02.02.03.02.04- São Tomás de Aquino

A Era da Verdade
17 de setembro de 2019 Pamam

São Tomás de Aquino foi um veritólogo que encarnou no ano de 1225, em Roccasecca, Itália, no castelo do pai, e desencarnou no ano de 1274, na Abadia de Fossanova, Itália, sendo descendente de família abastada, tendo renunciado à riqueza para se dedicar aos estudos filosóficos. O seu pai era o conde Landulfo de Aquino, pertencente à nobreza alemã, sobrinho de Barbarroxa, destacando-se entre as mais altas figuras da corte de Apúlia — região da Itália meridional —, de Frederico II. A sua mãe descendia de príncipes normandos da Sicília.

A abadia do Monte Cassino ficava nas mediações do local onde nasceu, tendo sido lá que São Tomás de Aquino recebeu as suas primeiras instruções, o que implica em dizer que o seu perispírito foi acostumado a absorver a doutrina católica, sendo esse o grande mal dos pais que iniciam os seus filhos em algum credo, seja ele católico, protestante, judaico, islâmico, ou seja lá qual for. Aos quatorze anos de idade começou a estudar na Universidade de Nápoles, onde se podiam constatar influências gregas, árabes e hebraicas que se chocavam contra o pensamento voltado para o falso cristianismo.

Em 1244, São Tomás de Aquino ingressou na ordem dominicana, tendo logo depois sido enviado para estudar Teologia em Paris, mas foi raptado por dois dos seus irmãos, a pedido da mãe, e levado para o castelo de Roccasecca, onde permaneceu por um ano sob severa vigilância, com a família recorrendo a todos os meios para fazê-lo desistir da sua vocação credulária, que finalmente conquistou a mãe, tendo ela o ajudado a fugir, e até a sua irmã Marotta foi convencida a se tornar uma freira beneditina.

Em 1245, estando em Paris, teve Alberto Magno como um dos seus professores, o qual tendo sido transferido para Colônia, foi acompanhado pelo veritólogo, que continuou a estudar com ele até o ano de 1252. Sendo mais afeito ao criptoscópio, trabalhando mais com a percepção, do que ao intelecto, trabalhando menos com a compreensão, embora se referisse algumas vezes a esta última, São Tomás de Aquino às vezes dava a impressão de ser obtuso, mas sendo bastante perceptivo Alberto Magno o defendia, dizendo que algum dia ele seria um grande homem. Tendo voltado para Paris, passou a lecionar na qualidade de bacharel em Teologia, e seguindo os passos do seu mestre, iniciou uma longa série de trabalhos, apresentando o pensamento de Aristóteles nos moldes do falso cristianismo.

Em 1259, deixou Paris para lecionar no studium mantido pela corte papal, na ocasião estabelecida em Anagni, depois em Orviedo e Viterbo, onde na corte papal manteve contato com Guilherme de Moerbeke, a quem pediu que traduzisse as obras de Aristóteles diretamente do grego para o latim, tão grande era o seu fascínio por um autêntico saperólogo, uma vez que a Veritologia procura a Saperologia para se completar, e vice-versa, a fim de que se possa alcançar a razão, que é o somatório da verdade e da sabedoria.

Nesse período, Siger de Brabante estava encabeçando um movimento em prol do averroísmo na Universidade de Paris, sabendo-se que o averroísmo é uma doutrina do estudioso árabe Averroes, voltada para uma interpretação pessoal do aristotelismo, cuja doutrina influenciou o período medieval da Europa, mostrando-se hostil à ortodoxia católica, sendo por isso duramente combatida pela Escolástica e duas vezes condenada pela Igreja, em 1240 e 1513. São Tomás de Aquino foi enviado para enfrentar a Siger de Brabante. Ao chegar a Paris, começou a sua luta contra o pensamento inimigo dos averroístas, através de um tratado sobre A Unidade do Intelecto, em 1270, apesar dele não possuir as qualidades de um intelectual, pois que nada sabia a respeito do intelecto, e muito menos acerca do criptoscópio, com o que mais trabalhava, mas expressou claramente a sua busca pela verdade ao concluir o tratado da seguinte maneira:

Contemplai os erros que refutamos. Não nos baseamos nos documentos da religião, porém nas razões e declarações dos próprios filósofos. Seu houver, pois, alguém que jactanciosamente se vanglorie de sua pseuda sabedoria e deseje contestar o que escrevemos, não o deixeis fazê-lo em algum canto nem diante das crianças, as quais não têm capacidade para se pronunciar sobre questões tão difíceis. Deixai-o responder publicamente, se é que ousa fazê-lo. Ele aí me encontrará para enfrentá-lo, não apenas a minha desprezível pessoa, porém muitos outros que estudam a verdade (grifo meu). Combateremos os seus erros e curaremos a sua ignorância”.

