02.01.04- A invasão dos bárbaros – Período de 325 a 468

A Era da Verdade
1 de dezembro de 2018 Pamam

O Império romano era detentor de uma fronteira de quase 20.000 quilômetros de extensão, pois que era formado por mais de cem nações, podendo ser invadido em qualquer ponto e a qualquer momento por tribos que ainda não se achavam influenciadas pela sua cultura, mas que desejavam ardentemente usufruir dos seus frutos. Nessa época, a Pérsia era apenas um setor dessa extensa fronteira.

Os persas eram considerados como sendo um problema insolúvel. Estavam se tornando cada vez mais fortes e se preparando para reconquistar tudo aquilo que Dario I havia conquistado mil anos antes. Mas o perigo maior não eram eles, mas sim os árabes, que se encontravam a oeste deles, em que a sua maioria não passava de beduínos sem qualquer relevância, por isso ninguém poderia supor que aqueles nômades estavam fadados a conquistar a metade do Império Romano e também toda a Pérsia. Para completar o perigo fronteiriço que ameaçava o Império Romano, ao sul das suas províncias na África, encontravam-se os etíopes, os líbios, os berberes, os númidas e os mouros, os quais esperavam com certa impaciência pelo afrouxamento das defesas imperiais.

A Espanha aparentemente estava a salvo, pois os romanos que se situavam por trás daquelas montanhas impediam o acesso a ela, além do mar que a protegia. Assim, ninguém poderia supor que no século IV ela iria se tornar germânica e que no século VIII iria se tornar muçulmana.

A Gália se encontrava mais adiantada do que a Itália em cultura e riqueza, porém ela vivia constantemente se defendendo dos teutônicos, cuja raça aumentava cada vez mais, tornando-se assim bastante numerosa.

O Império Romano dispunha apenas de uma pequena guarnição imperial para proteger a Britânia romana contra os escotos e os pictos ao oeste e ao norte, e contra os piratas escandinavos e saxões ao leste e ao sul. As costas da Noruega formavam uma série de cavernas de piratas, com o seu povo preferindo a guerra ao cultivo dos campos, por isso considerando as incursões nas costas alienígenas uma ocupação rentável. Os godos, originados do sul da Suécia e das suas ilhas, espalharam-se como visigodos pelo sul até ao Danúbio, e como ostrogodos se espalharam entre o Dniester e o Don. Em seguida, passaram a se movimentar no centro da Europa ainda não formada, cujas tribos iriam refazer o mapa e dar novos nomes aos países europeus, eram eles os turíngios, os borgúndios, os anglos, os saxões, os jutos, os frísios, os gépidas, os quados, os vândalos, os alamanos, os suevos, os lombardos e os francos. Contra toda essa horda étnica, o Império Romano não dispunha de nenhuma muralha protetora, a não ser na Britânia, e ainda com um ou outro forte ou guarnição ao longo das estradas e rios que marcavam os limites das suas fronteiras.

Como se pode facilmente constatar, o plano de espiritualização da nossa humanidade se encontrava em pleno andamento, com vista à formação das nações. O elevado índice da natalidade dos povos que se situavam fora do Império Romano e o alto padrão de vida levado no seu interior, na Idade da Fé, tornavam-no uma espécie de chamariz para as migrações, assim igualmente como hoje as nações mais adiantadas, ou então para a invasão.

O termo bárbaro assume a conotação de um indivíduo rude, grosseiro, sem civilização, praticamente selvagem, estendendo-se ainda a um indivíduo cruel, brutal e atroz, em oposição ao indivíduo culto e civilizado. Esse termo era empregado pelos gregos e romanos a esses povos que invadiram e assolaram o Império Romano do ocidente no século V. Mas esse termo que tinha relação com a palavra varvara, do sânscrito, a qual tinha o significado de um indivíduo grosseiro e ignorante, não era assim bem aplicada a esses povos, pois durante cinco séculos, principalmente os germanos, deixaram os traços da civilização romana em seu comércio e na guerra, além do mais eles já tinham adotado de há muito a escrita e um governo com leis estáveis, com estas sendo fruto das leis romanas propagadas por toda a região. Com relação à moral sexual, ela era bem superior à dos romanos e dos gregos, com a exceção da moral dos francos merovíngios. Com relação à ética, eram bastante cordiais e hospitaleiros. E ainda demonstravam uma grande bravura, coragem honestidade, deixando os romanos admirados com tantos predicados superiores e positivos.

