02.01.02.02- Plotino

A Era da Verdade
22 de novembro de 2018 Pamam

Plotino encarnou em Licópolis, no Egito, que fazia parte do Império Romano, no ano 204, onde também desencarnou no ano 270, com a idade de 66 anos. Por volta do ano 232, com a idade de apenas 28 anos, começou a mostrar os seus pendores para os estudos acerca dos conhecimentos metafísicos acerca da verdade, e assim como outros veritólogos do Período Doutrinário, ou Período Pré-socrático, ele resolveu empreender viagens a outras regiões, para sentir em sua alma o ambiente fluídico inerente a essas outras culturas, tendo viajado para Alexandria. Nesta cidade, mostrou-se insatisfeito como todos os professores, em razão deles não satisfazerem aos seus anseios veritológicos, até que encontrou um conhecido que o recomendou a ouvir as ideias que eram transmitidas por Amônio Sacas, tendo ele acatado a essa recomendação. Após ouvir a palestra proferida por Amônio Sacas, ele declarou ao seu conhecido que “Este é o mestre que eu estava procurando”, tendo começado a estudar com afinco com o seu novo mestre.

Depois de passar onze anos em Alexandria, Plotino decidiu investigar os ensinamentos do Irã e da Índia, quando então deixou Alexandria e se integrou ao exército de Gordiano III, que foi um imperador romano, período de 238 a 244, ocasião em que ele marchava sobre a Pérsia, cuja campanha foi um fracasso. Com a desencarnação de Gordiano III, Plotino se sentiu um tanto perdido em uma região hostil, mas com tenacidade conseguiu encontrar caminho para a sua segurança em Antioquia.

Com a idade de quarenta e cinco anos, durante o reinado de Filipe, o Árabe, partiu para Roma, onde lá permaneceu durante a maior parte da sua vida, tendo atraído um número expressivo de alunos, inclusive Porfírio, que foi um dos principais neoplatonistas, além de Eustáquio de Alexandria, um médico que se dedicou ao aprendizado de Plotino e que o assistiu até a sua desencarnação. Foi um espírito de extrema importância para o seu tempo, o que fez com que ele conquistasse a atenção devota e fervorosa de muitos discípulos.

Plotino não chegou a escrever propriamente uma obra, tanto que a partir de 253 e até poucos meses antes da sua desencarnação, escreveu apenas uma coleção de notas e ensaios que utilizava em suas palestras e debates, ao invés da formalidade de um livro, sem que nunca tivesse a disposição de rever a esses escritos, ao que tudo indica em razão da sua fraca visão, por isso a sua caligrafia era péssima, não conseguindo separar adequadamente as palavras, pouco se importando com as sutilezas da ortografia, de acordo com a opinião de Porfírio, que se incumbiu da tarefa de colocar os seus textos no novo arranjo que nós temos hoje em dia, quando então as notas e os ensaios de Plotino se tornaram As Enéadas, cuja obra é formada por 54 tratados divididos em 6 capítulos, compostos de nove partes cada um, por isso intitulados de As Enéadas, do grego ennéa, que significa nove.

Em As Enéadas, Plotino escreve sobre assuntos de suma importância para a nossa humanidade, todos de natureza transcendental, em que podemos destacar os doze seguintes:

  1. O que é o ser vivo e o que é homem;
  2. Sobre a virtude;
  3. Sobre a verdadeira felicidade;
  4. Sobre a natureza e a origem do mal;
  5. Se as estrelas são as causas;
  6. Sobre a matéria;
  7. Sobre a qualidade ou sobre a substância;
  8. Sobre a providência;
  9. Sobre o amor;
  10. Sobre a natureza, a contemplação e o Uno;
  11. Sobre a essência da alma;
  12. Sobre o bem ou o Uno.

Sendo detentor de um criptoscópio altamente desenvolvido, levando uma vida reservada, por ser detentor de uma elevada moral, o próprio Plotino declarava haver sido afortunado por vários êxtases, que é a alma estar fora de si, libertando-se inteiramente do corpo físico, para que então possa se unir à Divindade, ao Uno, convertendo-se no próprio Uno, pois é sabido que Deus se encontra em nós mesmos, em proporção ao estágio evolutivo em que nos encontramos. Esses êxtases a que o veritólogo se refere, diz respeito à sua elevação ao Espaço Superior, para que lá pudesse perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade, e também as intuições advindas do Astral Superior.

Esses “êxtases” explicam claramente a razão pela qual Plotino se recusava a aceitar a existência da matéria, que realmente não existe, sendo essa recusa um sentimento comum em relação ao platonismo, mantendo assim o sentimento de que os fenômenos são apenas uma representação de algo maior e inteligível, mais propriamente uma representação da natureza, que podemos considerar como sendo os resultados das interações que ocorrem entre todos os seres, em que ocorrem as transformações, já que o veritólogo se refere diretamente ao que seria a “parte mais verdadeira dos seres”, pois que eles são os seres do Ser Total.