Em seu segundo período de magistério em Paris, São Tomás de Aquino teve não somente que combater o averroísmo, mas também de enfrentar os ataques dos monges, seus companheiros, que não admitiam a razão, por isso repeliam o pensamento de que se podia conciliar Aristóteles com o cristianismo, com o falso cristianismo, diga-se de passagem. João Peckham, sucessor de Boaventura na cadeira franciscana de Filosofia, em Paris, censurou São Tomás de Aquino de manchar a Teologia dita cristã com a filosofia de um pagão, tendo mais tarde afirmado que o santo sustentou o seu ponto de vista, mas respondeu com grande brandura e humildade.

São Tomás de Aquino enriqueceu o pensamento de sua época, agradecendo de maneira explícita aos autores a que recorreu, citando Avicena, al-Ghazali, Averróis, Isaac Israeli, Ibn Gabirol e Maimônides, considerando que nenhum estudante poderia compreender a filosofia escolástica do século XIII sem considerar os seus antecedentes árabes e judaicos, concordando com Maimônides ao afirmar que se pode conciliar a razão com a religião, no caso o credo, mais especificamente o credo católico, mas afirma que certos mistérios do credo se encontram fora do alcance da razão; concordando também com Maimônides no pensamento de que a inteligência humana pode provar a existência de Deus, cuja existência se encontra devidamente provada no capítulo 11- A REALIDADE DE DEUS DE ACORDO COM A RAZÃO, contido em PROLEGÔMENOS, mas jamais poderá conhecer os seus atributos; e segue concordando com Maimônides nas suas discussões sobre a eternidade do Universo.

O veritólogo escolástico adota Aristóteles como sendo o seu guia de lógica e metafísica quando o cita em quase todas as suas páginas, mas não hesita em dele discordar sempre que o saperólogo grego se afasta da doutrina dita cristã. Considera que a Trindade, a Encarnação, a Redenção e o Juízo Final não podem ser provados pela razão, mas prossegue em todos os outros pontos para aceitar a razão, ao ponto de surpreender os adeptos de Santo Agostinho. Era, pois, um veritólogo repleto de misticismos, no sentido de que preferia a inteligência — sem que soubesse da sua natureza, já que trabalhava mais com o criptoscópio — ao coração, como órgãos para se chegar à verdade.

É óbvio que São Tomás de Aquino não poderia saber acerca do conhecimento, que sendo de natureza metafísica, pode ser considerado como sendo informações acerca da verdade, sendo captado por intermédio do órgão mental denominado de criptoscópio, tendo o conhecimento o seu repositório no Espaço Superior, por isso ele considerava o conhecimento como sendo o produto natural que se deriva dos sentidos corporais externos e dos sentidos internos que denominava de consciência do “eu”, aceitando a definição escolástica da verdade como sendo uma equivalência do pensamento com as coisas, uma vez que o intelecto obtém todos os seus conhecimentos naturais dos sentidos, com o conhecimento direto das coisas exteriores ficando limitado aos corpos, ao mundo sensório, não se podendo conhecer diretamente o mundo suprassensível e metafísico, que são os espíritos que se encontram nos corpos ou o deus bíblico em sua criação, mas pode, por analogia, obter pela experiência dos sentidos um conhecimento indireto de outros espíritos e também do deus bíblico.

Quanto a um terceiro reino, considerado como sendo o sobrenatural, o mundo em que o deus bíblico vive, que, na realidade, é o astral inferior, o espírito do homem dele não pode ter conhecimento, a não ser através da revelação divina, podendo-se saber pela compreensão natural que o deus bíblico existe e é somente um, porque a sua existência e unidade resplandecem nas maravilhas e na organização do mundo, porém, sem um auxílio para a nossa inteligência, não podemos conhecer a sua essência ou a Trindade, e mesmo os conhecimentos acerca dos anjos são limitados, pois caso contrário eles seriam o deus bíblico.

Para São Tomás de Aquino as próprias limitações do conhecimento estabelecem a existência de um mundo sobrenatural, em que o deus bíblico revela esse mundo através das Escrituras. Assim, da mesma maneira que seria tolice para um camponês julgar falsas as teorias de um filósofo pelo fato de não as compreender, não deixa de ser também tolice o fato de o homem refutar a revelação do deus bíblico sob a alegação de parecer, em alguns pontos, em contradição com o seu conhecimento natural, podendo-se crer que não haveria contradição entre a revelação e a Filosofia se os conhecimentos humanos fossem completos, e assim afirmar que a proposição pode ser falsa em Filosofia e verdadeira em matéria de credo.