Essas grandes tribos já haviam começado a entrar no Império Romano ao sul do Danúbio e dos Alpes, por meio de migrações pacíficas e até mesmo por meio do convite imperial, tendo o próprio Augusto iniciado a política de instalar os bárbaros dentro das fronteiras, a fim de preencher os claros e as legiões para as quais os romanos menos belicosos não mais contribuíam, tendo também Aurélio, Aureliano e Probo adotado a mesma política. Em continuidade a essa política, ao final do século IV o povo germânico já predominava nos Balcãs e na Gália Oriental, com o mesmo se verificando no exército romano. Além disso, muitos cargos importantes, tanto políticos como militares, encontravam-se nas mãos dos teutônicos. Era tão grande a influência dos bárbaros, que os romanos começaram a usar túnicas de peles à moda bárbara e a deixar crescer os cabelos, com alguns até adotando o uso de calças, o que provocou alguns decretos imperiais, que via nessa moda uma afronta aos costumes.

Em torno desse contexto cultural tendente a se sincretizar, ainda havia certa harmonia, quando bem distante, das planícies da Mongólia, veio a palavra de ordem para a grande invasão, por intermédio dos hunos, que era uma divisão dos turanianos, que no século III passaram a ocupar a região ao norte do lago Balkash e do mar de Aral. Era um povo tão belicoso que se preparava para a guerra desde a mais tenra idade, modificando as feições dos recém-nascidos para que quando crescessem causassem pavor aos inimigos. Toda essa belicosidade nos é narrada por Jordanes, um historiador godo, da seguinte maneira:

As suas feições inspiravam grande terror aos homens que talvez os sobrepujassem na guerra. Faziam-nos fugir apavorados, pois os seus rostos tisnados eram horríveis. A cabeça parecia uma massa grosseira e os olhos, dois pequenos buracos. Eram cruéis para os filhos mesmo no primeiro dia do nascimento. Cortavam-lhes as faces com uma espada, a fim de que eles aprendessem a suportar os ferimentos antes de serem amamentados. Cresciam assim sem barba, com o rosto marcado de cicatrizes. Eram de pequena estatura, os ombros largos e o porte altivo, ágeis de corpo, bons cavaleiros, sempre prontos a se servir do arco e da flecha”.

Em 355, eles invadiram a Rússia, dominaram e absorveram os alanos. Em 372, eles atacaram os ostrogodos na Ucrânia, com uma parte se rendendo e se unindo aos hunos e com a outra parte fugindo para o oeste, adentrando nas terras dos visigodos, ao norte do Danúbio, cujo exército que enfrentou aos invasores foi batido no Dniester, com o seu remanescente solicitando a permissão das autoridades romanas do Danúbio para atravessar o rio e se instalar na Mésia e na Trácia. O imperador Valêncio mandou avisá-los de que seriam admitidos, mas com a condição de entregarem as armas e cederem os seus jovens como reféns. Após atravessarem o rio, os visigodos foram brutalmente espoliados dos seus bens pelos oficiais e soldados romanos, sendo que além dos rapazes, as moças também foram feitas escravas pelos lascivos romanos. Os alimentos lhes eram vendidos a preços exorbitantes, às vezes davam um escravo por um simples pedaço de carne ou de pão. Até que se viram forçados a vender os seus próprios filhos como escravos para poder escapar da fome.

Sem poderem mais suportar as dores de tantas humilhações sofridas, iniciaram uma revolta. O general romano, então, convidou Fritigern, o chefe deles, para um banquete, com a intenção de assassiná-lo, mas ele conseguiu fugir e reunir os massacrados visigodos para a guerra contra o Império Romano. Em 378, Valêncio veio do leste e os atacou nas planícies de Adrianópolis com uma força bastante inferior, e para piorar ainda mais a sua situação, com o seu exército formado em sua maioria por bárbaros ao serviço de Roma. O resultado da batalha foi uma derrota fragorosa de Roma, perecendo dois terços do seu exército, com o imperador e os seus servos morrendo queimados.

Em seguida, a horda vitoriosa marchou contra Constantinopla, mas não conseguiu romper com as sólidas barreiras organizadas por Dominica, a viúva do imperador. Então os visigodos, aos quais já se haviam juntado os ostrogodos e os hunos que tinham atravessado o Danúbio, o qual se encontrava desprotegido, devastaram livremente os Balcãs desde o mar Negro até as fronteiras da Itália.

No final do século IV, a Gália prosperava e ameaçava a liderança italiana em todos os setores, a sua população era de 20.000.000 de habitantes, aproximadamente, enquanto que todo o Império Romano era de 70.000.000, e a Itália não chegava a 6.000.000, e os restantes, em sua maioria, eram orientais que falavam grego. Os críticos se queixavam de que o número dos que viviam às custas dos fundos públicos era maior do que o dos contribuintes, com a corrupção ainda absorvendo grande parte desses fundos.

