do Antecristo, que é justamente estabelecer um Estado Mundial no planeta Terra, tendo por base a verdade, a sabedoria e a razão. Somente com o meu retorno da humanidade que nos segue na esteira evolutiva do Universo, em que lá alcançarei a condição do Cristo, é que todos poderão ser realmente cristãos, praticando o amor espiritual, pois que já passaram pelo estágio do antecristianismo, tendo praticado a amizade espiritual.

Cabe aqui esclarecer esse Mistério da Santíssima Trindade, que foi estabelecido pelo falso cristianismo, em que existem três pessoas em uma só: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Na realidade, não existe mistério algum, apenas ignorância a respeito dos páramos da espiritualidade. Note-se que Jesus, tendo alcançado a condição do Cristo, chamou a Deus de Pai, por conseguinte, colocando-se na posição de Filho, pelo fato de haver alcançado um elevadíssimo estágio na evolução espiritual. Mas o fato é que somente ele pôde chamar a Deus de Pai, enquanto que nós ainda não alcançamos a esse estágio evolutivo de chamar a Deus de Pai, embora os sacerdotes e outros, assim como que palrando, venham a chamar ao deus bíblico de pai, em suas manifestas ignorâncias.

Temos então o Pai, que é o Deus verdadeiro, e o Filho, que no caso é o Cristo, embora todos nós sejamos partículas de Deus, do Ser Total, mas não ascendemos ainda ao estágio evolutivo de chamá-Lo de Pai. O Espírito Santo é um espírito altamente evoluído que transmite a verdade para a sua humanidade, sendo detentor da mais alta moral, portanto, puro, ou seja, sem manchas, máculas ou nódoas em seu espírito, pois caso não fosse assim não poderia se elevar ao Espaço Superior para lá perceber e captar a verdade, que no nosso caso em questão é Luiz de Mattos.

Jesus, o Cristo, já retornou para a sua própria humanidade, onde lá já se encontra o seu Espírito Santo em sua chefia, e com a sua presença fica estabelecida a Trindade: o Pai, o Filho e o Espírito Santo; em que nessa humanidade, a qual seguimos na esteira evolutiva do Universo, todos já podem ser considerados como sendo cristãos.

Mas em nossa humanidade, torna-se preciso que o nosso Antecristo se desloque para a humanidade que nos segue na esteira evolutiva do Universo, onde lá irá formular um plano para a sua espiritualização, tendo que encarnar várias vezes em seu mundo-escola para a consecução do seu plano espiritualizador, quando então, em sua última encarnação, alcançará a condição do Cristo, permanecendo integrado a essa humanidade até que seja estabelecido o seu Racionalismo Cristão, quando então retornará para a nossa humanidade na condição do nosso Cristo, será quando enfim teremos o Pai, o Filho e o Espírito Santo estabelecido em nosso seio, com todos podendo se considerar como sendo realmente cristãos.

Refazer tudo aquilo que se encontra impregnado nos perispíritos dos seres humanos que integram a nossa humanidade não é tarefa das mais fáceis, tendo tudo que ser elaborado aos poucos, em que o falso cristianismo prepondera na maioria das mentes até aos dias de hoje, tendo o seu início na Idade da Fé e na Idade das Trevas.

Tanto na Idade da Fé como na Idade das Trevas, os seres humanos se encontravam totalmente voltados para uma espiritualidade exacerbada, olvidando da natureza, estando dominados pelo falso cristianismo, com a Igreja Católica se arvorando de ser a mentora de tudo e de todos, então os seres humanos praticamente se esqueceram da vida terrena, vivendo uma vida espiritual tendo por base o sobrenaturalismo, os misticismos e os dogmas, o que implica em dizer que todos estavam vivendo uma vida que pode ser considerada como surreal, que denotava uma profunda estranheza, pois que pertencia ao domínio do devaneio da imaginação, voltado para o falso cristianismo. Os seres humanos precisavam se humanizar, daí a vinda da Renascença, com o seu Humanismo.

Em conformidade com os estudiosos do assunto, o Humanismo é um movimento intelectual difundido na Europa durante a Renascença, inspirado na civilização greco-romana, que valorizava um saber crítico voltado para um maior conhecimento do homem e para uma cultura capaz de desenvolver as potencialidades da condição humana. Já no âmbito filosófico, é considerado como sendo um conjunto de doutrinas fundamentadas de maneira precípua nos interesses, potencialidades e faculdades do ser humano, sublinhando a sua capacidade para a criação e a transformação da realidade natural e social, em que prepondera o livre arbítrio diante de pretensos poderes transcendentes, ou seja, sobrenaturais, místicos e dogmáticos.

Na realidade, nós somos espíritos que se encontram encarnados, o que nos torna seres humanos, então nós temos que viver de acordo com a espiritualidade, mas sem jamais esquecer os valores humanos, pois que neste mundo nós temos que nos relacionar com todos os seres que aqui se encontram deslocados dos seus mundos de origem para evoluir, com a exceção dos seres hidrogênios, que são os formadores originais deste planeta, sempre lapidando a nossa moral e a nossa ética, para que assim possamos nos tornar educados, sendo com base na educação que nós temos que aprimorar os nossos valores espirituais, sem que jamais venhamos a olvidar dos valores terrenos, pois que estamos vivendo no mundo Terra, que é o nosso mundo-escola, por isso ele tem muito que nos ensinar.