Assim, São Tomás de Aquino acredita que toda a verdade vem do deus bíblico, sendo ela apenas uma, sendo desejável que se diferencie aquilo que compreendemos através da razão, daquilo que acreditamos por intermédio da fé credulária, pois os campos da Filosofia e da ideologia são distintos, então considera que é permissível aos escolares discutirem entre si as objeções quanto ao credo, mas “não convém às pessoas simples ouvirem o que os descrentes têm a dizer contra o credo”, pois os espíritos simples não se acham preparados para responder, então os eruditos e os filósofos, assim como os camponeses, devem se curvar às decisões da Igreja, quando afirma que “devemos ser dirigidos por ela em todas as coisas”, pois foi à Igreja que o deus bíblico nomeou depositária da sabedoria divina, deste modo, diz ele, “cabe ao papa o poder de decidir em última instância as questões de fé, de maneira que elas possam ser defendidas por todos com inabalável convicção”, uma vez que outra alternativa representa o caos intelectual, moral e social dos povos.

São Tomás de Aquino considera que a essência e a existência são diferentes nas coisas criadas, em que a essência é aquilo que se torna necessário para a concepção de uma coisa, enquanto que a existência é o ato de ser. Assim, a essência de um triângulo — três linhas cercando um espaço — é a mesma, quer o triângulo exista, quer seja uma mera concepção. Mas no deus bíblico a essência e a existência são uma só, pois a sua essência é a de ser ele a Primeira Causa, a força fundamental de todas as coisas, devendo ele existir para que tudo o mais deva existir.

É certo que São Tomás de Aquino acredita na existência do verdadeiro Deus, embora venha se referir diretamente ao deus bíblico, por ignorar se tratar de um espírito tremendamente obsessor, mas mesmo assim ele afirma que Deus é o Ser de todos os seres, a causa que os sustenta, em que todos os outros seres existem por analogia, por participação limitada na realidade de Deus, sendo isto próprio de um veritólogo.

Para São Tomás de Aquino todos os seres criados são ativos e passivos, ou seja, tanto agem por si como por influência de outros, sendo eles uma mistura de essências e mutações, pois possuem certas qualidades, no que podem perder algumas delas e adquirir outras, como no caso de se poder esquentar a água. Ele utiliza o termo potência para assinalar a susceptibilidade à ação exterior ou a mudança interior, em que somente o deus bíblico não tem essa potência, ou essa possibilidade, pois não pode ser influenciado, não pode ser alterado, uma vez que é ato puro, atividade pura, atualidade pura, pelo fato de já ser tudo aquilo que se pode ser. Abaixo do deus bíblico, todas as entidades podem ser classificadas em uma escala descendente em conformidade com a sua maior possibilidade de serem influenciadas e determinadas pelo exterior, deste modo o homem é superior à mulher, quando afirma o seguinte:

O pai é o princípio ativo, enquanto que a mãe é o princípio passivo e material; ela fornece a matéria informe do corpo, a qual recebe a sua forma através da força criadora que existe no sêmen do pai”.

O veritólogo considera que todos os seres corporais são compostos de matéria e forma, mas como em Aristóteles, a forma significa não o corpo em si, mas sim o princípio inerentemente energético e característico, que seria o princípio vital, que quando constitui a essência de um ser, ela é substancial ou essencial, deste modo a alma racional passa a ser uma força criadora capaz de pensar, sendo esta a forma substancial do corpo humano e o deus bíblico a forma substancial do mundo. Para descomplicar tudo isso, podemos afirmar que o perispírito é a matriz do corpo carnal, que permite a este a sua estrutura e a sua integridade.

Ele considera que todas as substâncias são seres, nada existe que não sejam seres, salvo na ideia. A noção de que a individualidade é uma ilusão, não passa de uma ilusão. Neste ponto, ele se encontra absolutamente correto, pois que do átomo aos seres humanos todos são seres, estando todos em conformidade com o seus estágios evolutivos.

Mas nos seres compostos de matéria e forma, o princípio ou a fonte da individualização, ou seja, a multiplicação de indivíduos em uma espécie ou classe, é a matéria, ignorando completamente que a matéria não existe. Assim, em todas as espécies a forma ou o princípio vital é essencialmente o mesmo, pois que para cada indivíduo esse princípio usa, proporciona, dá forma a certa quantidade e matéria. Essa matéria assinalada pela quantidade é o princípio da individualização, mas não da individualidade separada, mas sim da identidade separada.