Conta-nos Salviano que por todo o Império Romano, ricos e pobres, pagãos e falsos cristãos, estavam mergulhados em uma imoralidade jamais conhecida em toda a história desta civilização, o adultério e a embriaguez eram os vícios da moda, a virtude e a temperança constituíam alvos de gracejos, e o nome de Jesus, o Cristo, tornou-se uma expressão profana entre os que o chamavam de deus bíblico, tudo isso contrastando com a simplicidade dos germanos, o tratamento que dispensavam aos romanos vencidos, a lealdade que existia entre eles e a sua fidelidade conjugal. Quando Genserico, o rei dos vândalos e alanos, tomou a Cartago dita cristã, ficou bastante admirado ao encontrar um bordel em quase todas as ruas da cidade, fechou-os e fez com que as prostitutas escolhessem entre o casamento e a expulsão, como veremos logo mais à frente.

No século IV, havia em Roma 175 dias feriados durante o ano, com 10 deles se destinando às lutas dos gladiadores, 64 aos trabalhos de circo e os restantes aos espetáculos teatrais. Os bárbaros se aproveitaram da situação reinante para atacar Cartago, Antioquia e Treves, enquanto o povo se achava absorvido nos anfiteatros e nos circos. Em 404, o programa em que figuravam os gladiadores comemorava em Roma a dúbia vitória do cônsul romano Estilicão em Pollentia.

Do outro lado dos Alpes, Alarico se queixou de que as 4.000 libras de ouro que os romanos lhe tinham prometido não haviam sido pagas, que em troca desse pagamento e da sua lealdade futura Roma ofereceu os jovens godos mais nobres como reféns. Honório recusou a oferta. Em 408, ele atravessou os Alpes com as suas tropas, saqueou Aquileia e Cremona, engrossou a suas fileiras com mais 30.000 mercenários desgostosos com a matança dos seus chefes e avançou pela Via Flaminiana, chegando até ao redor de Roma, com apenas um monge solitário lhe opondo resistência, o qual ficou estupefato quando Alarico lhe disse que fôra o próprio Deus quem havia ordenado a invasão. Atemorizado, o senado se viu à mercê do barbarismo. Levantaram suspeitas de que a viúva de Estilicão fosse cúmplice de Alarico e a condenaram à morte.

Alarico, então, cortou as comunicações de todas as estradas por onde pudessem entrar os abastecimentos para a cidade. A população logo começou a sentir os horrores da fome, com os homens se entredevorando e as mulheres matando os seus próprios filhos para comerem, segundo nos contam os historiadores. Mandaram uma delegação a Alarico para pedir as suas condições, prevenindo-o de que um milhão de romanos estavam prontos para resistir, mas ele escarneceu da delegação e disse: “quanto mais espesso o feno, tanto melhor será para cortá-lo”. Em seguida, concordou em se retirar, contanto que recebesse todo o ouro, prata e bens móveis de valor que haviam na cidade. Então perguntaram os emissários: “Como que ficaremos depois?”. Respondeu Alarico com desdém: “Com as vossas vidas”. Roma preferiu continuar a resistir, mas a fome a obrigou a fazer uma nova proposta de rendição. Alarico aceitou 5.000 libras de ouro, 30.000 libras de prata, 4.000 túnicas de seda, 3.000 couros e 3.000 libras de pimenta.

Em face da situação vexatória, um grande número de escravos bárbaros fugiu dos seus amos romanos e engrossaram as fileiras do exército de Alarico. Em compensação, Saro, um chefe godo, abandonou Alarico e se juntou a Honório, engrossando as fileiras do exército romano, levando consigo um considerável contingente de godos, quando então atacou o principal exército bárbaro. Alarico considerou esse ato uma violação da trégua que havia sido assinada e sitiou Roma novamente. Um escravo abriu os portões da cidade e os godos entraram.

Em 410, pela primeira vez em 800 anos, era a grande cidade tomada pelo inimigo. Durante três dias os hunos e os escravos do exército de Alarico saquearam a cidade, com a exceção das igrejas de São Pedro e de São Paulo, poupando os que nelas se refugiaram. Mataram centenas de homens ricos, violentaram as suas mulheres e as assassinaram. Apoderaram-se de todo o ouro e prata que encontraram e fundiram as obras de arte para aproveitar o precioso metal que elas continham. Após o massacre, Alarico restabeleceu a disciplina e conduziu as suas tropas para a Sicília, mas nesse mesmo ano foi acometido de uma febre maligna e desencarnou em Cosenza.

