02.02.03.01.02- Os universais

A Era da Verdade
20 de agosto de 2019 Pamam

Universal é tudo aquilo que pertence ao Universo, podendo ainda ser considerado como aquilo que diz respeito ou é aplicável a todas as coisas, em que se universaliza algo. Então para que possamos saber acerca daquilo que é universal, nós temos que antes saber o que seja uma coisa. Na categoria que diz respeito aos Prolegômenos, no item 11.01.01- As coisas, encontra-se tudo aquilo que diz respeito às coisas, mas vamos aqui formar uma ideia acerca das coisas, reproduzindo tudo aquilo que diz respeito às coisas que se encontra nesse item em Prolegômenos, evidentemente que de modo um tanto resumido.

Em alemão, o termo ding correspondente a coisa, relaciona-se com denken, pensar, e, portanto, significa “o pensado”. Em latim, o termo res também correspondente a coisa, filia-se à mesma raiz do verbo reor, pensar, significando, igualmente, “o pensado”. Em referência a essa correlação entre a coisa e “o pensado”, a obra básica do Racionalismo Cristão, a página 123, vem afirmar o seguinte:

O espírito cria a imagem pelo pensamento e só depois a materializa para um determinado fim… De toda a obra humana — toda, sem exceção — criou o espírito a imagem pela ação do pensamento, e só depois a materializou. E se assim ocorre na Terra, muito mais no Espaço, onde o poder do pensamento criador é incomparavelmente maior”.

Luiz de Souza, em sua obra Ao Encontro de Uma Nova Era, a página 21, com relação ao pensamento, faz a seguinte afirmativa:

O pensamento pode transformar, pelo seu poder, qualquer composição material, por serem todas elas por ele criadas.

Os Seres do Astral Superior, em hierarquia espiritual ascendente, rumo ao Poder Total, transformam a matéria com o poder do pensamento, em toda e qualquer composição, sem restrições, sempre que essa transformação obedeça a injunções da Mecânica Universal, ditadas pelas leis da evolução”.

Ainda na mesma obra, a página 64, o autor assim continua:

O pensamento criador está envolvido pela força de vontade, e saturado dela. Assim, a imagem concebida pelo Grande Foco (Deus, digo eu), revela-se automaticamente”.

E José Amorim, em sua obra, Energia Programada – A  Mecânica do Perispírito, a página 64, afirma o que se segue:

“… um espírito deverá se conhecer como componente da Força Cósmica Total que movimenta o Universo Infinito. Precisa, pois, ter consciência, a mais clara possível, do elemento em que se movimenta, e saber que ‘são esses movimentos’ — como diz ainda o Racionalismo Cristão… — ‘irradiados de um núcleo de Força, que é o espírito, no oceano de uma essência idêntica, que é o Todo, assinalando o poder atrativo que faz com que esses atributos desse Todo convirjam para o núcleo, desenvolvendo-o, e dando-lhe maior potencialidade’. Isto faz com que o ser humano sinta em si, de forma intensa, o Ser Real, que é pura e unicamente aquela ‘força de vontade dotada de pensamentos’ indicada por muitos filósofos, ou, como diz ainda o Racionalismo Cristão…: ‘O espírito é Luz, é inteligência, é vida, é poder criador. Nele não há matéria em nenhum dos seus estados. É, portanto, imaterial. Partícula individualizada, assim se conserva em toda a trajetória que faz no processo de sua evolução’. Força que tem poder, através do pensamento, de gerar energia e, com a energia, a matéria (ou a ilusão da matéria) (grifo meu)”.