É certo que São Tomás de Aquino se refere diretamente ao deus bíblico em sua teologia, em que o deus bíblico, não o homem, é o centro e o tema do seu pensamento, mas ele consegue extrapolar os escritos bíblicos, quando diz o seguinte:

O mais alto conhecimento que temos de Deus nesta vida, é saber que Ele está acima de tudo que possamos conceber ao Seu respeito”.

Nessa sua teologia, ele repele o argumento ontológico de Santo Anselmo, porém quase dele se aproxima ao identificar a existência de Deus, do verdadeiro Deus, com a sua Essência, quando afirma que Deus é o próprio Ser, no caso o Ser Total, faltando apenas completar as Suas Substâncias através das Suas Propriedades, que são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total. Para ele, todos os movimentos são causados por movimentos anteriores, e assim por diante, até alcançar a Causa Imutável, ou a um retorno infinito, o que é inconcebível. Assim, há milhares de provas da ordem que rege o mundo, pois mesmo os objetos inanimados se movem dentro de determinada ordem, ao que indaga: como poderia ser isso se não existisse alguma força inteligente que os tivesse criado? E aqui se constata ser ele um veritólogo, pois que se refere diretamente à propriedade da Força, embora de um modo inconsciente.

Mais adiante, São Tomás de Aquino faz valer a influência bíblica em seu pensamento, quando considera que não há sexo no deus bíblico e nem nos anjos, esquecendo-se do dizer bíblico da criação macho e fêmea do homem, à imagem e semelhança desse deus de araque. Assim, constitui um mistério que ultrapassa a razão o fato de haver três pessoas na unidade divina, o qual os que confiam na fé credulária devem defender.

Aqueles que são mais afeitos aos predicados da Veritologia, geralmente consideram mais o espaço em relação ao tempo, às vezes até afirmando a não existência deste último, mas o fato é que em todos os tempos houve a criação, quer dizer, com os seres se desprendendo do Ser Total em busca das suas individualizações pelo Universo, pois caso não fosse assim, Deus não poderia ser o Todo, quer dizer, Perfeito, Infinito e Ilimitado, em Si, assim como também Imperfeito, Finito e Limitado, através das suas partículas, por isso São Tomás de Aquino conclui que devemos acreditar com base na fé credulária em uma criação no tempo, mas acrescenta que a questão tem pouca significação, uma vez que o tempo não teve existência antes da criação, pois sem transformação, sem matéria em movimento, não existe tempo. Ele se esforça inutilmente para explicar como o deus bíblico pôde passar da não criação para a criação sem sofrer alteração. Mas mesmo assim, ele considera que o ato da criação é eterno, porém inclui na sua vontade a determinação do tempo para poder aparecer, assim como se o tempo tivesse surgido a partir da criação, como se ele tivesse uma estreita relação com a criação.

São Tomás de Aquino aceita passivamente a existência do sobrenatural, inclusive a existência de anjos, ignorando completamente que os anjos são espíritos obsessores que integram o organograma hierárquico de Jeová, o deus bíblico, como já demonstrado nos Prolegômenos. Em função disso, ele considera que os anjos constituem o mais alto grau da criação, sendo inteligências incorpóreas, incorruptíveis — esquecendo-se da revolta de Lúcifer — e imortais, que servem como ministros do deus bíblico no governo do mundo, guiando e movimentando os corpos celestes, considerando que todo homem tem um anjo da guarda, com os arcanjos tendo aos seus cuidados uma multidão de homens. Para ele, os anjos, sendo imateriais, podem ir de uma extremidade a outra no espaço, sem percorrer a parte que fica entre ambas, sem atentar para o fato de que os anjos têm asas, pois é assim que eles aparecem aos médiuns videntes, que sendo espíritos obsessores se deslocam pela atmosfera terrena. Assim, sendo afeito ao sobrenatural, tendo uma concepção errônea a respeito dos anjos, ele escreve noventa e três páginas sobre a hierarquia angelical, que engloba os movimentos, o amor, o conhecimento, a vontade, as orações e os costumes dos anjos.

