02.01.05.03- O início da formação da França – Período de 325 a 568

A Era da Verdade
3 de dezembro de 2018 Pamam

A Gália era a mais próspera e a de maior cultura de todas as províncias do Império Romano. Em Narbonne, Arles, Bordéus, Tolosa, Lyon, Marselha, Poitiers e Treves floresceram muitas universidades financiadas pelo Estado. Por volta do ano 470, Apolinário Sidônio assumiu o episcopado de Clermont. Nessa época, um bispo tinha que desempenhar tanto as suas funções credulárias como as de um administrador civil, e ele era mais competente nesta do que naquela. E assim ele levava uma vida folgada quando Eurico, o rei dos visigodos, decidiu anexar Auvergne ao seu reino. Em 475, quando Clermont, a sua capital, foi tomada, aprisionaram Apolinário Sidônio e o encerraram em uma fortaleza perto de Carcassonne. Dois anos depois o soltaram, com ele voltando a ocupar o seu cargo na diocese, não se sabendo quanto tempo ainda ele viveu.

Com a desencarnação de Apolinário Sidônio, o barbarismo passou a dominar toda a Gália. Entre 466 e 484, ao tempo de Eurico, e entre 484 e 507, ao tempo de Alarico II, o reino dos visigodos, no sudoeste da Gália, era bastante ordeiro, civilizado e progressista, ao ponto de receber elogios do próprio Apolinário Sidônio. Em 506, Alarico II publicou um sumário das leis do seu reino, o qual impunha as regras de relações entre a população galo-romana e os conquistadores. Em 510, um código semelhante foi publicado pelos reis burgúndios, os quais haviam se instalado pacificamente com o seu povo no sudeste da Gália. Até ao surgimento das leis romanas no século XI, a Europa latina haveria de ser governada pelos códigos dos godos e dos burgúndios e também pelas leis dos francos.

Os francos passaram a entrar para os registros históricos apenas em 240, quando o imperador Aureliano os derrotou nas proximidades de Mogúncia. Em princípios do século V, os ripuários — antigos povos germânicos da margem do Reno, especialmente os francos —, instalaram-se nas encostas ocidentais do Reno. Em 463, eles tomaram Colônia, fizeram-na a sua capital e estenderam o seu domínio pelo vale do Reno desde Aachen, a Aix-la Chapelle, a antiga Aquisgrana, até Metz. Algumas tribos dos francos permaneceram na margem oriental daquele rio e deram o seu nome à Francônia. Os francos sálios — um subgrupo dos antigos francos que vivia originalmente ao norte das fronteiras do Império Romano, na área costeira acima do Reno, que adotou esta denominação do nome do rio Sala, atual Ijssel, nos Países Baixos —, avançaram dali para o sul e para o oeste e por volta de 356 ocuparam a região entre o Mosa, o oceano e o Somme. Na maioria das vezes entravam pacificamente, outras vezes ao convite dos romanos, e assim, por volta de 480, a metade do norte da Gália ficou em poder dos francos, onde passou a predominar a língua germânica e a fé credulária pagã.

Na introdução das leis sálicas, a descrição que os francos sálios fazem de si mesmos era a de um povo glorioso, sábio nos seus conselhos, nobre, sadio de corpo, de grande beleza, ousado, arguto, rijo e como sendo o povo que se livrara do cruel jugo de Roma. Não se consideravam bárbaros, mas sim homens livres, que haviam conseguido a sua própria libertação, daí o significado da palavra franco como sendo livre, libertado. As suas leis demonstram que eles se dedicavam à agricultura e aos trabalhos manuais, esforçando-se por fazer do nordeste da Gália uma sociedade rural pacífica e próspera, em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade, no que diz respeito à formação das nações.

A lei sálica foi elaborada em princípios do século VI, na mesma época em que ocorreu o completo desenvolvimento da lei romana de Justiniano, tendo sido ela escrita por quatro chefes e sido ainda examinada por três assembleias realizadas pelo povo. Caso houvesse dúvidas sobre qualquer questão, invocava-se a lei do ordálio, de várias maneiras, já que algumas dessas provações já vinham de muito tempo. O Avesta indica que a provação da água fervendo fôra usada pelos antigos persas. Em 100 a.C., as leis de Manu mencionam o ordálio dos hindus por meio de submersões na água. E no Antígona, de Sófocles, a prova pelo fogo e ferro em brasa. Mas os semitas rejeitaram as provas do ordálio pelo fato de as julgarem ímpias, os romanos as desprezavam pelo fato de as considerarem fruto de superstição, os germanos as desenvolveram ao máximo, e, por fim, a Igreja Católica, em sua supina ignorância, aceitou-a e a cercou com cerimônias credulárias e votos solenes. Assim como a lei do ordálio, o julgamento pela luta também era empregado, já que ambos são bem antigos. A conversão dos bárbaros ao falso cristianismo apenas mudou o nome divindade, cujo julgamento se invocava, com Jeová, o deus bíblico, intervindo em todos os julgamentos e não se tornando conivente com um veredito injusto. No entanto, os réus culpados procuravam evitar as provas oferecendo régias compensações financeiras, que geralmente eras aceitas.

