02.02.03.02.03- Abelardo

A Era da Verdade
11 de setembro de 2019 Pamam

Eu vou me estender um pouco mais neste tópico, não somente pelo fato de Abelardo ser um veritólogo, um dos criadores da Universidade de Paris, mas por ser um espírito que iluminou a obscuridade da Europa Latina no século XII, que assim como Heloísa, a sua mulher amada, cujo amor perdurou por toda uma vida, engloba a personificação da moral e da literatura, sendo o espírito mais fascinante do seu tempo.

Não se sabe a origem do nome Abelardo, mas ele encarnou na Bretanha, perto de Nantes, na aldeia de Le Pallet, Berengário, em 1079, tendo desencarnado em Chalon-sur-Saóne, reino da França, com a idade de 63 anos. O seu pai era dono de uma modesta propriedade, tendo podido dar aos filhos uma educação considerada como sendo liberal. Abelardo era o mais velho dos irmãos, podendo assim impor os seus direitos de sucessão como primogênito, mas se sentiu tão profundamente interessado nos seus estudos e pensamentos que acabou cedendo aos irmãos a sua parte nos bens para se dedicar, única e exclusivamente, à Veritologia, sob a denominação de Filosofia, embora sendo muito afeito à doutrina católica, que sufocava qualquer pensamento contrário à sua doutrina.  

Teve grande influência em seus pensamentos o fato de um dos seus primeiros mestres haver sido João Roscelin, considerado como sendo um cristão rebelde, que foi o seu precursor no sentido de chamar sobre si a condenação da Igreja, no final de sua vida.

A controvérsia que João Roscelin havia criado se originara de um inofensivo problema de lógica, a existência objetiva dos universais, que se encontra exposto no tópico 02.02.03.01.02- Os universais. Nós conhecemos os seus pensamentos por aquilo que escrevem os seus opositores, os quais dizem que João Roscelin considerava os universais ou as ideias gerais como sendo meras palavras, simples sopros de voz, que as coisas individuais e as pessoas existiam e que tudo o mais não passava de nomes. O gênero, as espécies e as qualidades não têm existência independente, não existe homem, mas sim homens, e a cor somente existe na forma de coisas coloridas.

A Igreja não teria dado maiores atenções a João Roscelin se ele não tivesse aplicado esse seu nominalismo à Trindade, pois para ele deus, no caso o deus bíblico, é uma palavra que se aplica às três pessoas da Trindade, assim como homem se aplica a muitos homens, porém tudo o que existe são as três pessoas, com efeito, três deuses. Como se pode claramente constatar, tal pensamento admitia o politeísmo de que o islã implicitamente acusava o falso cristianismo constantemente.

João Roscelin foi intimado a comparecer diante de um sínodo episcopal em Soissons, no ano de 1092, onde lhe foi dada a alternativa de se retratar ou então sofrer a excomunhão, tendo ele se retratado, mas depois fugiu para a inglaterra, onde de lá atacou o concubinato do clero, que em todos os tempos sempre foi depravado e afeito a orgias, incluindo-se os papas. Depois regressou para a França, onde começou a lecionar em Tours e Loches. Foi provavelmente em Loches que Abelardo se tornou o seu discípulo, tendo ele rejeitado o nominalismo de João Roscelin, mas ficou em dúvida em relação à Trindade, pelo que foi condenado duas vezes pela Igreja. Mas Santo Anselmo defendeu eficientemente a Igreja em vários escritos que parecem ter impressionado profundamente a Abelardo.

Após procurar adentrar por muito tempo nos domínios do saber, mas sem conseguir se libertar da pecha do falso cristianismo, Abelardo entrou na escola de Guilherme de Champeaux, um dos discípulos de João Roscelin, que desenvolveu o realismo de Santo Anselmo, quando contava com apenas 24 anos de idade, sendo absolutamente consciente do seu talento, por isso rejeitava os dogmas e as sensibilidades dos mestres do seu tempo com o arroubo próprio da sua mocidade, sendo muito afeito à Filosofia.

Abelardo discordou do realismo exagerado de Guilherme de Champeaux e o desafiou em plena aula, refutando o pensamento de que toda a humanidade se achava integrada em Sócrates, pois, neste caso, achando-se toda a humanidade integrada em Alexandre, Sócrates estaria também nela integrado, por conseguinte, devia se achar presente em Alexandre. Não se sabe quais foram os argumentos de Guilherme de Champeaux, mas o fato é que Abelardo não os aceitou. Vale salientar que no século XII se chamava de realismo à antiga doutrina, enquanto se chamava de modernos os seus adversários.

Ao realismo de Guilherme de Champeaux e ao nominalismo de João Roscelin, Abelardo opôs o que veio a ser denominado de conceptualismo, em que a classe, por exemplo, homem, pedra, etc.; existe fisicamente somente na forma dos seus membros componentes, justamente homens, pedras, etc.; as qualidades, por exemplo, brancura, bondade, verdade, etc., somente nos objetos, ações ou ideias que elas qualificam, porém a classe e a qualidade não são meros nomes, são conceitos formados pelo nosso espírito, formado de elementos ou coisas que notamos serem comuns a um grupo de indivíduos, objetos, ações ou ideias. Tais elementos comuns são reais, embora apareçam apenas em formas individuais. Os conceitos pelos quais pensamos nesses elementos comuns — as ideias universais ou genéricas pelas quais pensamos nas classes de coisas semelhantes — não são sopros de voz, mas sim os instrumentos mais úteis e indispensáveis ao pensamento, pois sem eles a ciência e a Filosofia não tinham razão de ser.