Assim como Plotino se recusava a aceitar a existência da matéria, essa recusa incluía também o corpo físico, incluindo o seu próprio, tanto que, segundo Porfírio, ele se recusava a ter o seu retrato pintado, já que valorizava mais a alma. Assim, sendo extremamente espiritualizado, o veritólogo também se recusava a discutir a sua ascendência, a sua infância, ou mesmo o lugar ou a data do seu nascimento, seguindo sempre os padrões espirituais mais rígidos.

Apesar do ambiente fluídico fazer prevalecer o falso cristianismo, com todo o seu conteúdo sendo extremamente sobrenatural, Plotino não se deixou influenciar por ele, não dando a mínima importância para Jeová, o deus bíblico, e o seu criacionismo, passando a ensinar que realmente existe um Ser Supremo, o Uno, ao que os pitagóricos e Platão consideravam como sendo formado de Substâncias. De fato, Deus é formado de Substâncias, que por sua vez se dividem em Essência e Propriedades. A Essência é o Ser Total, a Substância principal. As Propriedades são a Força Total, a Energia Total e a Luz Total, que são as Substâncias secundárias.

Sob o pensamento platônico, existem tanto o Uno como o múltiplo, havendo, pois, uma relação direta entre o Uno e o múltiplo, o que se explica a partir do princípio de que todos os seres são provenientes do Ser Total, ou seja, as criaturas do Criador, e que evoluem adquirindo as parcelas das propriedades da Força, da Energia e da Luz. Daí a razão pela qual Plotino compara o Uno à Luz, o Divino em relação ao Sol, que que são partículas combinadas das propriedades da Força e da Energia, fazendo analogia da alma em relação à Luz, que neste caso seria apenas um derivado conglomerado de luz a partir do Sol.

O Uno é considerado como sendo o Todo, em sua Perfeição e Eternidade, em que assim é considerado como sendo Imutável, que deste modo podemos considerar como sendo o Ser Total, sendo a origem e a causa da existência de tudo quanto existe.

Em relação à Imutabilidade, cabe aqui esclarecer que em sua Perfeição, Infinitude e Ilimitação o Ser Total é realmente Imutável. Mas acontece que Ele recebe o acervo da imperfeição, da finitude e da limitação das suas partículas, em que nestes aspectos Ele também é Mutável, à medida que vai recebendo os acervos das suas partículas. Como se pode claramente constatar, somente assim Ele pode ser o Todo.

É do Uno que vem a origem do mundo, e como os mundos são formados por seres, Plotino afirma que o Uno não pode existir sem o simples, afirmando que do Perfeito deve emanar o menos perfeito, assim toda a criação diz respeito aos estágios de menores perfeições, em que essas etapas não são isoladas na temporalidade, ocorrendo ao longo do tempo através de um processo constante e ininterrupto, em que mais tarde os veritólogos neoplatônicos acrescentaram centenas de seres intermediários como emanações entre o Uno e a nossa humanidade.

Sendo totalmente avesso à ortodoxia dita cristã, notadamente no que se refere ao criacionismo, que, convenhamos, não passa de uma mera estupidez advinda de Jeová, o deus bíblico, através dos médiuns que eram seus instrumentos, que tirou tudo do nada nesse seu criacionismo estúpido e grosseiro, apesar de nunca haver mencionado a esse dito cristianismo em qualquer dos seus escritos, Plotino nos fornece uma ideia precisa da verdadeira criação, através da emanação, afirmando ser o Uno, ou o Ser Total, como sendo a fonte da existência de todas as coisas, que possuem a Sua mesma natureza, e ainda completa, afirmando que o Uno não é de modo algum afetado ou diminuído por essas emanações, o que se explica em razão de todos os seres serem emanantes do Ser Total, e que para Ele retornam.

Para Plotino, a primeira emanação do Uno é o Nous, que os estudiosos do assunto consideram como sendo a Mente Divina, o Logos, e até a Ordem, o Pensamento e a Razão, pelo que eles passam a identificar metaforicamente como sendo o Demiurgo de Platão, em Timeu. Em razão do limite de escopo para a época, torna-se um tanto difícil interpretar o sentimento de Plotino, pois que em face dele ser um veritólogo, lida mais com a percepção e menos com a compreensão, por isso nós temos que interpretar aquilo que ele pretendeu transmitir em seus escritos.