Mas a cláusula mais célebre da lei sálica dizia o seguinte: “No tocante à terra sálica, nenhuma parcela da herança reverterá em favor de uma mulher”. Baseando-se nisso, a França do século XIV iria repelir a reivindicação do trono francês pelo rei inglês Eduardo III, como herança da sua mãe Isabel, de onde se seguiria a Guerra dos Cem Anos. Mas a cláusula se aplicava somente à realeza, que para a proteção da mulher se presumia a necessidade do poderio militar do homem. Em geral, a lei sálica era desfavorável às mulheres, mantendo-as sob a custódia perpétua do pai, do marido ou dos filhos, à semelhança das primeiras leis romanas, condenando à morte as mulheres adúlteras, porém sem punir aos homens adúlteros. A tradição ou a própria lei permitia a poligamia aos reis francos.

Clódio foi o primeiro rei franco de que se tem notícia pelo nome, o qual atacou Colônia em 431, tendo sido derrotado por Aécio, mas mesmo assim ele conseguiu ocupar a Gália até o Somme, fazendo de Tournai a sua capital. Um dos seus sucessores legendários foi Meroveu, que deu o seu nome à dinastia dos merovíngios, a qual dominou os francos até ao ano 751. Childerico, o filho de Meroveu, seduziu a esposa de um rei turingiano chamada de Basina, a qual o acompanhou para ser a sua rainha, dizendo que não conhecia ninguém que fosse mais belo, mais sensato e mais forte do que ele. Dessa união nasceu Clóvis, o fundador da França e que deu o seu nome a dezoito reis franceses, já que Clóvis, Chlodwig, Ludwig e Luiz são considerados como sendo um só nome.

Em 481, Clóvis herdou o trono merovíngio com a idade de dezoito anos. Nessa ocasião, o seu reino era apenas uma simples região da Gália, com outras tribos de francos dominando a Renânia, tendo os reinos dos visigodos e dos burgúndios ficado completamente independentes com a queda de Roma. O noroeste da Gália, que ainda se achava nominalmente sob o domínio de Roma, ficou totalmente indefeso.

Em 486, Clóvis invadiu a região, conquistou as suas cidades e derrotou um exército romano. Durante dez anos ele conseguiu ampliar as suas conquistas até alcançar a Bretanha e o Loira. Utilizando-se da arte de estadista, conquistou tanto a população gaulesa, deixando-lhe na posse das suas terras, como ao clero ortodoxo dito cristão, respeitando-lhe o credo e a riqueza. Em 493, casou-se com uma “cristã” chamada Clotilde, que logo o converteu do paganismo para o falso cristianismo, tendo por base a doutrina do Concílio de Niceia. Assim, o bispo Remi o batizou em Reims perante um grande número de prelados e de pessoas notáveis que haviam sido convidadas em toda a Gália para assistir ao ato sacramental, pois assim a Igreja Católica conseguiria impressionar aos povos, que tinham as mentes credulárias. Mas além da sua conversão, Clóvis tinha também as suas estratégias de estadista, pois assim a população ortodoxa dos visigodos e burgúndios da Gália passou a olhar com antipatia aos seus dominadores arianos e se tornou receptiva, e, assim, aliada do jovem rei franco.

Alarico II percebeu o perigo da situação para si e tratou de estabelecer uma aliança com o rei franco, convidando-o para uma conferência, com ambos se encontrando em Amboise e jurando amizade eterna. Alarico II, porém, ao retornar para Tolosa, mandou prender alguns bispos ortodoxos sob a acusação de que estavam conspirando com os francos. Clóvis, então, reuniu as suas tropas e lhes disse:

Compunge-me ver esses arianos dominando toda a Gália. Vamos derrubá-los com o auxílio de Deus”.