De fato, nós devemos conceber o significado do termo coisa como sendo tudo aquilo que existe como ser, o qual vai adquirindo cada vez mais as parcelas das propriedades da Força e da Energia, posteriormente a da Luz, ao alcançar a condição de espírito, mediante o processo natural da evolução. Este estabelece que em todo e qualquer momento em que o ser vai adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, ainda não da propriedade da Luz, em que aquelas são as primeiras a serem adquiridas, enquanto que fluídica, deve sofrer a ação do poder do pensamento espiritual para que se crie uma imagem, em decorrência, como se fosse uma materialização para um determinado fim. Assim, cada ser, com as suas respectivas parcelas das propriedades da Força e da Energia, representa uma e apenas uma coisa, em decorrência uma imagem que lhe é própria. E, à medida que ela vai evoluindo, ao adquirir cada vez mais essas parcelas, vai também sendo transformada pelo poder do pensamento espiritual em outras coisas, ou em outras composições ditas materiais mais evoluídas, adquirindo outras imagens.

É por essa razão que todos os seres, tais como coisas, encontram-se ligados uns aos outros, representando um todo como se fosse realmente material, com essa representação se estendendo ao âmbito de tudo aquilo que se oferece à produção das sensibilidades, posteriormente à produção dos sentimentos, e à produção dos sentidos, posteriormente à produção dos pensamentos, no caso dos seres humanos, em que estes possuem, além do corpo fluídico, o corpo de luz, ambos ligados ao espírito, mesmo com a presença do corpo carnal.

As coisas menos evoluídas, então, passam a se ligar às coisas mais evoluídas, com a recíproca sendo também verdadeira, para que assim, possam se formar as imagens, pois é óbvio que na hierarquia da evolução ascendente, os seres menos evoluídos necessitam, obrigatoriamente, dos seres mais evoluídos para deles serem componentes, assim como os seres mais evoluídos necessitam, obrigatoriamente, dos seres menos evoluídos para compô-los, pelo menos até um determinado estágio de evolução. E assim, nessa simbiose, ambos evoluem. Podemos encontrar este exemplo na simplicidade da composição da água, onde três seres menos evoluídos, dois seres hidrogênios e um ser oxigênio, compõem um ser mais evoluído, que é o próprio ser molecular água.

A generalização filológica da concepção de coisa por parte dos estudiosos, de que ela seja tudo aquilo que não é designado pelo nome que a identifica, faz-na ser confundida com os fatos e os fenômenos, sendo este o motivo pelo qual os seres humanos, até hoje, ainda não conseguiram formar uma ideia satisfatória ao seu respeito. Deste modo, ao contrário daquilo que trazem todos os compêndios, inclusive os dicionários, os fatos e os fenômenos não são coisas, já que os seres, como tais, são quem se apresentam como sendo os grandes responsáveis pelas suas causas e pelos seus efeitos. As causas, por intermédio dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, contidos nas parcelas da propriedade da Força, e os efeitos, por intermédio das experiências físicas acerca da sabedoria, contidas nas parcelas da propriedade da Energia, ambas as propriedades adquiridas no decorrer do processo da evolução. É por isso que os fatos e os fenômenos não podem, jamais, ser confundidos com as coisas.

Assim, e somente assim, pode-se conceber que Deus é o Criador de todas as coisas que existem, ou também que podem existir, dado o processo contínuo e ininterrupto da evolução, e nunca, de modo algum, dos fatos e fenômenos universais. Pois não se pode conceber o Ser Total como sendo um mero habitante do Universo, como se fora um simples ser ligado a parcelas das propriedades da Força, da Energia e da Luz, sujeito a ações do pensamento para que se forme uma imagem, e, em decorrência, a ilusão da matéria, tal como uma coisa qualquer ligada a outras coisas, dando origem a determinados fatos e fenômenos das mais diferentes naturezas, já que o princípio de causa e efeito o limitaria a um mero originador desses fatos e fenômenos, em virtude da correspondente relação de união, natural e obrigatoriamente, o restringir a isso, ou seja, a um simples ser.