O Nous pode ser considerado como sendo Inteligência, portanto, a Inteligência Universal. Nós somos as inteligências da Inteligência Universal. Em sendo assim, em nossa evolução espiritual, nós desenvolvemos os nossos órgãos mentais, que são o criptoscópio, o qual tem a função de perceber e a finalidade de captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade; o intelecto, o qual tem a função de compreender e criar as experiências físicas acerca da sabedoria; e a consciência, a qual tem a função de coordenação e a finalidade de coordenar o criptoscópio e o intelecto; cujos órgãos mentais são comandados pelos nossos atributos individuais superiores que formam a moral e pelos nossos atributos relacionais positivos que formam a ética.

Então para Plotino o Nous pode ser considerado como sendo tudo aquilo que diz respeito ao criptoscópio, que quando é bastante desenvolvido, estando esteado pela moral, possibilita a que o veritólogo possa se elevar ao Espaço Superior e lá perceber e captar os conhecimentos metafísicos acerca da verdade. E aqui se explica a razão pela qual ele declarou que havia tido vários êxtases, que considerava como se fosse a união com o Uno, mas que os estudiosos, pelo fato de não serem ainda espiritualizados, passam a relacionar a esses êxtases como se fossem conceitos de união mística, apesar de relacionarem com a iluminação e a libertação.

Em relação à felicidade, deve antes ser esclarecido que a verdadeira felicidade diz respeito diretamente aos cumprimentos das obrigações e dos deveres neste nosso mundo-escola, e para alguns raros espíritos os cumprimentos das suas missões. Isto implica em dizer que toda a nossa trajetória neste nosso mundo-escola, nós traçamos previamente antes de reencarnar, quando em nossos Mundos de Luz, em obediência ao plano de espiritualização da nossa humanidade.

Por isso, para Plotino, a natureza humana consiste na busca da felicidade, da verdadeira felicidade, em que nela o ser humano passa a se identificar com o que existe de melhor no Universo. Ora, o que existe de melhor no Universo é a espiritualidade, livre das fantasmagorias do sobrenatural, daí a razão da sua afirmativa de que a verdadeira felicidade se encontra além de qualquer coisa física, em que se inclui a fortuna, pois que para o veritólogo a fortuna não controla a verdadeira felicidade humana, quando diz assim:

Não existe nenhum ser humano que não tenha potencialmente, ou efetivamente, essa coisa que temos para constituir a felicidade”.

No âmbito da sua racionalidade espiritualista, Plotino se afasta completamente do sobrenatural, dos cultos, dos misticismos, das adorações, em que nesta seara disseminada pelo falso cristianismo, a felicidade é sempre esperada após a desencarnação, através da salvação, com a promessa de um quimérico céu. Para o veritólogo neoplatonista, a verdadeira felicidade é adquirida apenas por intermédio da consciência, o que nos leva diretamente ao fato de que a consciência coordena o criptoscópio e o intelecto, e somente aquele que faz valer a sua consciência pode ser o senhor das suas ações, portanto, cônscio das suas obrigações e dos seus deveres neste nosso mundo-escola.

Tendo os seus sentimentos sempre postos no âmbito da espiritualidade, Plotino puxa para os seus pendores veritológicos a natureza do verdadeiro ser humano, afirmando que ele deve ser contemplativo, fazendo valer a capacidade da alma, que é incorporal, por conseguinte, superior a todas as coisas corpóreas. Assim, a verdadeira felicidade independe completamente do mundo físico, sendo dependente da metafísica, o que se explica em razão dos conhecimentos acerca da verdade serem metafísicos. Ora, para que os conhecimentos metafísicos acerca da verdade possam ser percebidos e captados, o espírito tem que elevar ao Espaço Superior, valendo-se da sua moral, por isso o veritólogo vem afirmar o seguinte:

Para o homem, e especialmente o proficiente, não se pode fazer valer a união da alma com o corpo, pois a prova é que o homem  pode ser desengatado do corpo, desdenhando os seus valores nominais e os seus bens”.

Assim, de acordo com o sentimento de Plotino, o ser humano que conseguiu alcançar a verdadeira felicidade, não poderá ser afetado pelas doenças e outros desconfortos, pois que o seu foco é lançado sobre as melhores coisas, que “são determinadas pela etapa superior da alma”. O veritólogo chega, inclusive, a radicalizar em seus argumentos, ao considerar que mesmo que o homem proficiente venha a estar sujeito aos extremos da tortura física, por exemplo, isso somente vem fortalecer a sua alegação de que a verdadeira felicidade é de natureza metafísica, pois que o homem verdadeiramente feliz irá perceber que aquilo que está sendo torturado é apenas um mero corpo, e não o seu “eu” consciente, em que assim a verdadeira felicidade pode naturalmente persistir.

 

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