02.01.05.05- O início da formação da Itália – Período de 493 a 568

A Era da Verdade
4 de dezembro de 2018 Pamam

Em 453, quando o império de Átila ruiu com a sua desencarnação, os ostrogodos, aos quais ele havia submetido, reconquistaram a sua independência. Então os imperadores bizantinos lhes pagaram para que eles levassem para o oeste os outros bárbaros germânicos. E assim foi feito. Como recompensa, deram-lhe a Panônia, mas levaram Teodorico, o filho do rei ostrogodo Teodomiro, para Constantinopla. Teodorico tinha apenas sete anos de idade e ia ser mantido como refém, garantindo assim a fidelidade dos ostrogodos. Durante os onze anos da sua estada na corte de Bizâncio, desenvolveu-se a sua capacidade de estadista, embora não lhe dessem instrução, permanecendo analfabeto, mas assimilou a arte da guerra e da administração. Conquistou a amizade de Leão I que o reconheceu como rei dos ostrogodos, quando o seu pai, Teodomiro, desencarnou, em 475.

Zeno, o sucessor de Leão I, receando que Teodorico pudesse criar algum embaraço para Bizâncio, recomendou-lhe que conquistasse a Itália, na esperança de que o rei pudesse fazer com que ela voltasse para o domínio de Bizâncio, uma vez que Odoacro havia reconhecido formalmente os imperadores do Oriente, mas se mostrando indiferente em relação a eles. A recomendação foi acatada por Teodorico, e na qualidade de patricius de Zeno conduziu os ostrogodos através dos Alpes, em 480. Os bispos ortodoxos da Itália, que detestavam o arianismo de Odoacro, apoiaram o invasor ariano pelo fato dele representar um imperador que era também ortodoxo. Com o auxílio desses bispos, Teodorico venceu a resistência de Odoacro durante cinco anos e o obrigou a fazer a paz. Em 493, convidou Odoacro e o seu filho para jantarem com ele em Ravena, serviu-lhes boas iguarias, e, em seguida, assassinou-os com as suas próprias mãos.

A seguir fez algumas campanhas, através das quais trouxe para o seu domínio os Balcãs ocidentais, a Itália meridional e a Sicília. Mas se manteve formalmente subordinado a Bizâncio, cunhando moedas em nome do seu imperador e se dirigindo ao senado de maneira respeitosa. Recebeu o título de rei, que outrora havia sido odiado pelos romanos, assim como também todos os governantes das regiões que reconheciam a soberania de Bizâncio.

Teodorico aceitou as leis e as instituições do antigo Império do Ocidente e dedicou toda a sua arte de estadista para restabelecer a ordem e a prosperidade econômica na região que havia conquistado, confiando ao seu povo a tarefa de fazer o policiamento e de prestar o serviço militar, mas a administração e os tribunais continuaram nas mãos dos romanos. Deixou dois terços do solo italiano na posse da população italiana e distribuiu o terço restante entre o seu povo. Em seguida, libertou os cativos de todas as outras nações e lhes deu algumas propriedades rurais na Itália. Agindo desta maneira, ele conseguiu com que o custo dos alimentos fosse reduzido para menos da metade do que prevalecera antes do seu tempo. Durante o seu reinado, Verona, Pavia, Nápoles, Spoleto e outras cidades italianas recuperaram todo o esplendor arquitetural dos seus áureos tempos. Embora fosse ariano, ele protegeu as propriedades e o culto da Igreja. Cassiodoro, o seu ministro, que era católico, descreveu a sua política de liberdade credulária, da seguinte maneira:

Não podemos ditar uma religião, pois não se pode forçar ninguém a crer em alguma coisa contra a sua vontade”.

Foi nesse ambiente de paz e segurança proporcionado por Teodorico que a literatura teve um dos seus grandes apogeus na Itália, ao final do século V e após meados do século VI, em que Flávio Magno Aurélio Cassiodoro trabalhou como secretário de Odoacro e de Teodorico, que por sugestão deste último escreveu a História dos Godos, a qual tinha por objetivo mostrar aos arrogantes romanos que os godos também tinham antepassados nobres e um grande acervo de realizações. A sua obra mais objetiva foi denominada de Chronicon, em que narra a história cronológica do mundo desde Adão até Teodorico. Outra obra sua denominada de Variae, escrita ao fim da sua carreira política, continha uma coleção de cartas e documentos do Estado, que muito revelavam o caráter de estadista tanto do ministro como do rei. Em 540, tendo presenciado a ruína e a queda de ambos os governos a que servira, retirou-se para a sua propriedade em Squillace, na Calábria, onde fundou dois mosteiros e viveu como monge e também como grande senhor até à sua desencarnação, aos 93 anos de idade.