Em seu sobrenaturalismo exacerbado, São Tomás de Aquino acredita não somente na existência dos anjos, mas também na existência de demônios, que considera como sendo pequenos diabos que fazem aquilo que Satanás ordena, que não são meras fantasias do espírito comum, mas sim reais, os quais praticam sempre o mal. Eles podem causar a impotência, despertando no homem uma repulsa pela mulher, fazendo as mais variadas formas de magias possíveis, tal como poder se deitar debaixo de um homem, receber dele o sêmen e transportá-lo rapidamente através do espaço, coabitar com uma mulher e impregnar nela o sêmen do homem que se acha ausente. Assim, os demônios podem habitar os feiticeiros a predizer acontecimentos que não dependem da vontade livre do próprio homem, podem também lhes dar informações por meio de impressões em suas imaginações ou lhes aparecer de maneira visível ou mesmo lhes falando, esquecendo-se que Jeová, o deus bíblico, e os seus anjos negros assim procederam, conforme consta na própria Bíblia. E como se não bastasse, os demônios podem colaborar ainda com as feiticeiras e ajudá-las a prejudicar as crianças através do mau olhado.

Assim como muitos sacerdotes em todos os tempos, inclusive os papas, São Tomás de Aquino dava muita credibilidade à Astrologia, embora venha ressalvar que as ações humanas estão sujeitas à ação dos corpos celestes salvo acidental e indiretamente, pois sempre fica uma grande área à ação livre dos homens, tanto que escreveu o seguinte:

Os movimentos dos corpos aqui embaixo… devem ser atribuídos aos movimentos dos corpos celestes como sendo a sua causa… O fato de os astrólogos preverem frequentemente a verdade ao observar as estrelas pode ser explicado de duas maneiras: a primeira, porque grande número de homens obedecem às suas próprias paixões, de maneira que as suas ações, na maior parte, são dispostas de acordo com a inclinação dos corpos celestes, enquanto há uns poucos, isto é, os homens prudentes, que moderam tais inclinações pela razão; e a segunda, em virtude da interferência dos demônios”.

No tocante à Psicologia, São Tomás de Aquino começa com um pensamento orgânico acerca dos organismos cara a cara, um pensamento mecânico, como, por exemplo, uma máquina se compõe de partes que lhe são acrescentadas externamente, já um organismo faz as suas próprias partes e se movimenta por meio de sua própria força interna: a alma; quando então exprime o seu pensamento em termos aristotélicos, em que a alma é a forma substancial do corpo, ou seja, o princípio e a energia vitais que dão existência e forma a um organismo, por isso a alma é o princípio primário do nosso sustento, das sensações, do movimento e da compreensão. Reconhecendo a existência da alma nos seres menos evoluídos, em que a formação da alma ou do perispírito começa com os seres atômicos, como não poderia ser diferente, para ele existem três graus de alma:

  1. O vegetativo: que constitui o poder de se desenvolver, que toda a vida tem esse poder;
  2. O sensitivo: que constitui o poder de sentir, que somente os animais e os homens têm esse poder;
  3. O racional: que constitui o poder de raciocinar, que somente o homem tem esse poder.

Mas para ele, os organismos superiores, em seu desenvolvimento corporal e individual, atravessam fases das quais os organismos inferiores não atravessam, pois “quanto mais elevada for a forma na escala do ser… tanto mais deverá ela atravessar as formas intermediárias antes de alcançar a forma perfeita”; o que em outros termos implica no preceito da evolução.

Enquanto Platão, Santo Agostinho e os franciscanos consideravam a alma prisioneira do corpo, no que se encontravam absolutamente corretos, pois que a alma, ou o perispírito, encontra-se presa ao corpo carnal através de cordões fluídicos, que se ligam diretamente ao cérebro e ao coração, São Tomás de Aquino passa a aceitar o pensamento de Aristóteles, definindo o homem como sendo um composto de corpo e alma, e de matéria e forma, em que a alma dá a vida e a energia interior criadora da forma, sendo indivisível em todas as partes do corpo e ligada a eles por centenas de maneiras, e assim como a alma vegetal, ela depende do alimento; como sensitiva, ela depende das sensações; e como racional, ela necessita de imagens produzidas pelas sensações ou compostas destas últimas. Mesmo as percepções morais e a capacidade intelectual dependem de um corpo relativamente são, em que uma pele grossa encerra em si uma alma que não é sensitiva, como se a pele viesse a influir no labor da alma.

Ignorando completamente as ações nefastas praticadas pelos espíritos obsessores que se encontram quedados no astral inferior, São Tomás de Aquino afirma que os sonhos, as paixões, as doenças mentais e os temperamentos têm uma base fisiológica, quando, na realidade, toda a base é espiritual, portanto, psicológica.

