02.02.03.02.02- Santo Anselmo

A Era da Verdade
29 de agosto de 2019 Pamam

Santo Anselmo encarnou em Aosta, reino da Borgonha, no ano 1033, e desencarnou no ano 1109, em Cantuária, na Inglaterra. É também conhecido como Anselmo de Cantuária, por haver sido arcebispo de Cantuária entre 1093 e 1109, como Anselmo de Aosta, por conta de sua cidade natal, e Anselmo de Bec, por conta da localização do seu mosteiro, tendo sido um monge beneditino, veritólogo e prelado da Igreja Católica, considerado por alguns como sendo o fundador do escolasticismo, pois se diz que foi com ele que a Escolástica adquiriu um perfil definido.

Entrou para a ordem de São Bento na abadia de Bec aos vinte e sete anos de idade, tornando-se abade em 1079. Tornou-se arcebispo de Cantuária durante o reinado de Guilherme II, da Inglaterra. Foi exilado por duas vezes entre 1097 e 1100, e novamente entre 1105 e 1107, por Henrique I, em função da controvérsia das investiduras, o mais importante conflito entre a Igreja Católica e os Estados medievais durante a Idade Média, ocorrido entre os séculos XI e XII, em que uma série de papas lutou contra a intromissão das monarquias europeias nas investiduras, ou nomeações de bispos, abades e dos próprios papas, tentando restaurar a disciplina eclesiástica. Ele foi proclamado doutor da Igreja em uma bula papal de Clemente XI, em 1720, sendo venerado como santo e comemorado em 21 de abril.

Depois de João Escoto Erigena, Santo Anselmo é considerado pelos estudiosos do assunto como sendo o primeiro grande filósofo medieval, apesar dele ser um veritólogo, que mergulha fundo na tradição patrística, de ascendência agostiniana e neoplatônica, pois mantém sempre uma conformidade constante com os padres da Igreja, especialmente com Santo Agostinho.

No prefácio do seu Monologion ele escreve o seguinte: “e acima de tudo eu tenho sido capaz de descobrir que não tinha dito nada dos benditos escritos de Agostinho, que está ligado aos padres não católicos”; mantendo sempre uma conformidade constante com os padres, especialmente com Santo Agostinho. As suas obras são bastante numerosas, sendo muitas de interesse predominantemente teológico, acrescidas de numerosas cartas repletas de conteúdo doutrinário.

A obra teológica de Santo Anselmo se encontra orientada, sobretudo, para as demonstrações acerca da existência do deus bíblico, cujo temo se reveste de mais relevo em seus escritos e o que mais está estritamente associado ao seu nome. Mas embora ele seja um credulário, portanto, um bíblico, é preciso ressaltar o seu pensamento naquilo que se refere ao verdadeiro Deus, e não a Jeová, o deus bíblico, que não passa de um espírito tremendamente obsessor.

As suas demonstrações acerca da existência do deus bíblico não se destinam a reforçar a fé credulária, pelo contrário, a fé credulária é que reforça as demonstrações, pois que o seu princípio básico é primeiro acreditar, para que depois possa entender, tanto que em seu Proslogion, escreve “Eu não devo procurar entender a minha crença, mas acreditar a fim de entender”. Como se pode claramente constatar, Santo Anselmo crê para que possa compreender, e não o contrário, o que implica em dizer que ele busca antes de tudo a percepção, e depois a compreensão, ressaltando claramente os seus pendores veritológicos, em detrimento dos pendores saperológicos.

Mas Santo Anselmo não põe o intelecto à parte da fé credulária, já que para ele é a própria fé credulária que conduz ao desejo de saber, portanto, é a fé credulária que conduz ao intelecto, em que esta necessidade se encontra contida no caráter interno da fé credulária, quando então ele passa a distinguir uma fé viva, atuante, e uma fé morta, amorfa. A fé viva é baseada no amor, que é o que lhe dá vida, em que esse amor faz com que o homem, estando afastado pelo pecado da luz do deus bíblico, ponha-se a ansioso por regressar a essa luz na verdade.