Após cursar as aulas de Guilherme de Champeaux por algum tempo, Abelardo passou a lecionar, primeiro em Melun, situada a setenta quilômetros de Paris, e mais tarde em Corbeil, situada a quarenta e cinco quilômetros de Paris, sendo muito criticado por lecionar após tão breve aprendizado, mas foi acompanhado por muitos estudantes. Guilherme de Champeaux se tornou monge em São Vitor, continuando ali a dar as suas preleções, com Abelardo voltando a cursar as suas aulas, forçando o seu mestre a mudar o seu realismo, abalando com isso o prestígio do seu mestre, cujo sucessor em Notre Dame, em 1109, ofereceu o seu lugar a Abelardo, mas o seu mestre se recusou a dar o seu consentimento a tal substituição, tendo Abelardo voltado a lecionar em Melun, passando depois para o Monte Santa Genoveva, fora de Paris.

Esses fatos propiciaram uma disputa acirrada entre Abelardo e Guilherme de Champeaux, e entre os seus respectivos estudantes se travou uma verdadeira guerra acerca dos pensamentos de ambos, perdurando essa guerra por muitos anos. Não obstante rejeitar o nominalismo, Abelardo se tornou o chefe e o herói dos modernos, os entusiasmados jovens rebeldes da escola moderna, avessos ao realismo dogmático.

Nesse período de luta intensa, os seus pais entraram em uma ordem credulária, com Abelardo tendo que voltar para Le Pallet para se despedir deles, tendo regressado para Paris em 1115, após passar algum tempo estudando Teologia em Laon, tendo então estabelecido a sua escola em Notre Dame, tornando-se membro da catedral, embora não fosse sacerdote, quando lá poderia alcançar uma alta posição eclesiástica, caso os seus pensamentos fossem alinhados com os da Igreja, mas tinha estudado Filosofia e Literatura, tornando-se um mestre que sabia fazer as suas exposições com elegância e clareza, reconhecendo que tinha a obrigação moral de ser muito claro, não receando em imprimir certo espírito em suas orações, a fim de lhes suavizar o peso. Estudantes de muitos países vieram cursar as suas aulas, que se tornaram tão concorridas que ele não somente ganhou muito dinheiro, como também adquiriu fama internacional. Isso tudo é testemunhado através de uma carta que o abade Foulques lhe endereçou alguns anos depois, que diz o seguinte:

Roma vos enviou os filhos para que lhes désseis uma boa instrução… A distância, as montanhas, os vales e as estradas infestadas de bandidos não impediram que a mocidade vos fosse procurar. Jovens ingleses atravessaram um mar perigoso para ingressarem em vossos cursos, todas as regiões da Espanha, Flandres e Alemanha vos enviaram alunos e eles jamais cessaram de elogiar o vigor de vosso espírito e, com eles, todos os habitantes de Paris e das mais longínquas regiões de França, os quais ansiavam também por receber os vossos ensinamentos quase como se fôsseis o único que pudesse lhes lecionar todas as ciências”.

O próprio Abelardo afirma que até aquele tempo, mais ou menos em 1117, havia mantido a máxima continência e diligentemente evitado todos os excessos, porém a donzela Heloísa, sobrinha de Fulberto, o cônego da catedral, com a sua graciosa figura, despertou-lhe toda a sensibilidade masculina, com ele passando a sofrer de amores pela jovem donzela.

Durante aqueles anos atribulados, em que Abelardo e Guilherme de Champeaux se digladiavam com os seus pensamentos, Heloísa passara da infância para a juventude na orfandade, enclausurada em um convento, a mando do seu tio Fulberto. No convento, ela se dedicou à leitura de livros existentes em uma pequena biblioteca, tornando-se uma das alunas mais brilhantes que até então as freiras tinham tido. Quando Fulberto soube que ela podia conversar em latim tão bem como em francês, estando até mesmo aprendendo o hebraico, encheu-se de orgulho e a levou para morar em sua casa, perto da catedral.

Em 1117, Heloísa contava com dezesseis anos de idade quando Abelardo surgiu em sua vida, sendo certo que ela já ouvira falar sobre ele, dada a sua fama, tendo ficado encantada quando Fulberto lhe disse que Abelardo iria morar com eles e ser o seu preceptor. O próprio Abelardo expõe com franqueza o seu relacionamento com a jovem donzela:

Era aquela a jovem com a qual resolvi me unir nos laços do amor. Realmente, pareceu-me que tudo seria muito fácil. Eu gozava de um grande nome e possuía a vantagem de ser jovem e garboso, não receava que uma mulher a quem pudesse favorecer com o meu amor viesse a me rejeitar… Assim, completamente apaixonado por aquela virgem, tratei de descobrir meios a fim de que pudesse conversar diariamente com ela na maior intimidade e, com isso, conquistar-lhe facilmente a sua afeição. Persuadi, para tal fim, o tio da jovem… em troca do pagamento de uma pequena quantia… Ele era muito avarento… acreditou que a sobrinha lucraria imensamente com as minhas lições… A simplicidade daquele homem não deixou de ser algo extraordinário. Não me causaria mais surpresa se o visse confiar uma inocente ovelha aos cuidados de um lobo cruel…

Por que deveria acrescentar algo mais? Ficamos unidos, primeiro na casa que abrigava o nosso amor e depois pelo calor de nossos corações. Com o pretexto de estudarmos, passávamos horas gozando a felicidade do nosso amor… Trocávamos mais beijos do que palavras sensatas. Procurávamos mais as carícias do que os livros, vivíamos presas do amor”.