E assim, tendo continuidade o plano de espiritualização da nossa humanidade, formulado pelo Antecristo da humanidade que seguimos na esteira evolutiva do Universo, antes mesmo dele alcançar a condição do Cristo, ao encarnar como Jesus, encarnaram neste nosso mundo-escola muitos espíritos de natureza intelectual, que trabalhavam mais com os seus intelectos do que com os seus criptoscópios, com o fim de procederem às experiências humanísticas, tendo por base a individualidade, já que os criptoscopiais trabalham mais em grupos, fazendo surgir a ética, em contraposição à moral, em que todos esses intelectuais demonstravam um inusitado interesse pelo mundo a ser conquistado, a ser dominado, a ser vivido, em contraposição à espiritualidade exacerbada de natureza sobrenaturalística, mística e dogmática, ou seja, ao surrealismo, em que esses intelectuais procuravam os prazeres pelos meios humanos, em função do naturalismo proporcionado pela vida material.

Petrarca, que encarnou em 1304 e desencarnou em 1374, foi um intelectual, poeta e humanista italiano, sendo considerado o inventor do soneto, tipo de poema composto de quatorze versos, tendo sido baseado principalmente no seu trabalho que Pietro Bembo, no século XVI, criou o modelo para o italiano moderno, que mais tarde foi adotado pela Accademia della Crusca. Petrarca foi também um filólogo e pesquisador, sendo considerado como sendo o Pai da Renascença, tendo inspirado a filosofia humanista, acreditando no imenso valor prático e na imensa moral do estudo da História e da Literatura antigas, em que preponderaram o pensamento e a ação humanos.

A Renascença, então, cujo termo foi registrado pela primeira vez por Giorgio Vasari, no século XVI, um historiador que se empenhou em colocar Florença como sendo a protagonista de todas as inovações mais importantes, cujos escritos exerceram uma influência decisiva sobre a crítica posterior, diz respeito diretamente ao humanismo, cujo termo é utilizado para identificar o período da história da Europa a partir do século XIV, em que os estudiosos do assunto ainda não chegaram a um consenso acerca dessa cronologia, havendo variações consideráveis nas datas em conformidade com o autor, mas como a Idade das Trevas teve o seu final no ano de 1299, podemos então considerar o início renascentista a partir de 1300, em que começam a se operar as transformações mais evidentes na cultura, na sociedade, na economia, na política e no credo, caracterizando a transição do feudalismo para o capitalismo, portanto, uma evolução em relação às estruturas medievais, com os seus efeitos na Filosofia, nas artes e nas ciências.

Por isso os estudiosos do assunto denominam de Renascença, em função da revalorização das referências da Antiguidade Clássica, que compreende o mundo greco-romano, que nortearam um progressivo abrandamento das influências sobrenaturais, místicas e dogmáticas do falso cristianismo sobre a cultura e a sociedade, com uma crescente valorização da racionalidade, da ciência e da natureza, em que nesse processo o ser humano foi revestido de uma nova dignidade e colocado no centro da criação, sendo por isso que a principal corrente de pensamentos deste período foi denominada de Humanismo.

O movimento renascentista se manifestou primeiro na região da Toscana, tendo como principais centros as cidades de Florença e Siena, de onde se difundiu para o resto da península itálica e depois para praticamente todos os países da Europa Ocidental, sendo impulsionado pelo desenvolvimento da imprensa e pela circulação de artistas e obras. A Itália permaneceu sempre como sendo o local onde o movimento apresentou a sua expressão mais típica, porém manifestações renascentistas de grande importância ocorreram também na Inglaterra, França, Alemanha, Países Baixos e Península Ibérica.

Os estudiosos do assunto costumam dividir a Renascença em três grandes fases: Trecento, Quattrocento,  e Cinquecento; correspondentes aos séculos XIV, XV e XVI respectivamente, com um breve interlúdio entre as duas últimas fases denominado de Alta Renascença, em que abaixo se encontra um breve resumo dessas fases.

TRECENTO

O Trecento, que corresponde ao século XIV, representa a fase inicial do Renascimento na Itália, mais especificamente na região da Toscana, embora em vários outros centros tenha se verificado uma mudança de pensamento com vistas à humanização, como em Pisa, Siena, Pádua, Veneza, Verona e Milão, embora nesses locais os regimes de governo fossem conservadores para permitir mudanças culturais significativas. Mas coube a Florença assumir a vanguarda intelectual, conduzindo a transformação do modelo medieval para o moderno, apesar dessa centralização somente se tornar mais nítida ao final do Trecento.