Como monge, ensinou aos seus companheiros a copiar os manuscritos cristãos e pagãos, tendo preparado um quarto especial para esse trabalho denominado de scriptorium. Outras instituições credulárias lhe seguiram o exemplo. Grande parte dos trabalhos literários que possuímos desses tempos, nós devemos às cópias executadas pelos monges e que haviam sido iniciadas por Cassiodoro, que ainda escreveu nos últimos anos da sua vida uma obra de textos intitulada de Institutiones Divinarum et Humanarum Lectionum, que eram um Curso de Estudos Credulários e Seculares, no qual defendeu corajosamente a leitura da literatura pagã pelos falsos cristãos.

Em paralelo a Cassiodoro, exceto no tocante à longevidade, foi a carreira de Anício Mânlio Severino Boécio, que viveu no período de 475 a 524. Ambos eram descendentes de ricas famílias romanas, serviram a Teodorico como ministros, esforçaram-se por fazer uma ligação estreita entre o paganismo e o falso cristianismo e escreveram boas obras que foram lidas e conservadas durante mil anos.

O pai de Boécio foi cônsul em 483. O sogro, Símaco, o Moço, descendia de Símaco, o qual havia combatido pelo altar da deusa Vitória. Assim, Boécio recebeu a melhor educação romana, tendo ainda aprimorado a essa educação após passar dezoito anos nas escolas de Atenas, tendo mergulhado nos estudos quando do seu retorno à sua vila na Itália. Resolveu, então, salvar os elementos da cultura clássica, a qual parecia estar a caminho do esquecimento, dedicando todo o seu tempo a transcrever para o latim as obras de Euclides sobre geometria, as de Nicômaco sobre aritmética, as de Arquimedes sobre mecânica, as de Ptolomeu sobre Astronomia e outras. A tradução que fez da obra de Aristóteles, o Organon, ou tratados de lógica, e da de Porfírio, Introdução às Categorias de Aristóteles, proporcionaram os principais textos e ideias dos sete séculos seguintes no que tange à lógica e prepararam o terreno para a longa disputa entre o realismo, a doutrina que considera as ideias abstratas como seres reais, e o nominalismo, a doutrina que afirma serem as espécies, os gêneros e as entidades, isto é, os universais, puras abstrações sem realidade. Boécio escreveu também alguns ensaios sobre Teologia, em um deles defendendo a doutrina ortodoxa relativa ao falso cristianismo e pugnou pelo princípio de que deveria prevalecer a fé credulária, onde a fé credulária e a razão se entrechocassem, tal como faria Lutero séculos mais tarde, com grande influência na cultura medieval.

Seguindo a tradição da sua família que havia ocupado funções públicas, Boécio deixou as suas investigações de natureza transcendental para se inserir nas maquinações da vida política, onde ascendeu rapidamente, tendo sido cônsul, patricius e primeiro ministro em 522, tendo se distinguido pela sua filantropia e eloquência, tanto que os cidadãos o comparavam a Demóstenes e Cícero. Mas essa sua ascendência lhe trouxe alguns inimigos, pois os funcionários godos da corte não olhavam com bons olhos a simpatia que lhe dispensavam a Igreja Católica e os romanos, despertando as suspeitas do rei sobre o que poderia advir da sua imensa influência política que exercia.

Estando então com 69 anos de idade, Teodorico se encontrava com dificuldades em manter pacificamente o governo de uma família de godos arianos sobre uma nação, em que quase a totalidade dos seus habitantes era romana, com quase todos sendo católicos. Em virtude disso, ele era ciente de que tanto a aristocracia como a Igreja eram seus adversários e aguardavam com impaciência a sua desencarnação.

Em 523, Justino I, o imperador bizantino, baixou um édito banindo todos os maniqueus do império e excluindo das funções civis e militares todos os pagãos e heréticos, incluindo todos os arianos, mas excluindo os godos. Teodorico suspeitou que tal exceção tivera o objetivo de enfraquecê-lo, com a intenção velada de ser revogada na primeira oportunidade, e ainda considerando o decreto uma injustiça após a ampla liberdade que havia dado aos credulários ortodoxos do Ocidente, pois ele mesmo tinha dado a mais alta posição a Boécio, que havia escrito um trabalho contra o arianismo sobre a Trindade, assim como tinha dado à Igreja de S. Paulo, no mesmo ano de 523, dois candelabros de prata maciça em um gesto de cortesia para com o papa. Contudo, ele tinha ofendido grande parte da população ao tomar a defesa dos judeus, mandando construir às custas do erário público as sinagogas que a população havia destruído em Milão, Gênova e Roma.

Foi nessa sucessão de acontecimentos que chegou aos ouvidos de Teodorico a notícia de que os senadores estavam conspirando para depô-lo e que o cabeça da conspiração era Albino, o presidente do senado e amigo de Boécio. Este, no entanto, logo se apressou a tranquilizar Teodorico e lhe garantiu que Albino era inocente, ao que acrescentou o seguinte:

Se Albino é criminoso, eu e o senado também o somos”.

