02.01.05.01- A formação da Irlanda – Período de 160 a 529

A Era da Verdade
2 de dezembro de 2018 Pamam

A ilha dos irlandeses, segundo eles mesmos considerada como sendo “a ilha enevoada e muito fértil”, fôra habitada primeiramente pelos gregos e citas, há mais de mil anos antes de Cristo, e que Cuchalain, Conor e Conall, os seus primeiros chefes, eram filhos de Deus. Himilco, o explorador fenício, chegou à Irlanda por volta de 510 a.C. e a descreveu como sendo muito populosa e fértil, em toda a sua extensão.

Por volta do século V a.C., alguns aventureiros celtas da Gália e da Bretanha chegaram à ilha e venceram os nativos, dos quais a História nada sabe a respeito. Os celtas levaram consigo a técnica de manipulação do ferro de Allstatt e uma forte organização que fazia com que o indivíduo se orgulhasse do seu clã ao ponto de constituir ele para si um Estado estável. Os clãs e os reinos se guerrearam durante mil anos. Quando os irlandeses considerados bons morriam, eram enterrados de pé com o rosto voltado para os seus adversários, como se estivessem prontos para lutar. A maior parte dos reis morria nos campos de batalha ou então assassinada. Os reis tinham o direito de deflorar todas as noivas antes do marido, não se sabendo se por questão de eugenia, por serem vigários dos deuses, ou se por simples prazer carnal, mundano e de primazia. O rei Conchobar era muito elogiado pela dedicação especial que dispensava a esse direito. Os clãs mantinham um registro dos seus membros e da sua genealogia, assim como dos seus reis, dos bens antigos e das batalhas, desde o início dos tempos.

Os celtas se estabeleceram como sendo a classe dominante e distribuíram os seus clãs por cinco reinos: Ulster, o norte de Leinster, Leinster do Sul, Munster e Connaught. Cada um desses cinco reinos era considerado um Estado soberano, mas todos eles reconheciam Tara, no Meath, como sendo a capital nacional, onde eram coroados os reis.

Ao dar início ao seu reinado, o soberano promovia uma convenção, onde se reuniam todos os féis, que eram os homens notáveis da Irlanda, para fazer a legislação que os ligava a todos os demais reinos, que corrigia e registrava a árvore genealógica dos clãs, inscrevendo depois tudo nos arquivos nacionais. A fim de abrigar os homens notáveis dessa assembleia, o rei Cornac Mac Airt construiu no século III um grande hall, cujos alicerces ainda hoje podem ser vistos. O conselho provincial, o Aonach, ou Feira, reunia-se anual ou trienalmente na capital de cada reino, legislando ali para a área da sua jurisdição, criando os tributos, além de funcionar também como juiz. Em seguida a essas convenções, haviam jogos e divertimentos, com muitos casamentos abrilhantando o acontecimento. Os féis continuaram até ao ano 560 e o conselho provincial até ao ano 1168.

Por volta do ano 160, surgiu o primeiro personagem que os estudiosos admitem como sendo realmente histórico, o qual foi chamado de Tuathal, que governou Leinster e Meath a partir dessa data. Em 358, o rei Niall invadiu o País de Gales, de onde trouxe consideráveis despojos, tendo depois feito uma incursão pela Gália, onde foi morto por outro irlandês às margens do rio Loira, tendo sido desse rei que descendeu a maioria dos reis irlandeses, os O’Neills. No quinto ano do reinado do seu filho Laeghaire, ou Leary, S. Patrício chegou à Irlanda.

Antes desse tempo, os irlandeses tinham organizado um alfabeto de linhas retas com várias combinações, possuindo uma boa literatura, tanto em poesias como em lendas, que transmitiam uns aos outros por via oral, e haviam feito belos trabalhos em cerâmica, bronze e ouro. O seu credo era um politeísmo animista, em que se adoravam o Sol, a Lua, diversos objetos naturais e outros que povoavam diversos lugares da Irlanda, tais como fadas, duendes e demônios. Os sacerdotes do clã, de vestes brancas, os druidas, faziam profecias, dominavam o Sol e os ventos com varinhas e instrumentos mágicos, provocavam aguaceiros e incêndios, decoravam as crônicas e poesias do clã, transmitindo-as depois para os outros, estudavam as estrelas, ensinavam aos jovens, auxiliavam ao rei com os seus conselhos sacerdotais, atuavam como juiz, elaboravam as leis e faziam sacrifícios aos deuses em altares, ao ar livre. Entre os ídolos sagrados, havia uma imagem coberta de ouro, denominada de Crom Cruach, que era o deus de todos os clãs irlandeses. Ao que tudo indica, em sacrifício, ofereciam-lhe o primeiro filho que nascesse em cada família. O povo acreditava na reencarnação, mas também sonhava com a existência de uma ilha celeste no outro lado do mar, descrita da seguinte maneira:

Onde não haviam lamentos nem traição, nada que fosse rude, porém uma doce música que embalava os ouvidos, uma terra maravilhosamente bela e de vista deslumbrante”.

