02.02.03.02.05- Duns Scoto

A Era da Verdade
19 de setembro de 2019 Pamam

Duns Scoto encarnou em Duns, no Reino Unido, no ano de 1266, de onde deriva o seu nome, e desencarnou em Colônia, na Alemanha, no ano de 1308, com a idade de apenas quarenta e dois anos, tendo sido um veritólogo e teólogo escocês da tradição escolástica. Viveu muitos anos em Paris, tendo sido chamado de Dr. Sutil.

Na tenra idade de onze anos foi enviado a um mosteiro franciscano, em Dumfries, tendo ingressado na ordem quatro anos depois, quando então o seu perispírito ficou impregnado de misticismo e sobrenaturalismo. Estudou em Oxford e em Paris, tendo depois lecionado em Oxford, Paris e Colônia. Deixou um grande número de trabalhos, principalmente sobre metafísica, que é o campo próprio dos veritólogos, cujos trabalhos se distinguiram por um estilo obscuro, já que trabalhava mais com a percepção do que com a compreensão, porém sutil, daí ser chamado de Dr. Sutil.

O sentimento de Duns Scoto pode ser comparado em alguns aspectos ao de Kant, que viveu cinco séculos depois, que era o de argumentar que as doutrinas do credo deveriam ser defendidas mais pela sua necessidade prática e moral do que pela força da sua lógica, pelo que podemos acrescentar que os credos possuem uma prática esdrúxula, sendo ausentes de moral, enquanto que é totalmente destituído de lógica, uma vez que são repletos de mistérios e sustentados em praticamente tudo pelo sobrenatural, que não existe, daí a utilização da fé credulária para que se possa aceitar a sua doutrina e os seus dogmas incongruentes.

Os franciscanos, que se encontravam propensos a combater a filosofia escolástica para que pudessem fazer sobressair Santo Agostino em relação ao dominicano São Tomás de Aquino, fizeram do jovem Dr. Sutil o seu representante e seguiram a sua diretriz durante as muitas gerações em que se empenharam em lutas filosóficas.

Duns Scoto estudou Matemática e outras ciências, e estando sob a influência de Roger Bacon e de Grosseteste, em Oxford, conseguiu formar uma noção profunda do que constituía prova, quando então aplicou esse teste à filosofia de São Tomás de Aquino, pondo um fim ao casamento entre a Teologia e a Filosofia, logo no seu início.

Sem apresentar uma boa noção a respeito dos métodos indutivo e dedutivo, vide os itens 04.01- O método da dedução e 04.02- O método da indução, em Prolegômenos, Duns Scoto argumentava o contrário de Francis Bacon, afirmando que toda prova indutiva ou posterior, desde o efeito até a causa, é incerta, que somente a prova real é dedutiva e a priori, para mostrar que certos efeitos devem se originar da natureza essencial da causa, como, por exemplo, para provarmos a existência de Deus, devemos estudar primeiro a metafísica, ou seja, estudar o ser como ser, e, através de uma lógica escrita, chegarmos às qualidades essenciais do mundo, pois deve haver no reino das essências uma que seja a fonte de todas as demais, o Primus; em que esse Primeiro Ser é Deus, mas que ele se refere diretamente ao deus bíblico.

Duns Scoto concorda com São Tomás de Aquino que o deus bíblico é o Ato Puro, porém não interpreta a frase como Atualidade Pura, mas sim como Atividade Pura, afirmando que o deus bíblico é mais vontade do que intelecto, mas o fato é que esse espírito obsessor não possui vontade e é obtuso, diga-se de passagem, sendo a causa de todas as causas, por isso ele é eterno, mas isso é tudo o que dele podemos saber pela razão, que ele é o deus da misericórdia, três pessoas em um só, o criador do mundo no tempo, o que pela providência vigia a todos, em que estas e praticamente todas as doutrinas do credo dito cristão são inacreditáveis, mas que devem ser acreditadas em função da autoridade das Escrituras e da Igreja, apesar de não poderem ser demonstradas pela razão, assim como se a razão pudesse concordar com algo situado fora da realidade.