Não era apenas o desejo físico que impulsionava Abelardo para os braços de Heloísa, era um amor verdadeiro, tanto que ele dizia assim: “uma ternura que ultrapassava em suavidade o mais fragrante bálsamo”; em que essa sua nova experiência de cunho amoroso fê-lo olvidar da Filosofia, fazendo com que ele se entregasse totalmente ao amor, quando então as suas preleções se tornaram muito monótonas, com os seus alunos lamentando a sua atitude, mas satisfeitos com a relação, tanto que se consolaram ao perderem os torneios de oratória, passando a cantar as canções de amor que ele começara a compor, enquanto Heloísa, de sua janela, ouvia, por sua vez, dos lábios de todos eles o vibrar das suas canções.

Após um período de relacionamento intenso, Heloísa anunciou a Abelardo que iria ser mãe, o que ensejou a que ele a tirasse da casa do tio uma certa noite, mandando-a às escondidas para a casa da sua irmã, na Bretanha. Fulberto ficou enfurecido, mas Abelardo se ofereceu para se casar com Heloísa, contanto que o tio o deixasse manter o casamento em segredo. Fulberto concordou, tendo Abelardo suspendido as aulas e seguido para a Bretanha, a fim de ir buscar a sua querida noiva.

Astrolábio, o filho, já contava com três dias de nascido quando Abelardo lá chegou, tendo Heloísa se recusado a casar, pois uma geração antes, as reformas dos papas Leão IX e Gregório VII tinham vedado o ingresso no sacerdócio de todos os homens que fossem casados, salvo se a esposa se tornasse freira, mas Heloísa ainda não se achava preparada para enfrentar tal renúncia, não podendo renunciar a um companheiro e ao filho, então propôs continuar como sendo a sua amante, sob a alegativa de que tais relações, mantidas em segredo, sem a necessidade do casamento, não iriam lhe fechar o caminho para uma promoção na Igreja.

Em sua obra intitulada de História de Minhas Desgraças, em uma longa passagem, Abelardo atribui a Heloísa uma lista de exemplos que ela lhe deu muito judiciosamente, e um ataque de casamentos a filósofos. Atribui-lhe também a súplica eloquente que lhe fez, dizendo que “não se devia privar a Igreja de uma luz assim tão brilhante”; dizendo também “Lembrai-vos de que Sócrates fôra casado e com que sordidez ele expurgou essa mancha na Filosofia para que depois os homens pudessem ser mais prudentes”; e completa: “Ser-me-ia mais agradável se me chamassem de vossa amante ao invés de vossa esposa, aliás, isso me honraria muito mais”; o que ele relata como se fossem palavras dela. Mas Abelardo a convenceu a se casar, com a promessa de que apenas uns poucos amigos íntimos ficariam sabendo do casamento.

Abelardo e Heloísa deixaram o filho com a irmã daquele, voltaram para Paris e se casaram na presença de Fulberto, mas para que o casamento permanecesse em segredo, Abelardo foi morar em seus aposentos de solteiro, enquanto Heloísa tornou a viver na casa do tio, com os dois passando a se encontrar mais raramente e sempre às escondidas. Mas Fulberto quebrou a promessa feita a Abelardo de guardar segredo sobre o casamento, tendo espalhado a notícia. Sendo extremamente fiel ao marido, Heloísa desmentiu a notícia, por isso Fulberto a visitava frequentemente, impondo-lhe castigos. Mais uma vez Abelardo a tirou de casa, enviando-a contra a vontade para o convento de Argenteuil, ordenando-lhe que vestisse trajes de freira, mas sem fazer os votos. O próprio Abelardo nos conta a repercussão havida quando os parentes souberam do ocorrido:

Eles ficaram convencidos de que eu os tinha traído, desvencilhando-me para sempre de Heloísa, obrigando-a a entrar em um convento. Enraivecidos, urdiram uma trama contra mim. Certa noite, quando dormia em um quarto secreto de minha residência, eles invadiram o meu aposento, auxiliados por um dos meus criados por eles subornado. Vingaram-se de mim me infligindo uma punição cruel e vergonhosa, pois cortaram as partes do meu corpo com as quais eu fizera aquilo que causara a sua tristeza. Feito isso, fugiram, mas dois deles foram capturados e sofreram a perda dos olhos e dos órgãos genitais”.

Todo o povo de Paris, inclusive o clero, lamentou o ocorrido, com os estudantes procurando confortá-lo. Fulberto se furtou à ação da justiça, tendo o bispo lhe confiscado as propriedades. Mas, mesmo assim, Abelardo compreendeu que estava com a sua vida arruinada, já que “a história daquele espantoso ultraje se espalharia por todos os cantos da Terra”, pois não podia mais sequer pensar em uma carreira eclesiástica, já que a sua fama se encontrava completamente manchada, e que ora em diante seria alvo de zombarias. Então ordenou a Heloísa que fizesse os votos e ele mesmo ingressou como monge em São Dionísio.

Em 1120, recomeçou a lecionar em uma cela do convento beneditino de Maisoncelle, abordando os assuntos que constavam nas preleções dos seus livros, que haviam sido escritos em períodos diferentes e repletos de atribulações, não se sabendo a data em que foram escritos, sendo difícil mensurar o quanto a mutilação abafou o calor do seu espírito.

Entre os seus escritos, quatro pequenos trabalhos giram em torno do problema dos universais. No entanto, a sua obra intitulada de Dialectica é um tratado de lógica inspirado em Aristóteles, que trata da análise racional das partes da oração, as categorias de pensamentos, em que aborda a substância, a quantidade, o lugar, a posição, o tempo, a relação, a qualidade, a posse, a ação e até a paixão, em que se inclui as formas de proposições e as regras de raciocínio.

