02.02.01- A cultura bizantina – Período de 565 a 1095

A Era da Verdade
11 de dezembro de 2018 Pamam

O Império se encontrava acossado pelas discórdias internas e pelos ataques externos que vinham de todos os lados. Os ávaros e os eslavos estavam cruzando o Danúbio e tomando posse das terras e das cidades imperiais. Os persas se preparavam para dominar a Ásia Ocidental. A Espanha estava perdida para os visigodos. E os lombardos conquistaram a metade da Itália, três anos após a desencarnação de Justiniano. Em 542 e em 566, a praga assolou o Império. Em 569, a fome, a pobreza, os bárbaros e a guerra interromperam as comunicações, desencorajaram o comércio e fizeram declinar a literatura e a arte.

Os sucessores de Justiniano não conseguiram enfrentar os problemas do Império, embora fossem competentes. No período de 565 a 578, Justino II lutou bravamente contra uma Pérsia em expansão. No período de 578 a 582, Tibério II, considerado como sendo favorecido pelos deuses, com quase todas as suas virtudes, teve uma desencarnação prematura, após um reinado justo e breve. E no período de 582 a 602, Maurício atacou os ávaros invasores, mas recebeu pouco apoio do Império, pois a fé credulária havia levado milhares e milhares de pessoas para os mosteiros, a fim de escaparem ao serviço militar. E aqui se pode observar que a fé credulária é capaz de levar de roldão até mesmo a um dos atributos mais nobres do ser humano: o patriotismo. E quando Maurício proibiu aos mosteiros de receber novos membros, pelo menos até que houvesse passado o perigo da guerra, o fanatismo da fé credulária ensejou a que os monges reclamassem, de imediato, a sua destituição.

Aproveitando-se da situação caótica, Cosróis II tirou vantagem da desordem e renovou a velha guerra da Pérsia contra a Grécia. Em resposta, Focas, que havia usurpado o trono, fez as pazes com os árabes e transportou todo o exército bizantino para a Ásia, sendo derrotado em todas as partes pelos persas, enquanto os ávaros conquistavam todas as terras agrícolas que ficavam por trás de Constantinopla. A aristocracia da capital apelou para Heráclio, o governador grego da África, que viesse em socorro do Império e das suas propriedades. Ele recusou ao apelo, alegando a idade avançada para tal intento, mas mandou o filho em seu lugar. O jovem Heráclio organizou uma frota, navegou para o Bósforo, derrubou Focas do poder, exibindo o seu cadáver mutilado, e foi aclamado imperador, em 610. No trono, passou dez anos promovendo a regeneração moral do povo, aumentando o poderio do seu exército e os recursos do tesouro.

Enquanto isso, acontecimentos paralelos iam se desenrolando. Em 614, os persas conquistavam Jerusalém. Em 615, marchavam contra a Calcedônia. Somente por intermédio da execução do plano de espiritualização da nossa humanidade foi que a Europa e o Império Bizantino foram salvos, pois o surgimento providencial de Heráclio conservou a marinha bizantina senhora dos mares, impedindo que a cultura persa se alastrasse por todas as regiões, conservando a que estava se formando.

Mas as hordas ávaras marchavam até Corno Dourado, assaltavam os subúrbios e levavam milhares de gregos como escravos. As terras agrícolas por trás de Constantinopla, denominadas de hinterlândia, que haviam sido tomadas pelos ávaros, assim como também a perda do Egito, cortaram as fontes de abastecimento de cereais da cidade, suspendendo a distribuição de rações, em 618. Em face da gravidade da situação, Heráclio decidiu levar o seu exército para Cartago e dali tentar a reconquista do Egito, mas o clero e o povo se recusaram a deixá-lo levar avante a essa sua decisão. No entanto, o patriarca Sérgio concordou em lhe emprestar os recursos necessários provenientes da Igreja Grega para custear uma guerra santa destinada a retomar Jerusalém, obviamente que com juros, pois a classe sacerdotal jamais abriu mão gratuitamente da sua riqueza, ávida que por ela é, e que sempre foi, mas que não continuará sendo, pois já está decretada a sua extinção pelo Astral Superior. E aqui vemos talvez a primeira guerra santa, que séculos depois iria se denominar de Cruzadas. Em 622, Heráclio selou a paz com os ávaros e partiu para lutar contra os persas.

