02.02.03.01.03- A razão

A Era da Verdade
23 de agosto de 2019 Pamam

Para que possamos compreender a contento a esse grande tema suscitado pela Escolástica, quero dizer, antes de adentrarmos nesse emaranhado de pensamentos confusos advindos da mais extrema ignorância, torna-se preciso que antes venhamos a conhecer a razão.

Deus é formado de Substâncias, que se dividem em Essência e Propriedades. A Essência é o Ser Total, de onde vem todos os seres para que possam evoluir pelo Universo, por isso se diz que os seres são partículas do Ser Total. As propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total, através das quais todos os seres evoluem pelo Universo, adquirindo as suas parcelas, até que possam retornar para o seio do Criador.

Os espíritos evoluem por intermédio da propriedade da Força, que contém o espaço, cujo repositório dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade se encontra no Espaço Superior, que para serem percebidos e captados os seres humanos devem a ele se elevar, transcendendo a este mundo, pois que aqui não existem os conhecimentos verdadeiros em sua universalidade.

Os espíritos também evoluem por intermédio da propriedade da Energia, que contém o tempo, cujo campo das experiências físicas acerca da sabedoria se encontra no Tempo Futuro, que para serem compreendidas e criadas os seres humanos devem a ele se transportar, transcendendo a este mundo, pois que aqui não existem as experiências verdadeiras em sua universalidade.

Os espíritos ainda evoluem por intermédio da propriedade da Luz, que penetra o espaço e o tempo, que formam o Universo, então a luz astral penetra o Universo, onde se encontram os conhecimentos metafísicos acerca da verdade e as experiências físicas acerca da sabedoria, por onde se alcança a razão, daí a afirmativa de que verdade + sabedoria = razão.

Ignorando completamente que todos são anticristãos, mas que se julgam indevidamente como sendo cristãos, o logos aparece como um motivo falsamente cristão tal como sendo essencial, a partir dos primeiros momentos do falso cristianismo. No início do evangelho de São João consta de modo explícito que no princípio era o verbo, o logos, e que o deus bíblico era o logos, querendo com isso dizer que o deus bíblico era antes de tudo palavra, e que essa palavra continha a razão. Nessa extrema ignorância, surgem vários problemas, sobretudo sobre a posição do homem.

Ora, o homem nada mais é do que a encarnação do espírito neste mundo, que para encarnar se utiliza de seres infra-humanos para compor o seu corpo carnal. E é sobre a natureza do homem que começam os pensamentos escolásticos, os quais produzem um emaranhado de opiniões, todas confusas.

O que é o homem? A essa pergunta se diz que é simplesmente um ente, uma criatura, um ens creatum, ou seja, um ser criado, desprezando-se totalmente a realidade do processo da evolução, como sendo ele mais uma coisa entre as restantes, o que não deixa de ser, comparando-o com o próprio mundo, como sendo algo finito e contingente.

A Idade Média passa a afirmar que existe um certo intermediário entre o nada — ignorando que o nada não existe — e o deus bíblico, ao indagar: medium quid inter nihilum et deum? Ou seja: qual é a média entre o nada e o deus bíblico? Além disso, já estava assinalada desde o Gênesis esta peculiar situação do homem: façamos o homem à nossa imagem e semelhança; o que implica em dizer que o homem foi feito à imagem e semelhança do deus bíblico, como se o verdadeiro Deus em Sua infinitude tivesse alguma imagem. Esse é o pensamento acerca da natureza do homem, em que o modelo da sua criação é o próprio deus bíblico, tido como se fosse exemplar.

As consequências para os sentimentos e os pensamentos são catastróficos, pois que se deduz que para se conhecer a verdade passa a ser necessário que cada ser humano entre dentro de si mesmo, que cada ser humano se interiorize, como diz Santo Agostinho “entrar no interior da câmara da magnitude”, como dirá também Santo Anselmo, que segundo este último o pior que pode acontecer ao homem é se pôr a observar as coisas do mundo, porque a verdade não se encontra nas coisas, mas no deus bíblico, e o homem encontra o deus bíblico em si próprio. E como a verdade é o deus bíblico, a via para se chegar à verdade é a caridade, pois somente pelo amor chegamos ao deus bíblico, e só o deus bíblico é que é a verdade. É a fé credulária buscando o entendimento da verdade. São Boaventura vai chamar a Filosofia de caminho da mente para o deus bíblico, sendo a fé credulária o ponto de partida para esse caminho. Fica com isto assinalada a situação da escolástica, que se estende pela Idade Média.