No tempo de Abelardo, a dialética era a parte mais interessante da Filosofia, por influência de Aristóteles, já que os seus tratados de lógica se tornaram conhecidos nos primórdios do escolasticismo. Em sua obra Dialectica, vamos encontrar algumas referências sobre a guerra travada entre a fé credulária e a razão, embora até hoje todos ainda ignorem que a razão é a união entre a verdade e a sabedoria, com ele afirmando que a verdade não pode contrariar a si mesma, em que as verdades das Escrituras devem concordar com as descobertas da razão, senão o deus bíblico, que nos a deu, estaria nos iludindo com uma e outra.

Ao que tudo indica, antes da sua tragédia, tivesse Abelardo escrito o seu diálogo entre um filósofo, um judeu e um cristão, um falso cristão, diga-se de passagem, dizendo que em uma visão à noite três homens o procuraram por ser ele um professor famoso e lhe pediram que julgasse a sua controvérsia. Todos os três acreditavam em um só deus, no caso o deus bíblico, com dois admitindo as escrituras hebraicas, quando então o filósofo refuta aquelas opiniões e propõe que se baseie a vida e a moral na razão e nas leis naturais, no que se encontrava absolutamente correto, argumentando ser um absurdo se apegar a crenças da nossa infância, partilhar as superstições populares e se condenar ao inferno aqueles que não admitem tais frivolidades, terminando por chamar os judeus de tolos e os falsos cristãos de loucos. O judeu responde que os homens não podiam viver sem leis, que o deus bíblico, à semelhança de um bom rei, deu ao homem um código de conduta e que os preceitos do Pentateuco mantiveram a coragem e a moral dos judeus através dos séculos em que eles se viram dispersados e sofrendo grandes tragédias. O filósofo então pergunta o seguinte: Então como os patriarcas deles viveram tão nobremente muito antes de Moisés e as suas leis? Como podiam acreditar em uma revelação que prometia a felicidade terrena e que, no entanto, permitia que sofressem tal pobreza e desolação? O falso cristão admite muita coisa que o filósofo e o judeu disseram, mas apresenta um argumento dizendo que o cristianismo, o falso cristianismo, diga-se de passagem, desenvolveu e aperfeiçoou as leis naturais de um e as leis mosaicas de outro, que esse cristianismo se elevou mais do que nunca frente aos ideais morais da humanidade, e que a Filosofia e as escrituras dos judeus não ofereciam ao homem a felicidade eterna, com esse cristianismo dando ao homem atribulado essa esperança, sendo, portanto, infinitamente precioso. Esse diálogo é inacabado.

Temos depois a obra intitulada Sim e Não, em que a primeira menção ao seu respeito se encontra em uma carta de Guilherme de S. Thierry a São Bernardo, em 1140, descrevendo-o como sendo um livro muito suspeito que circulava secretamente entre os alunos e os partidários de Abelardo. Essa obra somente tornou a surgir na história em 1836, quando foi descoberta por Vitor Cousin em uma livraria em Avranches. Após uma introdução credulária, o livro se divide em cento e cinquenta e sete questões, abordando inclusive os mais básicos dogmas da fé credulária. Em cada uma das questões, em uma coluna oposta, figuram duas citações, uma apoiando a afirmativa e a outra a negativa. Trata-se de citações da Bíblia, dos Padres da Igreja e dos clássicos pagãos, incluindo até mesmo a Arte de Amar, de Ovídio. O objetivo do livro era fornecer referências de divergências escolásticas, mas a introdução impugnava a autoridade dos Padres da Igreja, mostrando-os em contradição uns com os outros, e até mesmo consigo mesmos.

Abelardo não refuta a autoridade da Bíblia, que infelizmente ainda é aceita por muitos credulários até os dias de hoje, mas argumenta que a sua linguagem foi feita para os analfabetos, devendo ser interpretada pela razão, assim como neste site está sendo interpretada, já que Jeová se trata de um espírito inferioríssimo; pois que o texto sagrado muitas vezes apresentava deslizes, possivelmente em face do desleixo na ocasião em que o copiaram, e que as passagens das Escrituras estavam em contradição umas com as outras, devendo a razão procurar conciliá-las. Como que antecipando a dúvida de Descartes por quatrocentos anos, escreveu ele no mesmo prólogo: “Constantes indagações constituem a primeira chave para abrir a porta da Filosofia, pois é duvidando que se chega às indagações e é com estas últimas que se chega à verdade”; quando então cita o fato de que o próprio Jesus, ao enfrentar os doutores do Templo, cumulou-os de perguntas.

O primeiro debate no livro é quase uma declaração de independência para a Filosofia, quando diz que “A fé deve ser fundamentada de acordo com a razão humana, e vice-versa”; no que se encontrava absolutamente correto, em conformidade com o item 11.06- A fé e a convicção, contido em Prolegômenos, neste site, citando Ambrósio, Agostinho e Gregório I como defensores da fé, leia-se fé credulária, e Hilário, Jerônimo e Agostinho para dizer que é bom poder provar a sua fé pela razão.

Embora venha a afirmar repetidamente a sua ortodoxia, Abelardo abre para debate problemas tais como o da Divina Providência contra a Vontade Livre, a existência do pecado e do mal em um mundo criado por um deus bom e onipotente, abrindo a possibilidade do deus bíblico não ser onipotente. Esse seu raciocínio livre das peias do dogmatismo sobre essas questões abalou a fé credulária de jovens estudantes afeitos aos debates, em que esse processo de ensino por meio de debates livres se tornou possível em função do exemplo de Abelardo, cujo método era professado regularmente nas universidades francesas e constante dos escritos filosóficos e teológicos. Iremos encontrar esse método em São Tomás de Aquino, sem que o censurassem por isso.