É óbvio que os estudiosos do assunto ignoram completamente o plano de espiritualização da nossa humanidade, principalmente com a encarnação de muitos intelectuais que vieram a este mundo com o intuito de humanizar os povos, por isso a identificação dos elementos fundadores do Renascimento italiano teve que passar pelo estudo da economia e da política florentina, ressaltando os seus aspectos sociais e culturais, por isso existem muitos aspectos obscuros nesses estudos, cujo campo é recheado de controvérsias.

Entretanto, segundo Richard Lindholm, há um consenso bastante amplo de que o dinamismo econômico, a flexibilidade da sociedade frente a desafios, a sua capacidade de reação rápida em tempos de crise, a sua disposição em aceitar riscos e um sentimento cívico posto em larga escala, foram fatores determinantes para o florescimento cultural, arquitetônico e artístico que se desenhava e se fortalecia.

Com o poder criador dos intelectuais, o sistema de produção desenvolvia novos métodos, adotando uma nova divisão de trabalho e uma progressiva mecanização, em que a economia florentina era movimentada principalmente pela produção de tecidos, caracterizando-se como sendo uma economia estável, mas dinâmica, capaz de fazer adaptações radicais diante de imprevistos, como guerras e epidemias, em que um período favorável se iniciou por volta de 1330, e, após a peste de 1348, emergiu renovada e mais pujante, comercializando tecidos e roupas de alto padrão e sofisticação.

Mesmo que o falso cristianismo jamais tenha sido posto seriamente em xeque, já ao final do século XIV se iniciava um período de declínio progressivo no prestígio da Igreja e na capacidade do credo em controlar as pessoas, oferecendo um modelo coerente de cultura e sociedade, não só pelo contexto político, econômico e social laicizante, mas também porque os cientistas e humanistas passariam a buscar explicações racionais e demonstráveis para os fenômenos da natureza, questionando as explicações transcendentais, tradicionais ou folclóricas, e isso tanto fragilizava o cânone credulário como alterava as relações entre Jeová, o deus bíblico, o homem e o restante da criação. Desse embate, continuado e renovado ao longo de todo o Renascimento, o homem reemergiria bom, belo, poderoso, magnificado, e o mundo passaria a ser visto como um lugar bom para se viver.

A democracia florentina, por sua vez, por imperfeita que fosse, acabou se perdendo em uma série de guerras externas e de tumultos internos, e na década de 1370 Florença parecia rapidamente se dirigir para um novo governo senhorial. A mobilização da poderosa família Albizzi interrompeu esse processo, mas em vez de preservar o sistema comunal assumiu a hegemonia política e instalou uma república oligárquica, com o apoio de aliados do alto patriciado burguês. No mesmo momento se formou uma oposição, centrada nos Médici, que iniciavam a sua ascensão. Apesar da brevidade desses experimentos de democracia e da frustração de muitos dos seus objetivos ideais, o seu surgimento representou um marco na evolução do pensamento político e institucional europeu.

QUATTROCENTO

Depois de Florença ter experimentado momentos de grande brilho, o final do Trecento havia encontrado a cidade acuada pelos avanços do Ducado de Milão — um Estado do norte da Itália entre 1395 e 1796 —, tendo perdido vários territórios e todos os antigos aliados, além de haver sido cortado o acesso ao mar. O Quattrocento, no século XV, teve o seu início com as tropas milanesas às portas de Florença, depois de terem devastado a zona rural nos anos precedentes. Mas subitamente, em 1402, um novo episódio de peste matou o seu general Giangaleazzo Visconti, e impediu que a cidade sucumbisse ao destino de grande parte do norte e noroeste da Itália, desencadeando uma ressurgência do espírito cívico. A partir de então, os intelectuais e historiadores locais, inspirados também no pensamento político de Platão, Plutarco e Aristóteles, passaram a organizar e proclamar o discurso de que Florença havia mostrado uma “heroica resistência” e se tornado o símbolo maior da liberdade republicana, além de ser a mestra de toda a cultura italiana, chamando-a de Nova Atenas.

Combinando-se a conquista da independência com o humanismo filosófico que estava ganhando ímpeto, reuniam-se alguns dos principais elementos que asseguraram para Florença permanecer na vanguarda política, intelectual e artística. Contudo, pela década de 1420, as camadas populares se viram privadas da maior parte do poder que haviam conquistado, rendendo-se a um novo panorama político, dominado ao longo de todo o século pelo governo dos Médici, um governo nominalmente republicano, mas de fato aristocrático e senhorial. Isso foi uma decepção para os burgueses em geral, mas fortaleceu o costume do mecenato, fundamental para a evolução do classicismo. A tensão social nunca foi completamente abafada ou resolvida, e ela parece ter sido sempre um outro fermento importante para o dinamismo cultural da cidade.