Para ele, no momento em que começamos a raciocinar a respeito de Deus, no caso o deus bíblico, caímos em grandes contradições, o que se assemelha às antinomias da razão pura de Kant, pois se ele é onipotente, então ele é a causa de todas as falhas, inclusive de todos os males, e as causas secundárias, inclusive a vontade humana, são ilusórias. Em vista destas ruinosas conclusões e da necessidade de uma crença credulária para a nossa vida moral, semelhante à razão prática de Kant, torna-se mais prudente abandonar a tentativa tomista de provar a Teologia pela Filosofia e aceitar os dogmas do credo de acordo com a autoridade da Bíblia e da Igreja. Não podemos conhecer ao deus bíblico, porém podemos amar a ele, o que é melhor, como se alguém pudesse amar algo que ignora completamente.

Para Duns Scoto, os universais são objetivamente reais no sentido de que as feições idênticas, que o espírito abstrai de objetos similares para formar uma ideia geral, devem estar encerradas nos objetos, caso contrário como poderíamos percebê-las e abstraí-las? Ele concorda com São Tomás de Aquino, dizendo que todo conhecimento natural deriva das sensações, mas quanto ao resto difere dele em todas as questões psicológicas, afirmando que o princípio da individualização não é a matéria, porém a forma, e a forma apenas nesse seu estrito sentido, que são as qualidades peculiares e os sinais distintos das pessoas ou coisas individuais.

Afirma ele que as faculdades da alma não se distinguem uma da outra, nem a própria alma, em que a sua faculdade básica não é a compreensão, mas sim a vontade. É a vontade, pois, que determina ao intelecto a que as sensações ou a que fins deve ele atender, pois somente a vontade, não o discernimento, é livre.

Para Duns Scoto, o argumento de São Tomás de Aquino de que a nossa sede de contínua e perfeita felicidade prova a imortalidade da alma, é um argumento exagerado, pois isso poderia ser aplicado a qualquer animal no campo, portanto, não podemos provar imortalidade pessoal, devemos simplesmente crer.

Da mesma maneira que os franciscanos disseram que viam em São Tomás de Aquino a vitória de Aristóteles sobre os Evangelhos, também os dominicanos podiam ter visto em Duns Scoto o triunfo da filosofia árabe sobre a filosofia dita cristã, uma vez que a sua metafísica é de Avicena e a sua cosmologia é de Ibn Gabirol. Porém, o que caracteriza Duns Scoto é o fato dele ter abandonado a sua tentativa de provar pela razão as doutrinas básicas ditas cristãs.

Os seus adeptos levaram a questão ainda mais longe, removendo do campo da razão cada um dos artigos de credo e multiplicaram assim as suas diferenças e sutilezas ao ponto de, na Inglaterra, um dunsman significar um tolo que faz distinções muito sutis, um insípido sofista, ou, simplesmente, um bobo.

Aqueles que tinham se inclinado para os pendores da Filosofia, recusaram-se a ficar subordinados aos teólogos que a repeliam, quando então os estudos da Filosofia e da Teologia se entrechocaram, operando-se neles uma separação. A rejeição da razão pela fé credulária provocou também a reposição da fé credulária pela razão.

O escolasticismo pode ser considerado como sendo uma tragédia com requinte grego, cuja infringência de retaliação se ocultava em sua própria essência, pois a tentativa de se criar a fé credulária pela razão era o reconhecimento cabal da autoridade da razão, como aceitaram Duns Scoto e outros, uma vez que o reconhecimento de que a fé credulária não podia ser criada pela razão destruiu o escolasticismo e enfraqueceu a fé credulária, que na revolta do século XIV, irrompeu de todas as questões doutrinárias e eclesiásticas.

As sementes da Renascença não eram somente a vitória do paganismo sobre o falso cristianismo, eram também a vitória do islã, pois com a invasão da Palestina e sendo expulsos de quase todas as partes da Espanha, os muçulmanos transmitiram a sua ciência e a sua filosofia à Europa Ocidental, o que constituiu uma força desintegradora. Foram Avicena e Averróis, bem como Aristóteles, que influenciaram a falsa cristandade com as primeiras considerações racionalistas.

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