02.01.06- A formação da cultura bizantina – Período de 408 a 568

A Era da Verdade
10 de dezembro de 2018 Pamam

Em 408, Arcádio desencarnou e o seu filho Teodósio II, com a idade de apenas sete anos, tornou-se o imperador do Oriente. A sua irmã Pulquéria, dois anos mais velha, encarregou-se da sua educação. Teodósio II deixou a tarefa de governar ao prefeito pretoriano e ao senado, enquanto copiava e ilustrava os manuscritos e se instruía. Em 414, com a idade de dezesseis anos, Pulquéria assumiu a regência e presidiu os destinos do Império durante trinta e três anos. Ela e as duas irmãs fizeram votos de virgindade, vestiam-se com simplicidade, jejuavam, cantavam hinos de louvores e rezavam. Além disso, fundaram hospitais, igrejas e mosteiros, fazendo-lhes grandes doações. O palácio se transformou em um verdadeiro convento, ao qual tinham acesso apenas as mulheres e alguns sacerdotes.

No entanto, em meio a todo esse ambiente credulário, Pulquéria, a sua cunhada Eudócia e os ministros governavam tão bem que o Império Oriental gozou de paz e prosperidade durante os quarenta e dois anos de reinado de Teodósio II, enquanto o Ocidente ia se envolvendo no caos. Em 429, um corpo de juristas foi comissionado para codificar todas as leis decretadas no Império desde a ascensão de Constantino ao poder. O novo código foi aceito pelo Oriente e pelo Ocidente, ficando sendo a lei do Império até uma maior codificação que se fez durante o reinado de Justiniano. Em 438, o Código de Teodósio foi o acontecimento mais lembrado desse período.

O Império Oriental teve muitos governantes no período que decorreu entre Teodósio II e Justiniano I, tendo os seus reinados sidos bastante agitados, mas que não tiveram assim tanta relevância no contexto da cultura bizantina. No período de 457 a 474, sob o reinado de Leão I, este enviou contra Genserico, em 467, a maior frota que até então havia sido reunida por um governo romano, mas ela foi derrotada e destruída. No período de 474 a 491, sob o reinado do seu genro Zeno, estando este ansioso por tranquilizar aos monofisitas, causou uma grande cisão entre os falsos cristãos latinos e gregos ao decidir que havia apenas uma natureza em Cristo, em sua carta pretensamente unificadora, o Henoticon. No período de 491 a 518, sob o reinado de Anastácio, este conseguiu restaurar as finanças do Estado por meio de uma administração honesta, tendo reduzido os impostos, abolido os jogos em que havia a luta de homens contra animais ferozes e tornado Constantinopla praticamente inexpugnável com a construção de longas muralhas, com mais de setenta quilômetros de extensão, desde o mar de Mármara até o mar Negro. No período de 518 a 527, sob o reinado de Justino, um senador analfabeto que usurpou o trono, quem acabou realmente governando foi Justiniano, o seu competente sobrinho, já que o rei apreciava mais a vida tranquila.

Justiniano descendia de uma pobre família de camponeses ilírios, tendo encarnado nas proximidades da antiga Sárdica, a Sofia. O seu tio Justino o havia trazido para Constantinopla, onde conseguiu lhe dar uma boa educação, tendo ele se distinguido como oficial no exército e como o seu auxiliar, cujo cargo exerceu durante nove anos, até que o sucedeu como imperador com a desencarnação do tio, em 527, quando já contava com quarenta e cinco anos de idade, fazendo-se ungir pelo patriarca de Constantinopla.