Em seguida, atacou Alarico II com todas as suas forças, o qual se defendeu como podia, pois estava com o povo dividido. Em 507, finalmente, Alarico II foi derrotado em Vouillé, perto de Poitiers, tendo sido morto pelo próprio Clóvis. Em relação ao fato, Gregório de Tours disse o seguinte:

Depois de ter passado o inverno em Bordéus e se apoderado de todos os tesouros de Alarico II que se encontravam em Tolosa, Clóvis foi sitiar Angoulême. Foi tal a graça que Deus lhe concedeu que as muralhas da cidade ruíram”.

Sigeberto, o rei dos francos ripuários, durante muito tempo fôra aliado de Clóvis, o qual conseguiu convencer ao filho desse rei que em muito se beneficiaria com a morte do pai. O filho, então, assassinou ao pai, com Clóvis mandando emissários apresentar ao parricida os seus protestos de estima e amizade, ordenando ao mesmo tempo o seu assassinato. Após esse acontecimento, ele marchou para Colônia e conseguiu persuadir aos chefes dos francos ripuários a lhe aceitarem como rei. Estando também vencidos, os arianos logo se converteram à fé credulária ortodoxa e o clero deles teve a permissão para conservar a hierarquia sacerdotal.

Estando assim coberto de bênçãos sacerdotais, sendo possuidor de uma imensa quantidade de escravos e de riquezas provenientes dos despojos das guerras, Clóvis mudou a sua capital para Paris, onde desencarnaria quatro anos mais tarde com a idade de apenas quarenta e cinco anos. A rainha Clotilde, que havia auxiliado a fazer a França gaulesa, chegou a Tours após a desencarnação do esposo e serviu na igreja de S. Martinho, morando ali com honra e bondade até ao fim dos seus dias.

Que os franceses fiquem cientes do seguinte: Clóvis encarnou para realizar o que conseguiu realizar em prol da nação francesa, em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade, tendo ainda quatro filhos homens para que pudessem dar continuidade à sua missão neste mundo, uma vez que já é sabido que os espíritos que encarnam como homens se tornam os reis do mundo, enquanto que os espíritos que encarnam como mulheres se tornam as rainhas do lar. Então não foi por acaso que ele teve essa sua ninhada de homens, uma vez que o acaso não existe.

No entanto, sendo por demais precavido, cuja precaução foi advinda das intuições do Astral Superior, Clóvis procurou evitar uma guerra de sucessão, dividindo o seu reino entre os filhos, com Childeberto recebendo a região de Paris, Clodomiro a de Orleans, Clotário a de Soissons, e Teodorico a de Metz e Reims. Os seus filhos continuaram a política de unificação pela conquista com um imenso ardor. Em 530, conquistaram a Turíngia. Em 534, a Borgonha. Em 536, a Provença. E, em 555, a Bavária e a Suábia. Clotário I, que sobreviveu aos irmãos e deles herdou os seus reinos, conseguiu governar uma Gália muito mais vasta do que qualquer outra França que se formou posteriormente. Em 561, antes de desencarnar, tal como o seu pai, tornou a dividir a Gália em três partes, da seguinte maneira: ao leste, a região de Reims e Metz, conhecida como Austrásia, que foi confiada ao seu filho Sigeberto; ao noroeste, a região de Borgonha a Gontrão e a região de Soissons, conhecida como Nêustria, confiada a Chilperico.

Em 566, Sigeberto pediu a Atanagildo, rei visigodo da Espanha, a mão da sua filha Brunilda em casamento, pelo que lhe enviou presentes caríssimos. Atanagildo, que temia aos francos até mesmo quando estes lhe enviavam presentes, consentiu de imediato ao pedido, indo Brunilda se tornar a rainha dessa região.

Por outro lado, demonstrando uma imensa inveja de Sigeberto, o cruel Chilperico, que já tinha a Audovera como esposa, e a Fredegunda como concubina, pediu também a Atanagildo a mão da sua outra filha em casamento, que era mais velha que Brunilda, e assim Galswintha foi para Soissons, levando consigo um grande tesouro. Como nunca honrou os laços matrimoniais, Chilperico logo tornou a voltar para os braços de Fredegunda, o que ensejou que Galswintha demonstrasse a vontade de retornar para a Espanha. Em 567, Chilperico mandou estrangulá-la. Sabendo que Chilperico não era um bom governante, Sigeberto declarou guerra contra ele, conseguindo derrotá-lo, mas foi assassinado por dois escravos a mandado de Fredegunda, tendo sido Brunilda aprisionada. Mas Brunilda conseguiu escapar e coroar ao seu jovem filho Childeberto II, em nome do qual governou com bastante competência. Em 584, Chilperico desencarnou apunhalado, segundo nos diz a tradição, a mandado de Brunilda.