Durante seis anos Heráclio levou a guerra ao inimigo e tantas vezes ele conseguiu derrotar Cosróis II. Em 626, na sua ausência, um exército persa e uma hoste de ávaros, búlgaros e eslavos sitiaram Constantinopla. Mas um exército enviado por Heráclio derrotou os persas em Calcedônia e uma força da capital levantada pelo patriarca venceu a horda dos bárbaros. Enquanto isso, Heráclio marchou até chegar aos portões de Ctesifon, obrigando a que Cosróis II se rendesse, com a Pérsia pedindo a paz, entregando tudo o que Cosróis II havia tomado do Império Grego. Após sete anos de ausência, Heráclio regressou em triunfo para Constantinopla.

Em sua velhice, mesmo estando enfraquecido pela doença, ainda dedicava as suas últimas energias ao fortalecimento da administração civil. Em 634, subitamente, algumas tribos árabes invadiram a Síria. Em 638, derrotaram um exército grego e dominaram Jerusalém. E em 641, enquanto o imperador agonizava em seu leito de morte, o Egito caía.

No período de 642 a 668, sob o governo de Constâncio II, continuaram as vitórias árabes. Considerando impossível salvar o Império, ele decidiu passar os seus últimos anos de vida no Ocidente, tendo sido assassinado em Siracusa. Mas tudo já se encontrava adredemente preparado, pois o seu filho Constantino IV Pogonato foi ainda mais capaz.

No período de 673 a 678, os muçulmanos fizeram outro esforço para tomar Constantinopla, mas o “fogo grego”, agora mencionado pela primeira vez, salvou o Império Bizantino e a Europa. A nova arma, ao que parece inventada por Calínico da Síria, era um tipo de lança-chamas, que continha uma mistura inflamada de nafta, cal viva, enxofre e piche, por intermédio do qual eram lançadas contra os navios e as tropas inimigas em flechas flamejantes, através de tubos, ou assopradas através de tubos, ou também atiradas em bolas ocas de ferro que continham cera e estopa embebidas em óleo, ou, ainda, eram carregadas e atiradas em pequenos botes que se enviavam flutuando na direção do inimigo. A composição dessa mistura constituía um segredo mantido com êxito durante duzentos anos pelo governo bizantino, pois revelar qualquer conhecimento desse segredo era traição e sacrilégio, até que finalmente os sarracenos descobriram o segredo e empregaram o “fogo sarraceno” contra os cruzados. Esta arma foi a mais falada na Idade das Trevas, até a invenção da pólvora.

Em 717, os muçulmanos desfecharam outro assalto à capital grega, com um exército de 80.000 árabes e persas sob o comando de Moslema, cruzando o Helesponto, em Abidos, e sitiando Constantinopla pela retaguarda. Em paralelo, os árabes enviaram uma esquadra de 1.800 pequenas embarcações, que entrou no Bósforo. Mas Constantinopla não estava destinada a cair, devendo perdurar ainda por vários séculos. Então não foi por sorte, como assim consideram os historiadores, que Leão III, o Isáurico, cujo nome é derivado do distrito de Isauria, na Cilícia, um competente general, substituísse ao incapaz Teodósio III no trono e organizasse a defesa. Ele fez o uso da pequena marinha bizantina com habilidade tática e ordenou que todas as unidades fossem bem abastecidas com o “fogo grego”. Em pouco tempo, as embarcações árabes estavam em chamas e quase todas elas foram destruídas. O exército grego avançou contra os sitiantes e conseguiu uma vitória tão decisiva que Moslema se retirou para a Síria.