Toda coisa simples, ainda não racional, como se fosse matéria, é formada de um ser, que é a essência, mais parcelas da propriedade da Força e parcelas da propriedade da Energia. O ser é a substância principal, sempre individualizado, que além de representar a essência da coisa, utiliza-se das parcelas das propriedades da Força e da Energia que adquiriu para gerar as causas e os efeitos de todos os fatos e fenômenos. A parcela da propriedade da Força é uma substância secundária, que representa uma mera propriedade da coisa, através da qual o ser vai adquirindo o poder para gerar todas as causas dos fatos e dos fenômenos. A parcela da propriedade da Energia é outra substância secundária, que representa outra propriedade da coisa, através da qual o ser vai adquirindo a ação para gerar todos os efeitos dos fatos e dos fenômenos. Já a ilusão da matéria é o imaginário da coisa formado pela ação do pensamento, que fornece uma imagem, e, à medida que o ser evolui, ao adquirir cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, vai, juntamente com estas, sendo transformado em outras coisas, sempre mais complexas, mudando a sua imagem, para que assim cada coisa possa utilizar e ser utilizada por outras, para diversos fins, consoante o sentimento poderoso e o pensamento criador que convergem de Deus. Por isso, todos dizem que a matéria é plasmável.

Sabendo-se que qualquer ser atômico é uma coisa, e que os seres atômicos são os seres menos evoluídos que existem no Universo, não importando a hierarquia evolutiva que existe ou que possa existir entre eles, podemos então afirmar que ele é constituído do seguinte: de uma partícula individualizada do Ser Total, que podemos denominar simplesmente de ser, que é a sua essência; e das menores parcelas de duas das Propriedades do Ser Total que adquiriu em sua evolução, as quais podemos denominar simplesmente de propriedades da Força e da Energia, parcelas essas que também passam a ser as suas propriedades.

Assim, por exemplo, um ser hidrogênio é uma coisa, outro ser hidrogênio é outra coisa, e um ser oxigênio é também outra coisa, como também o ser molecular água que eles compõem é ainda outra coisa. A grande diferença entre eles, os seres atômicos e o ser molecular, não se encontra na essência, na individualidade do ser, como todos assim pensam, uma vez que todos são iguais em essência, mas sim nas propriedades que adquiriram, as quais indicam o valor que cada ser possui, uma vez que o valor deve ser considerado em inteira conformidade com que o ser se encontra em seu estágio evolutivo.

Porém, a partir de um determinado estágio de evolução, quando as coisas alcançam uma determinada ordem de grandeza na natureza, esse modo de tratar deve ter a sua extinção decretada, pois que cada coisa deve ser tratada, obrigatoriamente, em sua natureza individual, como ser, principalmente no caso dos seres humanos, que é o exemplo de maior alcance e que mais acessa a compreensão humana, já que eles, além de continuarem a adquirir o corpo fluídico ou perispírito, através das propriedades da Força e da Energia, passam também a adquirir o corpo de luz, através da propriedade da Luz, sendo todos espíritos.

A concepção de coisa como sendo tudo aquilo que existe como ser e que vai adquirindo cada vez mais parcelas das propriedades da Força e da Energia, faz-nos compreender que quanto mais o ser evolui, quer dizer, quanto mais ele ascende ao Criador, desligando-se cada vez mais da imagem da ilusão da matéria à qual se encontrava ligado, e se ligando a outras porções físicas de natureza mais diáfana, através do seu corpo fluídico, principalmente quando passa a adquirir a propriedade da Luz, ao alcançar, como ser humano, o raciocínio e o livre arbítrio, portanto, a espiritualidade, tanto mais sentimos o desconforto e a consequente recusa em tratá-lo como coisa, embora ele não deixe de sê-lo, pois, habitualmente, opomos o mundo das coisas ao ser humano, porque, dada a sua qualidade de um ser espiritual, não o contamos comumente entre as simples coisas.

Isto se justifica pelo fato das coisas mais evoluídas, cujos seres que as integram, que são as substâncias que constituem as suas essências, em maior ascendência ao verdadeiro Deus, dados os seus valores, trazerem-nos as lembranças do Criador — que também pode ser denominado de Coisa Total, pois que todas as coisas Dele vêm e para Ele vão, já que uma coisa somente pode advir de outra e para outra ir, uma vez que não pode advir do nada e para o nada ir, porquanto o nada não existe —, despertando em nossos espíritos recordações abstratas dos nossos Mundos de Luz, onde temos a plena consciência de que cada uma delas é parte integrante do verdadeiro Deus, e que cada uma delas representa uma de suas partículas, enquanto que, aqui, no mundo Terra, ainda não adquirimos esta consciência em sua plenitude.