Ataulfo, cunhado de Alarico, foi escolhido para o seu sucessor. Ele concordou em retirar o seu exército da Itália sob a condição de lhe darem Placídia em casamento, a meia irmã de Honório, que havia sido feito prisioneira em Roma, e de receberem os visigodos o sul da Gália, inclusive Narbonne, Tolosa e Bordéus, a fim de que eles pudessem fazer dessa região o seu próprio reino. Honório recusou atender ao pedido de casamento, mas Placídia consentiu. O chefe godo proclamou que o seu interesse não era destruir o Império Romano, mas preservá-lo e fortificá-lo. Em 414, retirou-se da Itália com o seu exército e fundou o reino visigodo da Gália, teoricamente sujeito ao Império Romano, fazendo de Tolosa a sua capital. Um ano depois ele era assassinado. Placídia, que já dera provas de que o amava ao consentir no casamento, pretendeu se tornar viúva para sempre, mas Honório a deu em casamento ao general Constâncio. Depois da morte de Constâncio, em 421, e da morte de Honório, em 423, Placídia se tornou a regente de Valentiniano III, seu filho, passando a governar o Império do Ocidente durante vinte e cinco anos, com muita competência.

Antes disso, os vândalos já constituíam uma grande e poderosa nação, tendo dominado as partes central e oriental da Prússia moderna, e tendo também se deslocado para o sul e entrado na Hungria, já no tempo de Constantino. No entanto, tendo os seus exércitos sofrido uma esmagadora derrota por parte dos visigodos, os vândalos remanescentes pediram permissão a Constantino para atravessar o Danúbio e entrar no Império, permissão que lhes foi concedida. Com o decorrer dos anos eles se multiplicaram na Panônia. Em 406, incentivados com os êxitos de Alarico, aproveitaram a retirada das legiões para além dos Alpes, a fim de defender a Itália, deixando-lhes as portas abertas daquela rica região do oeste, e juntamente com os alanos e suevos invadiram o Reno, devastando toda a Gália. Saquearam Mogúncia e massacraram muitos dos seus habitantes. Em seguida, marcharam para a Bélgica, ao norte, onde saquearam e incendiaram a cidade de Treves. Não satisfeitos, atravessaram o Mosa e o Aisne e fizeram toda a sorte de pilhagens em Reims, Amiens, Arras e Tournai, quase chegando a alcançar o canal inglês. Viraram depois para o sul, atravessaram o Sena e o Loira e entraram na Aquitânia. Massacraram quase todas as cidades, com a exceção de Tolosa, que foi heroicamente defendida pelo bispo Exupério. Detiveram-se nos Pireneus durante algum tempo, voltaram depois para o leste e saquearam Narbonne. Esta talvez tenha sido a pior devastação da Gália em todos os tempos.

Em 409, entraram na Espanha com um exército de 100.000 homens. Ali, como na Gália e no Oriente, o domínio romano havia criado uma tributação opressiva através de uma eficiente administração. A riqueza se concentrava em imensas propriedades. Havia uma população de escravos, servos e homens livres que haviam empobrecido. Mesmo assim, graças à sua estabilidade e leis, a Espanha figurava entre as mais prósperas províncias romanas. Merida, Cartagena, Córdova, Sevilha e Tarragona também figuravam entre as mais ricas e mais cultas cidades do Império. Foi essa península aparentemente segura que os vândalos, alanos e suevos atacaram, passando dois anos a saquear a Espanha, desde os Pirineus até ao estreito, tendo estendido as suas conquistas até mesmo pela costa africana.  Não tendo um exército poderoso o suficiente para defender as províncias romanas, Honório subornou os visigodos do sudoeste da Gália a fim de que eles reconquistassem a Espanha para o Império. Em 420, Wallia, o rei dos visigodos, realizou essa reconquista em campanhas bem planejadas. Os vândalos se retiraram para a Andaluzia, no sul, a qual traz ainda o seu nome, e os suevos se retiraram para o noroeste da Espanha.