No Velho Testamento, em Êxodo 20:4-5, o ciumento Jeová, o deus bíblico, diz o seguinte:

Não deves fazer para ti imagem esculpida, nem semelhança de algo que há nos céus em cima, ou do que há na terra embaixo, ou do que há nas águas abaixo da terra. Não te deves curvar diante delas, nem ser induzido a servi-las, porque eu, Jeová, teu Deus, sou um Deus que exige devoção exclusiva…”.

Em Salmos 78:58-59, o furioso Jeová, o deus bíblico, é incitado ao ciúme, na seguinte passagem:

E continuaram a ofendê-lo com os seus altos, e persistiram em incitá-lo ao ciúme com as suas imagens entalhadas. Deus ouviu e ficou furioso…”.

Essas e outras passagens bíblicas proibiam explicitamente a imagem gravada de qualquer figura. A Igreja primitiva repugnava as imagens como relíquias do paganismo e olhava com reprovação as esculturas pagãs que pretendiam representar os deuses. Com o triunfo do falso cristianismo na época de Constantino e a influência da cultura prevalecente no ambiente, acrescidos das tradições e da estatutária gregas, em Constantinopla e no Oriente helenístico, houve um abrandamento dessa oposição católica.

Mas à medida que o número de santos adorados se multiplicava, surgia a necessidade de identificá-los e lembrá-los, assim as suas imagens e as de Maria passaram a ser produzidas em grande quantidade. E no caso específico de Jesus, o Cristo, não somente a sua imagem, como também a sua cruz se tornaram objetos de reverência. Como a fé credulária tolda o raciocínio e obscurece a visão, estando ela estabelecida na cultura mundial, as fantasias tomaram conta do ambiente, transformando as relíquias, os retratos e as estátuas considerados como sendo sagrados, em objetos de adoração, com as pessoas se postando à frente desses objetos, beijando-lhes, acendendo-lhes velas e queimando incenso, coroando-lhes com flores e esperando sempre os milagres das suas influências ocultas.

Especialmente no falso cristianismo bizantino, as imagens sacras se encontravam por toda a parte, nas igrejas, nos mosteiros, nas casas e nas lojas, inclusive sobre as mobílias e roupas. As cidades que se encontravam em riscos de guerra, fome ou epidemia tendiam a confiar antes no poder das estátuas e relíquias que abrigavam ou nos seus santos padroeiros do que propriamente na iniciativa humana. Os concílios eclesiásticos, assim como os sacerdotes, explicavam repetidamente que as imagens e relíquias não eram deidades, mas somente as lembranças delas, mas o povo não atentava em fazer tais distinções.

Leão III se posicionou contra esses excessos da fé credulária popular, pois lhe parecia que o paganismo estava assim reconquistando a falsa cristandade, já que estava profundamente abalado com as sátiras lançadas pelas seitas muçulmanas, judaicas e anticristãs contra as superstições da multidão ortodoxa. Em 726, com o objetivo de enfraquecer o poder dos monges sobre o governo e o povo, além de conquistar o apoio dos nestorianos e monofisitas, ele reuniu um grande conselho de bispos e senadores e com o seu consentimento promulgou um édito exigindo a completa remoção dos ícones da Igreja, com as representações de Cristo e de Maria sendo proibidas e os murais da Igreja tendo que ser recobertos com gesso. Alguns membros do alto clero apoiaram ao édito, mas o baixo clero e os monges protestaram, com o povo influenciado se revoltando. Os soldados que procuraram pôr a lei em execução foram atacados por adoradores revoltados e enfurecidos por esta profanação dos símbolos mais caros da sua fé credulária. Na Grécia e nas ilhas Cíclades, forças rebeldes aclamaram um imperador rival, enviando uma frota para tomar Constantinopla. Mas Leão III destruiu a esquadra e aprisionou os chefes da rebelião. Na Itália, onde as formas pagãs de culto nunca haviam desaparecido, a quase totalidade da população ficou contra o édito. E aqui começa a iconoclastia, já vista na categoria Prolegômenos, no tópico 15.03.01.05.