A expressão “coisa em si”, utilizada por Kant, designa a coisa tal como existe, o ser ou o ente mais as parcelas das propriedades da Força e da Energia que adquiriu, em oposição ao fenômeno, que não existe em si, mas apenas em função das coisas. Mas assim, então, os fatos não são levados em consideração, pois que olvidados. Kant chama a “coisa em si” também de númeno, porquanto a opõe ao fenômeno, pois que para ele o seu entendimento é objeto apenas da percepção através da sensibilidade, e não da compreensão através dos sentidos. Ainda para ele, infelizmente, a “coisa em si” só pode ser por nós pensada de maneira indeterminada, não podendo nunca ser conhecida, isto é, ser determinada em sua essência, no que se encontra totalmente equivocado, já que aqui está demonstrado que a podemos conhecer. É por isso que se diz que o seu criticismo é fenomenalista, em oposição ao realismo. Mas, de qualquer maneira, tendo como ponto de partida a distinção entre a “coisa em si” e o fenômeno, não deixa de ser um grande passo para o esclarecimento da nossa humanidade, e o próprio Schopenhauer reconhece e confessa que o maior mérito de Kant foi ter realizado esta distinção.

Platão, que foi a encarnação imediatamente anterior à encarnação de Jesus, o Cristo, afirma que cada ser humano deve por si examinar bem o que cada coisa representa na sua essência, e não confiar naquilo que os intermediários dizem, pois que posto fora da realidade, já que eles dizem por intermédio dos sentidos, quando afirma o seguinte:

É uma coisa bem conhecida dos amigos do saber, que a sua alma, quando foi tomada pelos cuidados da Filosofia, encontrava-se completamente acorrentada a um corpo e como que colada a ele; que o corpo constituía para alma uma espécie de prisão, através da qual ele deveria forçosamente encarar as realidades (grifo meu), ao invés de fazê-lo por seus próprios meios e através de si mesma; que, enfim, ela estava submersa em uma ignorância absoluta. E o que é maravilhoso nesta prisão, a Filosofia bem o percebeu, é que ela é obra do desejo, e quem concorre para apertar ainda mais as suas cadeias é a própria pessoa! Assim, digo, o que os amigos do saber não ignoram é que, uma vez tomadas sob os seus cuidados as almas cujas condições são estas, a Filosofia entra com doçura a lhes explicar as suas razões, a libertá-las, mostrando-lhes para isso de quantas ilusões está inçado o estudo que é feito por intermédio dos olhos, tanto como o que se faz pelo ouvido e pelos outros sentidos (grifo meu), persuadindo-as ainda a que se livrem deles, a que evitem deles se servir, pelo menos quando não houver a imperiosa necessidade; recomendando-lhes que se concentrem e se voltem para si, não confiando em nada mais do que em si mesmas, qualquer que seja o objeto do seu pensamento. Que não creiam, enfim, senão no próprio testemunho, desde que tenham examinado bem O QUE CADA COISA É NA SUA ESSÊNCIA e que se persuadam de que as coisas que são examinadas por meio de um intermediário qualquer (no caso em questão, as ciências, digo eu) nada possuem de verdadeiro, e pertencem ao gênero do sensível e do visível, enquanto o que elas veem pelos seus próprios meios é inteligível e, ao mesmo tempo, invisível (grifo e realce meus)!.