No entanto, em 429, ainda ansiosos por mais conquistas, os vândalos atravessaram o oceano e entraram na África. Genserico, o rei dos vândalos e alanos, era filho bastardo de um escravo, coxo, porém muito forte, sendo ainda detentor de uma rara inteligência para guerrear e negociar. Ele chegou à África com mulheres e crianças, além, é claro, com os seus 80.000 guerreiros vândalos e alanos, aos quais se juntaram os mouros, que ainda muito se ressentiam do domínio romano, e os hereges donatistas, que haviam sido perseguidos pelos falsos cristãos ortodoxos, com ambos acolhendo satisfeitos um novo governo. A África do Norte romana possuía uma população de 8.000.000 de habitantes, mas Bonifácio conseguiu reunir apenas um pequeno número de combatentes para reforçar o seu exército regular. Genserico lhe infligiu uma esmagadora derrota, tendo ele se retirado para Hipona, onde Santo Agostinho incitou a população para que não fugisse e opusesse resistência. A cidade conseguiu sustentar o cerco por mais de um ano. Genserico, então, retirou-se para enfrentar outra força romana, a qual venceu de tal forma que o enviado de Valentiniano foi obrigado a assinar uma trégua, reconhecendo a conquista dos vândalos e alanos na África. Em 439, no entanto, vendo os romanos desprevenidos, invadiu a rica Cartago e a conquistou. Os nobres e os sacerdotes foram despojados das suas propriedades e expulsos ou escravizados. Mas os sacerdotes, que sempre foram ávidos por poder e riqueza, tiveram todos os seus bens tomados pelos vândalos e alanos, e como estes eram sabedores das suas sagacidades e matreirices, chegaram mesmo a torturá-los para que revelassem os lugares onde escondiam os seus tesouros.

Após reformar a África, tornando-a uma região lucrativa, Genserico construiu uma grande frota, com a qual devastou as costas da Espanha, da Itália e da Grécia, até que o imperador romano assinou a paz com o rei bárbaro e se comprometeu a lhe dar a mão de uma filha em casamento, evitando assim que Roma fosse destruída e continuasse com a sua vida de orgias e prazeres.

Por aqui se pode compreender perfeitamente a continuidade da execução do plano de espiritualização da nossa humanidade, em que nessa invasão dos povos bárbaros haveria que se formar novas nações, com a degradação moral sendo combatida por intermédio de uma nova cultura, mais afeita aos bons costumes.

Já haviam decorrido setenta e cinco anos desde a ocasião em que os hunos tinham iniciado a invasão dos bárbaros ao atravessarem o Volga —  o mais longo rio da Europa, que nasce ao norte da Rússia e deságua no mar Cáspio —, com o avanço deles sendo vagaroso, mas constante, até que se instalaram gradativamente na Hungria e em suas imediações, dominando muitas tribos germânicas. Em 433, Rua, o rei huno, desencarnou, deixando o trono para os sobrinhos Átila e Bleda. Em 444, Bleda foi assassinado, com alguns afirmando que foi Átila quem o assassinou, o qual dominou diversas tribos ao norte do Danúbio, desde o Don até o Reno. Jordanes faz dele a seguinte descrição:

Ele nasceu para abalar e aterrorizar as nações. Os boatos que circulavam ao seu respeito apavoravam os homens. Tinha o porte altivo, os olhos irrequietos, o que fazia com que a força do seu espírito pudesse se refletir nos próprios movimentos do corpo. Era, na verdade, um amante da guerra, mas sabia se dominar. Severo em suas decisões, atendia com fidalguia os que a ele se dirigiam. Mostrava-se complacente para com os que passavam para a sua proteção. Era de pequena estatura, encorpado e de cabeça grande. Tinha o nariz chato, as feições trigueiras, o que denotava a sua origem”.

Átila era mais estratégico do que os demais conquistadores bárbaros, e ainda se aproveitava das superstições pagãs do seu povo para dominá-lo. Em face das estratégias que utilizava, as suas vitórias eram contadas por meio de histórias exageradas que se contavam a respeito da sua crueldade, por isso até os seus inimigos ditos cristãos o chamavam de “Flagelo de Deus”, referindo-se a Jeová, o deus bíblico, ignorando completamente que esse espírito obsessor é crudelíssimo, pois que assumiu a pretensão de extinguir a vida na Terra através do fogo, considerando que somente os godos os podiam salvar, tal o pânico que as suas estratégias lhes infundiam. Embora não soubesse ler e nem escrever, o fato não lhe diminuía a inteligência, já que esta é formada e desenvolvida ao longo de muitas encarnações. No entanto, ele não era cruel como diziam, pois demonstrou muitas vezes que tinha o senso da honra e da justiça superior aos romanos, tanto que também era simples e comedido, trajando-se com simplicidade, comendo e bebendo moderadamente, deixando o usufruto do luxo para os seus subordinados, os quais gostavam de se exibir com os utensílios de ouro e prata e com outros utensílios.