Em algumas vezes, São Tomás de Aquino considera como se o corpo e a alma fossem uma realidade unificada, tal como sendo a energia interior e a forma exterior de um todo indivisível. Mas apesar dessa sua consideração, parecia-lhe evidente que a alma racional, em suas abstrações, generalizações, raciocínios e investigações acerca do Universo, era uma realidade incorpórea, uma vez que nada se pode descobrir na consciência que venha a ser material, já que ela é uma realidade inteiramente diferente a tudo que seja físico ou espacial. Então ele considera que a alma racional deve ser classificada como sendo espiritual, assim como sendo uma coisa que nos foi dada pelo deus bíblico, que ele considera como sendo uma força psíquica por trás de todos os fenômenos físicos, pois somente uma força imaterial poderia formar uma ideia universal, avançando ou retrocedendo no tempo, ou conceber, com igual facilidade, as grandes e mínimas coisas, já que o espírito pode ser cônscio de si mesmo, porém é impossível se conceber uma entidade material cônscia de si mesma.

Sendo um veritólogo, um veritólogo místico, diga-se de passagem, pois que desde a juventude a doutrina católica lhe foi impregnada no espírito, mas, contudo, sendo um veritólogo, São Tomás de Aquino lida mais com a propriedade da Força do que com a propriedade da Energia, e tanto isto procede que ele afirma ser razoável que sobrevive à morte a força que existe em nós. No entanto, demonstrando uma materialidade um tanto exacerbada, considera que a alma, assim separada do corpo carnal, não constitui uma personalidade, não podendo sentir, nem querer e nem pensar, sendo um espírito que não pode funcionar sem a sua carne, misturando o espírito, que é uma partícula do Ser Total, com a alma, em que o perispírito é formado pelas propriedades da Força e da Energia, e o corpo de luz pela propriedade da Luz. Em decorrência, adentra no sobrenaturalismo, passando a considerar que somente depois que se reunir, pela ressurreição do corpo, ao arcabouço corporal, do qual a alma era a vida interior, é que constituirá com o corpo um indivíduo e uma personalidade imortal.

São Tomás de Aquino considera que a alma tem cinco faculdades:

  1. Vegetativa: pela qual se alimenta, desenvolve-se e reproduz;
  2. Sensitiva: pela qual recebe sensações do mundo exterior;
  3. Apetitiva: pela qual manifesta a sua vontade;
  4. Locomotriz: pela qual inicia movimentos;
  5. Intelectual: pela qual pensa.

É sabido que a vontade se contrapõe ao desejo, uma vez que a vontade vem dos anseios espirituais, enquanto que o desejo vem dos anseios corporais, então no exercício da sua vontade o ser humano tende a trilhar pelo caminho espiritual, e não material, e isso não passou despercebido por São Tomás de Aquino, que, ao seu modo, vem afirmar que a vontade é a faculdade pela qual a alma ou a força vital se movimenta em direção daquilo que o intelecto concebe como sendo o bem.

É certo que os veritólogos buscam a moral e a verdade, enquanto que os saperólogos buscam a ética e a sabedoria, e São Tomás de Aquino buscou tanto a verdade como a moral, e tanto isto procede que para ele o fim do homem nesta vida é a busca da verdade, enquanto que na outra vida a verdade em Deus, no caso o deus bíblico.

Ao se supor, como Aristóteles, que o homem procura a felicidade, onde melhor poderia ele encontrá-la? São Tomás de Aquino afirma que o homem não a encontrará nos prazeres corporais, nem nas honrarias, nem no poder e nem mesmo nas ações de virtude moral, embora tudo isso possa proporcionar grande satisfação, sendo necessária uma perfeita disposição do corpo para se conseguir uma felicidade perfeita. Entretanto, nem um desses bens pode ser comparado à serena, penetrante e contínua felicidade do saber, acreditando que a mais alta realização e satisfação da alma, a culminância natural da sua racionalidade peculiar, seria o seguinte: “Devia-se inscrever nela a ordem total do Universo e as suas causas”; em que a paz que proporciona o saber advém dele mesmo. Alguns poderão encontrar a paz em bens intermediários, porém o espírito do verdadeiro homem não descansará enquanto não alcançar o ponto culminante da verdade, que é Deus. Somente em Deus, e aqui se trata do verdadeiro Deus, é que está o supremo bem, fonte de todos os outros bens e a causa de todas as outras causas, a verdade de todas as verdades, sendo que o objetivo final do homem é a Visão Beatífica, a visão que dá a bem-aventurança.