Se a sua obra intitulada de Sim e o Não abalou apenas algumas mentes, em função de haver sido limitada a sua circulação, nota-se que a tentativa de Abelardo em aplicar a razão ao Mistério da Santíssima Trindade não podia restringir a sua influência, pois era o assunto de suas preleções no ano de 1120 e do seu livro A Unidade Divina e a Trindade, com ele dizendo o seguinte:

Para os meus estudantes, porque eles estavam sempre procurando explicações de ordem racional e filosófica, pediam que lhes desse razões que pudessem compreender e não apenas meras palavras, dizendo que era futilidade exprimir palavras que a inteligência não podia compreender, que não se podia acreditar em nada, a não ser que fosse primeiramente compreensível, e que era absurdo querer pregar a outros uma coisa em que a própria pessoa e aqueles não compreendiam”.

Apesar de veritólogo, Abelardo muito intelectualizado. Ele afirma que esse livro se tornou muito popular, com a sua sutileza surpreendendo ao público, declarando que a unidade do deus bíblico constitui um ponto com o qual concordaram os maiores credos e os maiores filósofos. Para ele, em um único deus, no caso o deus bíblico, podemos considerar a sua força como sendo a primeira pessoa, a sua sabedoria como sendo a segunda, a sua graça, a sua caridade e o seu amor como sendo a terceira; sendo essas as fases ou as modalidades da essência divina, porém que todas as obras do deus bíblico sugerem e unem, ao mesmo tempo, a sua força, a sua sabedoria e o seu amor, em que muitos teólogos consideraram tal analogia admissível.

O bispo de Paris rejeitou o apelo do ortodoxo João Roscelin para que se condenasse Abelardo por heresia, com o bispo Godofredo de Chartres o defendendo durante toda aquela tempestade que se desencadeara sobre ele, mas em Reims, Alberico e Lotulfo, dois professores que haviam discutido com Abelardo em Laon, em 1113, incitaram o arcebispo a que o intimasse a comparecer em Soissons com o livro sobre a Trindade a fim de se defender contra acusações de heresia. Em 1121, quando Abelardo surgiu em Soissons, viu que tinha levantado a população contra ele, que assim disse: “quase me apedrejaram… na crença de que eu havia pregado a existência de três deuses”. O bispo de Chartres exigiu que Abelardo fosse ouvido pelo concílio para a sua própria defesa, quando então Alberico e outros a isso se opuseram, sob a alegativa que não se podia resistir aos argumentos dele, então o concílio o condenou sem sequer ouvi-lo, obrigando-o a lançar o livro ao fogo e ordenando que o abade de St. Médard o encerrasse durante um ano em seu mosteiro, mas logo depois um representante do papa o libertou, enviando-o novamente para São Dionísio.

Em 1122, após passar um ano agitado em companhia dos monges, Abelardo conseguiu a permissão de Suger, o novo abade, para construir para si uma ermida em um lugar solitário a meio caminho entre Fontainebleau e Troyes. Ali, com um companheiro de ordens menores, ele ergueu com varas e troncos um pequeno oratório a que deu a denominação de Trindade Sagrada.

Quando os estudantes souberam que se encontrava novamente livre, foram ao seu encontro e improvisaram para si mesmos uma escola, construindo cabanas naquele local isolado, passando a dormir sobre esteiras e palhas, alimentando-se de pão e ervas do campo. Como pagamento das preleções de Abelardo, os estudantes cultivavam os campos, erguiam edifícios e construíram um novo oratório para ele, feito de madeira e pedra, ao qual Abelardo denominou de Paracleto, que quer dizer Espírito Santo, como que a afirmar que a feição dos discípulos surgira em sua vida como um espírito santo justamente quando tinha fugido da sociedade dos homens para se entregar a uma vida solitária.

Passou ali três anos felizes, com as preleções que deu aos estudantes sendo conservadas e editadas em dois livros, com o primeiro sendo intitulado de Theologia Christiana e o segundo simplesmente de Theologia. A doutrina era ortodoxa, mas continha referências elogiosas a pensadores pagãos, com a afirmativa de que Platão também tivera gozado da inspiração divina, que nada mais eram do que intuições do Astral Superior, pois Abelardo não podia acreditar que esses espíritos que antecederam ao cristianismo, ao falso cristianismo, diga-se de passagem, não tivessem conseguido se salvar, sob a alegativa de que o deus bíblico dá o seu amor a todas as criaturas, inclusive aos judeus e pagãos.

Abelardo voltou a fazer a defesa da razão na Teologia, mesmo sem saber o que seja a razão na realidade, argumentando que se devia combater os hereges mais pela razão do que pela força, pois aqueles que recomendam a fé credulária sem a devida compreensão, estão em muitos casos procurando encobrir a sua incapacidade de ensiná-la de maneira inteligível.

Mesmo sendo afeito ao sobrenatural, embora procurasse sempre a razão, mas a conciliando com a fé credulária, essa agudeza do seu espírito fez com que arranjasse novos inimigos, tanto que se referindo a Bernardo de Clairvaux e a Norberto, o fundador da Ordem Premonstratense, escreveu o seguinte:

Alguns novos apóstolos, aos quais o mundo deposita uma grande fé, correram aqui e acolá… difamando-me descaradamente de toda a maneira que podiam, e com isso conseguiram que grandes espíritos lançassem o seu desprezo sobre mim… Deus é testemunha de que toda a vez que se reunia uma nova assembleia do clero eu julgava que o faziam com o fim exclusivo de me condenarem”.