Em 444, Teodósio II, do Império do Oriente, e Valentiniano, do Império do Ocidente, pagaram-lhe tributo para manterem a paz, porém dando a entender aos seus povos que se tratava de um pagamento por serviços prestados. Mas como era capaz de levantar um exército de 500.000 homens, Átila logicamente se julgou capaz de se tornar senhor de toda a Europa e do Oriente Próximo.

Então os seus generais e os seus soldados atravessaram o Danúbio, tomaram Sirmium, Singidunum, que evoluiu para a Belgrado de hoje, Naissus, e Sárdica, que evoluiu para Sófia, e ameaçaram a própria Constantinopla. Teodósio II lançou um exército contra eles, mas foi derrotado, com o Império do Oriente apenas conseguindo a paz mediante o aumento do tributo anual de 700 para 1200 libras de ouro. Em 447, os hunos entraram na Trácia, Tessália e Cítia, na Rússia Meridional, saquearam setenta cidades e levaram consigo, como escravos, milhares de homens e mulheres, com os captores juntando as mulheres capturadas às suas esposas, do que resultaram gerações de sangue cruzado que deixaram traços mongólicos até na Baviera, no oeste. Essas incursões dos hunos deixaram os Balcãs arruinados durante quatro séculos, com o Danúbio deixando de ser durante muito tempo a principal via de comércio entre o Ocidente e o Oriente e as cidades que o margeavam entraram em decadência.

Após invadir o Oriente, Átila se voltou para o Ocidente. A desculpa para a invasão veio de Honória, a irmã de Valentiniano III, que havia sido desterrada para Constantinopla por ter sido seduzida por um dos seus camareiros, que procurando um meio para fugir, enviou um anel a Átila, apelando para o seu auxílio. O rei huno, como se estivesse a se utilizar do seu bom humor, interpretou esse gesto como sendo uma proposta de casamento, reivindicando logo os seus direitos sobre Honória e a metade do Império do Ocidente como o dote dela. Os ministros de Valentiniano III protestaram. Mas para o rei huno o protesto e o nada eram a mesma coisa. Então ele declarou a guerra. No entanto, o motivo real era que Marciano, o novo imperador do Oriente, recusara-se a continuar o pagamento do tributo, e Valentiniano III resolvera lhe seguir o exemplo da recusa.

Em 451, Átila avançou em direção ao Reno, saqueou e incendiou Trier e Metz, massacrando a todos os seus habitantes. Toda a Gália ficou apavorada, pois Átila não possuía a ética guerreira de Júlio César, e nem a complacência de um guerreiro dito cristão, como Alarico e Genserico, mas sim o procedimento terrível do “Flagelo de Deus”, que aparecia na região para punir indistintamente aos falsos cristãos e pagãos. Foi então que Teodorico I, o velho rei dos visigodos, como que compadecido por aquela situação, pôs o seu exército à disposição do Império. Assim, os romanos e os visigodos, sob o comando de Aécio, encontraram-se com os hunos perto de Troyes, nos Campos Cataláunicos, onde travaram uma das mais sangrentas batalhas de toda a história. Segundo os registros históricos, nessa batalha morreram mais de 160.000 homens, inclusive o heroico rei godo. Mas a vitória do Ocidente não tomou um caráter decisivo, uma vez que Átila providenciou uma retirada organizada, enquanto os vencedores não se encontravam em condições para irem em sua perseguição.

No ano seguinte, o rei huno invadiu a Itália, com a primeira cidade caindo em seu poder sendo Aquileia, a qual os hunos destruíram totalmente. A seguir caíram Verona e Vicenza, que foram tratadas com mais complacência. Pavia e Milão conseguiram conter o ímpeto do conquistador, entregando-lhe toda a sua riqueza. E assim a estrada de Roma ficou à mercê de Átila, já que o exército de Aécio era insuficiente para opor resistência a ele. Valentiniano III fugiu para Roma e enviou ao rei huno uma delegação composta do papa Leão I e mais dois senadores. Os registros históricos não nos narram o resultado da conferência, registrando apenas o fato de que Átila se retirou. Ao que parece, o motivo da retirada é devido ao fato de a peste haver irrompido em seu exército, além dos alimentos haverem começado a escassear.

Átila se retirou com as suas tropas pelos Alpes e rumou para a sua capital na Hungria, ameaçando voltar à Itália na próxima primavera, caso não lhe enviassem Honória como sendo a sua noiva. Em 453, quando ainda se encontrava à espera de Honória, consolou-se acrescentando ao seu harém uma bela jovem chamada Ildigo, a qual serviu de inspiração para o Nibelungenlieds, de Kriemhild, um herói épico medieval, por isso a sua substância é considerada como sendo significativamente mais antiga.