Eis como, sem dúvida, refletirá a alma de um filósofo: ela não irá pensar que, sendo o trabalho da Filosofia libertá-la, o seu possa ser, enquanto a Filosofia a liberta, o de se entregar voluntariamente às solicitações dos prazeres e dos sofrimentos, para tornar a se colocar nas cadeias, nem o de realizar o labor sem fim de uma Penélope (a esposa de Ulisses, figura da Odisseia, que na ausência do marido, perseguida por muitos pretendentes que desejavam com ela se casar, prometeu desposar um deles quando houvesse acabado de tecer um pano em que estava trabalhando, mas desfazia durante a noite a parte que tecera durante o dia, de modo que jamais concluiu o trabalho, nem casou com nenhum pretendente, digo eu) que trabalhasse de maneira contrária àquela com que trabalhou aquela. Não! Ela acalma as paixões, liga-se aos passos do raciocínio e sempre está presente nele; toma o verdadeiro, o divino, o que escapa à opinião, por espetáculo e também por alimento, firmemente convencida de que assim deve viver enquanto durar a sua vida, e que deverá, além disso, APÓS O FIM DESTA EXPERIÊNCIA, ir-se para o que lhe é aparentado e semelhante, desembaraçando-se destarte da humana miséria!(grifo e realce meus)”.

Tratando de Deus e, ao mesmo tempo, das coisas, Huberto Rohden, em sua obra O Pensamento Filosófico da Antiguidade, a página 31, afirma o seguinte:

Deus não equivale a este ou aquele fenômeno, mas sim à essência eterna de cada um. O íntimo ser de cada coisa é Deus (grifo meu), mas não o seu existir perceptível pelos sentidos ou concebível pelo intelecto.

Um vez que a suprema e única Realidade, Deus é a essência e o íntimo de todas as coisas (grifo meu), segue-se que essas coisas não podiam começar nem continuar a sua existência fenomenal sem que a eterna Realidade lhes desse e conservasse essa existência individual, graças à permanente imanência da Divindade em todos os seres”.

Desde a antiguidade que as grandes mentalidades já sabiam que todas as coisas são provenientes da Coisa Total, ou de Deus. Anaxágoras de Clazomena encarnou na Jônia por volta do ano 500 a.C., tendo sido discípulo de Anaxímenes, porém aceitando o infinito de Anaximandro. Em Atenas, onde morou por cerca de 30 anos, tornou-se amigo de Péricles e de Fídias, onde viu levantar o Partenão. No entanto, tendo sido acusado de ateísmo, fugiu para Lâmpsaco, na Ásia Menor, onde fundou a sua escola, desencarnando três anos depois, em 428 a.C., tendo dedicado a sua vida na investigação da verdade. Esse veritólogo era indiferente aos interesses terrenos, tendo descuidado do seu patrimônio por amor da verdade, por isso costumava dizer que o céu e a missão na sua vida era a contemplação das estrelas, entendendo-se com isso que ele procurava se elevar ao Espaço Superior, como que antevendo as coordenadas universais, daí a razão da minha afirmativa de que eu vivo no âmbito das estrelas, e não no mundo da Lua, tal como os seres humanos. Nessa sua elevação, ele consegue conceber a realidade como sendo constituída por uma infinidade de partículas mínimas eternas e imutáveis, de qualidades diversas, mas semelhantes umas às outras. Daí vem afirmar que todas as coisas vêm sendo constituídas graças a uma inteligência imanente ordenadora, que é Deus.

É certo que todos os seres se desprendem do Ser Total e ingressam no Universo, passando a adquirir as parcelas das propriedades da Força e da Energia, formando as coisas, até que passam a adquirir as parcelas da propriedade da Luz, tornando-se espíritos, mas sem que deixem de ser coisas, uma vez que são provenientes da Coisa Total, então todas as coisas são universais, como não poderia ser diferente.

Quando as coisas evoluem por intermédio da propriedade da Força, elas evoluem individualmente pelo espaço, que tem um caminho próprio para cada coisa. Quando as coisas evoluem por intermédio da propriedade da Energia, elas evoluem coletivamente pelo tempo, em que os caminhos se cruzam para todas as coisas, para que assim elas possam interagir umas com as outras.

Dados esses esclarecimentos iniciais, pode-se então adentrar na questão dos universais, repletos de pensamentos incongruentes, sendo todos estéreis, confusos, frutos da extrema ignorância, que se iniciam na Escolástica e se estendem por toda a Idade Média, com muitos estudiosos chegando a afirmar que toda a história da Escolástica se resume na disputa em torno dos universais, com muitos contestando a essa afirmativa, já que essa disputa se estende por toda a Idade Média.