Em 1125, para silenciar tais críticas, Abelardo abandonou o ensino e aceitou um convite para ser abade do mosteiro de S. Gildas, na Bretanha, sendo muito provável que Suger tivesse arranjado a transferência para acalmar o ambiente tempestuoso. Sendo um moralista, Abelardo se ressentiu por se ver de repente no meio de monges que viviam abertamente com concubinas. Ao providenciar as suas reformas, os monges se revoltaram, pondo veneno na taça em que Abelardo bebia na missa, mas falharam nessa tentativa, então subornaram um criado para que lhe envenenasse a comida, porém outro monge dela se serviu e desencarnou imediatamente.

Desde que se separara de Abelardo, Heloísa se entregara com tal devoção às suas obrigações de freira, que chegou à posição de prioresa. Sabendo que Heloísa e as suas freiras estavam procurando novos alojamentos, Abelardo lhes ofereceu o oratório e os edifícios do Paracleto, indo pessoalmente ajudá-las a se instalar ali e, frequentemente, visitava-as, quando então pregava as suas orações a elas e aos aldeões que se haviam estabelecido nas proximidades. Em relação aos mexeriqueiros, Abelardo dizia que “eu que, nos tempos passados, mal podia tolerar uma vida longe da mulher que amava, estava ainda atraído pelos prazeres terrenos”.

Em 1133, nos tempos em que passou na abadia de St. Gildas, Abelardo escreveu a sua autobiografia intitulada de História das Minhas Calamidades, em que a obra assumia a feição de um ensaio na consolação que oferecia a um amigo que se lamentava, em que dizia: “de maneira que, se comparardes as vossas mágoas com as minhas, descobrireis que as vossas, na verdade, nada representam”. Segundo um depoimento antigo, mas que não se pode confirmar, que uma cópia de sua autobiografia chegou às mãos de Heloísa, que escreveu uma resposta, dizendo assim:

Ao meu mestre, aliás pai, ao meu esposo, aliás irmão; sua serva, aliás filha, sua esposa, aliás, irmã; a Abelardo, Heloísa. A vossa carta escrita a um amigo para lhe levar conforto, querido, chegou alguns dias às minhas mãos por acaso… Ela encerra coisas que não se podem ler ou ouvir sem que nos venham aos olhos as lágrimas, pois aumentaram ainda mais os meus sofrimentos… Em Seu nome, Dele que ainda vos protege… em nome de Cristo, como Suas servas e vossas também, suplicamos-vos que vos digneis nos informar frequentemente por carta dos infortúnios que vos acometem, a fim de que possais pelo menos contar conosco, nós que fomos as únicas que permanecemos as vossas companheiras tanto nas alegrias como nas tristezas…

Sabeis, querido — todo o mundo sabe —, o que perdi em vós… Obedecendo à vossa ordem, troquei os meus hábitos e o meu coração para que pudesse mostrar que éreis o dono do meu corpo e do meu espírito… Não tive em vista a promessa de matrimônio, nem de qualquer doação… E se o nome de esposa parece ser mais sagrado e valer mais, devo dizer que para mim é mais doce a palavra amiga ou, se não vos envergonhais de ouvir, a de concubina ou meretriz… Apelo para o testemunho de Deus que, se Augusto, dominando todo o mundo, viesse a me julgar digna de honra de um casamento e me entregasse todo o mundo para que eu o governasse para sempre, diria que me seria mais caro e mais digno se me chamasse de vossa prostituta em vez de imperatriz…

Pois quem, entre os reis e filósofos, poderia igualar a vós em celebridade? Qual o reino ou cidade ou aldeia que não ansiou por vos ver? Quem, pergunto, não correu para vos contemplar quando aparecíeis em público?… Qual a esposa, qual a virgem que não sentiram a vossa ausência e não se entusiasmaram em vossa presença? Qual a rainha ou dama poderosa que não teve inveja de minha felicidade e de minha cama?…

Dizei-me apenas uma coisa se puderdes: por que, depois de nossa conversão (à vida credulária, digo eu), da qual fostes o único a decretar, caí em tal esquecimento de vossa parte sem que possa me confortar com a vossa palavra e presença, sem sequer poder contar com uma carta em vossa ausência? Dizei-me apenas uma coisa, se puderdes, ou me deixai vos dizer o que sinto, aliás o que desconfio: foi mais a concupiscência que vos uniu a mim do que a afeição… Portanto, quando cessou o que tínheis desejado, desapareceu também tudo o que havíeis demonstrado para comigo. Isso, meu amado, não é conjectura apenas minha, é conjectura de todos… Quisera que não se desse tão somente comigo e que o vosso amor tivesse encontrado outrem que o desculpasse, com o que então poderia apaziguar um pouco a minha dor.

Atentai, suplico-vos, ao que vos peço… Enquanto estiver privada de vossa presença, dai-me com palavras escritas — das quais tendes abundância — a doçura de vossa imagem… Eu merecia mais do que isso de vós, tendo feito tudo o que fiz por vós… Eu, que ainda jovem fui levada para as asperezas da conversão monástica… não por devoção religiosa, porém unicamente por uma ordem vossa… Não posso esperar nenhuma recompensa de Deus, pelo amor do Qual é fato bem conhecido que nada fiz…

E assim em Seu Nome, ao Qual vós entregastes, perante Deus vos suplico que, de qualquer maneira que puderdes, restaureis em mim a vossa presença, escrevendo palavras de conforto… Adeus, meu querido”.