A expansão da produção local de tecidos de luxo cessou na década de 1420, mas os mercados se recuperaram e voltaram a expandir em meados do século no comércio de tecidos espanhóis e orientais e na produção de opções mais populares, e não obstante as costumeiras agitações políticas periódicas, a cidade atravessou outro período de prosperidade e de intensificação no mecenato artístico, reconquistou territórios e comprou o domínio de cidades portuárias para reestruturar o seu comércio internacional. Conquistava a primazia política em toda a Toscana, apesar de Milão e Nápoles permanecerem como ameaças constantes. A oligarquia burguesa florentina então monopolizava todo o sistema bancário europeu e adquiria brilho aristocrático e grande cultura, enchendo os seus palácios e capelas de obras classicistas. A ostentação gerou descontentamento na classe média, materializada em uma reversão ao idealismo místico do estilo gótico. Estas duas tendências opostas marcaram a primeira metade deste século, até que a pequena burguesia abandonou as suas resistências, possibilitando uma primeira grande síntese estética que viria a transbordar de Florença para quase todo o território italiano, definida pela primazia do racionalismo e dos valores clássicos.

Enquanto isso, o humanismo amadurecia e se espalhava pela Europa através de Ficino, Rodolphus Agricola, Erasmo de Roterdão, Mirandola e Thomas More, enquanto Leonardo Bruni inaugurava a historiografia moderna e a ciência e a filosofia progrediam com Luca Pacioli, Janos Vitéz, Nicolas Chuquet, Regiomontanus, Nicolau de Cusa e Georg von Peuerbach, entre muitos outros. Ao mesmo tempo, o interesse pela história antiga levou humanistas como Niccolo de Niccoli e Poggio Bracciolini a vasculharem as bibliotecas da Europa em busca de livros perdidos de autores clássicos. Muitos documentos importantes, de fato, foram encontrados, como o tratado De Architectura, de Vitrúvio, discursos de Cícero, os Institutos de Oratória de Quintiliano, a Argonáutica, de Valério Flaco, e De Rerum Natura, de Lucrécio. A reconquista da Península Ibérica aos mouros também disponibilizou para os eruditos europeus um grande acervo de textos de Aristóteles, Euclides, Ptolomeu e Plotino, preservados em traduções árabes e desconhecidos na Europa, e de obras muçulmanas de Avicena, Geber e Averróis, contribuindo de modo marcante para um novo florescimento na Filosofia, Matemática, Medicina e outras especialidades científicas.  

O aperfeiçoamento da imprensa por Johannes Gutenberg, em meados do século XV, facilitou e barateou imensamente a divulgação do conhecimento para um público maior. O mesmo interesse pela cultura e ciência fez com que se fundassem grandes bibliotecas na Itália, procurando-se restaurar o latim, que havia se transformado em um dialeto multiforme, para a sua pureza clássica, tornando-o a nova língua franca da Europa. A restauração do latim derivou da necessidade prática de se gerir intelectualmente essa nova biblioteca renascentista. Paralelamente, teve o efeito de revolucionar a pedagogia, além de fornecer um substancial novo corpo de estruturas sintáticas e vocabulário para o uso dos humanistas e literatos, que assim revestiam seus próprios escritos com a autoridade dos antigos. Foi importante também o interesse das elites pelo colecionismo de arte antiga, estimulando estudos e escavações que levaram ao descobrimento de diversas obras de arte, impulsionando com isso o desenvolvimento da Arqueologia e influenciando as artes visuais.

Um vigor adicional nesse processo foi injetado pelo erudito grego Manuel Crisoloras, que entre 1397 e 1415 reintroduziu na Itália o estudo da língua grega, e com o fim do Império Bizantino, em 1453, muitos outros intelectuais, como Demétrio Calcondilas, Jorge de Trebizonda, João Argirópulo, Teodoro Gaza e Barlaão de Seminara, emigraram para a Península Itálica e outras partes da Europa, divulgando textos clássicos de Filosofia e instruindo os humanistas na arte da exegese. Grande proporção do que hoje se conhece da literatura e da legislação greco-romanas foi preservada pelo Império Bizantino, e esse novo conhecimento dos textos clássicos originais, bem como de suas traduções, foi, no entender de Luiz Marques, “uma das maiores operações de apropriação de uma cultura por outra, comparável em certa medida à da Grécia pela Roma dos Cipiões no século II a.C. Ela reflete, além disso, a passagem, crucial para a história do Quattrocento, da hegemonia intelectual de Aristóteles para a de Platão e de Plotino“. Nesse grande influxo de ideias foi reintroduzida na Itália toda a estrutura da antiga Paideia, um corpo de princípios éticos, sociais, culturais e pedagógicos concebido pelos gregos e destinado a formar um cidadão modelar. As novas informações e conhecimentos e a concomitante transformação em todas as áreas da cultura levaram os intelectuais a sentir que se achavam em meio a uma fase de renovação comparável às fases brilhantes das civilizações antigas, em oposição à Idade Média anterior, que no caso é a Idade das Trevas, que passou a ser considerada uma era de obscuridade e ignorância.