Nessa disputa confusa oriunda da ignorância, os universais dizem respeito ao gênero e as espécies, que se opõem aos indivíduos, em que a questão gira em torno de se saber que tipo de realidade corresponde a esses universais, uma vez que as coisas que se apresentam aos nossos sentidos são indivíduos, em que se aplicam os pronomes este, esse, aquele, por outro lado, os conceitos com que pensamos essas mesmas coisas são pensados mediante as suas espécies e os seus gêneros.

Então, indaga-se: que relação têm esses universais com essas coisas? O que leva a mais uma outra indagação: em que medida os nossos conhecimentos se referem à realidade. Deste modo, surge o problema de saber se os universais são ou não são coisas, e em que sentido. Para os estudiosos, temos, por um lado, que da solução que se dê a esta questão depende a ideia que tenhamos do ser das coisas; por outro lado, do conhecimento; estando vinculada a esta questão uma enorme quantidade de importantes problemas metafísicos e teológicos.

A Idade Média parte de uma posição extrema, considerada como se fosse realismo, e termina com outra solução extrema, denominada de nominalismo.

Esse pseudo realismo, que vigorará plenamente até o século XII, afirma que os universais são res, ou seja, coisas, em que a sua forma mais extrema considera que estão presentes em todos os indivíduos englobados pelos universais, não havendo uma diferença essencial entre os indivíduos englobados pelo mesmo universal, com a diferença se encontrando apenas nos acidentes, ou seja, os acontecimentos fortuitos, inesperados. Os universais são considerados como sendo anteriores às coisas individuais, não havendo na essência mais do que um homem, em sua individualidade, e a distinção entre os indivíduos seria puramente acidental, o que equivale à negação da existência individual e se aproxima indevidamente do panteísmo. Assim, tendo por base a Escolástica, essa solução tida como se fosse realista se reveste de uma utópica simplicidade, prestando-se à interpretação de vários dogmas, como, por exemplo, o dogma do pecado original, pois que, se na essência não há mais do que um só homem, o pecado de Adão afeta naturalmente a essência humana, e, portanto, a todos os homens posteriores. Esse pseudo realismo está representado por Santo Anselmo e, na sua forma mais extrema, por Guilherme de Champeaux, séculos XI e XII, mas depois surgiram adversários a essa tese tida como sendo realista.

A partir do século XI aparece uma corrente que recebeu a denominação de nominalismo, principalmente com Roscelino de Compiègne, que afirma que o que existe realmente são os indivíduos, não havendo na natureza nada que não seja universal. O Universo só existe no espírito, como algo de posterior às coisas, e a sua expressão é a palavra. Roscelino de Compiègne chega a uma pura interpretação verbalista dos universais, como se os universais fossem simples palavras.

Temos, então, que o problema dos universais não passa de um debate improfícuo, sustentado pelos historiadores da Filosofia sobre a questão de saber se os universais são coisas ou meramente palavras, em que esta questão divide veritólogos e saperólogos em realistas, como Platão, que foi um saperólogo, em que as espécies, como a espécie humana, são coisas em certo sentido, e em nominalistas, em que a espécie não passa de uma palavra.

O século XIII contribui com soluções próprias para emaranhar ainda mais o problema dos universais, através de um pseudo realismo tido pelos estudiosos como sendo moderado, pois reconhece que a verdadeira substância é o indivíduo, como afirmava Aristóteles, saperólogo a que recorrem S. Alberto Magno e S. Tomás de Aquino. Nesse contexto, o indivíduo é a substância primeira, mas não se trata de nominalismo, mesmo com o indivíduo sendo a verdadeira realidade, pois que é indivíduo de uma espécie, e dela se obtém por individualização. É preciso, pois, para explicar a realidade individual, um princípio de individualização.