Saindo dos seus hábitos, celebrou o casamento se embriagando e se empanturrando em demasia, o que provocou a sua desencarnação quando estava no leito, ao lado da sua jovem esposa. Um vaso sanguíneo fôra rompido e o sangue que lhe viera à garganta o sufocou. O seu reino foi dividido entre os filhos, os quais se mostraram incompetentes para preservá-lo, com as suas tribos se recusando a prestar obediência a uma direção que era considerada fraca e desorganizada. Passados poucos anos, todo o império se desfez, o qual havia ameaçado subjugar os romanos, os gregos, os germanos e os gauleses, colocando a raça asiática no seio da Europa. Mas assim não poderia jamais ocorrer, em virtude de o plano de espiritualização da nossa humanidade já haver reservado os povos que iriam povoar a Europa e formar as suas diversas nações.

Em 450, com a desencarnação de Placídia, Valentiniano III se viu livre para agir em benefício próprio, mas cometendo um grande erro, pois assim como Olímpio havia persuadido Honório a assassinar Estilicão, o qual havia detido Alarico em Polenza, do mesmo modo Petrônio Máximo persuadiu Valentiniano III a assassinar Aécio, o qual havia barrado o caminho de Átila, em Troyes, pois ele não tinha filho homem e se ressentia do fato de Aécio desejar casar um filho com a sua filha Eudócia. Sendo, então, persuadido, mandou chamar Aécio e o assassinou com as suas próprias mãos. Vendo o grande erro que o imperador havia cometido, um dos membros da corte lhe disse o seguinte:

Vossa majestade cortou a mão direita com a esquerda”.

Alguns meses depois, Petrônio persuadiu a dois partidários de Aécio que também assassinassem Valentiniano III, pois havia muito que se aceitara o assassínio como sendo um meio para a escolha do novo governante. Assim foi feito, com Petrônio se elegendo imperador, obrigando a Eudóxia, a viúva de Valentiniano III, a se casar com ele e forçando a filha desta, Eudócia, a receber como marido ao seu filho Paládio. Segundo Procópio, Eudóxia apelou para Genserico da mesma maneira como Honória havia apelado para Átila. E Genserico tinha razões de sobras para atender ao seu apelo, pois Roma era ainda muito rica a despeito do que fizera Alarico, e o exército romano não se encontrava em condições de defender a Itália.

Em 455, Genserico se pôs ao mar com uma esquadra praticamente invencível, tendo somente à sua frente um papa desarmado e acompanhado de todo o seu clero para lhe barrar o caminho entre Óstia e Roma. Nessa ocasião, Leão I não conseguiu dissuadir ao conquistador de levar a efeito o seu intento, mas conseguiu a promessa de que ele não faria massacres, torturas e nem incendiaria a cidade. Assim, durante quatro dias a cidade ficou entregue ao saque, as igrejas ditas cristãs foram poupadas, mas os tesouros que haviam nos templos foram levados, assim como as mesas de ouro, os candelabros de sete braços e as baixelas do Templo de Salomão, que Tito havia trazido para Roma, foram incluídos nos despojos. Milhares de cativos foram levados para as galeras como escravos, com os homens sendo separados das suas mulheres e os pais dos seus filhos. Genserico levou consigo para Cartago a imperatriz Eudóxia e as suas duas filhas, casando uma delas, Eudócia, com o seu filho Hunerico, e a outra, Placídia, a mais nova, juntamente com a imperatriz, enviando ambas depois para Constantinopla, atendendo ao pedido do papa Leão I. Desta maneira, no tempo oportuno, Cartago retribuía aos romanos a invasão de 146 a.C., já que Aníbal fôra impedido pelo Astral Superior de tomar Roma, pois que o Império Romano ainda iria dar a sua contribuição para o progresso da nossa humanidade.

Ficara ainda alguma riqueza em Roma, mesmo após o saque de Genserico. Ela e as outras cidades italianas haveriam depois de se levantar sob o domínio de Teodorico e dos lombardos. Em 470, porém, o empobrecimento geral dos campos e das cidades deprimiu a população em geral, dada a miscigenação das raças e o sincretismo cultural. Com a exceção de Priapo, a população duvidava de todos os deuses, com a decadência política seguindo a par com a decadência econômica. Os aristocratas que se encontravam em condições de governar o país estavam impedidos de governar. Os homens de negócios centralizavam mais as suas ações em seus lucros pessoais do que na salvação da península. Os generais ganhavam mais pela força do suborno do que pela força das armas. E o funcionalismo público ficara demasiadamente oneroso e irremediavelmente corrupto. Assim, o edifício majestoso em que se erguera o Império Romano estava carente das suas bases, e agora se encontrava prestes a ruir. Teria que ser assim, uma vez que Roma já havia dado a sua contribuição ao mundo, novas nações teriam que se erguer na Europa e no mundo, em continuidade ao plano de espiritualização da nossa humanidade.