Conta a tradição que o príncipe Conall ficou tão encantado com a sua descrição, que resolveu embarcar em um barco de pérolas para descobrir a essa região encantadora.

O falso cristianismo apareceu na Irlanda após a chegada de S. Patrício. Em 431, segundo uma velha crônica, a qual foi confirmada por Bede, “Paládio foi ordenado pelo papa Celestino, que o enviou como sendo o primeiro bispo para os irlandeses que acreditavam em Cristo”. Porém, Paládio desencarnou logo no primeiro ano da sua chegada e coube ao patrono da Irlanda, considerado como sendo santo, torná-la inflexivelmente católica.

S. Patrício encarnou na aldeia de Bonnaventa, no oeste da Inglaterra, por volta do ano 380. Era filho de uma família de classe média. Como sendo filho de um cidadão de Roma, deram-lhe o nome romano de Patrício. Recebeu uma modesta educação, mas estudou tão profundamente a Bíblia que podia citar quase todos os seus trechos de memória. Aos dezesseis anos foi capturado pelos incursores escotos, os irlandeses, tendo sido levado para a Irlanda, onde serviu como guarda de porcos durante seis anos. Foi nessas horas solitárias do seu trabalho que se converteu, passando de indiferente que era pelo credo católico a ser muito devoto. Finalmente conseguiu escapar, chegou até a costa, onde alguns marinheiros o recolheram, levando-o depois para a Gália e para a Itália. Trabalhou para pagar a sua viagem de volta à Inglaterra, foi ter com os seus pais e viveu com eles durante alguns anos. No entanto, ele foi intuído pelos espíritos obsessores para que voltasse para a Irlanda, interpretando a essa intuição como sendo uma mensagem divina, um chamado para que fosse converter os irlandeses ao falso cristianismo. Seguiu para Lérins e Auxerre, estudou para ser sacerdote e foi ordenado. Quando chegou a Auxerre veio a notícia de que Paládio havia desencarnado, S. Patrício foi nomeado bispo, recebendo as relíquias de Pedro e de Paulo. Em 432, enviaram-no para a Irlanda.

Ao chegar à Irlanda, encontrou Laeghaire no trono de Tara, o qual era pagão. S. Patrício não conseguiu converter ao rei, mas obteve plena liberdade para desempenhar a sua catequese. Os druidas se colocaram contra ele e fizeram demonstrações das suas feitiçarias, mas S. Patrício os enfrentou com as fórmulas dos exorcistas, uma terceira ordem menor, que havia levado consigo para expulsar os demônios. Em sua obra intitulada de Confissões, que escreveu na velhice, ele conta os perigos que encontrara em seu trabalho, tendo corrido risco de vida doze vezes. Segundo a tradição, há centenas de relatos sobre os seus milagres, algo que obviamente não existe. Era o seu caráter que convertia aos irlandeses e não os seus pseudo milagres, pois da mesma maneira que lançava as suas bênçãos, também lançava as suas maldições. Ele construiu igrejas, ordenou sacerdotes, criou mosteiros e construiu conventos, deixando o falso cristianismo fortalecido nessa nação, uma vez que se cercou de homens e mulheres abnegados, os quais suportavam todas as privações para poder espalhar a nova de que o homem havia sido redimido. Não conseguiu converter toda a Irlanda ao falso cristianismo, pois sobrevieram algumas seitas pagãs. Em 461, quando desencarnou, muitos se referiam a ele como sendo o homem que havia convertido toda uma nação.

Na história da Irlanda, apenas uma pessoa ocupa um lugar de tanta afeição na alma do povo irlandês que possa rivalizar com ele, sendo esta alma uma mulher, a famosa Santa Brígida, que muito trabalhou para consolidar a sua vitória. Antes de 476, quando recebeu o véu, nada sabemos a respeito de Santa Brígida, apenas que era filha de uma escrava e de um rei. Fundou a Igreja do Carvalho, Cill-dara, ou Kildare, um lugar que ainda conserva esse nome. Essa igreja logo se transformou em um mosteiro, convento e escola tão famosa quanto a de S. Patrício em Armagh. Em 525, Santa Brígida desencarnou venerada em toda a ilha.

Após o ano de 558, com a desencarnação do rei Diarmuid, as antigas salas foram abandonadas e os reis da Irlanda, embora ainda fossem pagãos na sua cultura, abraçaram com a fé credulária ao credo dito cristão.

 

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