A morte de Lourenço de Médici, em 1492, que governara Florença por quase trinta anos, e que ganhou fama como um dos maiores mecenas do século, juntamente com o colapso do governo aristocrático, em 1494, assinalaram o fim da fase dourada da cidade. Ao longo do Quattrocento, Florença foi o principal — mas não o único — polo de difusão do classicismo e do humanismo para o centro-norte da Itália, e cultivou a cultura que veio a ganhar fama como a mais perfeita expressão do Renascimento e o modelo contra o qual todas as outras expressões foram comparadas. Essa tradição laudatória se fortaleceu depois de Vasari lançar no século XVI a sua obra intitulada de Vidas dos Artistas, o marco inaugural da historiografia da arte moderna, que atribuiu o claro protagonismo e a excelência superior aos florentinos. Esta obra teve larga repercussão e influiu nos rumos da historiografia por séculos.

ALTA RENASCENÇA

Cronologicamente, a Alta Renascença engloba os anos finais do Quattrocento e as primeiras décadas do Cinquecento, sendo delimitada aproximadamente pelas obras de maturidade de Leonardo da Vinci a partir de 1480 e o Saque de Roma em 1527. Nesse período, Roma assumiu a vanguarda artística e intelectual, deixando Florença em segundo plano. Isto se deve principalmente ao mecenato papal e a um programa de reformas e embelezamentos urbanos, que procurou revitalizar a antiga capital imperial à inspiração da glória dos césares, da qual os papas se julgaram os legítimos herdeiros. Ao mesmo tempo, como sede do papado e plataforma de suas pretensões imperialistas, reafirmava-se a sua condição de “Cabeça do Mundo”.

Isso se refletiu ainda na recriação de práticas sociais e simbólicas que imitavam as da Antiguidade, como os grandes cortejos de triunfo, as festas públicas suntuosas, as cunhagens de medalhas, as representações teatrais grandiloquentes, cheias de figuras históricas, mitológicas e alegóricas. Roma até então não havia produzido grandes artistas renascentistas, e o classicismo havia sido plantado através da presença temporária de artistas de outras partes. Mas com a fixação na cidade de mestres do porte de Rafael, Michelangelo e Bramante, formou-se uma dinâmica escola local, tornando a cidade o mais rico repositório da arte da Alta Renascença.

Nessa altura, o classicismo era a corrente estética dominante na Itália, com muitos centros importantes de cultivo e difusão. Pela primeira vez a Antiguidade era compreendida como sendo uma civilização definida, com um espírito próprio, e não como uma sequência de eventos isolados. Ao mesmo tempo, identificou-se esse espírito como muito próximo ao do Renascimento, fazendo com que os artistas e intelectuais sentissem de certa forma que podiam dialogar em pé de igualdade com os mestres do passado que admiravam. Haviam, enfim, “dominado” a linguagem recebida, e podiam agora usá-la com mais liberdade e compreensão.

Ao longo dos séculos, formou-se um amplo consenso de que a Alta Renascença representou o amadurecimento dos ideais mais caros de toda a geração renascentista anterior, do humanismo, da noção de autonomia da arte, da transformação do artista em um cientista e um erudito, da busca pela fidelidade à natureza e do conceito de gênio. Recebeu o nome de “Alta” por causa desse caráter alegadamente exemplar, de clímax de uma trajetória de ascensão contínua. Não poucos historiadores registraram testemunhos passionais de admiração pelo legado dos artistas do período, chamando-a de uma época “milagrosa”, “sublime”, “incomparável”, “heroica”, “transcendente”, sendo revestida pela crítica de uma aura de nostalgia e veneração por muito tempo. Assim como tem feito com todos os antigos consensos e mitos, a crítica recente vem se encarregando de desconstruir e reinterpretar mais essa tradição, considerando-a uma visão de certa forma escapista, esteticista e superficial de um contexto social marcado, como sempre foi, por enormes desigualdades sociais, tirania, corrupção, guerras vãs e outros problemas, como observou Brian Curran “uma bela, mas no fundo trágica fantasia“.

Essa supervalorização também tem sido criticada por se basear excessivamente no conceito de gênio, atribuindo todas as contribuições relevantes a um punhado de artistas e por identificar como “clássica” e como “a melhor” apenas uma determinada corrente estética, enquanto a revisão das evidências tem mostrado que tanto a Antiguidade como a Alta Renascença foram muito mais variadas do que a visão hegemônica alegava.

Porém, tem sido reconhecida a importância histórica da Alta Renascença como um conceito historiográfico que foi mais importante, mas ainda é muito influente, e tem sido reconhecido que os padrões estéticos introduzidos por Leonardo, Rafael e Michelangelo, principalmente, estabeleceram um cânone diferente dos seus predecessores e extremamente bem sucedido em sua aceitação, da mesma maneira se tornando referencial por longo período. Esses três mestres, apesar do revisionismo recente e da consequente relativização dos valores, ainda são considerados em larga escala como a expressão máxima do período e como a mais acabada encarnação do conceito de gênio renascentista. O seu estilo nesta fase é caracterizado por um classicismo muito idealizado e suntuoso, que sintetizava elementos seletos de fontes clássicas, especialmente prestigiadas, depreciando o realismo que algumas correntes do Quattrocento ainda praticavam. Hauser afirma o seguinte:

De acordo com os pressupostos desta arte, pareceria inconcebível, por exemplo, que os apóstolos fossem representados como camponeses vulgares e artesãos comuns, como o eram tão frequentemente e com tanto sabor, no século XV. Para esta arte nova, os profetas, apóstolos, mártires e santos são personalidades ideais, livres, grandes, poderosas e dignificadas, graves e solenes, uma raça heroica, no pleno florescimento de uma beleza madura e enternecedora. Na obra de Leonardo encontramos ainda tipos da vida comum, ao lado destas nobres figuras, mas gradualmente nada que não seja grande e sublime parece digno de representação artística“.