No período que se seguiu, até ao final do século, o Império foi governado pelos descendentes de Leão III, continuando a política da iconoclastia, até que Irene, a mãe de Constantino VI, cegou ao próprio filho e assumiu o poder. Em 802, os próprios iconoclastas se revoltaram, depuseram a rainha e fizeram do seu tesoureiro, Nicéforo, o imperador, que a baniu para Lesbos, onde nove meses depois ela desencarnou. Os teólogos lhe perdoaram os crimes em virtude da sua piedade, tendo a Igreja a canonizado como sendo uma santa, apesar dela ter cegado ao próprio filho para usurpar o poder, além de outros crimes.

A partir do ano de 802, até ao ano de 1095, a cultura bizantina foi marcada por muitos imperadores e algumas imperatrizes que adotaram as suas próprias políticas e algumas legislações, no esforço de proteger o Império decadente dos muçulmanos no Sul e dos eslavos e búlgaros no Norte, desprezando-se as intrigas, as revoluções palacianas e os assassínios, com a herança grega, em boa proporção, sendo preservada. Assim, a ordem e a continuidade econômica foram mantidas.

Em 1081, quando Aleixo Comneno I subiu ao trono, o Império Bizantino parecia próximo do fim, pois os turcos haviam tomado Jerusalém, em 1076, e estavam avançando pela Ásia Menor, com as tribos patzinak e cuman se aproximando de Constantinopla pelo Norte, e, ainda, com os normandos atacando postos avançados bizantinos no Adriático. Nesse tempo, o governo e o exército se encontravam encolhidos pelas traições, incompetência, corrupção e covardia, tendo Aleixo enfrentado a situação com competência. Em primeiro lugar, ele confiscou os tesouros da Igreja para que pudesse reorganizar o seu exército, dirigindo pessoalmente as campanhas militares e conquistando muitas vitórias, mais com estratégia do que com derramamento de sangue, demonstrando assim ser um bom general. Enviou agentes para fomentar uma revolução na Itália normanda, concedendo privilégios comerciais a Veneza em troca da ajuda de sua marinha na guerra contra os normandos. Em paralelo a essas medidas, ainda encontrou tempo para reorganizar o governo e as suas defesas, proporcionando assim uma sobrevida longa ao Império Bizantino.

Em 1095, utilizando-se da diplomacia, apelou para que o Ocidente fosse em auxílio do Oriente considerado como se fosse cristão, propondo no Concílio de Piacenza a união da Igreja Grega com a Latina, em troca da unidade da Europa contra o Islã. Este seu apelo, junto com outros fatores convergentes, serviu para lançar a primeira das Cruzadas sangrentas que iriam salvar Bizâncio, para depois destruí-la.

No século XI, o Império Bizantino atingira novamente o poder, a riqueza e a cultura no seu mais elevado grau, o qual havia sido atingido sob Justiniano, através das armas e das qualidades políticas das dinastias isáurica e macedônia. A Ásia Menor, a Síria setentrional, a Rodes, as Cíclades, a Creta e o Chipre haviam sido arrebatados aos muçulmanos. A Itália meridional havia voltado a ser mais uma vez a Magna Grécia, governada por Constantinopla. E os Balcãs retomados aos búlgaros e eslavos. A indústria e o comércio bizantinos dominaram novamente o Mediterrâneo. O falso cristianismo grego triunfara nos Balcãs e na Rússia, com a arte e a literatura ressurgindo. Constantinopla se encontrava no apogeu, ultrapassando Roma e Alexandria. Segundo o parecer de Roberto de Clari, Constantinopla detinha dois terços da riqueza mundial, e segundo a afirmativa de Benjamin de Tudela, mesmo os habitantes gregos comuns, todos parecem filhos de reis.