Por conseguinte, toda moral é a arte e a ciência de preparar o homem para conseguir essa felicidade culminante e eterna. Pode-se definir a virtude, a bondade moral, como sendo a conduta pela qual o homem chega ao seu verdadeiro fim, que é o de se ver Deus. O homem se inclina naturalmente para o bem, para o que é desejável, mas o que ele julga ser o bem nem sempre o é moralmente, pois devido à concepção falsa que Eva teve do bem, o homem desobedeceu ao deus bíblico e agora traz em todas as gerações a mancha daquele primeiro pecado.

Não prevendo que a Igreja se decidiria a favor da Imaculada Concepção da Virgem, ou seja, a sua libertação do pecado original, São Tomás de Aquino julgou que Maria havia também concebido pelo pecado, acrescentando mais tarde, porém, que ela fôra “santificada antes do nascimento do fruto do seu ventre”.

São Tomás de Aquino supunha que a mulher contribuía para a geração apenas como matéria passiva, ao passo que o homem contribuía com a forma ativa, em que a mulher é o triunfo da matéria sobre a forma, por conseguinte, ela é o vaso mais fraco do corpo, do espírito e da vontade, sendo para o homem o que os sentidos são para a razão, pois que nela predomina o apetite sexual, ao passo que o homem é a expressão de um elemento mais estável, sendo que o homem e a mulher são feitos segundo a imagem do deus bíblico, principalmente o homem, que constitui o princípio e o fim da mulher, assim como o deus bíblico é o princípio e o fim do Universo.

Quanto ao mal, São Tomás de Aquino se esforça por provar que metafisicamente ele não existe, afirmando que o mal não é uma entidade positiva, pois toda realidade, como tal, é boa, sendo que o mal é apenas a ausência ou a privação de alguma qualidade ou poder que um ser deveria ter. Portanto, não constitui mal o fato de faltar asas ao homem, porém é um mal se lhe faltam as mãos, no entanto, não é um mal faltarem mãos aos pássaros. Assim, tudo que é criado pelo deus bíblico é bom, porém mesmo o deus bíblico não poderia transmitir a sua infinita perfeição às coisas criadas, já que ele permite que haja certos males a fim de alcançar a um bom fim ou impedir um mal maior, da mesma maneira que “os governos… acertadamente toleram certos males”, como a prostituição, “para que não incorra em um mal maior”.

São Tomás de Aquino escreveu três vezes sobre a filosofia da política, no seu comentário sobre a Política, de Aristóteles, em a Summa Theologica e em um breve tratado o Governo dos Príncipes, em que deste último apenas o Livro I e os capítulos 1-4 do Livro II são de sua autoria, com o restante sendo de autoria de Ptolomeu de Lucca.

Para ele, a sociedade e o Estado existem para o indivíduo e não o contrário, em que a soberania vem do deus bíblico, com esse poder sendo dado ao povo, mas que o povo é demasiado numeroso, esparso, inconstante e inculto para exercer a esse poder soberano, direta ou sabiamente, daí delegarem a sua soberania a um príncipe ou a um outro chefe. Esse poder conferido pelo povo é sempre revogável, e “o príncipe somente conservará essa faculdade de legislar enquanto representar a vontade do povo”. São Tomás de Aquino considera que o poder soberano pode ser delegado a muitas pessoas, a poucas ou somente a uma, assim a democracia, a aristocracia ou a monarquia podem ser todas boas, caso as leis forem boas e sejam bem aplicadas, mas, em geral, a monarquia constitucional é a melhor forma de governo, porquanto proporciona união, continuidade e estabilidade, uma vez que “uma multidão é melhor governada por um do que por muitos”, com o príncipe ou o rei devendo ser escolhidos pelo povo de entre qualquer classe da população. Mas se um monarca se tornar um tirano, ele deverá ser derrubado do poder pelo povo, por meio de uma ação moderada, uma vez que ele é sempre o servo e não o senhor absoluto da lei.

São Tomás de Aquino considera três espécies de leis:

  1. As leis naturais: como as leis do Universo;
  2. As leis divinas: conforme as que nos foram reveladas pela Bíblia;
  3. As leis humanas ou positivas: conforme constam da legislação dos Estados, sendo necessárias em virtude das paixões dos homens e o desenvolvimento do Estado.

No tocante ao credo, obviamente que o credo católico, São Tomás de Aquino considera que os problemas políticos e econômicos são também de ordem moral, por isso considera também que o credo católico deve ser colocado acima de tudo, com o Estado devendo se submeter, em questões de moral, à supervisão e orientação da Igreja. Assim, quanto maior for a autoridade, tanto mais alto será o seu objetivo, com os reis da Terra guiando os homens para a felicidade terrena, mas devendo se submeter ao papa, o qual guia os homens para a eterna felicidade.