Os últimos anos foram caracterizados por uma verdadeira parafernália. Em 455, o godos da Gália proclamaram como imperador Avito, um dos seus generais, mas o senado se recusou a empossá-lo, então o nomearam bispo. Entre 456 e 461, Majoriano lutou bravamente para restabelecer a ordem, mas foi deposto pelo visigodo Ricimer, que era o primeiro ministro. Entre 461 e 465, Severo se sobressaiu como sendo um ineficaz instrumento nas mãos de Ricimer. Entre 467 e 472, Antêmio, que era considerado um filósofo meio pagão, por isso inaceitável para os falsos cristãos do Ocidente, ao se destacar foi logo preso por Ricimer e depois assassinado. Ainda em 472, Olíbrio foi levado ao poder por Ricimer e governou por apenas dois meses, tendo desencarnado de maneira natural. Em 473, Glicério assumiu o poder, mas foi logo deposto, tendo sido Roma governada por Júlio Nepos durante dois anos.

Nessa época, uma onda de bárbaros formada pelos hérulos, ciros, rugos e outras tribos que outrora haviam reconhecido o domínio de Átila, invadiu a Itália. Em 475, Orestes, um general panoniano, depôs Júlio Nepos e colocou no trono o seu filho Rômulo, que era apelidado de Augústulo. Os novos invasores exigiram que Orestes lhes cedesse uma terça parte do território italiano, tendo sido então assassinado ao se recusar a atender a essa exigência. Em 476, colocaram no poder Odoacro, que era filho de Edecon, o qual havia sido ministro de Átila. Demonstrando muita habilidade política, Odoacro reuniu o senado e, por intermédio deste, ofereceu a Zeno, que era o novo imperador do Oriente, o domínio sobre todo o império, contanto que, como patricius, pudesse ele governar a Itália. Zeno aceitou a proposta, tendo com essa aceitação se pondo um fim à linhagem dos imperadores do Ocidente. Contudo, Odoacro governou a Itália como rei, mostrando-se indiferente à soberania de Zeno.

Nessa época, a germanização do exército, do governo e dos camponeses italianos já havia progredido o suficiente para que o cenário político parecesse uma mera alteração no cenário nacional. Com efeito, os germanos haviam conquistado a Itália da mesma maneira que Genserico havia conquistado a África, os visigodos a Espanha, os anglos e saxões a Britânia e os francos a Gália. O Ocidente já não mais pertencia ao grande império, para que assim os rudimentos da formação da Europa fosse aos poucos se desenhando no cenário mundial, tudo em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade.

Os bárbaros viviam basicamente do cultivo da terra, dos rebanhos, da caça e também da guerra, pois ainda não haviam aprendido as técnicas comerciais pelas quais as grandes cidades prosperavam intercambiando umas com as outras, com isso o caráter municipal do Ocidente se arrefeceu durante sete séculos, o tempo estimado para que as migrações trouxessem uma nova mistura de elementos raciais, com os intercâmbios das culturas germânica na Itália, na Gália e na Espanha, e asiática na Rússia, nos Balcãs e na Hungria. Isso tudo proporcionou um acentuado incremento na evolução espiritual desse novo povo, com os seres humanos que eram fracos para guerra e para a concorrência de outras atividades, exigidas pela vida, vendo-se obrigados a desenvolver as suas próprias coragens e resistências às vicissitudes da vida, adquirindo novas forças, restabelecendo assim de outras maneiras as qualidades viris que haviam sido suprimidas.

Ora, dada a extrema ignorância dos seres humanos, de que outra maneira poderia se formar a nação europeia? É sabido que um milênio antes de Cristo haviam os invasores nórdicos entrado na Itália, subjugando e se misturando com os seus habitantes, recebendo a sua cultura, e, juntamente com os seus povos, no decorrer de oito séculos, construíram uma nova cultura. E agora se repetia esse processo, passados uns cinco séculos após o Cristo, com o Império Romano desaparecendo no Ocidente. Para os historiadores, a roda da História dera uma volta completa, com o começo e o fim se encontrando, mas com o fim sendo sempre um novo começo.

 

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