Trata-se agora de encontrar um princípio de individualização, o que é que faz com que este seja este e não aquele outro. S. Tomás de Aquino diz que um indivíduo não é outra coisa senão matéria signata quantitate, ou matéria caracterizada pela quantidade. A matéria quantitativa, pois, é o princípio da individualização, em que uma certa quantidade de matéria é o que individualiza a forma universal que a enforma, mas sem esquecer que há uma hierarquia de entes que vai desde a matéria-prima até ao ato puro, que é Deus. A matéria-prima não pode existir em ato, porque é pura possibilidade, mas a matéria enformada pode ser forma ou matéria, conforme se considere. Por exemplo, a madeira é uma certa forma, mas matéria de uma mesa. Assim, há uma série de formas hierárquicas em um mesmo ente, e há formas essenciais e formas acidentais.

Mas esse princípio de individualização põe a S. Tomás de Aquino um grave problema, em conformidade com os pensamentos credulários: e os anjos? Os anjos não têm matéria: como é possível neles a individualização? Segundo a solução tomista, os anjos não são indivíduos, mas espécies, pois a unidade angélica não é individual, mas específica, e cada espécie se esgota em cada anjo.

No final da Idade Média, o problema dos universais sofre uma profunda modificação, tanto pelo pensamento de Duns Escoto, o franciscano inglês, como pelo pensamento de Guilherme de Ockham, em que se regressa à solução nominalista da questão.

Duns Escoto faz muitas distinções, tais como: nenhuma distinção verdadeira, sem distinção formal e a distinção entre uma parte formal da coisa; em que a distinção real é a que se estabelece entre umas coisas e outras, como, por exemplo, entre um elefante e uma mesa. A distinção de razão é aquela em que se estabelece ao considerar a coisa nos seus diversos aspectos, podendo ser efetiva ou puramente nominal. É efetiva, quando se distingue, por exemplo, um jarro como recipiente de água ou como objeto de adorno. É nominal, quando não corresponde à realidade da coisa, mas à sua mera denominação. A distinção entre uma parte formal da coisa é também formal, mas não é a parte intelectual, mas apenas a parte, não se tratando de coisa numericamente distinta, não sendo o pensamento que estabelece a própria distinção, mas sim a própria coisa. Desta maneira, para Duns Escoto um homem tem várias formas, como a forma humana, mas, além disso, tem uma forma que o distingue dos demais homens. A posição de Duns Escoto abre caminho ao nominalismo, pois, desde então, e em especial no século XIV, vão se multiplicar as distinções e vai se afirmar cada vez mais a existência dos indivíduos.

Guilherme de Ockham dá mais um passo e nega em absoluto a existência dos universais na natureza, que considera como sendo criações do espírito, ou mesmo da mente, sendo apenas termos, daí a denominação de terminismo dado também a essa direção, com os termos sendo simplesmente símbolos das coisas, que substituem na mente a multiplicidade das coisas. Não são convenções, mas símbolos naturais. As coisas são conhecidas mediante os seus conceitos, que são universais. Para se conhecer o indivíduo há a necessidade do universal, da ideia. O homem vai renunciar a possuir as coisas e se resignar a ficar apenas com os seus símbolos.

Em todo esse emaranhado de pensamentos, em que a ignorância prepondera em todos os sentidos, há um esforço para se conhecer aquilo que pode ser considerado como sendo universal, quando, na realidade, todas as coisas são universais, pois que habitam o Universo, mesmo os seres hidrogênios, que são os formadores do mundo Terra, por isso não são deslocados para outros mundos, mas, de qualquer maneira, a Terra faz parte do Universo.

É por essa razão que todos os seres, tais como coisas, encontram-se ligados uns aos outros, representando um todo como se fosse realmente material, com essa representação se estendendo ao âmbito de tudo aquilo que se oferece à produção das sensibilidades, posteriormente à produção dos sentimentos, e à produção dos sentidos, posteriormente à produção dos pensamentos, no caso dos seres humanos, em que estes possuem, além do corpo fluídico, o corpo de luz, ambos ligados ao espírito, mesmo com a presença do corpo carnal.

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