Para ele o Estado deve ter autoridade suprema sobre as questões seculares, porém, mesmo nessas questões, o papa tem o direito de intervir quando os soberanos violam as leis da moral ou fazem ao povo um mal que se pode evitar. Desta maneira, para São Tomás de Aquino, o papa pode punir a um mau rei ou libertar os súditos dos seus juramentos de fidelidade. Além disso, o Estado deve proteger o credo católico, apoiar a Igreja e executar as suas leis.

Em 1274, Gregório X o chamou para comparecer ao Concílio de Lyon, tendo ele encetado uma longa viagem a cavalo, através da Itália, quando então, no caminho entre Nápoles e Roma, sentiu-se demasiadamente fraco, tendo se recolhido ao leito no mosteiro cisterciense de Fossanuova, na Campanha. Ali mesmo, nesse mesmo ano, desencarnou, quando contava com apenas quarenta e nove anos de idade.

O tomismo foi recebido pela maioria dos seus contemporâneos como sendo um perigoso amontoado de pensamentos considerado fatal para o credo católico. Os franciscanos, que buscavam ao deus bíblico através do pensamento de Santo Agostinho, ficaram chocados com os pensamentos de São Tomás de Aquino, que punha a sua compreensão acima do amor, com muitos duvidando como ele podia endereçar as suas orações a um deus tão frio, negativo e distante como o de Actus Purus, da Summa, como Jesus, o Cristo, podia ser parte de tal abstração, imaginando o que São Francisco diria a respeito de tal deus. O triunfo de Aristóteles sobre Santo Agostinho na filosofia tomista parecia aos franciscanos a vitória do paganismo sobre o dito cristianismo, ainda mais com os professores e estudantes da Universidade de Paris colocando Aristóteles acima dos Evangelhos.

Em 1277, sendo apoiado pelo papa João XXI, o bispo de Paris expediu um decreto estigmatizando duzentos e dezenove proposições como sendo heresias, havendo entre essas três que eram uma acusação contra São Tomás de Aquino, que os anjos não tinham corpo e constituíam, cada um deles, uma espécie separada, que a matéria é o princípio da individualização e que o deus bíblico pode, sem matéria, multiplicar as criaturas em uma espécie, com o bispo dizendo que todo aquele que defender tais doutrinas fica de fato excomungado. Alguns dias depois da aparição desse decreto, Roberto Kilwardby, um eminente dominicano, persuadiu os mestres da Universidade de Oxford a condenarem várias doutrinas tomistas, inclusive a que se referia à união do corpo com a alma, no homem.

Faziam então três anos que São Tomás de Aquino tinha desencarnado, por isso logicamente não podia se defender, mas Alberto, o seu antigo professor, partiu de Colônia para Paris, onde lá convenceu os dominicanos da França a fazerem causa comum com o frei seu companheiro. Guilherme de la Mare, um franciscano, entrou na contenda com um livro intitulado de Correctorium Fratis Thomae, retificando cento e dezoito pontos de São Tomás de Aquino. Outro franciscano, João Peckham, arcebispo de Cantuária, condenou oficialmente o tomismo e aconselhou a volta às doutrinas de Boaventura e São Francisco. Dante entrou na contenda ao fazer do arcabouço doutrinal de A Divina Comédia um tomismo modificado, escolhendo São Tomás de Aquino como guia na estrada para o céu. Após haver se passado metade de um século de lutas, os dominicanos convenceram o papa João XXII de que São Tomás de Aquino tinha sido um santo, com a sua canonização, em 1323, trazendo a vitória do tomismo.

Desse tempo em diante, os místicos encontraram na Summa a exposição mais profunda e mais clara da vida contemplativa, tendo por base o misticismo. Entre 1545 e 1563, durante o Concílio de Trento, colocaram a Summa Theologica em um altar, juntamente com a Bíblia e as Decretais. Ignácio de Loyola impôs à Ordem Jesuíta a obrigação de ensinar o tomismo. Em 1879, o papa Leão XIII, e, em 1921, o papa Benedito XV, embora não viessem a declarar estivessem livres de erros os trabalhos de São Tomás de Aquino, fizeram deles a filosofia oficial da Igreja Católica, a qual, hoje em dia, é ensinada em todos os colégios católicos romanos.

É certo que São Tomás de Aquino não conseguiu conciliar o pensamento de Aristóteles com o falso cristianismo, porém, dando ênfase à razão, apesar de passar ao largo da sua verdadeira natureza, alcançou para ela uma vitória que marcou época, levando-a como cativa para as regiões do credo católico, porém, com o seu triunfo, dera paradeiro à Idade das Trevas.

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