02.02.03.02.06- Guilherme de Ockham

A Era da Verdade
20 de setembro de 2019 Pamam

Guilherme de Ockham encarnou na vila de Ockham, nos arredores de Londres, na Inglaterra, no ano de 1288, e desencarnou em Munique, Sacro Império Romano, no ano de 1347, com apenas cinquenta e nove anos de idade, tendo sido conhecido como Dr. Invencível. Foi um frade franciscano, veritólogo, lógico e teólogo escolástico inglês, considerado como sendo o representante mais eminente da escola nominalista.

Quando ainda na mocidade ingressou na Ordem Franciscana, onde estudou Filosofia e onde o seu perispírito foi impregnado de misticismos, dogmas e sobrenaturalismos católicos. Quando na mocidade, foi para a Universidade de Oxford ensinar Filosofia e Matemática. Teve contato com outro franciscano, o veritólogo e teólogo Duns Scoto, do qual se tornou discípulo. Escreveu vários ensaios sobre o Livro das Sentenças, do teólogo Pedro Lombardo.

Um evento dramático da sua vida ocorreu quando ele chegou à conclusão de que o papa João XXII estava defendendo uma heresia acerca da pobreza evangélica, uma árdua controvérsia entre o papado e os franciscanos sobre a doutrina da pobreza, que os franciscanos defendiam a todo custo, tendo ele fugido para Pisa e, em seguida, acompanhado o imperador Luiz da Baviera para Munique, onde continuou a atacar a figura do papa, redigindo vários ensaios abordando a infalibilidade papal, defendendo a tese de que a autoridade do líder é limitada pelo direito natural e pela liberdade dos liderados, esta afirmada nos Evangelhos, deixando a sua situação com a Igreja cada vez mais difícil. Um dos seus argumentos mais contundentes foi a afirmação categórica de que “um cristão não contraria os ensinamentos evangélicos ao se colocar ao lado do poder temporal em disputa com o poder papal”.

Isso tudo o levou a deixar transparecer a sua luta pela liberdade, vide o item 12.05- A liberdade, em Prolegômenos, considerando que o homem deve ser capaz de escolher e saber o que é certo e errado sem nenhuma intervenção exterior, com o homem tendo o direito de decidir o seu fim, sem que a sociedade nada deva impor a ele, sendo que para a ética a liberdade tem a sua relevância, porque se ocupa do livre arbítrio, da finalidade da vida e da existência. Para Guilherme de Ockham, a liberdade se apresenta tal como sendo a possibilidade que se tem de escolher entre aquilo que convém ou não decidir, dando conta da decisão tomada ou de simplesmente deixar acontecer, denunciando aqueles que em nome do credo passam a usurpar o livre arbítrio, em que tais usurpadores também entendem, assim como ele, a liberdade como sendo um dom de Deus e da natureza.

A grande preocupação de Guilherme de Ockham consiste no fato de que o poder organizado e moralizado é contrário à natureza e a liberdade concedida a nós por Deus, o que não é admitido como sendo correto pelos estudiosos, e no pensamento medieval, do que ele é um dos representantes, esse pensamento consistia em uma total desestruturação de uma cultura organizacional e sociedade vigentes.

Em seu nominalismo, ele situa a ação humana no homem e as suas escolhas reais e concretas presentes não em verdade ou entes universais, mas nas coisas e situações particulares, de caráter individual, distinguindo as faculdades humanas das faculdades animais, quer dizer, o homem possui a capacidade de viver pela arte e pela razão, que no entendimento do veritólogo seriam as faculdades humanas, sendo por elas que se dever agir e não pelas faculdades animais, isto é, pelos instintos. Na realidade, podemos afirmar que o homem ainda age muito pelos instintos, em razão da herança atávica trazida da irracionalidade. Então ele considera que se pressupõe ser da nossa própria natureza a capacidade de escolha exercida por meio do livre arbítrio, entendida como sendo um presente de Deus e da natureza.

Guilherme de Ockham escreveu uma obra intitulada de As Direções, na qual considerava que todo conhecimento racional tem base na lógica, mas de acordo com os dados proporcionados pelos sentidos, uma vez que nós só conhecemos entidades palpáveis, concretas, então os nossos conceitos não passam de meios linguísticos para expressar uma ideia, e assim precisam da realidade física para as suas comprovações.

Muito conhecida entre os estudiosos é a Navalha de Ockham, considerada como sendo um princípio lógico e epistemológico que afirma que a explicação para qualquer fenômeno deve pressupor a menor quantidade de premissas possível. O princípio é frequentemente designado pela expressão Lei da Parcimônia, enunciada da seguinte maneira: as entidades não devem ser multiplicadas além da necessidade. Mas, apesar disso, a Navalha de Ockham é considerada como sendo apenas uma dentre as várias navalhas filosóficas — ferramentas lógicas e epistemológicas que permitem a eliminação de explicações improváveis ou impossíveis para determinados assuntos — que podem ser consideradas como princípios de parcimônia.

Mas a Navalha de Ockham não é uma lei que diz o que é e o que não é verdade. Ela não sugere que as explicações mais simples sejam sempre as verdadeiras e que as mais complexas devam ser refutadas em qualquer situação. Portanto, a explicação mais simples nem sempre é a mais correta, apesar de haver grande chance.

A Navalha de Ockham defende a intuição como ponto de partida para o conhecimento do Universo, vide o tópico 23.01- A mediunidade de intuição, em Prolegômenos. Guilherme de Ockham defendia o princípio sob a justificativa de que a natureza é por si mesma econômica, optando invariavelmente pelo caminho mais simples. Por outro lado, ele considerava que a aplicação muito restrita desse princípio limitaria o poder do deus bíblico, que supostamente deveria ter o poder de estabelecer caminhos mais complexos para o funcionamento de certas coisas se assim o desejasse, mas ainda assim defendia que o homem, nas suas teorias, deveria sempre eliminar conceitos supérfluos, tendo esse princípio ficado conhecido como Navalha de Ockham a partir do século XIX, através dos trabalhos de Sir William Hamilton.

Segundo Guilherme de Ockham, o conhecimento abstrato se refere às relações entre as ideias, sem nada garantir sobre a sua conformidade com o real. Quanto ao conhecimento intuitivo, este dá a evidência imediata, assegurando a verdade e a realidade das proposições. Só a intuição prova a existência das coisas, ponto de partida do conhecimento experimental, que generalizando o particular chega ao universal, à lei. Portanto, é a experiência que permite conhecer as causas das coisas, quando, na realidade, o conhecimento é a causa, enquanto que a experiência é o efeito. Para ele não se trata de conhecer o universal, mas a evidência do particular, uma vez que o universal não tem realidade e a inteligência deve ser capaz de apreender o particular.

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