Em São Tomás de Aquino a teoria é um saber especulativo, considerada como sendo racional, embora a Teologia seja baseada na fé credulária, pelo fato de se construir sobre dados sobrenaturais revelados, mas o homem trabalha sobre eles com a sua razão para que possa interpretá-los e assim alcançar um saber teológico, supondo-se que há uma adequação perfeita entre aquilo que representa o deus bíblico e a razão humana. Se, segundo São João, o deus bíblico é o logos, e o homem é definido pelo logos, há então uma adequação entre os dois, sendo possível um conhecimento da essência divina, podendo haver uma teologia racional, ainda que seja fundada sobre os dados da revelação. Em sendo assim, se a Filosofia e a Teologia tratam do deus bíblico, em que elas se distinguem? São Tomás de Aquino diz que o objeto material da Filosofia e da Teologia pode ser o mesmo quando se fala do deus bíblico, mas o objeto formal é distinto, pois que a Teologia aborda o ente tido como sendo divino por caminhos diferentes da Filosofia, embora esse ente tido como sendo divino seja numericamente o mesmo, trata-se de dois objetos formais distintos.

Esse pensamento equivocado de São Tomás de Aquino tem prosseguimento em outra versão com Duns Escoto e Guilherme de Ockham.

Duns Escoto afirma que a Teologia não é ciência especulativa, mas prática e moralizadora. O homem, considerado como sendo a razão, fará uma filosofia racional, porque no contexto se trata de um logos. Por outro lado, a Teologia é sobrenatural, em que a razão pouco tem a ver com ela, sendo antes de tudo prática.

Em Guilherme de Ockham há uma acentuação das tendências de Duns Escoto, em que a razão passa a ser uma questão exclusivamente humana, sendo própria do homem, mas não do deus bíblico, considerado como sendo onipotente, não podendo estar submetido a nenhuma lei, nem sequer à lei da razão. Para ele as coisas são como são, verdadeiras ou boas, porque o deus bíblico assim o quer, pois se o deus bíblico quisesse que matar fosse bom, ou que 2 mais 2 fossem 19, isto seria assim, chegaram a dizer os seus continuadores. Ele não admite que acima da vontade divina venha haver o que quer que seja que lhe sobreponha, nem mesmo a razão. Nessa especulação metafísica sobrenaturalística, o logos, que começou por ser a essência do deus bíblico, vai terminar por ser simplesmente a essência do homem. No século XIV, ele passa a afirmar, de uma maneira textual e taxativa, que a essência da divindade, no caso o deus bíblico, é a arbitrariedade, o livre arbítrio e a onipotência, e que, neste caso, a necessidade racional é uma propriedade exclusiva dos conceitos humanos. Quando o nominalismo de Guilherme de Ockham reduziu a razão a algo situado no interior do homem, sendo deste modo uma determinação puramente humana, independentemente da essência da divindade, deduz-se que o espírito humano se separa definitivamente da essência da divindade, quando então o homem passa a se sentir só, inseguro no Universo, sem mundo e sem o deus bíblico.

Estando o homem separado da essência da divindade, com a razão sendo algo interior do homem, estando ele separado da divindade, então o deus bíblico não é a razão, não podendo o homem dele se ocupar, a não ser que abandone o seu interior. É por essa razão que a divindade deixa de ser o grande tema teórico ao final da Idade Média, com o homem se separando do deus bíblico. Assim, o homem se situa acima de tudo, vindo em primeiro lugar, com o mundo vindo em segundo lugar, tendo em vista os estudos da estrutura terrena. Mas mesmo com o mundo sendo independente do deus bíblico, este é considerado como sendo o seu criador, com o homem precisando conservá-lo, com essa conservação se tornando o objeto para o qual se volta a razão humana, com a divindade se tornando inacessível, embora esta “divindade” tenha sido desmascarada pela verve do Racionalismo Cristão, pois que Jeová não passa de um espírito tremendamente obsessor.

Com o homem e o mundo passando a ser os dois grandes temas, o humanismo, a ciência da natureza e a física moderna vão constituir os grandes motivos do homem renascentista, que se encontra afastado do deus bíblico, acertadamente, diga-se de passagem.

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