É óbvio que Abelardo se encontrava fisiologicamente incapacitado para responder a esse arroubo de paixão, mas a História lhe atribui uma resposta a Heloísa lembrando os votos credulários, dizendo: “A Heloísa, sua amada irmã em Cristo, Abelardo, seu irmão também em Cristo”, ao mesmo tempo em que a aconselha para que aceite com humildade os infortúnios como um meio de se purificar e se salvar da punição do deus bíblico, pedindo as suas orações e recomendando que acalme a sua dor, com a esperança de que irão se unir no céu, solicitando que quando morrer venha a ser enterrado nos terrenos do Paracleto.

A segunda carta de Heloísa contém manifestações repletas de amor e admiração, quando diz o seguinte:

Sempre receei vos ofender, mais do que a Deus, procuro vos agradar mais do que a Ele… Vede que vida infeliz a minha, se tenho de suportar tudo isso em vão, sem esperança de uma recompensa futura. Durante muito tempo vós, como muitos outros, fostes enganado pelas minhas simulações, de maneira a julgar que era religião o que não passava de hipocrisia”.

Abelardo respondeu que Cristo é quem amava verdadeiramente e não ele, dizendo ainda:

O meu amor era concupiscência e não amor, satisfiz em vós os meus degradantes desejos e isso foi tudo o que amei… Chorai pelo vosso Salvador e não pelo vosso sedutor, chorai pelo vosso Redentor e não pelo homem que vos desonrou”.

A terceira carta de Heloísa demonstra se achar resignada com a morte terrena do seu amor, pedindo desta vez apenas novas regras pelas quais ela e as suas freiras possam viver adequadamente uma vida credulária.

Abelardo a satisfez, elaborando para elas um código moderado, escrevendo sermões para doutriná-las e enviando tais composições a Heloísa com um termo final, dizendo o seguinte: “Adeus à serva de Nosso Senhor, a qual me foi outrora muito cara e que agora é muito cara a Cristo”; embora no íntimo ele ainda a amasse profundamente.

A História põe em dúvida a autenticidade dessas cartas, porquanto as dificuldades para se saber são levantadas da seguinte maneira:

  1. A primeira carta de Heloísa dá a entender que resultou da obra História das Minhas Calamidades, cuja obra registra várias visitas de Abelardo a Heloísa no Paracleto, contudo ela se queixa de que ele a esqueceu, mas se alega que a obra foi publicada aos poucos e somente as primeiras partes precederam a carta;
  2. A ousada sensualidade de certas passagens parece inacreditável em uma mulher, cuja devoção credulária durante quatorze anos lhe havia granjeado um grande respeito por parte de todos, o que se atesta nos testemunhos de Pedro, o Venerável, e do próprio Abelardo;
  3. Há artifícios de retórica nas cartas e pedantes citações dos clássicos dos Padres da Igreja, o que dificilmente ocorreria a um espírito que sinceramente sentisse amor, piedade ou mesmo remorso;
  4. Os mais antigos manuscritos da carta datam do século XIII, já que João de Meung aparece como os tendo traduzido do latim para o francês em 1285.

Os historiadores concluem provisoriamente que essas cartas figuram entre as mais brilhantes falsificações de que há registro na história, não sendo consideradas como dignas de crédito, mas mesmo assim constituindo uma etapa inesquecível da literatura romântica da França.

Não há indícios de que a castração o tivesse prejudicado em seus trabalhos, através dos quais nos transmitiu a substância dos seus ensinamentos, em que neles dificilmente se encontra uma heresia explícita, embora existam trechos que devem ter proporcionado muita inquietação ao clero. Em sua obra intitulada de Conhece-te a Ti Mesmo, ele argumentou que o pecado não se encontra no ato que se pratica, mas sim na intenção, por isso nenhum ato, nem mesmo o de matar a alguém é em si mesmo um pecado, tal como uma mãe que tem pouca roupa para agasalhar o filho, apertando-o contra o peito, sufocando-o, sem que fosse essa a sua intenção, tendo ela matado o ente que mais amava, com a lei a punindo a fim de que outras mulheres agissem com mais cautela, mas aos olhos do deus bíblico ela não cometera um pecado. Assim, para que haja pecado será preciso que a pessoa viole a sua própria consciência moral e não apenas a dos outros. Também a matança dos mártires ditos cristãos não constituiu pecado para os romanos, os quais consideravam que a perseguição que faziam era necessária para a preservação do Estado e de um credo que, para eles, parecia verdadeiro. Com semelhante pensamento, toda a doutrina de pecados como sendo uma violação da lei do deus bíblico ameaçava contrariar as causas no tocante a intenções. Em 1141, dos dezesseis enxertos pelos quais Abelardo foi condenado, seis foram extraídos dessa obra.

Mas o que mais incomodou a Igreja, mais do que qualquer heresia específica de Abelardo,  foi a sua afirmação de que na fé credulária não havia mistérios, podendo ela ser explicada de maneira racional, assim como todos os dogmas. Caso Abelardo tivesse se manifestado isoladamente, talvez a Igreja não tivesse lhe dado muita atenção, mas acontece que ele tinha centenas de adeptos, havendo ainda outros professores que também estavam se pronunciando sobre a fé credulária através da razão, como Guilherme de Conches, Gilberto de la Porrée, Berengário de Tours e outros. Com esse processo sendo desencadeado, a Igreja se viu com dificuldades em manter a unidade e o fervor credulário sobre os quais a moral e a ordem social da Europa pareciam se apoiar.