Em 532, deu-se a revolta mais importante do seu reinado. Os verdes e azuis eram as duas facções em que se dividira o povo de Constantinopla, de acordo com a indumentária dos seus jóqueis favoritos. Essas duas facções passaram das discussões para as vias de fato, o que provocou a insegurança nas ruas, com as pessoas abastadas tendo que se vestir como pobres para evitar serem assaltadas nas ruas. O governo interviu e prendeu várias pessoas das duas facções, as quais resolveram se unir em um movimento armado contra o governo, do qual participaram vários senadores. Os proletários que se achavam descontentes com a situação, contribuíram para transformá-la em revolução, invadindo as prisões e libertando os presos que lá se encontravam, matando soldados e funcionários, inclusive provocando muitos incêndios, entre os quais o que destruiu totalmente o templo de Santa Sofia e o que destruiu uma parte do palácio do imperador. A multidão gritava “Nika! Nika! Nika!”, nome que se deu à revolta e cujo significado era vitória. Com o êxito obtido, os revoltosos exigiram a demissão de dois membros do conselho de Justiniano que não eram muito populares, com o imperador atendendo às exigências. Animados, os revoltosos persuadiram ao senador Hipátio que aceitasse ocupar o trono nos jogos do hipódromo, o qual aceitou a proposta, mesmo contra a vontade da esposa, que bem lhe aconselhava.

Enquanto isso, Justiniano planejava a fuga, oculto no palácio. Mas a belíssima imperatriz Teodora conseguiu dissuadi-lo, insistindo para que resistisse. Foi quando então Belisário, general do exército, tomou para si a tarefa de combater ao movimento, reunindo os godos das suas tropas, conduzindo-os ao hipódromo, matando 30.000 pessoas, prendendo Hipátio e mandando assassiná-lo na prisão. Justiniano reconduziu aos seus postos os dois conselheiros que havia demitido, perdoou aos senadores rebeldes e entregou aos filhos de Hipátio a propriedade que dele havia sido confiscada. E assim, ele se manteve firme em seu trono durante os trinta anos seguintes.

Mas não foram as revoltas e nem as guerras os principais acontecimentos do reinado de Justiniano, mas sim as suas leis. Já havia se passado um século desde a publicação do Código de Teodorico, com muitos dos seus regulamentos se tornando obsoletos, em virtude das novas condições advindas das mudanças de cultura. Tinham sido decretadas muitas leis novas, as quais figuravam de maneira confusa nos códigos, com muitas contradições nelas existentes, criando dificuldades tanto no poder executivo como nos tribunais. Além do mais, a imensa influência do falso cristianismo havia modificado a legislação e a sua hermenêutica. As leis civis de Roma muitas vezes colidiam com as das nações que formavam o Império, com muitos decretos não se adaptando às tradições helenísticas do Oriente. Todo o imenso corpo da legislação romana se tornara mais uma acumulação empírica de textos do que um código na verdadeira acepção da palavra. Em todo esse caos, Justiniano via a possibilidade do desmembramento do Império, ele que almejava a sua unificação. Surgiu assim o famoso Código de Justiniano.

Mas os nacionalistas heréticos do Oriente, aos quais ele perseguia, penderam para o lado dos muçulmanos e passaram a viver melhor sob a tutela do Alcorão. A Itália dos lombardos, a Gália dos francos, a Inglaterra dos anglo-saxões e a Espanha dos visigodos ignoraram completamente os editos de Justiniano, mas o seu código continuou sendo até o fim o código do Império Bizantino. Cinco séculos após ter desaparecido do Ocidente, foi ressuscitado pelos juristas de Bolonha, tendo sido aceito pelos imperadores e papas, sendo empregado como alicerce da ordem na estrutura de muitos Estados modernos.

Os comércios interno e externo floresceram no Império Bizantino desde os tempos de Constantino até à última fase do reinado de Justiniano. Conservaram-se as estradas e as pontes romanas, construíram-se frotas para que ligassem a capital a uma centena de portos do Oriente e do Ocidente. Desde o século V até ao século XV, Constantinopla foi o maior mercado e o maior centro exportador do mundo. Alexandria, que havia mantido essa supremacia desde o século III a.C., ficara com um movimento inferior ao da Antioquia. Toda a Síria prosperava com o seu grande comércio e indústria, pois ela ficava entre a Pérsia e Constantinopla, e entre esta e o Egito, com os seus hábeis mercadores se espalhando pelo Império e sendo um fator de orientalização dos costumes e das artes que marcaram a civilização bizantina.