Prevalecendo na cultura mundial o criptoscópio, que é órgão mental destinado à percepção e a captação dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, em detrimento do intelecto, que é o órgão mental destinado à compreensão e a criação das experiências físicas acerca da sabedoria, em que ambos os órgãos mentais se encontravam sob a tutela da imaginação, o ambiente de trevas formado pelo irracionalismo da fé credulária ensejou a que os erros e os vícios mundanos encontrassem guarida nessa capital, indistintamente distribuídos entre ricos e pobres. Todo esse quadro era agravado ainda pela própria fé credulária, que buscava por todos os meios a necessidade das crenças, com estas crenças sendo integradas e ajustadas à corrupção, às violências da guerra e da política e às depravações sexuais. Tanto que crianças eram castradas para servir como eunucos nos haréns e na administração o assassínio ou o cegamento de rivais presentes ou potenciais na conquista do trono, continuaram através das diversas dinastias.

A população desorientada e dividida por separações credulárias, raciais e classistas era inconstante, ávida por sangue e turbulenta, sendo amansada pelo Estado, através de doações de pão, óleo e vinho, e também por distrações de corridas de cavalo, números com a utilização de animais, dança de corda, pantomimas indecentes no teatro e pela ostentação imperial ou eclesiástica nas ruas. Salas e salões de jogos se espalhavam por toda a parte, os prostíbulos podiam ser encontrados em quase todas as ruas, às vezes até nas portas das igrejas, em virtude das mulheres de Bizâncio serem conhecidas pela sua licenciosidade e devoção credulária. Nesse terrível ambiente de fé credulária, sem a mínima visão acerca da realidade da vida, todas as classes acreditavam em magia, astrologia, adivinhação, bruxaria e amuletos milagrosos. As virtudes que haviam progredido na Grécia e em Roma tinham totalmente desaparecido, antes mesmo da própria língua latina.

Tudo isso era ainda sustentado pela sólida estrutura que alguns imperadores haviam estabelecido, tornando-se em vários séculos um mecanismo eficiente de administração, que alcançava todas as regiões do Império. Até que Heráclio substituiu a velha divisão do Império em províncias por uma divisão em themes, que eram unidades militares governadas por um strategos ou governador militar, os quais possuíam considerável autonomia e prosperaram sob este governo centralizado, recebendo uma continuidade de ordem, sem suportar a força direta das lutas e violências que perturbavam a capital. Constantinopla era governada pelo imperador, pelo patriarca e pela turba; enquanto os themes eram governados pela lei bizantina.

Assim, enquanto o Islã confundia a lei com a Teologia e a Europa Ocidental mergulhava no caos de mais de uma dezena de códigos bárbaros, o mundo bizantino aperfeiçoou e estendeu o legado dos bons imperadores, notadamente Justiniano. Os códigos de direito militar, eclesiástico, marítimo, mercantil e rural que trouxeram certa ordem e confiança aos julgamentos legais no exército e no clero, nos mercados e nos portos, na lavoura e no mar, e a escola de Direito de Constantinopla, no século XI, constituíam-se o centro acadêmico do falso cristianismo secular, sendo tudo isso o grande legado do Império Romano.

Tendo os bizantinos conseguido preservar a maior herança do Império Romano, que foi o Direito, através de vários séculos de perigos e transformações, o Direito teve o seu ressurgimento em Bolonha, no século XII, revolucionando o direito civil da Europa latina e o direito canônico da Igreja romana, o que explica a razão pela qual o Astral Superior impediu que Aníbal tomasse Roma, há mil anos atrás, aproximadamente. Embora até ao dia da sua queda o Império se chamasse romano, quase todos os elementos latinos haviam dele desaparecido, exceto o direito romano, pois desde Heráclio o grego tinha sido a língua oficial, literária, litúrgica e de uso diário, no Oriente bizantino, por conseguinte, a sua educação era basicamente grega. Esta influência grega foi benéfica para a cultura bizantina, pois permitiu alguma manifestação da produção de pensamentos, ao invés da total produção de sentimentos, sendo toda esta última concentrada em debates teológicos.