Foram esses e outros pensamentos semelhantes de Abelardo que levaram São Bernardo, uma das encarnações anteriores de Luiz de Mattos, diga-se de passagem, a enfrentá-lo em campo aberto, ao perceber o perigo que ameaçava o seu rebanho de fiéis, pois considerava impiedade e loucura explicar os mistérios sagrados através da razão. Em 1139, quando Guilherme de St. Thierry, um monge de Reims, chamou a atenção de São Bernardo para os perigos decorrentes dos ensinamentos de Abelardo e lhe pediu que o denunciasse, o santo olvidou do pedido. Mas o próprio Abelardo precipitou a questão quando escreveu uma carta ao arcebispo de Sens, na qual solicitou que lhe fosse dada uma oportunidade para se defender contra as acusações de heresia que lhe estavam fazendo, por ocasião do primeiro concílio da Igreja que ali se realizasse, tendo o arcebispo concordado, convidando São Bernardo para que comparecesse ao concílio com o fim de preparar uma boa discussão, mas São Bernardo se recusou a ir, afirmando que no jogo da dialética ele seria uma simples criança frente a Abelardo, que a quarenta anos se entregava ao estudo da lógica, quando então o arcebispo escreveu a vários bispos lhes solicitando que fossem ao concílio a fim de que lá pudessem defender a fé credulária dita cristã, já que Abelardo colocava a razão acima da fé credulária.

Os aliados de São Bernardo, também impotentes para enfrentar a situação, manifestaram-se e insistiram junto a ele para que comparecesse ao concílio. Em 1140, quando Abelardo chegou a Sens, percebeu que a sua presença e a hostilidade a São Bernardo acirraram os ânimos populares, não tendo a coragem de sair às ruas. Sens se tornou o centro do mundo, com o rei da França se achando presente com toda a sua corte, bem como altos dignitários da Igreja, com a figura austera de São Bernardo impondo respeito a todos, apesar de alguns prelados haverem sentido em seus âmagos e também em sua coletividade as agulhadas nos ataques de Abelardo sobre as faltas do clero, as imoralidades dos sacerdotes e monges, a venda de indulgências e a invenção de licores milagrosos.

Mesmo estando convencido de que o concílio o condenaria naquele julgamento, Abelardo compareceu à primeira sessão, declarando que aceitaria apenas o papa como juiz, deixando depois a assembleia e a cidade. O concílio ficou indeciso, sem saber se o julgamento seria válido legalmente depois daquela declaração. São Bernardo, porém, venceu as suas hesitações e deu prosseguimento ao processo, condenando dezesseis questões dos livros de Abelardo, inclusive a definição do pecado e a teoria da Trindade como força, sabedoria e amor de um só deus.

Estando já quase desprovido de recursos Abelardo viajou para Roma, a fim de submeter o caso ao papa. Quando chegou ao mosteiro de Cluny, na Borgonha, foi ali recebido com cordialidade por Pedro, o Venerável, tendo descansado durante alguns dias. Enquanto isso, o papa Inocêncio II expediu um decreto confirmando a sentença do concílio, em face do prestígio de São Bernardo, cuja sentença impunha perpétuo silêncio a Abelardo e ordenava que ele fosse encerrado em um mosteiro. Mas mesmo assim Abelardo quis prosseguir a sua viagem em direção a Roma, porém Pedro, o Venerável, o dissuadiu do intento, afirmando que o papa jamais se pronunciaria contra São Bernardo, então Abelardo, já física e mentalmente alquebrado, cedeu ao argumento.

Abelardo se tornou monge em Cluny, encerrando-se na obscuridade de suas paredes e dos seus ritos, com os monges se surpreendendo com a sua piedade, o seu silêncio e as suas orações. Sem jamais haver tornado a ver Heloísa, escreveu a ela uma tocante profissão de fé credulária nos ensinamentos da Igreja, tendo ele se curvado aos seus dogmas.

Logo depois Abelardo caiu enfermo, tendo o abade o enviado para o convento dos religiosos de São Marcelo, nas proximidades de Châlons, para mudar de clima, onde desencarnou no dia 21 de abril de 1142, com a idade de sessenta e três anos, tendo sido sepultado na capela do convento, mas Heloísa lembrou a Pedro, o Venerável, que Abelardo pedira que fosse enterrado junto ao Paracleto, tendo o próprio abade lhe levado o corpo para esse desiderato, ao tempo em que procurou consolá-la, dizendo que o seu amado se encontrava no mesmo nível de Sócrates, Platão e Aristóteles no seu tempo, deixando-lhe uma carta repleta de ternura que dizia assim:

Assim, cara e venerável irmã em Cristo, aquele a quem, depois de unida na carne, vos unistes em um laço melhor e mais forte, qual seja o do amor divino, e com quem tendes servido a Deus, foi se agasalhar no calor do seu seio. Deus o chamou em vosso lugar como se fosse também a vós. Ele o conserva para, com a sua graça, vô-lo entregar novamente no dia de sua vinda, dia em que descerá do céu ao soar a voz do arcanjo e ao troarem os clarins”.

Heloísa foi se unir ao seu bem amado em 1164 com a mesma idade dele e quase com o seu mesmo renome, tendo sido sepultada ao seu lado nos jardins do Paracleto, cujo oratório foi destruído durante a Revolução, com as sepulturas tendo sido revolvidas, porém o que se julgou serem os restos mortais de Abelardo e Heloísa foram transferidos para o cemitério de Père Lachaise, em Paris, no ano de 1817, onde até os tempos atuais se podem ver homens e mulheres lhes adornando o túmulo.

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