A Pérsia era hostil a Justiniano. E como a antiga rota da Síria à Ásia Central atravessava a Pérsia, Justiniano arranjou outra alternativa para o comércio, estabelecendo relações amistosas com os himiaritas do sudoeste da Arábia e com os reis da Etiópia, os quais controlavam as passagens ao sul do mar vermelho, com os mercadores bizantinos partindo para a Índia, seguindo por essas passagens e pelo oceano Índico. Mas os persas controlavam os portos do oceano Índico, cobrando os mesmos impostos desse comércio como tal fosse feito através do Irã. Em virtude dessa situação, Justiniano proporcionou a construção de portos no mar Negro, de onde as mercadorias eram embarcadas por via marítima para Colchis, a Geórgia ocidental, e as partir daí, por caravana, para Sogdiana, a Samarkand, onde mercadores chineses e ocidentais podiam se encontrar e fazer as suas transações comerciais sem a interferência dos persas. O crescente tráfego nessa rota do Norte contribuiu para o engrandecimento artístico e cultural da Seríndia. Nesse mesmo tempo, o comércio grego mantinha os seus antigos escoadouros no Ocidente.

As grandes universidades do Oriente se encontravam em Constantinopla, Alexandria, Atenas e Antioquia, com todas elas se especializando em Filosofia, assim denominada, Medicina, Literatura e retórica. A superstição dominava a Medicina, com a maioria dos médicos recorrendo à astrologia, receitando tratamentos diferentes em conformidade com a posição dos planetas. Nesse período, o trabalho científico mais importante foi o Digestorum Artis Mulomedicinae Libri IV, de Flávio Vegécio, que viveu entre 383 e 450, do qual se pode afirmar que surgiu a medicina veterinária e que prevaleceu até a Renascença.

De Platão ao logo após o Cristo, a passagem da Filosofia para o credo aparece em alguns trabalhos gregos que os estudiosos medievais atribuem a Dionísio, o Areopagita, um dos atenienses que aceitaram os ensinamentos de Paulo de Tarso. Esses quatro trabalhos são os seguintes: A Hierarquia Celeste, A Hierarquia Eclesiástica, Os Nomes Divinos e A Teologia Mística. A História não registra onde e nem quando esses trabalhos foram escritos, e tampouco os nomes dos seus autores, mas o seu conteúdo indica terem se originado entre os séculos IV e VI. Nós sabemos apenas que esses livros exerceram profunda influência sobre a teologia cristã. João Escoto Erigena traduziu um deles, enquanto Alberto Magno, Tomás de Aquino e muitos outros falsos cristãos os apreciavam, e centenas de judeus místicos e muçulmanos cultivaram o espírito com a sua leitura, tendo ainda a Teologia e a arte medievais os aceitando como sendo o guia infalível para a compreensão dos seres e das categorias divinos. O seu objetivo geral era combinar o neoplatonismo, que já vimos em tópicos anteriores, com a cosmologia dita cristã. Neles consta que Jeová, o deus bíblico, conquanto seja de uma transcendência incompreensível, é imanente em todas as coisas, tal como o Deus verdadeiro, mas que entre ele e o homem intervêm três tríades de seres sobrenaturais: Serafim, Querubim e Tronos; Dominações, Virtudes e Poderes; Principados, Arcanjos e Anjos. Dante classificou esses nove grupos ao redor do trono de Jeová, o deus bíblico, e Milton lhes teceu os nomes em versos. Nesses quatro trabalhos a criação é feita pela emanação, contradizendo à própria Bíblia, já que todas as coisas fluem de jeová, o deus bíblico, através dessas categorias de anjos, sendo que posteriormente, por intermédio de um processo contrário, os nove grupos da hierarquia angelical conduzem novamente a Jeová, o deus bíblico, os homens e a criação.

A essência da cultura bizantina é em boa parte proveniente da Grécia, tendo sido ela mesclada com o credo católico formado a partir do falso cristianismo, tendo ela ainda alguma influência da cultura pagã.

 

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