Ao longo do exílio dos papas em Avinhão, a cidade de Roma entrara em grande declínio, mas desde o retorno no século anterior os pontífices procuraram reorganizá-la e revitalizá-la, empregando um exército de arqueólogos, humanistas, antiquários, arquitetos e artistas para estudar e conservar ruínas e monumentos e embelezar a cidade, para que ela voltasse a ser digna do seu passado ilustre. Se havia se tornado um hábito para muitos renascentistas afirmar que estavam vivendo uma nova Idade Dourada, segundo Jill Burke, nunca antes isso foi reafirmado com tanto vigor e empenho como fizeram os papas Júlio II e Leão X, os principais responsáveis por tornar Roma um dos maiores e mais cosmopolitas centros artísticos europeus do seu tempo e os principais apregoadores da ideia de que em sua geração os séculos haviam atingido sua perfeição.

O corolário da mudança de mentalidade entre o Quattrocento e o Cinquecento é que enquanto naquele a forma é um fim, neste é um começo; enquanto naquele a natureza fornecia os padrões que a arte imitava, neste a sociedade precisará da arte para provar que existem tais padrões. A arte mais prestigiada se tornava pesadamente autorreferencial e afastada da realidade cotidiana, embora fosse imposta ao povo nos principais espaços públicos e no discurso oficial. Rafael resumiu os opostos em seu famoso afresco A Escola de Atenas, uma das mais importantes pinturas da Alta Renascença, que ressuscitou o diálogo filosófico entre Platão e Aristóteles, ou seja, entre o idealismo e o empirismo.

O classicismo desta fase, embora maduro e rico, conseguindo plasmar obras de grande pujança, tinha forte carga formalista e retrospectiva, e por isso vem sendo considerado por alguns críticos recentes como uma tendência conservadora e não progressista. O próprio humanismo, em sua versão romana, perdeu o seu ardor cívico e anticlerical e foi censurado e domesticado pelos papas, convertendo-o, em essência, em uma justificativa filosófica para o seu programa imperialista. O código de ética que se impunha entre os círculos ilustrados, uma construção abstrata e um teatro social na mais concreta acepção do termo, prescrevia a moderação, autocontrole, dignidade e polidez em tudo. O livro O Cortesão, de Baldassare Castiglione, é a sua súmula teórica.

Apesar do código de ética que circulava entre as elites, as contradições e falhas da ideologia dominante hoje são óbvias para os pesquisadores. O programa de embelezamento de Roma tem sido criticado como uma iniciativa mais destrutiva do que construtiva, que deixou uma série de obras inconclusas e arrasou ou modificou desnecessariamente monumentos e edifícios autênticos da Antiguidade. Essa sociedade permanecia autoritária, desigual e corrompida, e a julgar por algumas evidências, parece ter sido anormalmente corrompida, tanto que os seus críticos coevos consideraram o saque da cidade, em 1527, uma punição divina pelos seus crimes, pecados e escândalos. Neste sentido, o outro “manual didático” importante do período é O Príncipe, de Maquiavel, um tutorial de como subir ao poder e lá permanecer, onde declara que “não existem boas leis sem boas armas“, não distinguindo poder da autoridade, e legitimando o uso da força para o controle do cidadão. O livro foi uma referência fundamental para o pensamento político renascentista em sua fase final e uma inspiração importante para a filosofia do Estado moderno. Apesar de Maquiavel ser às vezes acusado de frieza, cinismo, calculismo e crueldade, tanto que vem dele a expressão “maquiavélico”, a obra é um documento histórico valioso como uma análise abrangente da prática política e dos valores dominantes da época.

Eventos como a descoberta da América e a Reforma Protestante, e técnicas como a imprensa de tipos móveis, transformaram a cultura e a visão de mundo dos europeus, ao mesmo tempo em que a atenção de toda a Europa se voltava para a Itália e os seus progressos, com as grandes potências da França, Espanha e Alemanha desejando a sua partilha e fazendo dela um campo de batalhas e pilhagens. Com as invasões que se seguiram a arte italiana espalhou sua influência por uma vasta região do continente. 