Do século VI ao XII o Império Bizantino dominou a cultura da Europa, tida como sendo cristã, na administração, na diplomacia, nas riquezas, nas artes e na literatura. Em virtude das mazelas advindas da fé credulária, havia em sua cultura algo de irrealismo, uma espécie de refinamento aristocrático encoberto por uma onda de superstição popular, fanatismo, intolerância e mediocridade literária, sendo toda ela dedicada à perpetuação dessa suprema ignorância. Com a formação desse ambiente totalmente desfavorável, a Veritologia, a Saperologia, as religiões e as ciências não reuniam as condições necessárias para se desenvolver, pois que estavam sempre em conflito com essa suprema ignorância, e durante mais de mil anos nenhum acréscimo ou algum feito foi realizado nesse sentido. Temos como prova disso tudo o fato do exército do theme oriental, em 669, haver exigido que o Império tivesse três imperadores ao mesmo tempo, absurdamente para estar em pleno acordo com a Trindade.

Os historiadores ficam espantados pelo fato do Império Bizantino haver durado tanto tempo, indagando para si mesmos quais foram os recursos ocultos ou a vitalidade íntima que lhe possibilitaram sobreviver às vitórias da Pérsia, na Síria, à perda da própria Síria, do Egito, da Sicília e da Espanha para os muçulmanos. Eles consideram que talvez a fé credulária, que enfraquecera a defesa por confiar em relíquias e milagres, haja trazido alguma ordem e disciplina ao seu povo, tendo cercado os imperadores e o Estado com uma aura de santidade que espantava a transformação.

Mas nada disso procede, uma vez que a base de toda a sua longevidade estava apoiada no direito romano, nas leis que permitiram o estabelecimento da ordem e da disciplina dos seus povos, em estrita obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade, uma vez que o Império Bizantino tinha que exercer as suas funções no contexto da nossa humanidade. Entre essas funções podemos destacar as seguintes:

  1. Os séculos e séculos que o Império permaneceu como proteção da Europa contra a cultura do Oriente, livre do domínio da Pérsia e do Islã Oriental;
  2. Guardar e transmitir os textos recopiados que fizeram chegar até nós a Veritologia, a Saperologia, as religiões, as ciências, as artes e a literatura da Grécia Antiga, pois os monges que fugiam dos imperadores iconoclastas levaram consigo manuscritos gregos para a Itália meridional e restabeleceram ali os conhecimentos e as experiências gregas, evitando tanto os muçulmanos como os cruzados, deixando Constantinopla, por vezes se estabelecendo na Itália, servindo como os portadores do classicismo. Assim, gradualmente, a Itália foi redescobrindo a Grécia, até que os seres humanos puderam fazer valer a liberdade intelectual, livrando-se mais um pouco da fé credulária, com a Renascença;
  3. Aculturar os búlgaros, que eram originalmente uma mistura de hunos, ugrianos e turcos, e os eslavos, que posteriormente absorveram os búlgaros, do barbarismo para o falso cristianismo, pois dos males o menor, já que trouxe a força dos bárbaros para a vida e o destino da Europa.

 

Continue lendo sobre o assunto:

Prolegômenos

01- AVISO

Se você realmente vai se dispor a ler o que aqui está escrito, recomendo a não se espantar e muito menos se admirar sobre tudo aquilo que aqui irá...

Leia mais »
Prolegômenos

02- INTRODUÇÃO

Eu vou desenvolver a esta explanação acerca de A Filosofia da Administração, utilizando-me logo de um método: o da repetição. Não se deve radicalizar severa e abruptamente contra a...

Leia mais »
Romae