02.01.05.02- A Bretanha se torna a Inglaterra – Período de 325 a 568

A Era da Verdade
3 de dezembro de 2018 Pamam

Durante o domínio romano na Bretanha praticamente todas as classes floresceram, com a exceção dos povos sitiantes, em que nelas as grandes propriedades prosperavam às custas de pequenas propriedades de terras, quando então o lavrador, em muitos casos, era eliminado pela força do dinheiro e passava a se tornar um vassalo nos campos ou um proletário nas cidades, que na Roma Antiga era um cidadão da última classe social, o qual não pagava impostos e era considerado útil apenas pelos filhos que gerava. Em razão disso, muitos lavradores apoiaram as invasões anglo-saxônicas — povo germânico resultante da fusão dos anglos, saxões e jutos, que se fixaram na Inglaterra no século V — contra os proprietários de terras aristocráticos.

Enquanto isso, a Bretanha romana prosperava, multiplicando-se as cidades, com as suas riquezas se tornando cada vez mais volumosas, com muitas casas dispondo até de aquecimento central e de janelas com vidraças, com os magnatas sendo proprietários de vilas luxuosas. Nesse ambiente favorável do século III, apenas algumas legiões romanas eram suficientes para manter a ordem interna e a segurança externa.

Essa segurança externa, porém, viu-se ameaçada em todas as frentes nos séculos IV e V, da seguinte maneira: ao norte, pelos pictos da Caledônia, denominação atribuída pelos romanos à região setentrional da Grã-Bretanha, que a grosso modo corresponde ao atual território da Escócia; ao sul e ao leste, pelos incursores escandinavos e saxônicos; ao oeste, pelos celtas de Gales e pelos aventureiros gaélicos e escotos da Irlanda.

Durante os anos 364 a 367, as incursões dos escotos e dos saxões nas costas aumentaram de maneira considerável, tendo sido repelidas pelas tropas bretãs e gaulesas, tendo Estilicão, um mestre dos soldados romanos, de origem bárbara, patrício do Império Romano do Ocidente e cônsul, tendo que repetir a façanha dos bretões e dos gauleses uma geração mais tarde.

Em 381, Máximo, e, em 407, o usurpador Constantino, resolveram transferir da Bretanha, para fins pessoais, as legiões que ali eram necessárias para a defesa do país, tendo sido poucos os homens que para lá voltaram. Aproveitando-se da situação, os invasores atravessaram as fronteiras, foi quando então, em 400, a Bretanha recorreu a Estilicão para que a auxiliasse. Mas ele se encontrava ocupado em expulsar da Itália e da Gália os godos e os hunos. Foi feito um novo apelo ao imperador Honório, o qual respondeu que os bretões deveriam contar apenas consigo mesmos. Segundo Bede, um monge beneditino e historiador, o domínio dos romanos sobre a Bretanha teve o seu fim no ano 409.

Vortigern, o chefe bretão, solicitou algumas tribos germânicas do norte para que viessem em seu auxílio contra uma invasão dos pictos em grande escala. Os saxões surgiram da região do Elba, os anglos de Schleswig e os jutos da Jutlândia. Os germanos expulsaram os pictos e os escotos, recebendo terras como recompensa, mas eles notaram a fraqueza militar da Bretanha e disso informaram aos companheiros em sua terra natal, então hordas germânicas não solicitadas desembarcaram inesperadamente nas costas da Bretanha, ficando ali um século tentando conquistar a região em uma luta de guerrilhas, até que finalmente, em 577, derrotaram os bretões em Deorham, assenhorando-se do que mais tarde foi chamado de Angle-land, a Inglaterra.

Em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade, a maior parte dos bretões se conformou com a conquista e misturou o seu sangue com o dos conquistadores, mas uma minoria inconformada e mais belicosa se retirou para as montanhas de Gales, onde continuou a lutar, enquanto outros atravessaram o canal e deram o seu nome à Armórica, a Bretanha na França. As cidades da Bretanha ficaram arruinadas com a luta prolongada, os transportes se desorganizaram e a indústria decaiu. Assim, a lei e a ordem ficaram enfraquecidas e as artes foram desestimuladas, ocasião em que o falso cristianismo da ilha se viu sobrepujado pelos deuses pagãos, que eram espíritos obsessores quedados no astral inferior, e pelos costumes germanos. A Bretanha e a sua língua se tornaram teutônicas. As leis e as instituições romanas desapareceram e a organização municipal foi substituída por comunidades de aldeias. Mas restou um elemento céltico no sangue, evidenciado pelas feições, caráter, literatura e arte dos bretões, cujos elementos se tornaram insignificantes para a língua, a qual ficara com um misto de alemão e francês.

Foi nessa época que surgiram as lendas do rei Artur e os seus cavaleiros, em relação aos grandes combates que eles travaram para destruir os pagãos e apoiar aos ditos cristãos. Em 546, aproximadamente, S. Gildas, um monge galês, menciona em um excêntrico livro, misto de história e sermão, intitulado de Da Destruição da Bretanha, o cerco de Mons Badonicus naquelas guerras. Enquanto em 796, aproximadamente, Nênio, um historiador inglês, narra doze batalhas que travou, sendo a última no monte Badon, perto de Bath. Por volta de 1100, Geoffrey de Monmouth fornece a respeito detalhes muito românticos como Artur sucedeu ao seu pai Uther Peudragon, rei da Bretanha, como se opôs aos invasores saxônicos, como conquistou a Irlanda, Islândia, Noruega e a Gália e sitiou Paris em 505, como expulsou os romanos da Bretanha, como dominou com grande sacrifício dos seus homens a revolta do seu sobrinho Modred, como o matou em um combate, em Winchester, e como ficou mortalmente ferido e desencarnou no ano 542.

Guilherme de Malmesbury (1000? – 1143) informa-nos que com a morte de Vortimer (irmão de Vortigern) enfraqueceram-se o bretões, os quais teriam logo perecido se não aparecesse Ambrósio, o único sobrevivente dos romanos.. vencidos os presunçosos bárbaros com o poderoso auxílio do belicoso Artur. Artur sustentou durante algum tempo o Estado decadente e incitou os seus compatriotas para a guerra. Finalmente, confiando em uma imagem da Virgem que ele havia colocado em sua armadura, travou, no monte Badon, sozinho, uma batalha com uma força inimiga de 900 homens, dispersando-a, após lhe infligir grandes perdas”.

Torna-se óbvio que essa narrativa carece totalmente de fundamento. Segundo os registros históricos Artur não foi rei, apenas uma figura histórica do século VI, pois não se pode conceber o relato de Guilherme de Malmesbury acerca da sua extrema confiança na Virgem que ele havia colocado em sua armadura, tendo com base nessa confiança travado um combate sozinho no monte Badon contra uma força inimiga de 900 homens, dispersando-a após lhe infligir grandes perdas.

 

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