Chilperico deixou um filho, Clotário II, em nome do qual Fredegunda governou a Nêustria com muita competência, mas também com muita perfídia e crueldade. Ela, então, resolveu mandar um jovem sacerdote assassinar Brunilda, pelo que pode constatar que os sacerdotes são capazes de tudo por poder e riqueza. Ele foi, mas voltou sem haver conseguido cumprir com o seu intento, razão pela qual Fredegunda mandou decepar os seus pés e as suas mãos, segundo nos conta Gregório de Tours.

Mais tarde, tendo sido encorajados por Clotário II, os nobres da Austrásia promoveram uma revolta atrás da outra contra Brunilda. Esta, por sua vez, defendia-se como podia, conseguindo controlar a tudo por meio da diplomacia e assassínios. Finalmente, quando ela já contava com oitenta anos de idade, os nobres a depuseram, torturando-a durante três dias. Em 614, por fim, amarraram-lhe os cabelos, as mãos e os pés à cauda de um cavalo e fizeram o animal correr, quando ela assim desencarnou. Clotário II herdou os três reinos, surgindo assim novamente um só reino franco.

Todo o trabalho de unificação realizado por Clóvis havia sido desfeito pelos seus descendentes, assim como o seria também o de Carlos Magno. E mesmo assim os obtusos credulários não conseguem enxergar a diferença que existe da capacidade de realização entre um espírito e outro, da capacidade de inteligibilidade entre um espírito e outro, assim como também dos atributos individuais superiores e inferiores e dos atributos relacionais positivos e negativos entre um espírito e outro, afirmando estupidamente que isso tudo é mistério de Jeová, o deus bíblico, como se a evolução espiritual estivesse clamando aos gritos pela sua existência, e como se a salvação estivesse se negando a conduzir a quase todos os seres humanos para o reino dos céus, assim como que também a clamar aos gritos pela sua inexistência. Quanta falta de raciocínio, meu Deus!

Mas, de qualquer maneira, o governo não sofreu a solução de continuidade, prosseguindo a governabilidade com vistas à formação da nação francesa. No entanto, nem toda a Gália podia suportar a poligamia e a brutalidade dos seus reis, que ainda era agravada com os seus nobres invejosos limitando com o poder de que dispunham a aparente autocracia dos monarcas, os quais recompensavam os seus serviços na administração e nas guerras com terras, onde eles atuavam praticamente como soberanos. Vemos aqui o início do feudalismo que iria combater a monarquia francesa durante mil anos, com as indústrias se transferindo das cidades para as propriedades feudais, impedindo que as cidades se desenvolvessem, caindo sob o domínio dos senhores feudais, e com o comércio sendo prejudicado pela instabilidade da moeda, pelos assaltos e pelo aumento dos tributos, embora se mantivesse ainda ativo. Todo esse quadro foi ainda agravado pela fome e pela peste, as quais se encarregavam de pôr à prova a capacidade laborativa dos pioneiros da nação francesa, que hoje podem contemplar com esperança a grandeza da sua pátria amada, após séculos e séculos de reencarnações.

Como as classes superiores mostravam um grande desprezo pela moral, fica assim constatado que as suas conversões ao falso cristianismo não exerceram nenhuma influência sobre elas, justamente porque o credo católico, dito cristão, nunca foi propagador da verdadeira moral, mas sim apenas o usufruidor da moral utilitária. Assim, o falso cristianismo era para as classes superiores apenas um meio dispendioso para dominar e pacificar o povo em geral.

Dos quatro filhos de Clóvis, somente Clotário teve descendentes. Dos quatro filhos de Clotário, apenas um é que teve um filho. Os reis se casavam com a idade de quinze anos e ao passar dos trinta já estavam esgotados, com muitos deles desencarnando antes de atingir aos próprios trinta.

Em 614, a casa dos merovíngios já estava saturada, pronta para ser substituída, com a cultura em declínio e as ciências quase extintas, restando apenas os privilégios adquiridos pelo clero, o qual semeava tanta ignorância que Gregório, o bispo de Tours, taxou de pecado o uso de medicamentos para curar as doenças, mas mesmo assim se dispôs a escrever uma obra intitulada de História dos Francos, a qual era repleta de preconceitos e superstições da era merovíngia, além de não possuir uma sequência e ser escrita com um latim corrupto, cheio de erros gramaticais.

 

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