02.02.03.02.01- João Escoto Erigena

A Era da Verdade
27 de agosto de 2019 Pamam

João Escoto Erigena, encarnado na Irlanda no ano de 810 e desencarnado em Paris no ano de 877, sendo também conhecido como Escoto de Erigena, foi um veritólogo e teólogo irlandês da corte de Carlos, o Calvo. É considerado como sendo o expoente máximo do renascimento carolíngio, no século IX, sabendo-se que carolíngios é o nome da dinastia franca que sucedeu aos merovíngios, com Pepino, o Breve, e pretendia restabelecer o Império Romano do Ocidente. João Escoto Erigena concentrou os seus estudos nas relações entre a filosofia grega e os princípios do falso cristianismo.

As suas origens irlandesas podem ser deduzidas do seu próprio nome, pois, de fato, ele era scoto, habitante da Scotia Maior, que na época era o nome da Irlanda. Além disso, em seus escritos ele assinava Eriugena, cujo significado é irlandês, de eriu mais gena.

Em 843, transferiu-se para o reino dos francos, para dirigir a Escola Palatina, de Carlos, o Calvo, ensinando na corte gramática e dialética, tendo o rei o encarregado de traduzir do grego o Corpus Areopagiticum, ou Corpus Dionysianum, de Dionísio, o Aeropagita, obra que ele estudou e comentou em latim, aproximando-se do Neoplatonismo. Como se pode claramente constatar, João Escoto Erigena sofreu grande influência do pensamento neoplatônico, especialmente do escritor anônimo que se designou de Dionísio, o Aeropagita, o primeiro bispo de Atenas, e que hoje é conhecido pelo nome de Pseudo-Dionísio.

João Escoto Erigena foi também um estudioso e tradutor dos escritos de Orígenes e dos Padres da Capadócia, dentre os quais São Basílio Magno, São Máximo, o Confessor, e São Gregório de Nissa, com as suas traduções tornando acessíveis aos estudiosos ocidentais os escritos dos fundadores da teologia dita cristã.

Sendo extremamente ortodoxo, foi compelido a escrever contra o pensamento da predestinação — uma determinação antecipada do destino de alguém —, que alguns hereges mantinham muito em voga na época, compondo o seu tratado De Praedestinatione, que assumiu ares de audácia, sendo por isso condenado pelas autoridades eclesiásticas em concílio. Mas a sua obra principal é o tratado De Divisione Naturae, ou a Divisão da Natureza, através da qual mostra a sua visão sobre a origem e a evolução da natureza, na tentativa de conciliar a doutrina neoplatônica da emanação — modo pelo qual todas as coisas derivam de uma realidade inicial — com o dogma da criação, com este livro sendo também condenado pela Igreja Católica.

A sua ortodoxia não permitia que ele pudesse supor haver uma discrepância entre a Filosofia verdadeira e o credo revelado, mas supunha que a razão servia para interpretar aquilo que os textos sagrados não revelavam, considerando que havia uma identidade entre a Filosofia e o credo que praticava, afirmando que a verdadeira filosofia é a verdadeira religião, ignorando completamente que a religião é a fonte da ciência, e que estava tratando de um simples credo, no caso o catolicismo.

Sendo extremamente credulário, ele põe a Revelação acima de tudo, ressaltando a autoridade do deus bíblico, embora afirmasse que havia outras autoridades, referindo-se aos padres da Igreja e aos comentaristas sagrados anteriores, pois para ele a Igreja tinha que se submeter à razão, que ocupa o segundo lugar, atrás apenas da palavra divina.

A metafísica de João Escoto Erigena se encontra exposta na sua obra Divisão da Natureza, cuja divisão supõe uma série de emanações através das quais nascem todas as coisas do único ente verdadeiro, que para ele é o deus bíblico, em que nesse processo há quatro etapas:

  1. A natureza criadora e não criada, que supõe o deus bíblico como sendo a primeira realidade, sendo ele incognoscível, pois a respeito dele somente se pode estabelecer uma teologia negativa, que o Pseudo- Dionísio, o Aeropagita, pôs tanto em voga;
  2. A natureza criadora e criada, que também supõe o deus bíblico, que contém as causas primeiras dos entes, pois ao conhecer em si estas coisas, o deus bíblico se cria e se manifesta em teofanias, ou seja, a aparição ou a revelação da divindade, através da manifestação do deus bíblico;
  3. A natureza criada e não criadora, com os seres criados no tempo, corporais ou espirituais, que são simplesmente manifestações ou teofanias do deus bíblico, afirmando a anterioridade do gênero em relação à espécie, e desta em relação ao indivíduo;
  4. A natureza nem criada e nem criadora, supondo-se o deus bíblico como sendo o termo do Universo, em que o fim de todo o movimento é o seu princípio, com o deus bíblico regressando a si mesmo e com as coisas se deificando, já que tudo se resolve no todo divino.

A filosofia de João Escoto Erigena segue o pensamento de Santo Agostinho com relação ao platonismo e a teologia negativa. A teologia negativa traz a percepção de que todo o esforço da racionalidade em definir o deus bíblico e os seus atributos acaba limitando o próprio deus bíblico, porque ele ultrapassa a todo e qualquer esforço racional; enquanto que a teologia afirmativa faz proposições e descrições acerca do deus bíblico e os seus atributos.

Em razão disso, ele pretendeu explicar a realidade através de um sistema considerado como sendo racional e unitário, que contradizia o dualismo do credo, segundo o qual o deus bíblico e o mundo são duas realidades diferentes, assim como os dogmas relativos à criação do mundo e a vontade divina.

Para João Escoto Erigena, a fé credulária e a razão são fontes válidas de conhecimento verdadeiro, por isso não podem se encontrar em contradição, porém caso isso ocorresse, a razão deveria prevalecer. Essa sua afirmação, contrária à fé credulária e em favor da razão, juntamente com a perspectiva de tendência panenteística que ele sustenta em Divisão da Natureza, valeram-lhe a suspeita de heresia.

Há que se ressaltar aqui, que essa sua tendência panenteística é cercada de um profundo racionalismo, pois que sustenta que todos se encontram em Deus, no Deus verdadeiro, e não no deus bíblico, que não passa de um espírito obsessor. Essa doutrina panenteística, afirma que o Universo está contido em Deus, mas que Deus é maior do que o Universo, algo que é bem distinto do panteísmo e do monismo. Esse termo foi proposto por Karl Christian Friedrich Krause, encarnado em 1781 e desencarnado em 1832, em sua obra Sistema de Filosofia, daí o termo krausismo que designa a sua doutrina teológica. No panenteísmo Deus é considerado como sendo a Alma do Universo, o Espírito Universal presente em todos os lugares, ao mesmo tempo em que transcende a todas as coisas criadas. Em outras palavras: O Ser Total, que é a Essência de Deus, penetra em todo o Universo, de modo que cada uma das suas partículas existe Nele, mas o Ser Total é mais do que isso, pois não se esgota no Universo. Sabendo-se que o Universo não tem princípio, mas se encontra em permanente expansão.

Segundo nos conta a tradição, após a desencarnação de Carlos, o Calvo, João Escoto Erigena teria se refugiado na Inglaterra, junto a Alfredo, o Grande, e lá teria sido assassinado a golpes de pena — uma das estruturas epidérmicas que formam o revestimento distintivo ou plumagem das aves — por alguns monges que o consideravam herético.

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