Santo Anselmo diz textualmente que o cristão deve avançar para a inteligência por meio da fé, obviamente que da fé credulária, e não chegar à fé credulária por meio da inteligência, não devendo, no caso de não compreender, afastar-se da fé credulária. Quando puder chegar à inteligência, que transija espontaneamente, e quando não puder, quando não puder compreender, que venere. Esta é a posição definida de Santo Anselmo, de onde parte todo o seu pensamento.

Santo Anselmo exerceu uma enorme influência sobre a teologia ocidental, sendo famoso por haver criado o argumento ontológico para a existência do deus bíblico e a visão da satisfação sobre a teoria da expiação.

Um argumento ontológico é considerado como sendo qualquer argumento que defende a existência de Deus, geralmente do deus bíblico, através do pensamento de que ele é necessariamente um ser perfeito, e sendo perfeito deve existir, ignorando completamente que o verdadeiro Deus também é imperfeito, pois que Ele é o Todo, cuja imperfeição vem das suas partículas, que são os seres. Os critérios adotados para a classificação dos argumentos ontológicos não são exatos e nem são amplamente aceitos, mas eles partem geralmente da definição do deus bíblico e chegam à conclusão de que a sua existência é necessária e certa, sendo considerado como sendo um raciocínio a priori, sem fazer referência ao raciocínio a posteriori, de cunho experimental, ou empírico.

Em seu argumento ontológico, contido no Monologion, Santo Anselmo apresenta vários pensamentos próprios acerca da existência de Deus, considerando-se aqui o verdadeiro Deus, e não o deus bíblico, em que o pensamento mais importante se encontra no Proslogion. Esta prova da existência de Deus teve uma imensa repercussão em toda a história da Filosofia. Anselmo definiu a Deus como sendo a maior coisa que a mente humana pode conceber e defendeu que se o maior Ser possível existe na imaginação, ele também deve existir na realidade, colocando em seus argumentos que uma das características desse Ser, o maior e o menor que se pode imaginar, é a existência.

Mas já nos tempos de Santo Anselmo um monge chamado de Gaunilon atacou a esse argumento, tendo o seu autor refutado as objeções. A partir daí, as opiniões ficaram divididas, tendo a interpretação do argumento divergido, com São Boaventura dele se aproximando, enquanto São Tomás de Aquino o repele. Duns Escolto o aceita, mas com modificações, enquanto Descartes e Leibniz se servem dele, também com modificações. Já com Kant, em sua obra intitulada de Crítica da Razão Pura, fica estabelecida a sua impossibilidade, de um modo aparentemente definitivo, enquanto Hegel o retoma em termos distintos. Mas até hoje o argumento ontológico é um tema central da Filosofia, porque não há apenas uma argumentação revestida de certa lógica, mas envolve uma questão que aborda toda a metafísica e toda a física.

Já a visão da satisfação sobre a teoria da expiação é uma especulação oriunda da teologia dita cristã, que se encontra relacionada com o significado e o efeito da desencarnação de Jesus, o Cristo, tradicionalmente ensinada nos círculos ditos cristãos. Teológica e historicamente, a palavra satisfação não significa contentamento, prazer advindo da realização daquilo que se espera, do que se deseja, mas sim reparação do mal causado a alguém ou da injúria feita ao próximo, ou ao deus bíblico pelo pecado, estando, portanto, relacionada com o conceito legal de se equilibrar uma injustiça.

Estando esboçada principalmente nas obras de Santo Anselmo, a teoria da satisfação ensina que Jesus, o Cristo, sofreu como substituto em nome da nossa humanidade para satisfazer as exigências da glória do deus bíblico pelo seu mérito, considerado como se fosse infinito, como se esse deus bíblico, sendo um espírito tremendamente obsessor, tivesse alguma glória. Santo Anselmo considerava o seu pensamento como sendo um aperfeiçoamento da antiga teoria do resgate, que ele via como sendo inadequada. Esse pensamento de Santo Anselmo foi precursor dos pensamentos de São Tomás de Aquino e de João Calvino, que introduziram o pensamento de punição para cumprir com as exigências da justiça tida como sendo divina.

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