CINQUECENTO

O Cinquecento, no século XVI, é a última fase da Renascença, quando o movimento se transforma e se expande para outras partes da Europa. Na sequência do saque de Roma, em 1527, e da contestação da autoridade papal pelos protestantes, o equilíbrio político do continente se alterou e a sua estrutura sociocultural foi abalada. A Itália sofreu as piores consequências, pois além de ser invadida e saqueada, deixava de ser o centro comercial da Europa à medida que novas rotas de comércio eram abertas pelas grandes navegações. Todo o panorama mudava de figura, declinando a influência católica e surgindo sentimentos de pessimismo, insegurança e alheação, que caracterizam a atmosfera do Maneirismo, um estilo e um movimento artístico que se desenvolveu na Europa entre os anos 1515 e 1600.

A queda de Roma significou que não havia mais um centro a ditar a estética e a cultura. Aparecem escolas regionais marcadamente diferenciadas em Florença, Ferrara, Nápoles, Milão, Veneza, e muitas outras, e o Renascimento se espalhou então definitivamente por toda a Europa, transformando-se e se diversificando profundamente à medida que incorporava um variadíssimo corpo de influências regionais. A arte de longevos como Michelangelo e Ticiano registrou em grande estilo a passagem de uma era de certezas e clareza para outra de dúvidas e drama. As conquistas intelectuais e artísticas da Alta Renascença ainda estavam frescas e não poderiam ser esquecidas de pronto, mesmo que o seu substrato filosófico já não pudesse permanecer válido diante dos novos fatos políticos, credulários e sociais. A nova arte e a arquitetura que se fez, onde se destacam nomes como Parmigianino. Pontormo, Tintoretto, Rosso Fiorentino, Vasari, Palladio, Romano, Cellini, Bronzino e Beccafumi, ainda que inspirada na Antiguidade, reorganizou e traduziu os seus sistemas de proporção e representação espacial, assim como os seus valores simbólicos em obras inquietas, distorcidas, ambivalentes e preciosistas.

Essa mudança estava sendo preparada já há algum tempo. Na década de 1520, o papado havia se envolvido em tantos conflitos internacionais e a pressão em seu redor era tanta que poucas pessoas duvidavam de que Roma estava condenada, considerando a sua queda apenas uma questão de tempo. Desde bem antes do desastre de 1527 o próprio Rafael, tradicionalmente visto como um dos mais puros representantes da moderação e do equilíbrio considerados típicos da Alta Renascença, em várias obras importantes concebeu as cenas com contrastes tão fortes, os grupos com tanto movimento, as figuras com expressão tão apaixonada e em posições tão antinaturais e retóricas, que segundo Frederick Hartt ele poderia ser colocado não só como um precursor do Maneirismo, mas também do Barroco, e se tivesse vivido mais sem dúvida teria acompanhado Michelangelo e outros na transição completa para um estilo consistentemente diferenciado daquele do início do século.

Vasari, um dos principais eruditos do Cinquecento, não percebeu uma solução de continuidade radical entre a Alta Renascença e o período seguinte, no qual ele mesmo viveu, considerava-se ainda um renascentista e ao explicar as diferenças evidentes entre a arte dos dois períodos, dizia que os sucessores de Leonardo, Michelangelo e Rafael estavam trabalhando em um “estilo moderno“, uma “maneira nova“, que procurava imitar algumas das mais importantes obras da Antiguidade que conheciam. Ele se referia principalmente ao Grupo de Laocoonte, redescoberto em 1506, causando uma enorme sensação no meio artístico romano, e ao Torso Belvedere, que na mesma época começava a se tornar famoso e muito estudado. Estas obras exerceram uma larga influência sobre os primeiros maneiristas, incluindo Michelangelo, contudo, pertencem não ao Período Clássico, mas ao Helenístico, que em muitos aspectos foi uma escola anticlássica. Tampouco os renascentistas entendiam o termo “clássico” como ele foi entendido a partir do século XVIII, a expressão de um ideal de pureza, majestade, perfeição, equilíbrio, harmonia e moderação emocional, a síntese de tudo o que era bom, útil e belo, que identificaram existindo na Grécia Antiga entre os séculos V e IV a.C. 

É difícil determinar como os renascentistas percebiam as diferenças entre as correntes estéticas contrastantes da cultura greco-romana e como um todo a Antiguidade, quase todas as obras da Antiguidade às quais tinham acesso naquela época eram releituras helenísticas e romanas de modelos gregos perdidos, um repertório formal muito eclético que incorporava referenciais múltiplos de quase mil anos da história greco-romana, período em que houve várias e dramáticas mudanças de gosto e estilo. Parecem ter visto a Antiguidade mais como um período cultural monolítico, ou pelo menos como um de cujo acervo iconográfico poderiam retirar elementos escolhidos à vontade para criar uma Antiguidade que poderia se utilizar, adaptada às demandas do tempo. O crítico Ascanio Condivi relata um exemplo dessa postura em Michelangelo, dizendo que quando o mestre queria criar uma forma ideal, não se contentava em observar apenas um modelo, mas procurava muitos e tirava de cada um deles os melhores traços. Relata-se que Rafael, Bramante e outros usavam a mesma abordagem.