Mas três homens que não gozavam de boa reputação acusaram Boécio de participar da conspiração, tendo forjado um documento que trazia a sua assinatura, no qual se convidava o imperador bizantino a reconquistar a Itália. Boécio refutou todas as acusações, declarando também que o documento havia sido forjado. Em 523, Boécio foi preso, quando então declarou o seguinte:

Houvesse qualquer esperança de liberdade, e eu teria sem dúvida favorecido a todos eles, e se tivesse tido conhecimento de uma conspiração contra o rei, bem, não seria de mim que ele iria saber”.

Teodorico, então, procurou entrar em entendimento com o imperador bizantino, escrevendo a Justino I com muita sabedoria, as sábias palavras seguintes:

Pretender-se dominar a consciência é usurpar a prerrogativa de Deus. O poder dos soberanos se acha, pela própria natureza das coisas, limitado ao governo político; eles não têm o direito de punir a não ser aos que perturbam a ordem pública. A heresia mais perigosa é a do soberano que se afasta de uma parte dos seus súditos por não professar ela o mesmo credo que ele”.

Justino I respondeu que tinha o direito de recusar cargos aos homens em cuja lealdade não pudesse confiar e que a ordem da sociedade exigia unidade de crença. Os arianos do Oriente, então, apelaram para que Teodorico os protegesse. Ele solicitou ao papa João I que fosse a Constantinopla e intercedesse em favor dos arianos que haviam sido excluídos dos seus postos. O papa respondeu que tal encargo não era missão para quem assumira o compromisso de extinguir a heresia. Teodorico insistiu. O papa cedeu e foi acolhido em Constantinopla com grandes homenagens, mas retornou sem nada haver conseguido. Teodorico o acusou de traidor e o jogou na prisão, onde o papa desencarnou um ano depois.

Enquanto isso, Boécio e Albino haviam sido julgados perante o rei, sendo considerados culpados e condenados à morte. Apavorado, o senado aprovou vários decretos, expulsando-os do seu seio, confiscando-lhes as propriedades e aprovando a sentença de condenação à morte. Símaco defendeu o genro e também foi preso. Na prisão, Boécio escreveu uma das mais famosas obras desses tempos medievais, intitulada de De Consolatione Philosophiae, em que retrata uma resignação estoica em relação ao seu destino e uma tentativa de conciliar os infortúnios dos homens bons com a benevolência, onipotência e presciência de Deus.

Em 23 de outubro de 524, chegaram os seus executores, que lhe amarraram uma corda em volta da cabeça e a apertaram até lhe saltarem os olhos, matando-o depois a pauladas. Símaco foi condenado à morte alguns meses mais tarde. Segundo nos diz Procópio, Teodorico chorou amargamente pelo mal que havia feito a Boécio e a Símaco. Em 526, dois anos depois, desencarnava, seguindo as suas vítimas à sepultura.

O reinado de Teodorico terminou pouco tempo depois da sua desencarnação. Ele havia nomeado Atalarico, o seu neto, como sendo o seu sucessor, mas este tinha apenas dez anos de idade e foi Amalasunta, a sua mãe, quem governou em nome dele. Era uma mulher de grande cultura e protetora de Cassiodoro, o qual lhe prestou serviços da mesma maneira como prestara ao pai. Amalasunta se apegava demais aos costumes romanos, além do mais os seus súditos godos não concordavam com os estudos clássicos que estavam sendo ministrados ao jovem rei, com ela resolvendo confiá-lo a preceptores godos.

Atalarico se entregou a extravagâncias sexuais e desencarnou aos dezoito anos de idade. Amalasunta se associou no trono com o seu primo Teodato, mas com a condição de que ele a deixasse governar. Pouco tempo depois, o primo a depôs e a prendeu. Ela, então, apelou para Justiniano, que nesse tempo era imperador de Constantinopla, para que ele viesse em seu auxílio. Foi então que surgiu a figura de Belisário.

Belisário foi um dos grandes generais do Império Bizantino durante o reinado de Justiniano. Após obrigar os persas a assinarem a “paz eterna” e a sufocar a Revolta de Nika, uma sublevação em Constantinopla que ameaçou destronar o imperador, partiu para conquistar o reino vândalo do norte da África. De lá tomou a Sicília e passou para a península itálica, que se encontrava sob o domínio ostrogodo, de onde iniciou uma expedição para o norte, ocupando Ravena e aprisionando o rei Vitige.

Em 548, em uma segunda expedição, Belisário conquistou Roma, que permaneceu sob o poder bizantino durante décadas. No seu regresso para Constantinopla, recebeu o título de mestre dos soldados do Oriente, tendo nesse cargo se ocupado em defender a capital do império contra os ataques de uma coalizão dos povos eslavos e búlgaros.

Em 562, foi acusado de participar de uma conspiração contra Justiniano, sendo então aprisionado, mas tendo sido libertado no ano seguinte em função da influência de Antonina, a sua mulher, segundo nos conta a tradição. Desencarnou pobre em 565.

 

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