Porém, depois do século XVII e por muito tempo o Maneirismo foi visto como uma degeneração dos ideais clássicos autênticos, desenvolvida por artistas perturbados ou mais preocupados com os caprichos de um virtuosismo mórbido e fútil. Muitos críticos posteriores atribuíram o dramatismo e assimetria das obras do período a uma imitação exagerada do estilo de Michelangelo e de Giulio Romano, mas esses traços também foram interpretados como um reflexo de uma época agitada e desiludida. Hartt assinalou a influência de movimentos de reforma da Igreja na mudança de mentalidade. A crítica recente entende que os movimentos culturais são sempre fruto de múltiplos fatores, e o maneirismo italiano não é uma exceção, mas se considera que foi em essência o produto de ambientes cortesãos conservadores, de cerimonialismo complexo e cultura eclética e ultrassofisticada, e não um movimento intencionalmente anticlássico.

De qualquer modo, a polêmica teve o efeito de cindir os estudiosos do Maneirismo em duas correntes principais. Para uns a difusão da influência italiana sobre a Europa ocorrida no Cinquecento produziu expressões plásticas tão polimorfas e tão distintas daquelas do Quattrocento e da Alta Renascença, que se tornou um problema descrevê-las como parte do fenômeno original, parecendo-lhes que em muitos sentidos constituem uma antítese dos princípios clássicos tão prezados pelas fases anteriores, e que definiriam o “verdadeiro” Renascimento. Assim, estabeleceram o Maneirismo como um movimento independente, reconhecendo-o como uma requintada, imaginativa e vigorosa forma de expressão, uma importância realçada por ser a primeira escola de arte moderna. A outra vertente crítica, contudo, o analisa como um aprofundamento e um enriquecimento dos pressupostos clássicos e como uma legítima conclusão do ciclo do Renascimento; não tanto uma negação ou desvirtuamento daqueles princípios, mas uma reflexão sobre sua aplicabilidade prática naquele momento histórico e uma adaptação — às vezes dolorosa mas em geral criativa e bem sucedida — às circunstâncias da época. Para tornar o quadro ainda mais complexo, a própria identificação dos traços característicos do Maneirismo, bem como sua cronologia e sua aplicabilidade a outras regiões e outras áreas além das artes visuais, têm sido centro de outra polêmica monumental, que muitos consideram insolúvel.

Além das mudanças culturais provocadas pelo rearranjo político do continente, o século XVI foi marcado por uma outra grande crise, a Reforma Protestante, que derrubou para sempre a antiga autoridade universal da Igreja Romana. Um dos impactos mais importantes da Reforma sobre a arte renascentista foi a condenação das imagens sagradas, o que despovoou os templos do norte de representações pictóricas e escultóricas de santos e personagens divinos, e muitas obras de arte foram destruídas em ondas de fúria iconoclasta. Com isso as artes representativas sob influência reformista se voltaram para os personagens profanos e a natureza. O papado, porém, logo percebeu que a arte podia ser uma arma eficiente contra os protestantes, auxiliando em uma evangelização mais ampla e mais sedutora para as grandes massas do povo. Durante a Contrarreforma foram sistematizados novos preceitos que determinavam em detalhe como o artista deveria criar obras de tema religioso, procurando enfatizar a emoção e o movimento, considerados recursos mais inteligíveis e atraentes para ganhar a devoção simples do povo e, assim, garantir a vitória contra os protestantes. Mas se por um lado a Contrarreforma deu origem a mais encomendas de arte sacra, a antiga liberdade de expressão artística que se verificara em fases anteriores desapareceu, uma liberdade que permitiu a Michelangelo decorar o seu enorme painel do Juízo Final, pintado no coração do Vaticano, com uma multidão de corpos nus de grande sensualidade, ainda que o campo profano permanecesse pouco afetado pela censura

O Cinquecento foi também a era de fundação das primeiras Academias de Arte, como a Academia das Artes do Desenho em Florença e a Academia São Lucas em Roma, uma evolução das guildas de artistas que instituiu o Academismo como um sistema de ensino superior e um movimento cultural, normatizando o aprendizado, estimulando o debate teórico e servindo como instrumento dos governos para a divulgação e a consagração de ideologias não apenas estéticas, mas também políticas e sociais. Os teóricos da arte maneiristas aprofundaram os debates promovidos pela geração anterior, acentuaram as ligações do intelecto humano com a criatividade divina e prestigiaram a diversidade. Para Pierre Bourdieu a criação do sistema acadêmico significou a formulação de uma teoria em que a arte era uma encarnação dos princípios da Beleza, da Verdade e do Bem, uma extensão natural da ideologia da Alta Renascença, mas os maneiristas se abriram à existência de vários padrões válidos, o que permitiu uma grande liberdade aos criadores em diversos aspectos, em especial na arte profana, livre do controle da Igreja. A ênfase dada nas academias ao aperfeiçoamento técnico e à referência constante aos modelos antigos consagrados serviu também para deslocar parte do interesse principal do dizer algo para mostrar quão bem algo fora dito, apresentando o artista como um erudito. A influência das academias tardaria um pouco a se firmar, mas durante o Barroco e o Neoclassicismo elas vieram a dominar todo o sistema de arte europeu

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